31/07/2026

A PAIXÃO DA CARNE ( Vinicius de Moraes )

 Envolto em toalhas

Frias, pego ao colo
O corpo escaldante.
Tem apenas dois anos
E embora não fale
Sorri com doçura.
É Pedro, meu filho
Sêmen feito carne
Minha criatura
Minha poesia.
É Pedro, meu filho
Sobre cujo sono
Como sobre o abismo
Em noites de insônia
Um pai se debruça.
Olho no termômetro:
Quarenta e oito décimos
E através do pano
A febre do corpo
Bafeja-me o rosto
Penetra-me os ossos
Desce-me às entranhas
Úmida e voraz.
Angina pultácea
Estreptocócica?
Quem sabe... quem sabe...
Aperto meu filho
Com força entre os braços
Enquanto crisálidas
Em mim se desfazem
Óvulos se rompem
Crostas se bipartem
E de cada poro
Da minha epiderme
Lutam lepidópteros
Por se libertar.
Ah, que eu já sentisse
Os êxtases máximos
Da carne nos rasgos
Da paixão espúria!
Ah, que eu já bradasse
Nas horas de exalta-
Ção os mais lancinantes
Gritos de loucura!
Ah, que eu já queimasse
Da febre mais quente
Que jamais queimasse
A humana criatura!
Mas nunca como antes
Nunca! nunca! nunca!
Nem paixão tão alta
Nem febre tão pura.

A AUSENTE ( Vinícius de Moraes ) in Antologia Poética, Rio de Janeiro; Editora A Noite, 1954

 Amiga, infinitamente amiga

Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

30/07/2026

NOVO AMOR ( Chico Buarque )

 Eu sei, ai eu sei

Que brilha um novo amor nos olhos seus
O olhar de uma mulher faz pouco até de Deus
Mas não engana uma outra mulher
Eu sei, ai eu sei
Que esse seu novo amor lhe quer também tão bem
Que até comove aquele olhar que um homem tem
Quando ele pensa que sabe o que quer
Porém, ai porém
Visto que a vida gosta de uns ardis
No dia em que ao seu lado ele sonhar feliz, feliz assim
Feche então você seus olhos por favor
E pode estar certa que o seu novo amor
Resolveu voltar pra mim
Ai de mim
Ai de mim

VOCÊ BEM SABE ( Djavan & Nélson Motta )

 Você bem sabe

Que eu não sei te dizer
Tudo o que sinto por você
Mas você bem sabe
Que we always lie
But we can never say goodbye

Você nem sabe
Me dizer o que sentir no coração
Mente sem ter razão
Não vou fugir
Mas não vou ficar
Sempre loving you
Só porque we were so happy

Você não quer dizer que não quer
Mas também não diz
Se é feliz
E tem um novo amor

Vai ou não vai
Que eu vou ou não vou
Seja como for
Com você, sem você
Com você, sem você
A gente tem é que crescer

28/07/2026

APRENDIZ DE FEITICEIRO ( Itamar Assumpção )

 Aprendiz de feiticeiro

Aprendiz de feiticeiro

Aprendi quando criança que além de tudo balança
Esse nosso mundo cão
Aprendi que quem não dança, já dançou na sua infância
Senão rock foi baião
Aprendi da importância de não dar muita importância
Ficar com os meus pés no chão
Aprendi que viver cansa, mesmo vivendo na França
Mesmo indo de avião
Aprendi que a desavença, é por que sempre alguém pensa
Que ninguém mais tem razão

Aprendiz de feiticeiro
Aprendiz de feiticeiro

Aprendi que tudo passa, tomando chá ou cachaça
Tomando champanhe ou não
Aprendi que a descrença, a desconfiança e a doença
São partes da maldição
Aprendi que a ignorância, a sordidez e a ganância
São lavas desse vulcão
Aprendi que essa fumaça a minha janela embaça
Por fora, por dentro, não
Aprendi tetra depressa que a taça do mundo é nossa
E que São Paulo é meu sertão

SANTA CHUVA ( Marcelo Camelo )

 Vai chover de novo

Deu na TV que o povo
Já se cansou
De tanto o céu desabar
E pede a um santo daqui
Que reza a ajuda de Deus
Mas nada pode fazer
Se a chuva quer é trazer você pra mim
Vem cá, que tá me dando uma vontade de chorar
Não faz assim
Não vá pra lá
Meu coração vai se entregar
À tempestade

Quem é você pra me chamar aqui
Se nada aconteceu?
Me diz
Foi só amor ou medo de ficar sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher?
Você me parecia tão bem
A chuva já passou por aqui
Eu mesma que cuidei de secar
Quem foi que te ensinou a rezar?
Que santo vai brigar por você?
Que povo aprova o que você fez?
Devolve aquela minha TV
Que eu vou de vez
Não há porque chorar
Por um amor que já morreu
Deixa pra lá
Eu vou, adeus
Meu coração já se cansou de falsidade

21/07/2026

FALA ( Orides Fontela ) in De Transpiração, 1969


Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

CÍRCULO ( Orides Fontela )

 O círculo

é astuto:
enrola-se
envolve-se

autofagicamente.

Depois
explode
— galáxias! —

abre-se
vivo
pulsa

multiplica-se

divindadecírculo
perplexa
(perversa?)

o unicírculo
devorando
tudo.

NOITE ( Orides Fontela )


Esconder (esquecer)
a face

soterrar (ocultar)
a luz

escurecer o
amor
dormir.
Aguardar o que nasce.

20/07/2026

OFICINA A DOIS ( Abraão Vitoriano )

 minha língua

no teu céu

mel

A POESIA NO MUNDO ( Ana Rüsche )

 peço que a bruxa em mim

me ocupe
me instale
me habite
brava brava
reminiscente do passado
advinha do futuro
que me tome a mão
do asfalto ao pântano
bagre sapo baço
desate as bestas
adivinhe os algoritmos
me cuspa linguaruda
me fure o pulmão
peixa esguia cobra lisa
que a língua é com que se mede o infinito

CAMPOS DE LUA ( Ana Rüsche ) in Antologia de Poesia Primata, São Paulo, Edições Primata, 2018

noite noturna

o vermelho é a única cor

o resto não tem gosto

 

e pode começar a correr

pq eu vou te carnar

 

vou te carnar

e te botar meu espartilho

de costelas emprestadas

avalanchar os demônios

que moram dentro das minhas

asas cortadas

 

vou te carnar

e te cheirar a sangue

pele pelo cigarro

te lanhar as tatuagens

corpo a corpo poro a poro

ponto a ponto

 

vou te carnar

até vc existir

diante de mim


noite noturna

o vermelho é a única cor

18/07/2026

PEDRA ( Djavan )

 Sede de amor, febre de anseio

Quase a escuridão
Você partiu, me reduziu
Amor, me perco em lágrimas

Não mais a vi, desde abril
Fui pro mar e você lá deitada na pedra
Que inveja dessa pedra

O que ficou, eu compreendi
Face aquela visão
O que era amor inda me diz
Pena que tudo acabe

Um lance novo me despertou
Desde já, só quero estar com quem me serve
E de resto, serei breve

Nada fica em pé pra quem se quebra numa paixão
O mundo é vão e tudo é só um oco absurdo
Não mais me vejo assim
Tô a pé, mas chego onde vou

Revê-la só foi ruim
Porque nada me causou
Doeu, me ressenti
Quando você me desprezou

Mas hoje estou aqui
Algo como uma flor na pedra preste a nascer

ÁGUAS VIVAS ( Renata Flávia )

 Tua saliva

Eu também toda líquida
Em alquímica experiência
Entre meu secreto e tua língua

E me transmuta em oceano


Do abissal de cada canto
Queimam tua boca mística
Reluzentes águas-vivas.

GARGANTA ( Renata Flávia )

 moldura do grito escondida no beijo

onde você entala o que atravessa
ligação direta das coisas mais perversas
esse fundo do aquário chamado boca
quer a palavra histérica
na raiva no prazer na queda
quer pôr pra fora tudo que desespera
esse abismo mole que esconde a língua
não mede o que gosta ou o que briga
é bomba explosiva que apavora
explode todas as malditas rimas

16/07/2026

7 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 cuidemo-nos

enquanto o fio da vida
segue inteiriço sem desfiar nem partir
– também os olhos das gazelas se entusiasmam
com o sereno rebordo da lagoa
em pleno estio em plena selva em plena vida.
cuidemo-nos
como só o tronco sabe
segurando sustendo enraizando
– assim os voos das gaivotas se espraiam
confiantes do poiso liso no retorno
em pleno inverno em pleno mar em plena vida.
cuidemo-nos
sejamos o colo desejado
de amante cuidador desejante.
– todas as savanas, todos os oceanos ensinam
os mistérios guardados sanadores
em pleno dia em plena noite em plena vida.
cuidemo-nos.
curemo-nos.
demo-nos.

1 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 há muitas palavras para mentir e apenas uma para a verdade.

no jardim das maravilhas da minha vida
jazem vários caules hercúleos,
eternamente iluminados pela seiva
interna
a correr desde o coração.
morrerei já não jovem, sei-o agora.
e do passar dos tempos sei, também agora,
que as convenções podem matar o brilho de um olhar
uma covinha no rosto
um arrepio na nuca.
só que nunca o amor será vencido.
mora em lugar altaneiro
onde poucos acedem
de onde muitos desabam
– ali
ao alcance da tal palavra pura.

2 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 havemos de saber

um dia
a misteriosa mecânica
da roda.
após olharmos
atentamente
as muitas variedades,
e materiais,
usos, finalidades e tamanhos,
após descobrirmos
a afinidade oculta -
essa rigorosa teia de raios
a ligá-las perfeitamente
pela ligação rigorosa
ao centro
ao coração
que tudo organiza ordena e dispõe
em posições paralelas ou concêntricas
sempre ligadas sem jamais se tocarem
sempre ligadas sem jamais se encontrarem –
um dia havemos de saber
por fim
a encantadora mecânica da roda
da vida.

3 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 esta pedra no centro do teu peito

é herança de feitos e desfeitos.
encimada pela pomba da esperança
nela jorram o sangue e o sal
da vida.
nela brilha a lamparina
consolação
sempre instigando dor e morte para longe
para longe 
para onde não haja pão nem vinho
nem o bater

de teu, agora, novo

coração
de trevos e rosas imaculadas.

4 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 lembra-te

de cada guinada das costas
depois do trabalho,
de cada esticão da coxa e dos músculos dos pés,
de tanta fadiga nos ombros depois de carregares aos ombros
a maldição de Midas dos secos patrões
esganados entre o parecer e o ter
sem pingo de paz nem poesia
para a sua própria salvação.
lembra-te dos versos que te nascem da exaustão e da dor
lembra-te do Poema, dos mestres da Palavra e do ardor
lembra-te do ardor benéfico da Palavra
que a tudo queima
a tudo lavra 
a tudo respiga até à mais funda raíz 
até a terra eleita emergir sob os passos desgastados
do operário manual
do camponês à jorna
da mulher invisível apoucada por outras mulheres
e de todos os viventes adiados sonegados e banidos
lembra-te de cada dor e sentir exasperado
destaca, diferencia, distingue, sofre e vive
o rebordo da angústia
o recorte da frustração
o amargo da tristeza e da dureza do que te morre
para poderes sempre regressar aos teus territórios amorosos e limpos 
e para conservares em ti o fio de prumo da justiça
da beleza, do respeito
e, sobretudo, da redenção.

6 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 e, depois,

sonhar.
estes os gestos magnânimos
do ritual do amor a mãos.

5 (Maria Toscano) 2022. Coimbra, Praça da República.12 / Janeiro;

 a vulva

continente
planeta
universo
de encontro dos amantes

QUATRO ( Maria Toscano )

 Guerreiras da Paz e da Fartura

perfiladas no horizonte
as guerreiras da fartura
aguardam o sinal para avançar.

virão devagar, robustas e vagarosas
pela encosta dos queridos montes raianos.

um ar de Setembro cuida de as manter na farta redoma 
emoldurando e desenhando 
o olival.

de tão lentos os passos
um estranho ao lugar juraria que não
que é fantasia ou ilusão de óptica
esse mito da marcha das oliveiras.

suponho que noutras paragens 
se sofre da mesma incredulidade:
uma crença árida e seca
insistindo na ideia de as oliveiras serem apenas árvores e,
para tal visão bafienta
árvores têm raízes que a fúria
humana escolhe onde plantar ou arrancar

acontece que, aqui, estamos no reino da imensidão
onde a única barreira a deter
é a arrogância e os brotos de mesquinhez.

aqui, no reino da imensidão
todos sabemos como as oliveiras defendem a paz
semeando temperos, sabores e sombras,
à medida que habitam as terras
até devir olival.

foi num monte destes que o tal das tranças se reconheceu homem amoroso
pois cabe aos olivais a missão do espelhamento das almas.

faça o forasteiro o teste:
assim que aviste um rebordo de oliveiras na linha cimeira de um monte
páre e disponha-se a acolher esse cortejo.
uma vez internamente pronto
basta habitar a máxima quietude interior
distender as pernas,
pousar mãos, braços e memórias
alongar o olhar desde onde emerge a esperança
até que a silenciosa invasão se consuma
e, num ápice, o terreno que parecia vazio
se revela pejado
de copas troncos folhas frutos
e da radiosa cantiga a várias vozes
dos outros seres esvoaçantes
sempre viajantes com cada olival. 

CINCO ( Maria Toscano )

 haverá um tempo e um lugar

para amansar a pressa 
sentir o vento fresco
a ondulação do rio no pulso gentil
e o riso refrescar a voz.
haverá um lugar e um tempo
de pausa inspirando algas
pisando pauzitos e lascas
molhando rugas magníficas
sarando raivas absurdas
para aflorar aos lábios, pujante,
o teu sorriso gaiato, 
eterno
fundamental.
haverá um lugar: é aqui.
haverá um tempo: é agora.

TRÊS ( Maria Toscano )

 aqui

assim
entre o azul do céu e a palha da seara
à boleia do Suão
no reencontro de corpo e alma
onde os subornos da infelicidade nunca chegam
entre as vagas da calma vagarosa 
deleitada
enquanto não chove: 
espero a tua fala interior.
.
no momento em que a lançares
nesse encontro dos nossos horizontes
poderei, enfim, partir:
– permanecer.