21/07/2026

FALA ( Orides Fontela ) in De Transpiração, 1969


Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

CÍRCULO ( Orides Fontela )

 O círculo

é astuto:
enrola-se
envolve-se

autofagicamente.

Depois
explode
— galáxias! —

abre-se
vivo
pulsa

multiplica-se

divindadecírculo
perplexa
(perversa?)

o unicírculo
devorando
tudo.

NOITE ( Orides Fontela )


Esconder (esquecer)
a face

soterrar (ocultar)
a luz

escurecer o
amor
dormir.
Aguardar o que nasce.

20/07/2026

OFICINA A DOIS ( Abraão Vitoriano )

 minha língua

no teu céu

mel

A POESIA NO MUNDO ( Ana Rüsche )

 peço que a bruxa em mim

me ocupe
me instale
me habite
brava brava
reminiscente do passado
advinha do futuro
que me tome a mão
do asfalto ao pântano
bagre sapo baço
desate as bestas
adivinhe os algoritmos
me cuspa linguaruda
me fure o pulmão
peixa esguia cobra lisa
que a língua é com que se mede o infinito

CAMPOS DE LUA ( Ana Rüsche ) in Antologia de Poesia Primata, São Paulo, Edições Primata, 2018

noite noturna

o vermelho é a única cor

o resto não tem gosto

 

e pode começar a correr

pq eu vou te carnar

 

vou te carnar

e te botar meu espartilho

de costelas emprestadas

avalanchar os demônios

que moram dentro das minhas

asas cortadas

 

vou te carnar

e te cheirar a sangue

pele pelo cigarro

te lanhar as tatuagens

corpo a corpo poro a poro

ponto a ponto

 

vou te carnar

até vc existir

diante de mim


noite noturna

o vermelho é a única cor

18/07/2026

PEDRA ( Djavan )

 Sede de amor, febre de anseio

Quase a escuridão
Você partiu, me reduziu
Amor, me perco em lágrimas

Não mais a vi, desde abril
Fui pro mar e você lá deitada na pedra
Que inveja dessa pedra

O que ficou, eu compreendi
Face aquela visão
O que era amor inda me diz
Pena que tudo acabe

Um lance novo me despertou
Desde já, só quero estar com quem me serve
E de resto, serei breve

Nada fica em pé pra quem se quebra numa paixão
O mundo é vão e tudo é só um oco absurdo
Não mais me vejo assim
Tô a pé, mas chego onde vou

Revê-la só foi ruim
Porque nada me causou
Doeu, me ressenti
Quando você me desprezou

Mas hoje estou aqui
Algo como uma flor na pedra preste a nascer

ÁGUAS VIVAS ( Renata Flávia )

 Tua saliva

Eu também toda líquida
Em alquímica experiência
Entre meu secreto e tua língua

E me transmuta em oceano


Do abissal de cada canto
Queimam tua boca mística
Reluzentes águas-vivas.

GARGANTA ( Renata Flávia )

 moldura do grito escondida no beijo

onde você entala o que atravessa
ligação direta das coisas mais perversas
esse fundo do aquário chamado boca
quer a palavra histérica
na raiva no prazer na queda
quer pôr pra fora tudo que desespera
esse abismo mole que esconde a língua
não mede o que gosta ou o que briga
é bomba explosiva que apavora
explode todas as malditas rimas

16/07/2026

7 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 cuidemo-nos

enquanto o fio da vida
segue inteiriço sem desfiar nem partir
– também os olhos das gazelas se entusiasmam
com o sereno rebordo da lagoa
em pleno estio em plena selva em plena vida.
cuidemo-nos
como só o tronco sabe
segurando sustendo enraizando
– assim os voos das gaivotas se espraiam
confiantes do poiso liso no retorno
em pleno inverno em pleno mar em plena vida.
cuidemo-nos
sejamos o colo desejado
de amante cuidador desejante.
– todas as savanas, todos os oceanos ensinam
os mistérios guardados sanadores
em pleno dia em plena noite em plena vida.
cuidemo-nos.
curemo-nos.
demo-nos.

1 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 há muitas palavras para mentir e apenas uma para a verdade.

no jardim das maravilhas da minha vida
jazem vários caules hercúleos,
eternamente iluminados pela seiva
interna
a correr desde o coração.
morrerei já não jovem, sei-o agora.
e do passar dos tempos sei, também agora,
que as convenções podem matar o brilho de um olhar
uma covinha no rosto
um arrepio na nuca.
só que nunca o amor será vencido.
mora em lugar altaneiro
onde poucos acedem
de onde muitos desabam
– ali
ao alcance da tal palavra pura.

2 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 havemos de saber

um dia
a misteriosa mecânica
da roda.
após olharmos
atentamente
as muitas variedades,
e materiais,
usos, finalidades e tamanhos,
após descobrirmos
a afinidade oculta -
essa rigorosa teia de raios
a ligá-las perfeitamente
pela ligação rigorosa
ao centro
ao coração
que tudo organiza ordena e dispõe
em posições paralelas ou concêntricas
sempre ligadas sem jamais se tocarem
sempre ligadas sem jamais se encontrarem –
um dia havemos de saber
por fim
a encantadora mecânica da roda
da vida.

3 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 esta pedra no centro do teu peito

é herança de feitos e desfeitos.
encimada pela pomba da esperança
nela jorram o sangue e o sal
da vida.
nela brilha a lamparina
consolação
sempre instigando dor e morte para longe
para longe 
para onde não haja pão nem vinho
nem o bater

de teu, agora, novo

coração
de trevos e rosas imaculadas.

4 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 lembra-te

de cada guinada das costas
depois do trabalho,
de cada esticão da coxa e dos músculos dos pés,
de tanta fadiga nos ombros depois de carregares aos ombros
a maldição de Midas dos secos patrões
esganados entre o parecer e o ter
sem pingo de paz nem poesia
para a sua própria salvação.
lembra-te dos versos que te nascem da exaustão e da dor
lembra-te do Poema, dos mestres da Palavra e do ardor
lembra-te do ardor benéfico da Palavra
que a tudo queima
a tudo lavra 
a tudo respiga até à mais funda raíz 
até a terra eleita emergir sob os passos desgastados
do operário manual
do camponês à jorna
da mulher invisível apoucada por outras mulheres
e de todos os viventes adiados sonegados e banidos
lembra-te de cada dor e sentir exasperado
destaca, diferencia, distingue, sofre e vive
o rebordo da angústia
o recorte da frustração
o amargo da tristeza e da dureza do que te morre
para poderes sempre regressar aos teus territórios amorosos e limpos 
e para conservares em ti o fio de prumo da justiça
da beleza, do respeito
e, sobretudo, da redenção.

6 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 e, depois,

sonhar.
estes os gestos magnânimos
do ritual do amor a mãos.

5 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 a vulva

continente
planeta
universo
de encontro dos amantes

QUATRO ( Maria Toscano )

 Guerreiras da Paz e da Fartura

perfiladas no horizonte
as guerreiras da fartura
aguardam o sinal para avançar.

virão devagar, robustas e vagarosas
pela encosta dos queridos montes raianos.

um ar de Setembro cuida de as manter na farta redoma 
emoldurando e desenhando 
o olival.

de tão lentos os passos
um estranho ao lugar juraria que não
que é fantasia ou ilusão de óptica
esse mito da marcha das oliveiras.

suponho que noutras paragens 
se sofre da mesma incredulidade:
uma crença árida e seca
insistindo na ideia de as oliveiras serem apenas árvores e,
para tal visão bafienta
árvores têm raízes que a fúria
humana escolhe onde plantar ou arrancar

acontece que, aqui, estamos no reino da imensidão
onde a única barreira a deter
é a arrogância e os brotos de mesquinhez.

aqui, no reino da imensidão
todos sabemos como as oliveiras defendem a paz
semeando temperos, sabores e sombras,
à medida que habitam as terras
até devir olival.

foi num monte destes que o tal das tranças se reconheceu homem amoroso
pois cabe aos olivais a missão do espelhamento das almas.

faça o forasteiro o teste:
assim que aviste um rebordo de oliveiras na linha cimeira de um monte
páre e disponha-se a acolher esse cortejo.
uma vez internamente pronto
basta habitar a máxima quietude interior
distender as pernas,
pousar mãos, braços e memórias
alongar o olhar desde onde emerge a esperança
até que a silenciosa invasão se consuma
e, num ápice, o terreno que parecia vazio
se revela pejado
de copas troncos folhas frutos
e da radiosa cantiga a várias vozes
dos outros seres esvoaçantes
sempre viajantes com cada olival. 

CINCO ( Maria Toscano )

 haverá um tempo e um lugar

para amansar a pressa 
sentir o vento fresco
a ondulação do rio no pulso gentil
e o riso refrescar a voz.
haverá um lugar e um tempo
de pausa inspirando algas
pisando pauzitos e lascas
molhando rugas magníficas
sarando raivas absurdas
para aflorar aos lábios, pujante,
o teu sorriso gaiato, 
eterno
fundamental.
haverá um lugar: é aqui.
haverá um tempo: é agora.

TRÊS ( Maria Toscano )

 aqui

assim
entre o azul do céu e a palha da seara
à boleia do Suão
no reencontro de corpo e alma
onde os subornos da infelicidade nunca chegam
entre as vagas da calma vagarosa 
deleitada
enquanto não chove: 
espero a tua fala interior.
.
no momento em que a lançares
nesse encontro dos nossos horizontes
poderei, enfim, partir:
– permanecer.

DOIS ( Maria Toscano )

 nasci para ser árvore negra

na noite guardada pela lua
de teu olhar.
a inclinação do fino raio de luz
por onde espreitas e enfrentas este pátio
do quotidiano ardente
a inclinação desmente a aparência de habitares este aqui.
o pátio é amplo e rico em
fraseados e requebros do Sul
a trazerem à memória o colo
da terra onde nasceste e cresces.
vens depois para anunciares o que virá.
a luz permite-te esse jogo inaudito
e maravilhoso de trocar as voltas ao tempo
inexistente para quem viaja entre pátios
e se derrama pelos céus das planas visões.
excessiva esta emoção
no meu peito de árvore – oliveira redobrando ramos
e alongando raízes dentro do chão.
nasci para ser essa árvore negra
guardada pela luz do olhar
que nos dás e alicias e ensinas.
antiga raiz no solo raiano
eu, oliveira baixa e resistente
descubro-me intacta
a todas as antigas falas
pois de falsas falas se tratou.
intacta me descubro
pois aprendo
com a luz de teu olhar 
ser o fundo uma passagem
ser o pátio uma moldura
onde opera a luz,
essa seiva maga de natal
doada pela inclinação do teu olhar.

UM ( Maria Toscano )

 nasci para aprender a ser árvore

crescente desde o coração da terra
voadora pelos ramos e asas 
espraiando-me entre cumes e desertos, 
montanhas mágicas serras áridas 
e mornas planícies morenas dos suis.
até desarvorar – fidelíssima e de vez – 
no amoroso corpo envolvente
do meu devoto amor , o mar.

ESTÁTUA DE MINEIRO NO RIO ( Solange Firmino ) A Carlos Drummond de Andrade

 Imagem fria e taciturna,

cem por cento de bronze.
Suporta calada e tímida,
no pedregoso calçadão,
a vida que persiste
ao redor.

Não profere palavras melodiosas
no chão varrido
onde pousa sua sombra;
não sabe se é noite, mar
ou distância,
na espantosa solidão do Rio,
onde voz e buzina se confundem.

Mas está cercada de mãos, afetos,
procuras.
Sem pensamento de infância ou saudade,
somente a contemplação muda
dos ritmos que passam:
curiosos ou indiferentes.
Param, fotografam,
agridem.

É uma nova categoria de eterno,
estar ali sem estar.
Legado de bronze no meio do caminho,
entre os homens e o mar,
no grande mundo que está crescendo
todos os dias.
Eterníssimo.

CRISÁLIDA ( Paula Glenadel ) In Quase uma Arte. Cosac Naify, São Paulo; 7Letras, Rio de Janeiro; 2005

                        para Luísa

 agora já não pedes

meus nervos em pasto

agora já te afastas
crescida em beleza

agora me contas piadas
que aprendes ou inventas

agora pressinto tuas asas

15/07/2026

CORCÉIS ( Paula Glenadel ) In Quase uma Arte. Cosac Naify, São Paulo; 7Letras, Rio de Janeiro; 2005

 controlar os corcéis

da alma,
desembestados,
com mão segura
como o lastro do navio,
seu peso em areia, em ouro:

o medo dá asa a cobra
cria monstros na sombra
viaja nos desvãos
estremece os alicerces
uiva sussurrando ruínas

LUA CHEIA ( Cassiano Ricardo ) in Poesias Completas. José Olympio, Rio de Janeiro, 1957

 Boião de leite

que a Noite leva
com mãos de treva
pra não sei quem beber.

E que, embora levado
muito devagarzinho,
vai derramando pingos brancos
pelo caminho...

SONETO DA AUSENTE ( Cassiano Ricardo ) in Poesias Completas. José Olympio, Rio de Janeiro, 1957

 É impossível que na furtiva claridade

que te visita sem estrela nem lua,
não percebas o reflexo da lâmpada
com que te procuro pelas ruas da noite.

É impossível que, quando choras, não vejas
que uma de tuas lágrimas é minha.
É impossível que, com o teu corpo de água jovem,
não adivinhes toda a minha sede.

É impossível não sintas que a rosa
desfolhada a teus pés, ainda há um minuto,
foi jogada por mim, com a mão do vento.

É impossível não saibas que o pássaro,
caído em teu quarto por um vão da janela,
era um recado do meu pensamento!

CANÇÃO DE AMOR PARA UMA MOÇA JUDIA ( Iracema Macedo ) in Lance de Dardos. Edições Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000

 Conheço Rosinha Palatnik

por um único retrato de louça
que vive no cemitério
entre os túmulos judeus
Morreu em 1936 aos vinte anos de idade
e há sobre a lápide letras em hebraico
que não decifro

Talvez suicídio, talvez outra sorte
De qual morte morreu essa moça judia
que não morre?
De qual vida ela vive naquele retrato
de louça que mais parece de carne
E por que vem assim
semear-me no meio da tarde?

O que te devo, mulher, o que queres?
Viveste na minha cidade
e queres ainda viver por mim, por meus olhos
por minha carne de homem
boca   lábios   ouvidos
e queres ser uma música

Te vejo em muitos lugares
sempre dentro do retrato
presa e viva, branca e morta
Que queres, mulher,
tanto tempo depois do tempo
em que houve calor para ti no mundo?
Que queres na tua janela de vidro
com o teu corpo de cinzas?

Não me faças desejar-te assim
Tu que não tens mais carne
para o meu desejo
nem sequer seda de vestido que eu toque
nenhum corpo nem seios
só o retrato frio na lápide
Que amor terrível é este que me trazes?

O PÁSSARO INCUBADO ( Antonio Carlos de Brito - Cacaso ) in Poesia Completa; Companhia das Letras, São Paulo, 2021

 O pássaro preso na gaiola

é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.

É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.

Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.

Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.

O pássaro preso é um pássaro
recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.