21/04/2026

A ESCRITA E A ETERNIDADE ( Eduarda Chiote ) in Órgãos Epistolares, Edições Afrontamento, Porto, 2010

 Contra o poder desagregador do corpo

da escrita,
não há realidade, por mais extrema,
capaz de superar
a certeza moral da sua
eternidade. As mãos da mulher permanecem, hoje,
apoiadas na
profunda névoa da
almofada.
No leito, soerguido, ela tenta ainda,
ainda,
uma vez mais, uma vez mais,
deixar-nos uma
mensagem.
Mas a caneta pende, frouxa, dos lírios
dos dedos
como se fora um leve descuido de vento aflorando
das mangas cumpridas
da camisa de noite.
Não sei se, de tão nus, estes
não conseguem mais pensar em fazer ouvir ideias
simples,
tais como as de um poema
poder ser (ou não)
o que o anula no silêncio do pó: ou se todos os seus
não terão contido «mais ciência
que virtude»: e não porque a profanação (e imperfeição)
da arte
lhes não tenha atravessado a discrição e gentileza,
mas porque os traumas,
as proibições,
as doenças,
a loucura,
a loucura, a loucura,
Sylvia,
foi, decerto, o que neles superou
o instante
em que o animal
se afastou – entendendo sermos
sob a terra penosamente
móveis
e mortais.

O MEU MAIOR MEDO ( Katerina Gógou ) Mudado para português por Maira Parula a partir da versão em inglês de G. Chalkiiadakis

 meu maior medo

é o de transformar-me em "uma poeta".
Ficar trancada no quarto
olhando o mar
e esquecer.
Medo de que os pontos em minhas veias cicatrizem
e que, em vez de ter uma vaga memória dos noticiários de TV,
eu passe a rabiscar papéis e vender meus "pontos de vista".
Medo de que os que passaram por cima de nós possam me aceitar
para poderem me usar.
Medo de que meus gritos virem um murmúrio
para fazer o meu povo dormir.
Medo de aprender a usar métrica e ritmo
e ficar presa dentro deles
ansiando que meus versos se tornem canções populares.
Medo de vir a comprar binóculos para ver de perto
as ações de sabotagem das quais não estarei participando.
Medo de cansar-me — uma presa fácil para padres e acadêmicos —
e com isso transformar-me em uma mulherzinha covarde
Eles têm seus métodos…
Podem utilizar a rotina com que nos acostumamos,
já nos transformaram em cães:
nos deram a vergonha por não trabalhar.
depois o orgulho por estarmos desempregados.
É assim que é.
Psiquiatras astutos e policiais deploráveis
esperam por nós nas esquinas.
Marx…
É outro medo
Eu não o esqueço também.
Esses filhos da puta … a culpa é toda deles.
Eu não consigo — merda — nem terminar de escrever isso
Talvez… hum?  talvez um outro dia…

HÓSPEDE (Carmem Ruiz Fleta) Traduzido para o português pela poeta, tradutora e professora Maria Soledade Santos

 Abri as portas da minha casa

as portas do meu tempo
as portas do meu nada
a um hóspede com joelhos de areia
que me traz o pequeno almoço à cama
e faz amor comigo usando as palavras remotas
de todos os degelos passados.

Nada de sério,
um clique da memória,
efémero,
uma aventura adolescente
que não imporá quarentena.
Um assobio de regresso
e voltarei alegre,
porque alegres são os reencontros
e até as melancolias.

O hóspede cheira ao tabaco preto
dos meses do pós-guerra
– espessa-me o sangue, causa trombos –
perfila sombras contra a minha luz.
Cheira a lúpulo e ao despertar de agosto,
adelgaça a cintura das minhas tardes
e incita-me a beijar os lábios do tempo.

Este meu hóspede parece-se tanto com a ausência
– carta timbrada na cidade que um poeta inventou –
que essa certeza me deixa vazia.
A minha casa.
O meu tempo.
O meu nada.

Por Cláudia R. Sampaio; in “A Primeira Urina da Manhã”, Douda Correria, Lisboa, 2015

 A malandrice chamou-me a atenção aos cinco anos,

quando escrevi as primeiras linhas.
«a minha mãe é loira de olhos azuis e eu gosto muito dela»
Comia-se marmelada com pão, não se varriam migalhas
que o tempo urgia em galgar.
De joelhos no chão esborrachavam-se formigas
e depois tinha-se pena e ia-se para casa em silêncio
punha-se um letreiro na porta a dizer «compram-se idosos»
mesmo que não fosse verdade
experimentavam-se línguas em bocas e andava-se à roda
literalmente
e os arrepios eram os primeiros coitos
e as interrupções eram miúdas
mijava-se em poesia, mesmo de cócoras
a solidão de domingo era água das pedras
e nem havia telefone para lhe tocar

O FUTURO? TEM ORELHAS ( Júlia de Carvalho Hansen ) in “Seiva Veneno Ou Fruto”, Editora Chão da Feira, Brasil, 2016

futuro? Tem orelhas,

mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.

Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa
furacão. Nunca adiado.

Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas
os observadores de saltos
os gatos também
aprendem certos truques com ele.

E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem-aventurados
que topam em pedras
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais
os cinco sentidos
e os sete buracos da cabeça.

COMO ALCANÇAR O PARAÍSO (Daiva Cepauskaite )Versão: Luís Parrado da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry S. Keys em 2008.

 Tens de ter coragem

para escrever um poema,
tens de ter coragem
para não escrever um poema,
tens de dizer olá
e adeus,
tens de tomar vitaminas,
tens de respeitar todas as pessoas
e amar apenas uma,
mesmo que ela não o mereça,
tens de sofrer silenciosamente
e de permanecer pacientemente em silêncio,
tens de estar em silêncio quando alguém fala
e de falar quando toda a gente fica em silêncio,
tens de deitar o lixo fora,
de regar as flores,
de pagar o gás e a água,
os erros e os sucessos,
tens de dar o coração
por um olho e um olho
pelos dentes,
não deves pedir nada
quando desejas tudo,
e exigir tudo
quando não desejas nada,
tens de adormecer a horas
e de acordar a horas,
de encontrar dois sapatos para o pé esquerdo
porque os outros dois são do pé direito,
não esperar que alguém regresse
ou deixe de regressar
só porque alguém está à espera,
tens de olhar para o céu
porque ele jamais olhará
para ti,
tens de morrer porque é assim,
mesmo que não o
mereças,
tens de escrever um poema
nascido do medo
entre “sim” e “não”,
vindo do “por quê”,
com “para quê”,
para ser “agradecido”,
mesmo quando
não o merece.

A PEDRA ( Maria Graciete Besse ) in “Olhar Fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996

pedra

conserva o perfume do homem
seu gesto de cristalização cíclica
em busca de uma verdade solar.

A pedra
respira a paixão do excesso
pássaros e curvas de plenitude feliz
instrumento do oráculo.

A pedra
sangra de lucidez aflita
restitui o cântico
inventa o poema
ávido silêncio mineral
onde gritam gestos pacientes.

A pedra
é andrógina figura
atravessada de veias e rumores
ondulação das formas mais puras
entre rigidez e harmonia

sexo de mármore aberto
aos lábios do vento.

20/04/2026

ORIGENS ( Sônia Barros ) in Mezzo Vôo; Nankin, São Paulo, 2007. Para Maria Aparecida Rangel Murbach

 1

Persigo o sonho
                    do vôo
desde sempre,
desde antes
de nascer.

Sobrevoava abismos e subia
rumo às nuvens
(bracinhos abertos)
                    no céu dos sonhos
de minha mãe:
mulher que não me gerou
mas amparou-me
                              na queda
e cultivou minhas asas.

Essa mulher da terra
também aprendeu
a alçar vôo.


2
Cidadezinha,
pracinha,
bibliotecazinha.
Dentro delas,
o castelo:
                       livro - asa
livro - água
nas mãos em concha
da menina lagarta que sonhava
borboletas cor-de-nuvem.

Quartinho
(penico, lamparina, espiriteira).
Dentro dele,
                                 estrelas
nasciam dos lábios cansados da mãe
— de olhos fechados pelo peso da lida —
                                 voavam
e enchiam a boca sedenta de asas
da menina
sempre acordada.

FIM DA LINHA ( Sônia Barros ) In Fios; Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2014

 O trem desapareceu,

nunca mais foi visto,
           só o apito percorre
           o trilho do ouvido,
vai e vem intermitente,
agulha a cerzir espaços,
           esgarçados lodaçais
           do esquecimento:
o ontem ressurgindo
no ritmo de espasmos,
           luz cortando sombras
           no túnel do pensamento,
ouvido inconsciente
de quem até hoje sente
           e carrega uma estação
           de trem por dentro.

CONSTATAÇÃO ( Sônia Barros ) In Fios; Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2014

 Descobriu sem tristeza

e, apesar de ter sentido
uma espécie de frio,
tampouco houve surpresa
no momento da descoberta:

não é a morte o pior verdugo,
com seus fios verde-musgo,
garras sob pele tenra,
hera primeva a esconder
no ventre o muro do fim;

carrasco a cavar na alma
maior ruína é a sina de ser só
- sol latente no coração da sombra -
que em nada se aproxima
do estado desejado de não ser.

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA ( Sônia Barros ) In Fios; Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2014

 Além da pérola

na orelha da moça
de Vermeer,

o indevassável
desejo nos olhos:
sonho a arder.
Vermeer, Moça com Brinco de Pérola (1665-1666)

LUDO REAL ( Vinícius Cantuária & Chico Buarque )

 Que nobreza você tem

Que seus lábios são reais
Que seus olhos vão além
Que uma noite faz o bem
E nunca mais

Que salta de sonho em sonho
E não quebra telha
Que passa através do amor
E não se atrapalha
Que cruza o rio
E não se molha

18/04/2026

NO FUNDO ( Edgardo Xavier )

 Parou em ti o meu olhar de fome

a minha angústia, o insulto
o meu querer morrer quebrantado
para voltar como fúria ao teu ventre.

Tive vontade de tumulto
de álcool forte que assim me escorresse e lavasse
que me sujasse na força dos teus dedos
na inclemência de braços, pernas, unhas ou dentes
raiva nas bocas dormentes, tesão, ira, destruição
e o voo torpe em destinos de mau agouro
a dizer da queda, do fogo, do peso do céu
à beira da memória.

Veio de longe a morte soluçada
O galope das bestas na calçada
O derramar da sede nos socalcos da maré
e o subterrâneo gemer de ânsias
como se nos amassemos nesta noite
e não fossemos só destroços no fundo de um uivo.

17/04/2026

SOLSTÍCIO DE VERÃO ( Maíra Dal’ Maz ) in Vira Uma Pedra O Tempo - Patuá, São Paulo, 2024

 digamos que hoje é mesmo

o dia mais longo do ano
e que nele estou ajoelhada

é também o dia mais longo
da vida da vespa-do-figo
que vive somente um dia

o único objetivo dela
é entrar em um minúsculo jardim
despejar seus ovos e ali morrer

não é ironia para uma vespa
nascer e morrer
no dia mais longo do ano

ironia é eu nunca ter comido um figo
nem ter despejado ovos
nem ter morrido

digamos que eu queira saber qual é
exatamente
a minha função no organismo de Gaia

saberia dizer?

LITHIUM ( Maíra Dal’ Maz ) in Vira Uma Pedra O Tempo - Patuá, São Paulo, 2024

 na envergadura de um pé de cana

uma pessoa observa
depois da chuva, as flores são brancas
isso é uma espécie de ilusão
por causa do contraste do verde com o resto
aquele verde que Belchior chorou
mas não era Belchior ali
naquele sonho, era noite
eu estava deitada também
no meio do canavial
vendo as estrelas
desde então, se vejo as flores brancas
da cana-de-açúcar
quero me deitar entre elas
esperar anoitecer
enfim chorar do lítio
todo o sal.

BARRAGEM ( Maíra Dal’ Maz ) in Vira Uma Pedra O Tempo - Patuá, São Paulo, 2024

 se arrependimento matasse

não precisaria me explicar
nunca mais. essa queimadura
o buraco na sua blusa
nunca mais o barulho que faz
a minha língua seca ao lembrar
e o choque de lembrar de tudo
o que você me disse
mesmo sendo uma só palavra
uma só palavra: aquela
que eu não disse, aquela que insiste
em conter a morte.

CORPOEMA ( Lívia Natália ) in Em Face dos Últimos Acontecimentos; Caramurê, Salvador, 2022

 Sou forte como as pedras

quando cedem às Águas.
Moldo-me no vento das substâncias,
nos silêncios que se desenham nas ondas.

Sou forte como as asas dos pássaros,
como as pernas delicadas de um flamingo:
sou aquela cor que lhe grita no corpo
algo desfeito de sutilezas.

Sou forte. Sou brava.
Mas me dobro em entranhas miúdas
e meu sangue é cheio de esperas,
como as minhas lágrimas.

Sou forte como aquela flor
que verga sob o vento grave.

Sou aquela flor que verga
para guardar no pólen
o seu futuro perfume.

UMA HISTÓRIA COM REFRÕES ( Adélia Prado ) in O Jardim das Oliveiras - Record, Rio de Janeiro, 2025

 Por causa da chuva,

a vida toma a presença
de quando eu era menina
e comia de tudo e muito.
O estômago satisfeito
gerava bons pensamentos.
Sentir medo era bom,
a mãe abraçava a gente,
oh! vida maravilhosa!
A oficina parava às quatro e meia,
o pai comia primeiro
pra tomar banho depois.
Tudo ainda por acontecer:
um puxado na casa,
trocar por tacos o piso de tijolos,
lamparinas por lâmpadas,
e, quem sabe, um rádio,
um ferro elétrico.
Oh! vida maravilhosa!
Ideias me beliscando
como piabinhas no córrego
beliscando-me as pernas,
meu noivo e eu nos contínhamos,
teria uma lua de mel para comer sozinha,
cartões nos felicitando,
caixas cheias de presentes.
Oh! vida maravilhosa!
Se cavasse bem
onde morava a Egita benzedeira,
encontraria uma botija estourando de ouro
e quando o menino nascesse
ia tremer de fascínio e medo
pelos cabritinhos que volta e meia
arrombavam a cerca da horta.
Eu imitaria minha mãe
abraçando ele com força:
Tonim, Tonim, é só um cabritim,
e o mel do amor escorreria
dos olhos pro coração.
Oh! vida maravilhosa!

VEROSSÍMIL ( Adélia Prado) in Poesia Reunida - Siciliano, 1991.

Antigamente, em maio, eu virava anjo.
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
'Canta alto, espevita as palavras bem'.
Eu levantava voo rua acima.



REGRESSO ( Alexandra Vieira de Almeida )

 A chuva se abriu em pétalas

a navegar no doce mar das ruas
Eu, alma nua
me entreabri no colo das ondas
firmemente convicta de sua volta
que teima em escapar como uma vaga noturna
As espumas entrechocavam-se com meus lábios
despertos na secura do árido deserto
O oásis se fez cama ardente dos sexos
na minha imaginação que se encontrava
com seu distante regresso 
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com os olhos cheios de lágrimas
Espero seu regresso 
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com seu distante regresso 
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com os olhos cheios de lágrimas 
Espero seu regresso
oração desfolhada que se atira
no riso de minha face molhada
Regresso, ao inverso
no inverno de meu verso.

TODO AMOR ( Marina V. Medeiros )

 Todo amor é imenso

todo amor é insano
todo amor emociona
e faz verter lágrimas de felicidade.
Todo amor é dádiva
todo amor promove desejos
todo amor é único.
Esse nosso amor
é tudo isso e mais alguma coisa.
Pedi a Ele que fizesse
desse nosso amor
um amor infinito.

O AMOR EM LINGUAGEM DE COMPUTADOR (versão 2)(Maria Carlos Loureiro)Acasos e Mistérios, Quetzal Ed, 1998-Lisboa, Portugal.

 Percorro com os dedos o teclado

e acaricio nele a tua pele
que imagino morena e macia.

Envolvo com o olhar o monitor aceso
e aprocuro aí os teus olhos
que suponho escuros e ardentes.

Passeio com o rato no tapete
e sinto os teus lábios no meu corpo,
vagarosamente deslizando
e deixando nele o sabor que imagino em ti.

SILÊNCIO ( Juana de Ibarbourou ) Tradução de Hector Zanetti

 Minha casa tão longe do mar.

Minha vida tão lenta e cansada.
Quem me dera deter-me a sonhar!
Uma noite de lua na praia!
Morder musgos avermelhados e ácidos
E ter por fresquíssimo travesseiro
Um montão dessas curvas pedras
Que há polido o sal das águas.
Dar o corpo aos ventos sem nome
Abaixo o arco do céu profundo
E ser toda uma noite, silêncio,
No vazio ruidoso do mundo.

A HORA ( Juana de Ibarbourou ) Tradução de Maria Teresa Almeida Pina

 Toma-me agora que ainda é cedo

e que levo dálias novas na mão.

Toma-me agora que ainda é sombria
esta taciturna cabeleira minha.

Agora que tenho a carne cheirosa
e os olhos limpos e a pele de rosa.

Agora que calça minha planta ligeira
a sandália viva da primavera.

Agora que em meus lábios repica o sorriso
como um sino sacudido às pressas.

Depois… oh, eu sei
que já nada disto mais tarde terei!

Que então inútil será teu desejo,
como oferenda posta sobre um mausoléu.

Toma-me agora que ainda é cedo
e que tenho rica de nardos a mão!

Hoje, e não mais tarde. Antes que anoiteça
e se torne murcha a corola fresca.

Hoje, e não amanhã. Oh amante! Não vês
que a trepadeira crescerá cipreste?

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL ( Cristina Peri Rossi ) Tradução de Maria Teresa Almeida Pina

 Se fosse analfabeta

aprenderia em teu corpo
a ler com códigos
que têm os pássaros
com códigos que têm as águas
e o abecedário transparente
de tua nudez
forma da luz
refletida no espelho
– xadrez escuro -.

POEMA ( Louise Labé ) Tradução de Sérgio Duarte

 Belos olhos que fingem não me ver

Mornos suspiros, lágrimas jorradas
Tantas noite em vão desperdiçadas
Tantos dias que em vão vi renascer;

Queixas febris, vontades obstinadas
Tempo perdido, penas sem dizer,
Mil mortes me aguardando em mil ciladas
Que o destino me armou por me perder.

Risos, fronte, cabelos, mãos e dedos
Viola, alaúde, voz que diz segredos
À fêmea em cujo peito a chama nasce!

E quanto mais me queima, mas lamento
Que desse fogo que arde tão violento
Nem uma só fagulha te alcançasse.

CHUVA ( Ribeiro Couto) Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960

 A chuva fina molha a paisagem lá fora.

O dia está cinzento e longo. Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora.
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta.
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria.

Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando.

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia.

I (2) ( Luíza Mendes Furia ) In Vênus em Escorpião - Patuá, São Paulo, 2016

 Abandonei o tempo dos limites.

É do infinito que a alma mais tem fome.

A vida tece a urdidura do avesso
E é de loucura que o corpo se sacia.

Minha paixão não teme estes abismos.
O que se busca é nesta névoa que se oculta.

CANÇÃO ( Cecília Meireles ) in Viagem; 1939

 Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e minhas duas mãos quebradas.

BALADA DAS DEZ BAILARINAS DO CASSINO ( Cecília Meireles ) in Retrato Natural; 1949

 Dez bailarinas deslizam

por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores,
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

As dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

MELANCOLIA ( Henriqueta Lisboa ) in A Face Lívida: poesia, 1945.

 Água negra

negros bordes
poço negro
com flor.

Água turva
densa escuma
turvo limo
com flor.

Noite espessa
sem lanterna
espesso poço
com flor.

sobra, corpo
de serpente
na oferenda
da flor

Risco de morte
violenta,
árdua morte
de asfixia
veneno letal
fatal
quase que puro
suicídio
com uma
lenta
lenta
flor.

SERENA ( Henriqueta Lisboa ) in Velário; 1936.

 Essa ternura grave

que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavi-
dade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levi-
tação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.