28/04/2026

VIOLINO - MARINHO ( Patrícia Hoffmann ) In blog Espólio do Sol

 A infância coleciona

coisas pequenas.
Ele guardava em segredo
uma miniatura do mar.
Dentro dela morava um
violino-marinho
com quem ele costumava
chorar
durante toda a chuva.
Chorar de brinquedo.

55 ( Casimiro de Brito ) In Intensidades, 1995

 Cidade caótica —

A borboleta atravessa a rua
Com o sinal vermelho.

Por Lílian Maial in www.lilianmaial.com

Quero um homem que me conheça,

Que me penetre, não só a carne,
Mas principalmente o coração,
Com força, vigor e paixão.

Quero que me devore e me beba,
Não só o gozo do sexo,
Mas o prazer de estar junto,
De ser cúmplice e complexo.

Que me prenda e me enrosque,
Não só os braços e pernas,
Mas a alma, com abraços e toques,
Que ultrapassem barreiras externas.

Quero que me jogue na cama
E me use, não como objeto,
Mas como a outra metade,
Indispensável para ser completo.

Que me faça arrepiar e arder,
Não só de desejo e loucura,
Mas da febre de possuir e poder
Compartilhar sua candura.

Que me tateie e percorra,
Que aprenda meus caminhos,
Me oferte sua intimidade,
Me sufoque de carinhos.

Que desvende meus segredos,
Não todos, senão perde o mistério
E a indefinição que dá medo,
Que atrai e tira do sério.

Não quero ser sua vadia, sua meretriz,
Mesmo de forma carinhosa, de paixão.
Porque ele não admite que sua voz
Profane a pureza de minha devassidão.

Não quero ser seu espelho e nem seu reflexo,
Porque ele não precisa ser orientado, nem de adulação.
Está comigo por afinidade e pele,
Por saudade e por satisfação.

Quer compartilhar meus momentos
Ao meu lado, sem mudar meu rumo jamais.
Quer ser amigo, meu porto seguro,
Mesmo que nunca venha a ser o cais.

Quero um homem que se mostre mortal
E felino, livre e escravo de meus olhos,
Atento e sincero, idoso e menino,
Rude e gentil ao dilatar os poros.

Quero um amante que me seduza,
Fúria e abrigo, calor e aconchego,
Dentes e lábios, pêlos e dedos,
A rolar na grama, a morder os seios.

Quero olhos e pálpebras piscando,
Gozo suado e mãos dadas,
Sexo e nexo, amada amando,
Liberdade e vidas atadas.

INTERMÉDIO ( Cristina Garcia Lopes ) In O Continente e Outros Poemas; Funalfa Edições, Juiz de Fora, 2004.

 tarde de chuva

um samba no piano

um samba?
é, são esses acordes complicados
uma pauta inverossímil

a síncope
a descompostura:
sofisticada maneira de se partir o silêncio em dois

talvez seja isso
o que chamam
amor

INDIVIDRO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 de mim não sei mais que um medo

nessa lição da morte

já você
cintila tão lindo
exatamente no vidro
exatamente no corte

O MUNDO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 o único lugar confortável no mundo

é o amor

depois que os espinhos
são retirados da pele
esse é o nome
de quase tudo

27/04/2026

ESPELHO ( Raiça Bomfim )

 Dentro da pele,

dentro da casa,
dentro do cosmo.

Entrar e sair de mim,
entrar e sair do mundo.

Eis-me prismática
em minha vida:

eu sou a casa,
eu sou a presa,
sou a janela.

Emissário de meu corpo,
saio e volto a minha cabeça,
a meu ventre,
a meu coração.

Entrar e sair de mim,
entrar e sair do mundo,
dançar o corpo entre
e refletir.

ENTRE ( Raiça Bomfim )

 Emenda em seu corpo

as faces controversas
de meu rosto.

Penetra seu verbo
no intermédio
do silêncio
e da estridência.

Segue o gesto
com que digo venha,
nega o outro
com que ordeno saia.

VERDE ( Raiça Bomfim )

 Chegar à palavra verde

em que a língua se refresca
e abre na boca túmida
de som.

Dizer verde de ouvidos metidos
no mangue murmurento
onde azul e amarelo
enterram-se fervorosamente
um no outro.

Roçar os lábios no verde
e coçar as costas da expressão
na casca da árvore acesa.

Deitar o verbo entre os pelos
da selva e ver o verde
manando entre os nós
da nossa voz.

TEREZA MULTIDÃO ( Raiça Bomfim )


Tereza quer ser bonita

Ajeita-se como pode
Lhe gritam feia, coitada
Queriam arrancar-lhe a cara
Tereza está sempre errada
Precisa ser corrigida

Eu vou te foder, Tereza
Grita aquele
Eu vou te foder, Tereza
Grita o outro
Nós vamos foder Tereza
Grita o coro

Tereza se sente linda
Se veste toda viçosa
Quem vê, logo fica louco
Deseja roubar-lhe o gosto
Tereza é um alvoroço
Não dá pra se controlar

Nós vamos foder Tereza
Gritam quatro
Nós vamos foder Tereza
Gritam trinta
Nós vamos foder Tereza
Gritam todos

Tereza diz a seu noivo
Não faz assim que eu não gosto
Machuca, incomoda um pouco
O moço não dá ouvidos
Tereza que aguente e goste
Porque ele não vai parar

Eu vou te foder, Tereza
Grita aquele
Eu vou te foder, Tereza
Grita o outro
Nós vamos foder Tereza
Grita o coro

Tereza, nas madrugadas,
Se deita com muitos homens
Tereza que é tão gulosa
Não é disso que ela gosta?
Vai ter bem o que merece
Vão lhe dar uma lição!

Nós vamos foder Tereza
Gritam quatro
Nós vamos foder Tereza
Gritam trinta
Nós vamos foder Tereza
Gritam todos

Tereza é quase uma muda
Comentam que é meio tonta
Aceita, permite, apoia
Não conta nada a ninguém
Adora engolir calada
Tereza está sempre errada

Eu vou te foder, Tereza
Grita aquele
Eu vou te foder, Tereza
Grita o outro
Nós vamos foder Tereza
Grita o coro

Tereza parece uma gralha
Não poupa nenhuma queixa
Adora uma discussão
Faz tudo pra encher o saco
É chata, louca e sacal
Vai ter que aprender por mal

Nós vamos foder Tereza
Gritam quatro
Nós vamos foder Tereza
Gritam trinta
Nós vamos foder Tereza
Gritam todos

Tereza é um nome que eu tenho
Tereza é uma amiga minha
Tereza é quem não conheço

Tereza é uma multidão

 

FALA DE FREI TITO AOS TORTURADORES (Iacyr Anderson Freitas) in Viavária; Nankin-Funalfa, São Paulo-Juiz de Fora, 2010

 Não pode morrer de novo

quem já morreu muitas vezes.
Deixai descansar agora
um corpo exaurido há meses.

Um corpo que já provou
da vida os venenos todos.
Num colchão de urina e fezes,
a tortura e seus engodos.

Por isso a corda em meu corpo
(pois que suicídio não seja):
para que morram comigo
os que mataram a igreja

que deve ser qualquer homem,
antes que as feras o domem.

MULHERES ( Angélica Torres) In O Poema Quer Ser Útil; LGE Editora, Brasília, 2006

 Neste início de tarde

fim de manhã do verão

o sol me divide
nas várias mulheres

que me antecederam
e nas que virão

grávidas de luas
na fase obscura

com um abismo
no peito

LÍRICA ( Mariana Ianelli ) in O Amor e Depois; Iluminuras, São Paulo, 2012

 Chegasse antes da hora

Eu te veria
No ato que sempre só imaginei -
Tua forma estólida, absorta,
Possuída
De um saber que livro algum
Jamais te deu.

Sem tocar teu corpo cântaro
Provaria
O sangue da tua meditação,
E aquele rancor sequer perdoado
A um morto
Num amor rebentaria.
Alheio ao teu juízo,
Como quem canta à noite
À boca de um poço
E pela voz de um outro
É correspondido.

Assim eu revelaria
O teu amor aos assassinos
Precipitando-se
Num rosto compassivo
Que me recebe na hora certa

E permite
Que o meu pensamento
Penetre o teu sem relutância
E faça contigo
Irremediavelmente
O que só um poeta faz
Com as palavras.

O AMOR E DEPOIS ( Mariana Ianelli ) in O Amor e Depois; Iluminuras, São Paulo, 2012

 Era esperado que aos poucos

Definhasse, fosse desaparecendo
Naturalmente levado pelo sono.
Era suposto que por abandono
Morresse —

E não teria o vento nenhum sentido
De ventura, seria apenas
A passagem de uma hora branca,
Entre outras tantas,
Para um coração manso
Que já nada espera nem recorda —

Como se o tempo não devorasse
Também o desconsolo,
E dele fizesse exsudar um leve perfume,
Como se não arrastasse
Cada corpo uma penumbra,
Como se fosse possível
Em vida a paz dos mortos.

DESCOBRIMENTO ( Mariana Ianelli ) in O Amor e Depois; Iluminuras, São Paulo, 2012

 Será como chegar extenuado,

Mas chegar.
Depois de uma viagem
Que foi quase sempre angústia
De se debater num mar adversário

E então o inexprimível
De pisar em terra firme
E ainda ser capaz do passo distraído.
Essa glória de juventude
De se deixar levar

E será algo tão novo
Como se nunca tivesse existido
Nunca tivesse nem mesmo
Sido desejado —

Um caminhar estrangeiro
Por entre o orvalho e a névoa,
Um frescor de primeiro dia,
Um momento sem passado,
A chance de tocar um mundo novo
Como dois azuis se podem tocar
Sem pecado.

PELE QUE HABITO ( Lubi Prates ) in Um Corpo Negro; 3a. edição - Nossa Editora, São Paulo, 2021

 minha pele é meu quarto.

minha pele é todos os cômodos
onde me alimento onde deito finjo
  o mínimo conforto.

minha pele é minha casa
com as paredes descobertas
  uma falta de cuidado
: necessita sempre mais
para ser casa.

minha pele não é um estado
desgovernado.

minha pele é um país
embora distante demais   para os meus braços
embora eu sequer caminhe sobre seu território
embora eu não domine sua linguagem.

minha pele não é casca
é um mapa: onde África ocupa
todos   os   espaços:
cabeça útero pés

onde os mares são feitos de
minhas lágrimas.

minha pele é um mundo
que não é só meu.

O ESPÍRITO ( Natália Correia ) in Poesia Completa

 Nada a fazer amor, eu sou do bando

Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

POR ESTAS NOITES ( Olavo Bilac ) in Poesias

 Por estas noites frias e brumosas

É que melhor se pode amar, querida!
Nem uma estrela pálida, perdida
Entre a névoa, abre as pálpebras medrosas
Mas um perfume cálido de rosas
Corre a face da terra adormecida .
E a névoa cresce, e, em grupos repartida,
Enche os ares de sombras vaporosas:
Sombras errantes, corpos nus, ardentes
Carnes lascivas  um rumor vibrante
De atritos longos e de beijos quentes .
E os céus se estendem, palpitando, cheios
Da tépida brancura fulgurante
De um turbilhão de braços e de seios.

O TESTAMENTO DOS NAMORADOS ( Natália Correia ) in O Vinho e a Lira

 Escolhamos as coisas mais inúteis

o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.

Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.

Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.

DESEJOS VÃOS ( Florbela Espanca ) in Livro de Mágoas

 Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza .
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas pisa-as toda a gente! 

CISNE ( Pedro Homem de Mello ) in Adeus

 Amei-te? Sim. Doidamente!

Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente.

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente.

Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde... e foi doente!

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas.

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua!

Por que te amei?
                           - Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

- Talvez viesse de mim.
E da minha poesia...

CANÇÃO À AUSENTE ( Pedro Homem de Mello ) in Segredo

 Para te amar ensaiei os meus lábios.

Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos.
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio.
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando.
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando.
E nunca mais vieste!

NO OBSCURO DESEJO ( Vasco Graça Moura ) in Antologia dos Sessenta Anos

 no obscuro desejo,

no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

PRINCÍPIO DO PRAZER ( Vasco Graça Moura ) in Antologia dos Sessenta Anos

 à sua volta os pombos cor de lava

nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

26/04/2026

Por Célia Moura, 2026

 Vou embalando

meus pássaros feridos,
sussurrando-lhes Vida
enamorando-me de
suas cicatrizes,
contorcendo-me em
suas agonias,
réstias de outrora
onde vou “perdendo o norte”
de mim.

Vou-me procrastinando,
nesta inquietação embriagada
dos dias,
como quem ousa
mordiscar o tempo.

Como se de mim pudessem
nascer as águas, os rios,
a paz,
e os sorrisos límpidos, lindos
imensos, inocentes…
de todas as crianças mortas,
expostas à insanidade da besta
perante a esquizofrenia global
de um mundo,
assassinadas!

Rasgo-me até ao âmago
enquanto bebo o êxtase
ao quebrantamento
das flores
que já não sei, nem contemplo.

Primícias entre os seios,
ventre mutilado de caxemira
na berma do pensamento
enquanto vais tecendo
murmúrios e grinaldas
em meus cabelos revolvidos
de vento norte.

Que direi, meu amor,
que poderei eu dizer?!

Venho da inquietação dos frutos
e na forja de Deus
continuo embalando feridos,
os pássaros
enquanto das mãos
se derrama incessantemente,
o silêncio
como se me doessem até à loucura,
todas as ausências
e esta procrastinação constante de mim
onde me permito morrer um pouco mais
a cada instante
e me embalam felizes,
os pássaros.

22/04/2026

DIVÃ ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021 ( Para Heidi Tabacof )

 contou o que nem pensava

inventou próprias parábolas
sonhava que era pagã
enquanto a bíblia espreitava
afogada no mar vermelho

comeu o pão que o diabo amassou
(o pão era bom
o cara sabia o que estava fazendo)

queria projetar
uns filmes bacanas do godard
e saiu aquele novelão

Um dia chamou o xamã
o senhor austríaco há de compreender
que ela nasceu mexicana
é claro que entende as mulheres
— este mar aberto de sintomas
o céu, o inferno, o sexo, a terra prometida —
não sabe o que ele não entendeu

com furo por todo lado
seu plano inicial era morrer menos
queria tornar-se inabalável
mas o negócio não era bem assim
e resultou cheia de poros
sismógrafa cismando
a precisão dos cataclismas

sem modéstia
sente-se hoje preparada
até para o que não tem nome
— aos borbulhantes, as borbulhas —
o caminho das eras é eros
o caminho do errante é errar
(palavras dá como beijos
mas como se mede um contar?)

escuta
o amor é o amor é o amor
a dor passa enquanto passa
a maravilha não tem cura

RECONCILIAÇÃO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 depois de tudo

veludo