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15/03/2017

DESPIR UM CORPO A PRIMEIRA... ( Affonso R. de Sant'Anna)


Despir um corpo a primeira vez
é um conhecimento entre dois deuses.
Não se pode profanar o instante.
E os amantes devem manter o ritmo dos altares.
Porque, embora nesses rituais haja sempre
panos e trajes para agradar o Olimpo,
é pra nudez total que o céu nos quer quebrar.

As mãos tem que ter um compasso certo.
Um andante ou claro de Bach nos gestos,
compondo a alegria dos homens e mulheres.
As mãos, sobretudo, não podem se apressar.
com os olhos têm que aprender e, com a ponta
dos dedos, contemplar os acordes que irão
surgindo quando, peça por peça,
o corpo for se desvestindo ao pé do altar.

Antes de se tocar com as mãos e lábios,
na verdade, já se tocou o corpo alheio
com um distraído olhar sempre envolvente.
E ninguém toca o corpo impunemente.
Despir um corpo a primeira vez, não pode ser
coisa de poeta desatento colhendo futilmente
a flor oferta num abundante canteiro de poesia.
Nem pode ser coisa de um puro microscopista
que olha as coisa sabiamente.

Um corpo é surpresa sempre.
É o que se vê nas praias,
nessa pública ostentação, nesse exercício colectivo
de nudez negaceada, em nada tira a euforia
contentação do acto, quando os dedos vão
desatando botões e beijos,
e rompendo carícias.
Despir um corpo a primeira vez
não é coisa de amador.

Só se o amador for amador da arte de amar,
porque o corpo do outro não pode ter
a sensação de perda, mas a certeza de que
algo nele se somou, que ele é um objecto
luminoso que a outros deve iluminar.
Um corpo a primeira vez, no entanto,
é frágil e pode trincar em alguma parte.
E os menos resistentes se partem,
quando aquele que os toca,
os toca apenas com cobiça e nunca
a generosa mansidão de quem veio
pela primeira vez, e sempre, para amar.