22/04/2026

DIVÃ ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021 ( Para Heidi Tabacof )

 contou o que nem pensava

inventou próprias parábolas
sonhava que era pagã
enquanto a bíblia espreitava
afogada no mar vermelho

comeu o pão que o diabo amassou
(o pão era bom
o cara sabia o que estava fazendo)

queria projetar
uns filmes bacanas do godard
e saiu aquele novelão

Um dia chamou o xamã
o senhor austríaco há de compreender
que ela nasceu mexicana
é claro que entende as mulheres
— este mar aberto de sintomas
o céu, o inferno, o sexo, a terra prometida —
não sabe o que ele não entendeu

com furo por todo lado
seu plano inicial era morrer menos
queria tornar-se inabalável
mas o negócio não era bem assim
e resultou cheia de poros
sismógrafa cismando
a precisão dos cataclismas

sem modéstia
sente-se hoje preparada
até para o que não tem nome
— aos borbulhantes, as borbulhas —
o caminho das eras é eros
o caminho do errante é errar
(palavras dá como beijos
mas como se mede um contar?)

escuta
o amor é o amor é o amor
a dor passa enquanto passa
a maravilha não tem cura

RECONCILIAÇÃO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 depois de tudo

veludo

PRANTO EM MODO CLÁSSICO PELA TERRA PALESTINA ( Fatima Ahmad ) Tradução de Maria Carolina Gonçalves

 Eu vou porque o cheiro da terra ainda me chama,

com toda minha determinação eu vou.
Não vou parar, não vou olhar para trás,
as sombras das vinhas me esperam, não vou olhar para trás,
o cheiro do café fervido ainda está lá, para onde eu vou,
ouço os ecos do arghul me chamando
e, dentro de mim, os poemas dos camponeses no tempo das colheitas.
Como é frágil a vida quando vivemos os poemas no estranhamento,
quando só o que nos separa deles é o cercado que rodeia nossas nuvens,
nossa terra, nosso céu, nossa chuva.


Eu vou para minha aldeia na Palestina.
Ela sente minha falta e eu sinto falta dela.
É um amor nato e latente,
é um fogo que não apaga.
Bissan, Alkármil, Yafa e Safad,
Alquds, Aljalil e Annássira,
deixem-me sofrer, ó cidades,
não chorem por mim, ó cidades,
talvez um dia as lágrimas ganhem asas!

JOGUINHO ( Muna Amassdar ) Tradução de Alexandre Facuri Chareti

 Quem apaga a guerra dentro de mim

e me empresta um pouco de esquecimento?
Quem redefine minha noite
e a dos rebeldes mais eminentes embaixo dos destroços?
Quem devolve nossos passos às calçadas
e devolve a elas seus nomes?
Há alguém que se atreva a beliscar minha bochecha
diante da falta de sono e da fúria do bombardeio?
Alguém aqui corajoso o bastante
para amaldiçoar a guerra escondida em nosso pão?
Alguma janela onde eu reúna as nuvens do fim do dia
e impeça a noite de dar os primeiros passos?
É possível comprar uma língua
e um coração tranquilo?
Quem sabe assim eu possa falar da carnificina
ou apagar, talvez,
o fogo da guerra dentro de mim.

TULCEA ( Maria João Cantinho )

 Tulcea, que agora se afunda

nos braços da noite, deixa atrás de si
o rumor quieto das águas
e a oscilação calma dos barcos,
numa despedida do verão. Deixo
que a noite invada os rostos
e que a escuridão engula as vozes,
que cantam a nostalgia, sem nome.

Adormecerei neste lugar,
em que uma voz
antiga me desperta,
adormecerei, e pouco a pouco,
o mistério do tempo desvelará
as ocultas formas da noite,
num breve murmúrio do infinito.

Em breve cantarão as aves no porto
esperando-te, enquanto
deslizam velozes, madrugada adentro.
Luminescendo o dia.

TEIA ( Laís Araruna de Aquino )

 não há seguro contra o estar no mundo

nem tua casa te previne contra o assalto da existência
as janelas não impedem o vento e o cortejo de passos
de te trazerem signos do nada
o silêncio acusa que estás no centro de coisas
que não oferecem consolo porque apenas remetem a teu exílio
o expediente de levantar da poltrona e abrir a porta
da geladeira mede o intervalo de tempo gasto
e não sabes de que te serviria mais
teu olhar interroga paredes e detém-se numa lamparina
em vão um inseto debate-se contra o vidro
não há senão esta só e única realidade

à beira do Capiberibe ou do Nevá

PREFIRO OS DIAS DE CHUVA ( Laís Araruna de Aquino )

 prefiro os dias de chuva

não obstante o eu esbarre na resistência
das coisas que estão aí fora e não dão passagem
os pragmáticos comprariam cigarros
eu imagino a sensação de um trago cálido
e a imagem é mais real que o ato em si
como a lembrança deste dia fundará outro dia maior
sim, prefiro os dias de chuva
posso ficar fundamentalmente só
estendendo a pouca roupa no varal ou aguando
as plantas da casa
os arranhões do mundo não escalavram
a ficha da existência dispensa carimbo
deito no chão frio
isto confere qualquer sentido à falta de sentido
como ter um guarda-chuva no exato momento
em que não tempestua e aranhas
monstruosas assomam no jardim
não pensei sobre o resto do dia
não, pensei e nada resolvi
sobre a longa tarde de sábado
ou um modo novo de evitar o aniquilamento
provocado pela passagem do tempo
porque as possibilidades se desgastam facilmente
no uso da existência
o recurso do sonho
o recurso do prazer
o recurso da indiferença
todos subterfúgios barrados na intrincadíssima peneira do real
mais real que qualquer realidade suposta
no entanto permanecer não é um recurso
é um imperativo de recusa à dissolução
na noite anônima e animal
porque o homem é a negação daquilo
que ele não é
cogito levantar do chão
se eu me agarrasse à aposta de Pascal
escolheria a existência de Deus
e momentaneamente teria um ganho infinito
mas o não - saber cai-me tão pesadamente
como uma fissura impede represar uma certeza
cuja única certeza é pôr-se eternamente em questão
como um homem é uma transitoriedade
no devir de todas as coisas
ah mas este momento e esta chuva
sim, esta chuva e este momento
nada os rouba mais de mim

AS MEMÓRIAS INVISÍVEIS ( Laís Araruna de Aquino )

 caminhas pelas estradas polvorentas da tua memória

recebes o vento pelas costas
algum sopro veio do mediterrâneo e tem a secura do deserto
pessoas cruzam e desaparecem para nunca mais
estás sob o sol asfixiante de junho à esquina da Calle Evangelista
ou passeias no Luxemburgo sob um guarda-chuva chinês
foi este ano ou o passado ou uma década atrás
(agora já contas as décadas)
mas os nomes traem as coisas
falta-lhes o excesso a mancha a impureza
os nomes têm a textura derruída da ausência
e a sua lâmina, uma ponta cega encardida pelo tempo
a Rua da Aurora no começo de uma tarde em agosto
não é a Rua da Aurora no começo de uma tarde em agosto
é também o teu ser precário sobre o Capiberibe veloz
e os quadros e arcos das pontes na extensão do azul
sem os nomes as coisas dormem no lago universal
do esquecimento e misturando-se às águas e às algas
destituem-se pouco a pouco como as margens de um rio
tragadas pela correnteza
chamá-las porém não lhes devolveria a face
(vulto que se perdeu ao virar a esquina)
cada coisa porém guarda o seu secreto nome
sob a arquitetura inviolável de um momento extinto

a poesia é – talvez – a tentativa de construir
para esse nome – uma esfinge à luz do dia

NOTURNO N. 3 ( Laís Araruna de Aquino )

 as nuvens estão baixas e cinzentas

como carvão queimado
a lua –
um pingente barato
ou, talvez, a coisa em si, satélite
não apareceu no firmamento
o céu está despovoado –
há no vento um presságio insignificante
quiçá, um barulho nos cômodos do apartamento
mas certamente não um chamado ou um embuste
tudo é excessivo para aquele que busca
colmatar as lacunas –
meu corpo está aberto como uma vala seca de rio,
exposta e indefesa aos vazios que a noite carrega
na transparência opaca das coisas
não chegaremos muito longe
todos os espelhos foram quebrados
desde o expurgo do último metafísico
nossos olhos piscam, confinados em arquiteturas
não virá a nave com que atravessaríamos
as veias escondidas deste breu
mas nunca se sabe a cadência dos meteoros
que podem riscar o céu
não esperes o fulgor de uma eternidade
de que não saberias o uso
a noite é este brilho interrompido –
para nós, que esperávamos a razão total
sob a glacialidade de uma estrela
mas é nesta noite – e não em outra maior
que nos cabe perceber a sua chama pura e inútil,
o seu afago tão largo como o vento,
ó morada transitória do sentido,
onde, por um momento apenas, nossos corações se acalentam
e depois se extraviam

ODE À MANHÃ ( Laís Araruna de Aquino )

a manhã levanta do horizonte

tenho vontade de escrever e a cabeça não dói

está nublado e chove um pouco como se

deus molhasse as pontas secas

do coração entrincheirado da véspera

 

ontem quando olhei o céu estrelado

só pude ver o vazio na cavidade do meu peito

mas a manhã veio como uma certeza e uma novidade

 

agora a água cessou, um hino se inicia

os pássaros dão glória e se lançam no azul

 

deus abre e fecha a sua obra

ou são os homens que esquecem a criação?

ao poeta cabe apanhar a luz do ser

e dar-lhe o cristal do nome, onde a imagem fulgura

e deixa-se permanecer como um estremecimento –

compete atentar para a anunciação,

os raios do sol quebrando numa geometria

concreta sobre a folhagem,

e deixar que a nossa alma se encha

de alegria ao crepúsculo, ao refluxo das águas

ou à chegada do sono após a exaustão

às vezes, lembramos nossos corpos imperfeitos

e sentimos exalar a tristeza da finitude

mas damos graças – ou deveríamos dar –

 

por ter acontecido de estarmos aqui

como um lampejo entre os dias e a noite,

entre um afeto e uma cicatriz,

entre Sêneca e Walser,

as flores do campo e o estio,

sendo por tudo tocados nesta alternância

e a tudo tocando

 

aconteceu de estarmos aqui,

neste instante fecundo,

salvo para sempre porque votado ao esquecimento e ao fim –

ao invés de vagarmos anonimamente e sem rumo

como a poeira eterna do universo

21/04/2026

A ESCRITA E A ETERNIDADE ( Eduarda Chiote ) in Órgãos Epistolares, Edições Afrontamento, Porto, 2010

 Contra o poder desagregador do corpo

da escrita,
não há realidade, por mais extrema,
capaz de superar
a certeza moral da sua
eternidade. As mãos da mulher permanecem, hoje,
apoiadas na
profunda névoa da
almofada.
No leito, soerguido, ela tenta ainda,
ainda,
uma vez mais, uma vez mais,
deixar-nos uma
mensagem.
Mas a caneta pende, frouxa, dos lírios
dos dedos
como se fora um leve descuido de vento aflorando
das mangas cumpridas
da camisa de noite.
Não sei se, de tão nus, estes
não conseguem mais pensar em fazer ouvir ideias
simples,
tais como as de um poema
poder ser (ou não)
o que o anula no silêncio do pó: ou se todos os seus
não terão contido «mais ciência
que virtude»: e não porque a profanação (e imperfeição)
da arte
lhes não tenha atravessado a discrição e gentileza,
mas porque os traumas,
as proibições,
as doenças,
a loucura,
a loucura, a loucura,
Sylvia,
foi, decerto, o que neles superou
o instante
em que o animal
se afastou – entendendo sermos
sob a terra penosamente
móveis
e mortais.

O MEU MAIOR MEDO ( Katerina Gógou ) Mudado para português por Maira Parula a partir da versão em inglês de G. Chalkiiadakis

 meu maior medo

é o de transformar-me em "uma poeta".
Ficar trancada no quarto
olhando o mar
e esquecer.
Medo de que os pontos em minhas veias cicatrizem
e que, em vez de ter uma vaga memória dos noticiários de TV,
eu passe a rabiscar papéis e vender meus "pontos de vista".
Medo de que os que passaram por cima de nós possam me aceitar
para poderem me usar.
Medo de que meus gritos virem um murmúrio
para fazer o meu povo dormir.
Medo de aprender a usar métrica e ritmo
e ficar presa dentro deles
ansiando que meus versos se tornem canções populares.
Medo de vir a comprar binóculos para ver de perto
as ações de sabotagem das quais não estarei participando.
Medo de cansar-me — uma presa fácil para padres e acadêmicos —
e com isso transformar-me em uma mulherzinha covarde
Eles têm seus métodos…
Podem utilizar a rotina com que nos acostumamos,
já nos transformaram em cães:
nos deram a vergonha por não trabalhar.
depois o orgulho por estarmos desempregados.
É assim que é.
Psiquiatras astutos e policiais deploráveis
esperam por nós nas esquinas.
Marx…
É outro medo
Eu não o esqueço também.
Esses filhos da puta … a culpa é toda deles.
Eu não consigo — merda — nem terminar de escrever isso
Talvez… hum?  talvez um outro dia…

HÓSPEDE (Carmem Ruiz Fleta) Traduzido para o português pela poeta, tradutora e professora Maria Soledade Santos

 Abri as portas da minha casa

as portas do meu tempo
as portas do meu nada
a um hóspede com joelhos de areia
que me traz o pequeno almoço à cama
e faz amor comigo usando as palavras remotas
de todos os degelos passados.

Nada de sério,
um clique da memória,
efémero,
uma aventura adolescente
que não imporá quarentena.
Um assobio de regresso
e voltarei alegre,
porque alegres são os reencontros
e até as melancolias.

O hóspede cheira ao tabaco preto
dos meses do pós-guerra
– espessa-me o sangue, causa trombos –
perfila sombras contra a minha luz.
Cheira a lúpulo e ao despertar de agosto,
adelgaça a cintura das minhas tardes
e incita-me a beijar os lábios do tempo.

Este meu hóspede parece-se tanto com a ausência
– carta timbrada na cidade que um poeta inventou –
que essa certeza me deixa vazia.
A minha casa.
O meu tempo.
O meu nada.

Por Cláudia R. Sampaio; in “A Primeira Urina da Manhã”, Douda Correria, Lisboa, 2015

 A malandrice chamou-me a atenção aos cinco anos,

quando escrevi as primeiras linhas.
«a minha mãe é loira de olhos azuis e eu gosto muito dela»
Comia-se marmelada com pão, não se varriam migalhas
que o tempo urgia em galgar.
De joelhos no chão esborrachavam-se formigas
e depois tinha-se pena e ia-se para casa em silêncio
punha-se um letreiro na porta a dizer «compram-se idosos»
mesmo que não fosse verdade
experimentavam-se línguas em bocas e andava-se à roda
literalmente
e os arrepios eram os primeiros coitos
e as interrupções eram miúdas
mijava-se em poesia, mesmo de cócoras
a solidão de domingo era água das pedras
e nem havia telefone para lhe tocar

O FUTURO? TEM ORELHAS ( Júlia de Carvalho Hansen ) in “Seiva Veneno Ou Fruto”, Editora Chão da Feira, Brasil, 2016

futuro? Tem orelhas,

mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.

Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa
furacão. Nunca adiado.

Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas
os observadores de saltos
os gatos também
aprendem certos truques com ele.

E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem-aventurados
que topam em pedras
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais
os cinco sentidos
e os sete buracos da cabeça.

COMO ALCANÇAR O PARAÍSO (Daiva Cepauskaite )Versão: Luís Parrado da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry S. Keys em 2008.

 Tens de ter coragem

para escrever um poema,
tens de ter coragem
para não escrever um poema,
tens de dizer olá
e adeus,
tens de tomar vitaminas,
tens de respeitar todas as pessoas
e amar apenas uma,
mesmo que ela não o mereça,
tens de sofrer silenciosamente
e de permanecer pacientemente em silêncio,
tens de estar em silêncio quando alguém fala
e de falar quando toda a gente fica em silêncio,
tens de deitar o lixo fora,
de regar as flores,
de pagar o gás e a água,
os erros e os sucessos,
tens de dar o coração
por um olho e um olho
pelos dentes,
não deves pedir nada
quando desejas tudo,
e exigir tudo
quando não desejas nada,
tens de adormecer a horas
e de acordar a horas,
de encontrar dois sapatos para o pé esquerdo
porque os outros dois são do pé direito,
não esperar que alguém regresse
ou deixe de regressar
só porque alguém está à espera,
tens de olhar para o céu
porque ele jamais olhará
para ti,
tens de morrer porque é assim,
mesmo que não o
mereças,
tens de escrever um poema
nascido do medo
entre “sim” e “não”,
vindo do “por quê”,
com “para quê”,
para ser “agradecido”,
mesmo quando
não o merece.

A PEDRA ( Maria Graciete Besse ) in “Olhar Fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996

pedra

conserva o perfume do homem
seu gesto de cristalização cíclica
em busca de uma verdade solar.

A pedra
respira a paixão do excesso
pássaros e curvas de plenitude feliz
instrumento do oráculo.

A pedra
sangra de lucidez aflita
restitui o cântico
inventa o poema
ávido silêncio mineral
onde gritam gestos pacientes.

A pedra
é andrógina figura
atravessada de veias e rumores
ondulação das formas mais puras
entre rigidez e harmonia

sexo de mármore aberto
aos lábios do vento.

20/04/2026

ORIGENS ( Sônia Barros ) in Mezzo Vôo; Nankin, São Paulo, 2007. Para Maria Aparecida Rangel Murbach

 1

Persigo o sonho
                    do vôo
desde sempre,
desde antes
de nascer.

Sobrevoava abismos e subia
rumo às nuvens
(bracinhos abertos)
                    no céu dos sonhos
de minha mãe:
mulher que não me gerou
mas amparou-me
                              na queda
e cultivou minhas asas.

Essa mulher da terra
também aprendeu
a alçar vôo.


2
Cidadezinha,
pracinha,
bibliotecazinha.
Dentro delas,
o castelo:
                       livro - asa
livro - água
nas mãos em concha
da menina lagarta que sonhava
borboletas cor-de-nuvem.

Quartinho
(penico, lamparina, espiriteira).
Dentro dele,
                                 estrelas
nasciam dos lábios cansados da mãe
— de olhos fechados pelo peso da lida —
                                 voavam
e enchiam a boca sedenta de asas
da menina
sempre acordada.

FIM DA LINHA ( Sônia Barros ) In Fios; Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2014

 O trem desapareceu,

nunca mais foi visto,
           só o apito percorre
           o trilho do ouvido,
vai e vem intermitente,
agulha a cerzir espaços,
           esgarçados lodaçais
           do esquecimento:
o ontem ressurgindo
no ritmo de espasmos,
           luz cortando sombras
           no túnel do pensamento,
ouvido inconsciente
de quem até hoje sente
           e carrega uma estação
           de trem por dentro.

CONSTATAÇÃO ( Sônia Barros ) In Fios; Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2014

 Descobriu sem tristeza

e, apesar de ter sentido
uma espécie de frio,
tampouco houve surpresa
no momento da descoberta:

não é a morte o pior verdugo,
com seus fios verde-musgo,
garras sob pele tenra,
hera primeva a esconder
no ventre o muro do fim;

carrasco a cavar na alma
maior ruína é a sina de ser só
- sol latente no coração da sombra -
que em nada se aproxima
do estado desejado de não ser.

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA ( Sônia Barros ) In Fios; Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 2014

 Além da pérola

na orelha da moça
de Vermeer,

o indevassável
desejo nos olhos:
sonho a arder.
Vermeer, Moça com Brinco de Pérola (1665-1666)

LUDO REAL ( Vinícius Cantuária & Chico Buarque )

 Que nobreza você tem

Que seus lábios são reais
Que seus olhos vão além
Que uma noite faz o bem
E nunca mais

Que salta de sonho em sonho
E não quebra telha
Que passa através do amor
E não se atrapalha
Que cruza o rio
E não se molha

18/04/2026

NO FUNDO ( Edgardo Xavier )

 Parou em ti o meu olhar de fome

a minha angústia, o insulto
o meu querer morrer quebrantado
para voltar como fúria ao teu ventre.

Tive vontade de tumulto
de álcool forte que assim me escorresse e lavasse
que me sujasse na força dos teus dedos
na inclemência de braços, pernas, unhas ou dentes
raiva nas bocas dormentes, tesão, ira, destruição
e o voo torpe em destinos de mau agouro
a dizer da queda, do fogo, do peso do céu
à beira da memória.

Veio de longe a morte soluçada
O galope das bestas na calçada
O derramar da sede nos socalcos da maré
e o subterrâneo gemer de ânsias
como se nos amassemos nesta noite
e não fossemos só destroços no fundo de um uivo.

17/04/2026

SOLSTÍCIO DE VERÃO ( Maíra Dal’ Maz ) in Vira Uma Pedra O Tempo - Patuá, São Paulo, 2024

 digamos que hoje é mesmo

o dia mais longo do ano
e que nele estou ajoelhada

é também o dia mais longo
da vida da vespa-do-figo
que vive somente um dia

o único objetivo dela
é entrar em um minúsculo jardim
despejar seus ovos e ali morrer

não é ironia para uma vespa
nascer e morrer
no dia mais longo do ano

ironia é eu nunca ter comido um figo
nem ter despejado ovos
nem ter morrido

digamos que eu queira saber qual é
exatamente
a minha função no organismo de Gaia

saberia dizer?