17/06/2023

A NOITE UM BLOCO ( Alice Sant 'Anna )

 de madeira pintado de preto

fecha os olhos e tenta se aproximar
perceber seu tamanho, profundidade
se tem cheiro se é maciço
sem porta para entrar ou sair
o modo como a luz bate
suave, meia-luz, a mínima
necessária para se ver o bloco
se não fosse por ela o bloco
mal existiria, seria tudo um mesmo escuro
sem contorno entre montanha
seus pés e meio-fio, o bloco
cabe no seu quarto em cima da cama
ainda sobra algum espaço nas laterais
uma nesga de lençol, mas não
o suficiente para caber
ela também

RECORDAR É PRECISO(Conceição Evaristo), “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

 O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos

A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a boia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

HABITAT ( Carina Carvalho )

 teve uma vez que minha miopia

feriu a coragem com um golpe seco
na lombar.

desde então, para mim qualquer teia
é imensa ameaça, como esta viagem
de dois dias e oito pernas longas
que se movem uma por vez.

tomando o meu corpo.
sumindo comigo para dizer
em particular: não é aqui. teu lugar não é.

te procuro com o coração miúdo
e os olhos desistentes, fechados.
pedindo para não apontar mais
os bichos que constroem suas casas
no canto da madeira,
na casa dos outros.

pedindo, por minha vez,
– estrala minhas costas.

ABRIL ( Gianne Lorena )

 no vinil

pelo universo, Jhon, diz:
– nobody ever loved me like she does…

lembrei
da madrugada de Abril
de quando Costinha tocava Strokes
de quando avisei
que não haveria fim

fitou,
e, como se não existisse o tempo
seguiu, me beijando
e, em quatro horas
eu me vi
amando

à face de me perder
e sem querer, querendo
me perdi no erro
e nele, persisti

gritei pelas ruas
chorei, com o peito ardendo
e esse tal erro
foi o acerto
que mais me fez

sorrir


PAPEL DE SEDA ( Ana Martins Marques )

 Houve um tempo em que se usava

nos livros
papel de seda para separar
as palavras e as imagens
receavam talvez que as palavras
pudessem ser tomadas pelos desenhos
que eram
receavam talvez que os desenhos
pudessem ser entendidos como as palavras
que eram
receavam a comunhão universal
dos traços
receavam que as palavras e as imagens
não fossem vistas como rivais
que são
mas como iguais
que são
receavam o atrito entre texto
e ilustração
receavam que lêssemos tudo
os sulcos no papel e as pregas das saias
das mocinhas retratadas
as linhas da paisagem e o contorno das casas
eu receava rasgar o papel de seda
erótico como roupa íntima

SENHA E CONTRASSENHA ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças

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AMOR NÃO FEITO ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças

 No centro do que me lembro ficou

o amor não feito:
o que não foi rói o que foi
como a maresia

casa onde não morei país invisitado
praia inacessível avistada do alto
o que fazer do desejo
que não se gastou?

alegria não sentida amor não feito
prazer adiado sine die
palavra recolhida como um cão
vadio gesto interrompido beijo a seco

como parece banal agora
o que o barrou
compromissos decência covardia
não foi nada disso que ficou

mas precioso aceso
e perfeito
restou o desejo do amor
não feito

OLHAR DE AMOR ( Regina Lyra )

 Aquele olhar matreiro e ofegante

Trazia por trás das dunas o regaço.
Com o sorriso e o sonhar dos amantes,
Acolheram-se efusivos num abraço.

Sem precisar da palavra falada
O olhar, emudecido de carinho,
Vinha, feito passarinho,
Beijar o olhar lânguido, amado.

Naquele entardecer mágico,
Nada se via de mais grandioso
Do que aquele encontro vestal.

Todavia, o olhar de desejo e assédio
Suspirou nos sentidos desnudados:
E se amaram em uma noite profana.

ADIAMENTO ( David Mourão - Ferreira )

 Olhar-te bem nos olhos: que voragem!

Ouvir-te a voz na alma: que estridência!
É tão difícil termos a coragem
de nos vermos enfim sem complacência.

É tão difícil regressar da viagem,
e descobrir no rastro tanta ausência…
Mas os meus olhos, súbito, reagem.
À tua voz chega o silêncio e vence-a.

Nos pulsos vibra ainda o mesmo rio
que no delta dos dedos se extasia
e moroso reflui ao coração.

O gesto de acusar-te? Suspendi-o.
Mas foi só aguardando melhor dia
em que tenha lugar a execução.