29/03/2026

DUPLAR ( Nálu Nogueira )

 eu e você

deixar a boca
resvalar para
a outra boca
no beijo úmido
intenso, ávido

duplar
eu e você
em par
em perna
em mão
em coração batendo
lírico, lúcido
ímpeto
de estar
de entrar
sair
ficar
entrar
gozar
em par

duplar
em voz
em beijo sôfrego
em língua úmida
nos seios túrgidos
duplos
pêssegos
bicos tépidos

duplar
em olhos cúmplices
em mãos de artífice
na pele ardente
nas mucosas cálidas
límpidas, púrpuras
em pernas escancaradas
envolventes
sobre
as costas pálidas

duplar
eu em você
em secreções, saliva
você em mim
em contrações
espamos
múltiplos
nós dois
como um barco
à deriva
sem hora ou
lugar
para chegar

duplar
eu em você
você em mim
ávidos
máximos
gozar
em par
de modo ímpar
até ficarmos
fartos
cansados
tontos
de orgasmos
múltiplos
tantos
únicos

duplar
eu em você
dormir
e nem perceber
o corpo
sorrir.

ESPERA ( Nálu Nogueira )

 1.

A pele anseia o toque, arrepia,
transbordando desejos. Lábios e
língua antecipam o beijo esperado
olhos semicerrados
boca entreaberta
(delírios!)
Sobre os lençóis em desalinho,
ela espera
(seios que se oferecem,
coxas que se contraem)
espera.

O corpo dela exala as secreções
mais belas
ancas de acasalar
(tortura!)
a mão passeia lânguida no lento
passar das horas, como a confortar
pele, púbis, pêlos,
os dedos procuram consolo, não quer
espera.
Ainda que a noite esteja deixando
seus olhos, espera; ainda que o fogo
da lareira se apague, espera.

2.
Esta noite quer apenas o homem
que espera, entregar-se a ele,
amá-lo por toda a noite como a
ninguém, antes. Olhá-lo do modo
lindo que inventou,
então espera.

(O desejo a consome, o contato
dos lençóis na pele nua, as mãos
tocando displicentemente os
mamilos à luz amarela e frágil
da lareira que ilumina o corpo
em torturante expectativa)

Guarda-se pare ele. Espera.
Porque seu desejo só se realiza
no desejo dele, na cumplicidade dos dois
fundindo-se, ardentes, executando
o mais belo e primitivo ballet

3.
(sôfregos, lindos, dançando
lentos, girando,
bocas, línguas, mãos, suores,
girando
o corpo dela em movimentos
sensuais de amores
ele dentro dela, delírios,
para sempre dentro dela
a alma o corpo, o amor o olhar
lindo que ela inventou
paixão, ternura, naqueles olhos tudo
o corpo dele sobre o dela
o seu beijo
a língua
a pele
as mãos)
imagens que ela inventa
antes de adormecer.

O TERCEIRO ELEMENTO ( Nálu Nogueira )

 eram ele e ela

dois,
os dois apenas
ela por ele
em cima
ele dentro
embaixo
atrás
ao lado
dentro dela
ela gemia
ele sorria
ela gritava
ele batia
puxava os cabelos
dela e ela inclinava
ainda mais as ancas
giros fortes
ela
ele
dentro dela,
apenas os dois.

então ela por cima
o comia
feito um homem
dizia quieto
dizia mexe
dizia goza
ela por cima
dele,
ele dentro dela
ela pedia
dizia mete
dizia fode
mandava nele
e ele só fazia
o que ela queria.

e então um dia
ele dentro dela
o dedo dela
escorregou pra
dentro dele
ele gemeu
brigou
não quero
machuca
e ela ouviu
sorriu
enquanto o dedo
dela brincava gentil
dentro dele
e ele não mais
resistia.

e não bastou
para ela, não.
ela sabia
o que ele queria
embora ele não
soubesse que podia
então no ouvido
dele
sussurrava
coisas esquisitas
aflita, louca

ele dentro dela
sempre
ela se contorcia
em gozo, tonta
mas queria outro
com eles
queria outro
na sua boca
enquanto ele
a fodia.

então dizia rouca
a ele
a sua fantasia
no ouvido dele
o outro descrito
como ela queria
contava e ele
o que o outro
fazia
enquanto ele,
cada vez mais louco
a fodia
forte
um garanhão
ela
tesão que o consumia
pedia mais
mais forte
enquanto dizia
e ele o que seus
olhos viam: o outro
sobre ele
enquanto ele a
comia
as pernas dele
abertas
enquanto ela
puxava as nádegas
dele e o abria
para o outro
que o fodia
o outro que a
beijava sobre
os ombros dele
e ele via
e punha a própria
língua entre as
línguas deles: do outro
que o comia e dela, que
ele fodia bem e forte
como só ele sabia

ela falava
e ele via
e ele sentia
e queria
desvairado
louco
tonto
embarcar naquela
fantasia
que era dela - e por
ser dela,
ele se desculpava
isso o redimia
e então ele
podia
ser o macho
ser a fêmea
e ele podia
ser qualquer
coisa
qualquer forma
de prazer valia
e ele punha
os dedos dele, juntos
na boca que ela
oferecia
e junto com ela
lambia
chupava os dedos
grossos,
os dois
ao mesmo tempo
e os dedos eram
o pênis do
outro que ela
queria.

juntos
podiam tudo
até tornar o outro
mais que fantasia
e isso era
o que ele mais queria
e isso era
o que ele mais temia.

ILUSÃO ( Leila Mícollis )

 Igual a todas

desejou ser única,
contou-me histórias, casos de seus casos,
falou de medos, de loucuras, sustos
e de um futuro que seria nosso.
Como as demais e tantas e diversas
fez mil perguntas sobre o meu passado,
teve ciúmes,
me roçou de leve,
quis recuar, pensou melhor, agiu,
igual a todas
se deitou comigo, dormiu
com suas pernas entre meus joelhos
e sonhou ficar multiplicada
no meu quarto de espelhos.

DEUS EXISTE! ( Ângela Carneiro )

 Gente! Deus existe e se chama poente!


Eu vi Deus hoje, juro!
Exatamente às sete e meia da noite, o céu deu um espetáculo
imperdível!
Se algum pintor ousasse colocar na tela o que ocorreu no
céu diriam que era fantasia.

Uma nuvem branca em forma de cogumelo, enorme, o sol estava
atrás. Assim, suas bordas brilhavam. Em um canto, parecia
que tinham errado o arco-iris, o borraram, uma mancha de
cores surgia. Uma faixa mais escura traçava o céu, a curva
atravessava tudo, chegando a Niterói. No fundo, nuvens finas
azuis e rosa

A praia cheia parou para olhar, e claro, aplaudimos pedindo
o autor!
Procurem neste calor, após o trabalho, fazer isso que fiz
hoje: caminhar pela praia. Mar calmo e morno. Quando
escurece, o mar fica azul piscina e as ondas cor de rosa
por causa da iluminação. Muito lindo!

RAPARIGA ( Ana Paula Ribeiro Tavares )

 Cresce comigo o boi com que me vão trocar

Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa

Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.
A falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar

Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.

RAZÕES DE AMOR ( J. G. de Araújo Jorge )

 I

Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria.

Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor.

Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar.

Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes.

Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços.

Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua.

II
Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;

de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;

– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente.

Gosto de ti
desesperadamente;

gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és.

EU E MEU POM - POM ( Liz Christine )

 Me afogo quando te vejo

Apaixonada...
Afogada em espuma
Amaciando meu desejo
Eu e meu Pom-pom
É áspero o tesão o tesão.
Provoca uma profunda esfoliação
Mas isso é bom isso é tão bom!

Sabonete de criança
Pom-Pom, Johnsons, Dove baby,
Bebederme, ah, baby!
E o desejo avança, avança.
Até que ele você alcança.
Com suavidade, espuma, ingenuidade
Esse sabonete me acaricia.
E se converte em poesia.
Porque ele, você, sabonete.
É puro desejo, infantil deleite!

Que a espuma me invada
Mergulhada, dominada, ensaboada

Meu pom-pom eu desejo a limpeza
Suavize minha pele e me dê a certeza.
Pois minha cobertura é a falsa frieza

Amacie meus medos
E percorra meus segredos

Baby, me invada.
O medo é infantil, e talvez eu seja
Uma mulher afogada
E o desejo continua.
Ou uma criança apaixonada
Avançando, assustada
Amaciando, me revelando.

Divida comigo seu, nosso, sabonete
É suave essa paixão
Não provoca irritação
E é puro deleite!

MATANDO ( Liz Christine )

 Eu passional

Eu criando
Você, você, eu mal
Consigo assistir
Eu desenhando
Aula, aula, preciso fugir
Que saco, eu desenho
Seu corpo, eu tenho
Que sentir

Paixão! Criação!

Seu beijo em meu pescoço
Uma mordida
Meus lábios
Seduzida
Delirando
Tão sábios
Sabem, os seus, me fazem
Eu gozando

Aula chata!
Não acaba, não mata
Minha fome de você

Amo, minha fome
É o desejo que me consome
E preciso fugir Matar
Aula e me alimentar
Porque já estou quase desmaiando
De fome, imaginando...

Ao leite ou derretido
Com passas ou crocante
Puro ou pervertido
Com recheio
É excitante
Eu saboreio
Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate
Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo
Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina
Minha melancolia
Você, serotonina
Que me vicia

MADRUGADA ( Liz Christine )

 Comer de madrugada

é um ato sublime!
E clandestino.
Como um machão lendo gibi do Cascão

Solitário como masturbação
Nós e estômago
Nós, uma mão
Comer de madrugada
Cair de boca
em comida gelada

À procura de leite condensado
Capuccino com chantilly misturado
Biscoito de morango recheado
Doce-de-leite saboreado
Hum!
isto dá  tesão.

e nada mais Madrugada
sensação apaixonada
Que a paixão!

CHUVA ( Liz Christine )

 chove

lá fora
me fode
agora
com amor
sem pudor
barulho que cai
a gota me atrai
molhados
chovendo
pelo prazer
apaixonados
continue a fazer

e chove
trovão
e fode
paixão
e chove
na rua
me fode
estou nua

e chove
tira a meia
e fode
me despenteia
e chove molhado
seu pé está gelado
chega de prosa
você me aquece
vai, enlouquece
vem e goza

PLÁGIO ( Liz Christine )

 Puta que pariu

Que vazio imbecil
Este poema fede
Mas meu humor impede
Algo mais sutil
Não sei o motivo
Desse mal progressivo
Cresce a cada dia
Sujando minha poesia
Me sinto mal
incompleta e desigual

Não sei o que quero
E farei um plágio sincero
Não um plágio, uma adaptação
É minha visão
De um poema conhecido
Adorado e adaptado
À minha realidade
atual de confusão
e perplexidade

Vou-me embora pro Puteiro
Sexo sem amor
Preciso de dinheiro
O país está um horror
Minha mãe não mais aguenta
Meu pai não me sustenta
Poesia não alimenta
Nada, além do desejo de viver
E viver me atormenta
Só homens vou atender
Assim nunca vou me apaixonar
Vou trepar sem beijar

NATUREZA ( Liz Christine )

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HÍMEM ( Liz Christine )

 Era uma vez um hímem...

Que não sangrou
Ao ser rompido
Inocência perdida
Adorei ser corrompida
Era uma vez um hímem...
Um hímem rompido
Seu desejo atendido
Em mim nada mudou
Meu hímem que se foi
E nada levou
Foi uma dorzinha desagradável
(mas não insuportável)
Fortalecendo a relação
Ficando intacta nossa paixão

CÂNTICO DOS CÂNTICOS - 2:16 ( Renata Pallottini ) in Livro de Sonetos;1961.

 (O meu amor é meu e eu sou dele; ele apascenta

o seu rebanho entre os lírios.)

O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.

Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.

Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.

Sem terra irei por terra: ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.

ATO DE CONTRIÇÃO ( Laís Corrêa de Araújo ) in Caderno de Poesia. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951.

 Não me arrependo de meus erros:

nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.

APOCALIPSE ( Augusto Frederico Schmidt ) in Canto da Noite; 1934.

 As velas estão abertas como luzes.

As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as águas
frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando nas
águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e enormes
Sobre o escuro do tempo.

SONETO CIGANO ( Augusto Frederico Schmidt ) in Mar Desconhecido; 1942.

 Lembra-me sempre a viagem, a grande, a estranha viagem.

As mulheres brincavam e riam ao pé das enormes fogueiras.
Rostos da cor do bronze, olhares misteriosos,
E mãos escuras para todos os misteres.

Lembra-me sempre a viagem, as estradas perdidas
Por onde seguíamos atrás das auroras ingênuas
Que corriam cantando, e atrás das horas fugidias
— Horas que pareciam dançar ao ruído de pandeiros.

Era tudo uma grande inocência e descuido.
O futuro sombrio, as ambições, os medos,
Não me lembro de os ter sentido nesses tempos.

Colhíamos, então, flores e frutos nos caminhos,
Amávamos o amor nas morenas mulheres,
E adormecíamos à mercê dos ventos e das chuvas.

A CHUVA NOS CABELOS (Augusto Frederico Schmidt ) in Fonte Invisível ; 1949.

 A chuva molhava os seus cabelos,

A chuva descia sobre os seus cabelos
Voluptuosamente.
A chuva chorava sobre os seus cabelos,
Macios,
A chuva penetrava nos seus cabelos,
Profundamente,
Até as raízes!

Ela era uma árvore,
Uma árvore molhada
E coberta de flores.

PEDIDO ( Olga Savary ) A Manuel Bandeira; in Espelho Provisório. Pref. Ferreira Gullar. RJ: J. Olympio, 1970.

 Quando eu estiver mais triste

mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

DORME TRANQUILO ( Alfonsina Storni )

 Falaste a palavra que enamora

meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranqüilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.

Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.

Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar em duelo.

Cobre de belas vítimas o solo!
Mais dano ao mundo fez a espada fátua
de algum bárbaro rei e tem estátua.

DIANTE DO MAR ( Alfonsina Storni )

 Oh, mar, enorme mar, coração feroz

de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria.
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar! Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança.
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.