09/07/2026

OS TEUS PÉS ( Pablo Neruda )

 Quando não posso olhar-te o rosto

olho-te os pés.

Os teus pés de osso arqueado,
os teus pés pequenos e duros.

Sei que te amparam,
e que o teu doce peso
sobre eles se ergue.

A tua cintura e os teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
o estojo dos teus olhos
que acabam de levantar voo,
a tua larga boca de fruta,
os teus cabelos ruivos,
minha pequena torre.

Mas se amo os teus pés
é só por terem andado
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me terem encontrado.

BALACLAVA ( Aline Cardoso )

 Mãe é linha de frente,

peito nu em zona de guerra

Útero, músculo-bunker
rarefeita câmara sanguínea, punho em riste

Território elástico
feito de travessias.

VINGAR II ( Aline Cardoso )

 Se há na língua, além do sentido

o gosto da palavra
que se bebe derramada
num sussurro

Se a luz turva e há nos meus versos
serpentes adornadas com escamas-nomes
gatos negros suicidas a saltar ágeis sobre os automóveis

A minha palavra é um parapeito
este corpo bélico-poético
é um precipício irrefreável

Se há nos ossos a certeza de memória,
e se são eles os últimos registros da barbárie,
quanto tempo demora até que
a porosidade deste tempo nos consuma?

Esse meu desejo secreto de inumar tudo
é um ritual, uma prece, uma confissão de fé
é o desejar herbário de querer que tudo ao meu redor
(se) vingue.

PRAÇA 22 DE NOVEMBRO ( Deise Assumpção )

 forma prima esquartejada

(o inexorável)
membros espetados
na memória medram:

rodoviária
onde a concha acústica
decibéis de cansaço, pressa, espera
reescritura
de antigos versos

simples fonte artificial
a mesma água
da genitora aristocrática
aspersão de fé:
não se corrompe a essência
pode o rio se exorcizar

pequenas árvores seivam-se
das raízes das primitivas
espectros de futuro e passado
compromissando o Paço

velhos bancos
de reclinar o dorso
furtar beijos de namorados
agora duras muretas-nádegas
de envergar o tronco
olhos-inverno contornando arbustos
que às suas costas engendram flores

(sempre umbigo do universo
cruzando sacros os fios da taba)

Por Renata Flávia

 desço a rua

sem buscar nada
ele está em uma rodinha
os lábios mais vermelhos que a pele
seu cabelo combina
com a jaqueta
um garoto nick cave
me crava o olhar
a tristeza como sedução
a voz grave arruma os acordes
garotos iscas discutindo política
como se soubessem mais que nós
arrumo minha jaqueta de garota
não tenho a voz grossa
faço manha diferente
não sei ensinar
por isso
escolho:
vingança

OÁSIS ( Carlos Campos ) in Nuvem Que Passa Devagar, Col. A Água e a Sede; Modocromia, 2024

és o oásis no deserto que atravesso
és a música que amacia o meu silêncio
és o nada que me tem
és tudo o que peço
a alguém
és o fruto silvestre que alcanço
és a sede que não mato por querer
és o dia e a tarde que vem
és a noite, o sonho manso
também
e se um dia fores a minha esperança
a minha sina, a minha sorte
então seremos instantes
para além - vida, para além - morte
amantes

06/07/2026

OUTRA DÚVIDA ( Eunice Arruda ) in Visível ao Destino - Obra Completa e Inéditos; Org. André Arruda M Cesar. Patuá, SP, 2019

 Não sei se é

amor

ou

minha vida que pede
socorro

SURDINA ( Cecília Meireles ) de Mar Absoluto (1945) in Obra Poética; Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1987

 Quem toca piano sob a chuva,

na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, — e a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...

JEANNE COM BLUSA BRANCA ( Graça Pires ) in Fui Quase Todas As Mulheres de Modigliani, Ed. Poética, Braga, 2017

 Abri de par em par as portadas das janelas

para deixar passar a luz deste alvorar ao sul.

Trago no sangue o suco da fruta
a provocar a língua, de outras águas
recordada e o sabor acetinado das romãs.

Trago na pele o veludo dos pêssegos
arredondados na mão antes da boca
e a previsão rigorosa das manhãs claras.

Em volta dos meus ombros sobrevoam
abelhas invisíveis atraídas pela brancura
da blusa, ou pelo lago azul do meu olhar,
onde flutua o pólen da tristeza.

GRAMÁTICA DA NOITE ( Laís Araruna de Aquino )

 A noite desce inescrutável

as estrelas são efígies destituídas de rosto

no vento, sopram signos diáfanos,

arredios como serpentes não encantadas

em todo o horizonte, amontoa-se o espólio

da ausência, essa forma que toma

o que foi e o que não será e jaz

na vala entre as coisas circundantes e teu corpo

(na soleira do ser,

a vigência do nada espreita)

entre sombras sem substância,

o pensamento divaga como um bote

cujo laço foi rompido

mas, desde que a vida se recusou imaginada,

o drama se deslocou para trás do palco,

entre mecanismos e metalinguagem

o corcel trôpego do teu espírito

encontra espelhos que conduzem

ao claustro na noite larga

é preciso retornar à planície

dos fatos e dos homens, tendo acima os caminhos aéreos

que as correntes frias e as andorinhas traçam

sim, é preciso sempre retornar das torres

onde a loucura se refugia,

onde toda voz é um eco,

e o vento é um látego que fustiga

escuta o uivo doce das palmeiras,

o orvalho nascendo sobre as pétalas da grama,

sem esperar de deus o canto

os pilares da noite suportam todo o vazio,

deixando-te os ombros para o pouso

de mãos tênues e pássaros

desde que caíste no irremediável,

estás destinado ao nunca mais

abandona-te a este ofício –

respiras, logo dissipas

este sopro breve de vida

mas, sob a asa lépida do instante,

faz – demoradamente – a tua morada

AFLUENTES ( Daniela Galdino )

floresta de pelos

no travesseiro

colchão encardido

 

cílios flutuam

são polens

na manhã sem janela

 

pentelhos vagueiam

são fiapos

na procissão das formigas

 

(pausa doméstica)

 

ando farta

de comer o mundo

tenho festas

na esquina do silêncio

faço cestas

tranço fios de esquecimento

 

andas farto

de sorver os desencontros

cambaleias

na viela do receio

trazes mate

fazes combustão da dor

 

varar (n)a madrugada:

existir é rota de colisão

ARTE POÉTICA ( Adília Lopes ) in Um Jogo Bastante Perigoso,1985. In Caras Baratas Antologia Relógio d´água, 2004

 Escrever um poema

é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
os nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

05/07/2026

DEDOS E DEDOS ( Vasco Gato ) in Um Mover De Mão; Assírio & Alvim, 2000

voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.
inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.
acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem
quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

ASTUTO ( Vânia Melo )

 O Amor está arrumando um jeito

de morar em mim, no peito,

em mim, na alma.

O amor não para, não avisa nem nada.


Quando se percebe e antes que se aprume,

antes que se vista a melhor roupa,

o amor já fez tocaia,

o amor está pronto,

       o amor me aguarda…

                  me benze,

                           se protege

                                      e ataca. 

EU TENHO ESCÁPULAS ( Maria Luiza Machado )

 são ossos

ou músculos 

ou cartilagens

– na verdade

eu não entendo nada

de anatomia –

que me parecem umas asas 

nas costas

só descobri que as tinha 

há algumas semanas

quando me atrevi

a me vasculhar 

frente a um espelho


eu tenho medo de espelhos

os evito desde que 

por causa deles achei 

umas muitas linhas brancas na barriga 

e furos enormes nas coxas


mas gostei de descobrir minhas asas


olho como se movimentam

dependendo do que faço com os braços


imagino agora qual forma

devem estar tento

enquanto escrevo sobre

meu reflexo

por tanto inominável 

por tanto tempo nunca chamado 

de 

meu corpo

ÚTERO ( Bárbara Uila )

 De baixo de sete

peles

útero

frente de sete cores

cabeça

guiada

no pulo do galo

cristais no

caminho

na rua estreita

encruzilhada

ponho sua prenda

e vazo

não olho para trás

não pode

sigo no passo

apertado

vento

vulto

raio