Amemos! Quero de amor
POÉTICA LEITURA
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
10/07/2026
AMOR ( Álvares de Azevedo )
O AMOR COMEU MEU NOME ( João Cabral de Melo Neto )
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu
GÉNESIS ( Jorge de Sena )
De mim não falo mais :não quero nada.
O CORPO NÃO ESPERA ( Jorge de Sena )
O corpo não espera. Não. Por nós
IN VITRO ( Tainá Vieira ) II Tomo das Bruxas: Corpo & Memória, Ed. TAUP. Curitiba- Brasil. 2024. Org.: Marta Cortezão
Acordei numa madrugada fria
gritando e suando ensandecida.
Não cria no que via:
um pote de vidro sobre a mesa
de madeira velha do porão,
lá estava meu filho,
envolto no cordão.
Rasgava-me
o peito
o ventre,
de dor
de fúria
de culpa.
Vi-me ali ferida, caída, vazia,
e um ser natimorto a me observar,
como se fosse a culpada
por sua vida não vingar.
Vi-me igual à Frida que
pintou esse sonho meu,
e eternizou nossos filhos
ela, na tela e eu, no papel.
ANTES DOS NOMES ( Pedro Casteleiro ) do livro “O Teu Corpo A Oriente e Ocidente”, 2017
Eras, minha senhora, um jardim do inverno
As tâmaras negadas a pássaros sem nome.
As fontes da fome.
4 ( Pedro Casteleiro ) do livro “O Teu Corpo A Oriente e Ocidente”, 2017
Atrás do Palácio
13 ( Pedro Casteleiro ) do livro “O Teu Corpo A Oriente e Ocidente”, 2017
Não posso na verdade te chamar
09/07/2026
OS TEUS PÉS ( Pablo Neruda )
Quando não posso olhar-te o rosto
olho-te os pés.
BALACLAVA ( Aline Cardoso )
Mãe é linha de frente,
peito nu em zona de guerra
VINGAR II ( Aline Cardoso )
Se há na língua, além do sentido
PRAÇA 22 DE NOVEMBRO ( Deise Assumpção )
forma prima esquartejada
Por Renata Flávia
desço a rua
OÁSIS ( Carlos Campos ) in Nuvem Que Passa Devagar, Col. A Água e a Sede; Modocromia, 2024
06/07/2026
SURDINA ( Cecília Meireles ) de Mar Absoluto (1945) in Obra Poética; Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1987
Quem toca piano sob a chuva,
JEANNE COM BLUSA BRANCA ( Graça Pires ) in Fui Quase Todas As Mulheres de Modigliani, Ed. Poética, Braga, 2017
Abri de par em par as portadas das janelas
GRAMÁTICA DA NOITE ( Laís Araruna de Aquino )
A noite desce inescrutável
as estrelas são efígies destituídas de rosto
no vento, sopram signos diáfanos,
arredios como serpentes não encantadas
em todo o horizonte, amontoa-se o espólio
da ausência, essa forma que toma
o que foi e o que não será e jaz
na vala entre as coisas circundantes e teu corpo
(na soleira do ser,
a vigência do nada espreita)
entre sombras sem substância,
o pensamento divaga como um bote
cujo laço foi rompido
mas, desde que a vida se recusou imaginada,
o drama se deslocou para trás do palco,
entre mecanismos e metalinguagem
o corcel trôpego do teu espírito
encontra espelhos que conduzem
ao claustro na noite larga
é preciso retornar à planície
dos fatos e dos homens, tendo acima os caminhos aéreos
que as correntes frias e as andorinhas traçam
sim, é preciso sempre retornar das torres
onde a loucura se refugia,
onde toda voz é um eco,
e o vento é um látego que fustiga
escuta o uivo doce das palmeiras,
o orvalho nascendo sobre as pétalas da grama,
sem esperar de deus o canto
os pilares da noite suportam todo o vazio,
deixando-te os ombros para o pouso
de mãos tênues e pássaros
desde que caíste no irremediável,
estás destinado ao nunca mais
abandona-te a este ofício –
respiras, logo dissipas
este sopro breve de vida
mas, sob a asa lépida do instante,
faz – demoradamente – a tua morada
AFLUENTES ( Daniela Galdino )
floresta de pelos
no travesseiro
colchão encardido
cílios flutuam
são polens
na manhã sem janela
pentelhos vagueiam
são fiapos
na procissão das formigas
(pausa doméstica)
ando farta
de comer o mundo
tenho festas
na esquina do silêncio
faço cestas
tranço fios de esquecimento
andas farto
de sorver os desencontros
cambaleias
na viela do receio
trazes mate
fazes combustão da dor
varar (n)a madrugada:
existir é rota de colisão
ARTE POÉTICA ( Adília Lopes ) in Um Jogo Bastante Perigoso,1985. In Caras Baratas Antologia Relógio d´água, 2004
Escrever um poema
05/07/2026
DEDOS E DEDOS ( Vasco Gato ) in Um Mover De Mão; Assírio & Alvim, 2000
ASTUTO ( Vânia Melo )
O Amor está arrumando um jeito
de morar em mim, no peito,
O amor não para, não avisa nem nada.
antes que se vista a melhor roupa,
o amor já fez tocaia,
o amor está pronto,
o amor me aguarda…
me benze,
se protege
e ataca.
EU TENHO ESCÁPULAS ( Maria Luiza Machado )
são ossos
ou músculos
ou cartilagens
– na verdade
eu não entendo nada
de anatomia –
que me parecem umas asas
nas costas
só descobri que as tinha
há algumas semanas
quando me atrevi
a me vasculhar
frente a um espelho
eu tenho medo de espelhos
os evito desde que
por causa deles achei
umas muitas linhas brancas na barriga
e furos enormes nas coxas
mas gostei de descobrir minhas asas
olho como se movimentam
dependendo do que faço com os braços
imagino agora qual forma
devem estar tento
enquanto escrevo sobre
meu reflexo
por tanto inominável
por tanto tempo nunca chamado
de
meu corpo







