04/04/2026

PUTA (Júlia Duarte )

 Comprei o baú inteiro

Jóias e jóias marcaram tempos
Desfilaram festas
Enterraram almas
E se fizeram herança

No vaivém da dança
Acompanharam donas e santas
Dormiram em cabeceiras de mármore
Multiplicando a frieza que brilha

Meretrizes, mulatas e malandros
Carregam o reinado nos bolsos
Seus pés gastos beijam ruas
Que ficam para trás

A cama é mais justa do que roupa de puta
Para quem divide o lençol
Abraça o sujo
E acorda atrasado cheio de culpa

As jóias esquentam no sol
Pelo corpo da Puta rica
Cujo corpo arde de graça
Na beira do rio

E ninguém faz nada.

BEIJO ( Júlia Duarte )


Um beijo é pluma


E apesar do sonho meu

Escapa para o céu


Um beijo é doce

Quando a língua passeia pelos lábios

Até que o açúcar acabe


Um beijo é verdade

Depois de unir os lábios

Se unem olhares fixos


Um beijo é ilusão

Você encontra uma outra língua

no escuro do sono solto


Um beijo é paixão

O tempo não passa

E você gruda


Um beijo é despedida

As bocas descolam

Para a lágrima passar


Um beijo é culpa

Mal acontece

Em virtude do que já foi


Um beijo é o que você quiser.

FLORES ( Júlia Duarte )

 Ela fechou a porta

A outra dormiu os olhos por um segundo

Ela prometeu não voltar
A outra chorou de amor

Ela deixou seu cheiro
A outra sentiu saudades

Ela deixou um bilhete
A outra não leu

Ela não ligou
A outra herdou o silêncio

Ela foi procurar seu tempo
A outra ficou sem ar

Ela disse que voltaria um dia
A outra acreditou

Ela se entregou para alguém
A outra cobriu o rosto com a palma da mão

Ela dançou seu corpo em outras pernas
A outra se perdeu

Ela sorriu
A outra dormiu para sempre

Ela comprou flores
A outra gelou

Ela foi dizer adeus
A outra não se mexeu

Ela abraçou
A outra não sentiu

Ela fechou os olhos da outra
E a outra não abriu

FICA COMIGO ( Júlia Duarte )

 Beija-me

Abraça-me

Me sinto bem assim
Com você

Acena
do teu amor
para o meu

Porque eu também amo
Sabia?

Mesmo depois
De cair
no engano da vida mansa

Dança
Comigo a poesia dos lábios

A chegada
Da carne quente

Ausente de qualquer lágrima

Um presente
É você

Cada vez que abre os olhos
Entra em mim

Em um mar sem fim
Me afogo no desejo

Tiro o pó da alma
Busco o ar
Encontro seus olhos no alto

Para você
Que visitou minha solidão

E lá ficou
Sem pressa

Na companhia
Dos passos

E como eu gosto.

VEM? ( Júlia Duarte )

 Arrepia o corpo

No meu

Sobe e desce
O calor

Abraça
Pele com pele

Fala baixo
No ouvido

Beija
Meu beijo

Olha
Pra cima

Me sente
De baixo

Vira
A página

Respira
O lençol

Segura
A cama

Luta
As pernas

Relaxa
Sem dor

Mexe
O pescoço

Me encontra
De olhos

Pintados

A SURPRESA É O ORGASMO ( Júlia Duarte )

 Enferma

Cheia dos não-me-toques

A vida descansa
e respinga gargalhadas

Cochicha
sobre a sujeira

Não pisca
sobre a traição

Condena
pelas costas das mãos

Em orações
demolidas

O importante
é amar

Selar o beijo
e a dor

Meu pai sempre disse:

- Seja feliz.

Minha mãe sempre disse:

- Pense antes de fazer qualquer coisa.

Impossível ser feliz
se planejada a vida

A surpresa
é o orgasmo

Escondido
nas esquinas de uma vida traiçoeira

Que ordena.
E mais nada.

PRONTO, FALEI (Júlia Duarte )

 Seus cabelos

abrem portas
e batem pernas

Se apresentam
e representam
um sonho vencido

Do alto
ela me convida
para um passeio

Na sua carne
Deito de olhos
abertos

Descubro
o que ela guarda
embaixo da roupa

Sua pele
segue minha língua
Sem atalhos

Fico horas e horas
sentindo seu corpo
igual ao meu

A água na cabeceira
me faz ter certeza
que ainda sou eu

Por mais um dia.

ELA (Júlia Duarte )

 A falta dela

me corta a carne

A voz ausente
é tão grave

A camisola
veste a cadeira

Mas a cadeira
não é ela

E mesmo assim
eu sento e me basto

A foto dela
me corta os dedos

Como se de sua pele
brotassem espinhos

Gotas de lágrimas
espremem meus órgãos

Só crescem
Não saem

Guardo o choro
embaixo do pâncreas


E se falo dela
não é obsessão

Não é culpa
nem doença.



É saudade.

FIM (Júlia Duarte )

 O começo

tem uma ausência de peso
porque não há bagagem conjunta

é tudo
"daqui pra frente"
em um horizonte virgem

A delicadeza
da descoberta
é humana no sentimento

O presente não é nada
além do encontro
de duas verdades

Mas o tempo mente

E então,
nasce a capacidade
de inventar o futuro

Planejar a felicidade
como se não existisse
espontaneidade

Como se consequência
fosse palavra nula
no dicionário do coração

Os amores se perdem
quando o desejo é ensaiado

SELO ( Júlia Duarte )

 Confesso um segredo

com a ponta da língua
em você

Escrevo seu corpo
e apago o passado
que você tenta esquecer

Reencontro seus olhos
no escuro gritante
do quarto fechado

Encosto em seu corpo
por horas paradas
e esqueço de morrer

Beijo sua boca
Viro você por uma vida.

A PRISÃO DO NÃO QUERER QUERER ( Júlia Duarte )

 Meu desejo

eu guardo quente

No verso da língua,
no teto das mãos

Escondo tudo
como se fosse maldição

Há meses
vivo o que não vivo

Não abro a boca
nem as pernas

Acumulo o que sinto
Aperto o cinto do útero

Esmago o desejo
com medo da sua ausência

A FESTA DO SILÊNCIO ( António Ramos Rosa ) in Volante Verde

 Escuto na palavra a festa do silêncio.

Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

É POR TI QUE VIVO ( António Ramos Rosa ) in O Teu Rosto

 Amo o teu túmido candor de astro

a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto


 

É POR TI QUE ESCREVO ( António Ramos Rosa ) in O Teu Rosto

 É por ti que escrevo que não és musa nem deusa

mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

02/04/2026

MATISSE EM FLOR ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 O gerânio que

nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.

Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.

PONTOS DE VISTA ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 Quando Nero queria ver

o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.

Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.

UMA MAÇÃ ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 Há uma maçã pousada

no poema
com sua esfericidade
irretocável.
Essa maçã faz do poema
prato
instaura a luz que
com volutas claras
desenha as quinas
e apoia as sombras
que com ela nascem.
Humilde
me pergunto
se esse desenho é
natureza-morta
ou se
como minh'alma indica
é agora
e sempre
natureza viva.

01/04/2026

JUNTOS ( Susana Pestana )

 Pedacinhos de tempo

roubados
Aqui e a ali
ruídos num quarto
que nos salva…
Desejos que nos acalmam.
Quando estamos juntos!
Dois mundos
Um Tejo iluminado
Uma canção
Uma noite de raspão
Juntos
O Azul se esconde
entre portas que se abrem
Períodos nus
desejos submersos
passadeiras com vontades
Quando estamos juntos
Um medo empurrado
Uma madrugada acordada
Uma alma entre nos
Dois corpos alinhados
Juntos
Modelamos a saudade
cega-se a ausência
interrompe-se os vazios
reconcilia-se fragilidades
Por sombras de sílabas.
Quando estamos juntos
….penetramos nos gestos dos nossos corpos

MÃOS OCULTAS ( Susana Pestana )

 Os meus

dedos tocaram-te...
Mas não conseguiram decifrar
Nesta terra molhada, já cultivada
Mãos audaciosas e faladas.
Sou preta, com um frio branco nas veias.
Navego entre os mares abertos,
Palavras, perseguidas e calmas.
Sou mulher, de rosto velho e novo
És uma criação abandonada e minha.
Despi-te nas ruas dos limites.
Cavalo branco sem garras.
Mulher de língua mística,
Convidei-te numa inocência vendida.
Amarrei-te às escondidas da vida
Adormeceste no meu berço crescido.
Estou nua, no desespero dos sonhos.
Vieste sufocando os meus mares.
Nos campos bandidos e naufragados
Quero fugir a esse milagre comum!
Quero amar-te sozinha.

ESPERA ( Tatiana Ramminger )

Espera

Aqui estou
de corpo e asas feridas
pernas e alma abertas
para você

SÓ O OLHAR DO OUTRO (Tatiana Ramminger )

Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...

É URGENTE O AMOR ( Ana Júlia Monteiro Macedo Sança )

 A luz que a chama me prende

No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.

POESIA DE AGOSTO ( Ana Júlia Monteiro Macedo Sança )

 Foi em Agosto que descobri

O sabor das ondas nos teus olhos
O teu corpo úmido de maresia
Espraiando no perfil moreno do sol
Todo o êxtase viril que de ti vinha

Foi em Agosto que descobri em ti
O azul matizado do céu
O colorido do poente brincando em mim
Todo o sonho dos peixes
Fechados nas nossas mãos

Sonho porque te quero sonhar
E deixa-me dizer-te
Porque senão eu choro
Eu sou o espaço.
Uma dádiva.

Vem porque é Agosto
E quero cantar-te.

ITINERÁRIO ( Núbia Marques )

 Se tua cabeça de repente

fosse bússolas-rotas
mesmo amando a segurança-nortes
teria receio de seguí-la

Se do teu peito torpe
Surgisse lírio orvalhado
mesmo amando a delirante beleza-lírio
teria medo de olhá-lo

Se do teu sexo impetuoso e voraz
de repente surgisse estrela candente luminosa
mesmo amando a cintilante brancura da estrela
teria horror de tocá-lo

Se da tua voz afônica
surgissem de repente sonatas andantinas
mesmo sentindo a música em todos os recantos
de mim
teria pânico de escutá-la

Se nos teus calcanhares de Aquiles
houve milagre das andanças seculares
e de repente o caminho não fosse acaso mas rumo
mesmo assim teria horror de seguí-los

Bússolas e rotas
Lírio orvalho
sonatas andantinas
caminho seguro
tudo é frágil taça de cristal.