25/03/2026

HORÁRIO DO FIM ( Mia Couto ) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 morre-se nada

quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

IDENTIDADE ( Mia Couto ) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 Preciso ser um outro

para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

DIZ O MEU NOME ( Mia Couto ) in 'Raiz de Orvalho'

 Diz o meu nome

pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
                                  [os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

DESTINO (Mia Couto) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 à ternura pouca

me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

TARDIO ( Mia Couto )

  Quando quis ser fruto

fui fome,
não mais do que areia
de um chão sem cio.

Quando sonhei ser pano
fui agulha.
E morri no sono do gesto
de enrolar o fio.

Quando aprendi a ser poente
já não havia céu.

Quando quis anoitecer
tudo era luz.

E assim me condeno
em livre vício:

No mais derradeiro
eu só vislumbro um início.

FURÚNCULO ( Flávia Santana Valadão )

 Poesia é furúnculo

Tenho um gigante, quente,

Latejando em minh’alma

Desde os 11 anos de idade

Prestes e vindo à furo.

PÉTALAS ( Flávia Santana Valadão )

Sento-me no chão

À esquerda da porta do banheiro

 

De nossa casa!

 

Minha esposa sentada no vaso

De pernas abertas

 

Concentradamente,

 

Mexe em sua vulva

Contemplo a cena,

 

Flor rosa em pétalas: clitória

 

Extasia-me

 

A lépida liberdade de seus pequenos lábios

Ostentando desenho ímpar

 

Um fora na ninfoplastia

 

Enquanto caça pelos

Os mesmos e macios pelos

Que pôs em minha boca

 

Na primeira noite de amor

 

Em suas mãos, braços, ser

Há um vigor fértil

Revolverá sempre o solo de minha existência

O desejo de que pudesse gestar em seu ventre

 

Uma síntese de nosso amor

 

Nessa hora, me olha cúmplice

 

Fios de franja da cor de ouro

Caem em seu rosto

Ela sorri com boca e olhos

 

A abraço, seus cabelos roçam meus seios nus

Como o vento a encosta.

É DESERTO... ( Elaine Dauzcuk ) in O Ponto ; 2025, Editora Patuá.

Nessa areia sereia não brinca

Essa areia é para quem

Grita sem falar

Queima sem arder

É deserto…

Quando os cabelos caem

É a perna colada à cama

É corpo mumificado no lençol

É o peito sem movimento

É deserto…

Quando tomo banho

E não estou no banho

Quando como

E não estou quando como

É deserto…

Quando você não está

E quando também não estou quando você não está

É deserto…

Quando eu não me chamo

Quando eu me canso sem descansar

Quando descanso sem cansar

Quando só me pergunto quando

É deserto…

E eu não deserto

Decerto um camelo será apropriado

Na próxima temporada

porque não me iludo:

há tantos oásis quanto desertos

há tanta seca quanto chuva

É deserto…

quando os cabelos caem

e não sou calva

não me iludo:

há tantos fios para nascer e cair

quanto desertos para atravessar

convoco caravanas de panos coloridos

para me proteger

do que arde só para doer

tenho as entranhas cheias de areia

mas não me iludo:

sou feita de água.

ABRE-CAMINHO ( Elaine Dauzcuk ) in O Ponto ; 2025, Editora Patuá.

Ele numa ponta

Eu na outra

Ele fez a ponte

Em dois versos

Eu passei e voltei

Bem no meio do caminho

Ele fez a ponte

De cabeça baixa e acenou

Despenteado

Muitas luas minguaram

E a ponte ainda ali

Perfumada de alfazema

Cravada de girassóis

O tempo parou

Ou guardamos o tempo?

Pegamos os facões do querer

E bota a arrancar medo

Abrir estrada de ar

Fechar caminho de ferida

A ponte agora

Tem estação para chegar

Desembarque na primavera

E passagens para quando Deus quiser

Corre, voa veloz o instante

E ganha o céu

De ponte já fizemos trilhos

O amor tem pressa

Cospe saudade

Vê filme, passa as folhas do livro

Manteiga no pão

Porque esse trem a gente não perde

Já faz parte do nosso chão.

TODA PALAVRA É CORPO ( Inês Falafogo )

 toda a palavra é corpo

e a liberdade movimento

um vendaval solto

dançando preso cá dentro

cabeça língua lábios

juntos ao mesmo tempo

de vermelho presença

de cravo unguento

minha cabeça sentença

minha língua certeza

meus lábios enormes

serena no encontro

porque me vês de longe

— ser livre é ter fome

 

andar de boca aberta

ávida de instantes

de espanto desperta

enchendo a barriga com gigantes

 

encontra-me no caos imerso

lugar imenso que atravesso

sou tudo quanto basta ao excesso

 

não há nada mais livre que ser de mim

sentimento que, por fim, bendigo

— poder nascer e morrer comigo

ESTAÇÃO UENO, TÓQUIO ( para Yu Miri ) ( Karen Kazue Kawana )

vidas são gastas

vidas se perdem

vidas são consumidas

em gestos vãos

 

vidas pelas que se passa

sem serem vividas

meras cenas

em sucessão

 

vidas que acabam

luzes que se apagam

já sem brilho

FANTASIA ( Karen Kazue Kawana )

 Eu a criei e alimentei.

Achei que me completaria.

Ela cresceu e engordou.

Não cabia mais entre meus braços.

Quem se aninhava entre os dela era eu.

Quando despertei e a olhei nos olhos,

soube que foi tudo desperdício,

não havia amor nem gratidão.

Todas as horas que lhe dediquei

não passaram de febre e delírio.

HISTÓRIA ( Karen Kazue Kawana )

 Tornar-me foi um desfazer-me.

Despir-me de pele e de sonhos.

Cada passo à frente foi mais leve,

porque despojado de propósito,

movido por inércia e desalento.

 

Caminhei por várias vias

sem telefone, sem dinheiro,

sem medo dos perigos.

De meu, tinha só o corpo,

que sempre foi só carne,

nunca um objeto de desejo.

Não tinha sexo, nem etnia,

ignorava que, nos outros,

ele pudesse despertar repulsa,

ou ser motivo de cobiça.

Mirava o alto, as miragens,

queria ser apenas espírito.

MEDUSA ( Viviane de Santana Paulo )

 não há nada que não seja um labirinto

desde o reencontro com um amigo de infância

após muitos anos

a ficar preso no elevador de um edifício

desde o ínvio olhar de quem mais confio

a ouvir o meu nome dito por quem tanto amo

 

seja asfalto ou montanha

seja mar ou rio

seja céu ou ponte

seja tempo ou jornal

seja ontem ou gestos

espelho ou brincadeira

sejam as construções modernas

ou um punhado de terra

não há nada que não seja um labirinto

fora ou dentro de mim

perseus eu matei

com a minha indiferença

com a minha resignação e abandono

com a minha própria coragem

de me olhar no espelho

BOCAS AO SOL ( Yara Osman )

 Há muito tempo

me tornei uma parede.

 

Uma parede com dois olhos,

aquela que viu tudo

e nunca disse nada.

 

A única que não caiu

de uma casa

milhares de vezes bombardeada.

 

Do outro lado do muro

há pessoas dormindo

com a boca aberta para o sol,

e os olhos — mesmo fechados —

fixos nos meus.

 

Com olhos abertos,

a morte me observa

como um gato

observa uma borboleta.

 

Com asas abertas,

a morte me encara

como uma borboleta

encara o fogo.

 

A morte me visita.

A morte dorme comigo.

Rouba meu lençol.

 

E toda vez que esqueço

que sou uma parede,

ela me mostra meu pai

com a boca aberta para o sol.

BAILARINA ( Djavan )

 A cada pirueta que você dá

um tom de violeta
inunda o seu bailar
fico encantado ao vê-la voar
em seu grand-jeté
como eu queria ser o seu par
queria o meu destino
junto ao seu dom
e o estilo manuelino
no que tem de bom
pra erigir um belo altar
na intenção de entronizá-la
no lugar de uma deusa
sou um barco navegando
alto-mar por você
a me desbravar sem medo
com um desejo incontido
invadindo a canção
crepuscular estação
do amor não correspondido
tal como o sol
no arrebol
eu morro com vida
plié aqui
jeté ali
socorro, querida
quero viver
só pra você
de hoje
pra sempre

FERA ( Djavan )

 Você é coisa demais

Que mau eu não saber lidar
Com tudo isso de uma vez
Eu sei, mas eu vou dar tudo
Vou enfrentar um mundo assustador
Pra conquistar o coração da fera
Que me fere com amor
Cai o sol no mar
É um milagre eu não me afogar com a tarde
Sou quem arde cego de paixão
Abra a porta então
Deixe eu pensar que por ser assim sou amado
Perdido ou desejado,
Estar contigo me faz tão bem
É amor, bem
E eu nem sei se você vai me amar
Ninguém, só você, meu bem

Pode fazer meu coração sofrer. 


ENCONTRAR - TE ( Djavan )

 Qualquer lugar

Em que eu vá
Encontrar-te
Com o desejo
À flor da pele
Por fim

Destacaria o teu agir
E o modo de sentir
Como sendo vitais
Pra mim

Não é possível
Descrever
Como me encantas
Mais que o outono
Faz com os vales
De abril

Tu tens a natureza
Aos pés
Por isso é que tu és
Estrela, mesmo
Em céu de anil

Há paixão nos ares
Mas só no amor
Se vai longe
Seja eu de mais ninguém

Não é porque queres
Que é só teu
O meu pensamento
Sei que tenho
A ti também

O espetáculo em teu olhar
Fez escândalo
A boca é farta
Entre beijar e dizer
Não faço nada sem te ouvir
E há muito decidi
Amar-te enquanto
Eu viver