04/02/2026

MIRAGEM ( Djavan )

 Com a mão de um desejo

Selvagem
Roubarei a seda
Que o beijo guardou
Só pra dar uma riqueza
Pro meu amor
Vivo por que te vejo
Miragem

Num lampejo de abelha
Fazendo o mel
Vou fazer no céu
Do teu carinho

Uma lã pro cio
Na certeza
De quem faz o vinho
Teu calor
Alucina
E a pleno rigor
Domina

Feito uma coisa
Que mata de prazer
Deixa ver
Se eu não morrer
Te quero de novo
Ando por onde vejo
Miragem
Um beijo passou por mim

MAL SECRETO ( Jards Macalé & Waly Salomão )

 Não choro

Meu segredo é que sou
Rapaz esforçado
Fico parado, calado, quieto
Não corro
Não choro
Não converso
Massacro meu medo
Mascaro minha dor
Já sei sofrer
Não preciso de gente
Que me oriente
Se você me pergunta:
Como vai?
Respondo sempre igual:
Tudo legal
Mas quando você vai embora
Movo meu rosto do espelho
Minha alma chora
Vejo o Rio de Janeiro
Comovo, não saldo, não mudo
Meu sujo olho vermelho
Não fico parado
Não fico calado
Não fico quieto
Corro, choro, converso e tudo mais
Jogo num verso
Intitulado o mal secreto

POEMA AO DESEJO ( Maria Teresa Horta )

 Empurra a tua espada

No meu ventre
Enterra-a devagar até o cimo

Que eu sinta de ti a queimadura
E a tua mordedura nos meus rins

Deixa depois que a tua boca
Desça
E me contorne as pernas de doçura

Ò meu amor a tua língua
Prende
Aquilo que desprende de loucura

VIOLÊNCIA ( Maria Teresa Horta )

 Ó secreta violência

Dos meus sentidos domados

Em mim parto
E em mim esqueço

Senhora do meu
Silêncio
Com tantos quartos fechados

Anoite e desguarneço
Despeço aquilo que
Faço

Ò semelhante e firmeza
Mulher doente de afagos

MULHERES ( Maria Teresa Horta )

 Há nas mulheres

O sono de uma ausência
Como uma faça aberta sobre os ombros
À qual a carne adere impaciente
Cicatrizando já durante o sono

E há também
o estar impaciente

calarmos impacientes
todo o corpo

Sorrir não devagar
Claramente
Lugares inventados sobre os olhos

E há ainda em nós
O estar presente
Diariamente calmas e seguras

Mulheres demasiado
Serenamente

Nas casas
Nas camas
E nas ruas

E como se toda esta herança
Não chegasse
Como se ainda quiséssemos aumentá-la

Fechamos os braços de cansaço
Como se da vida
Chegasse o inventá-la

E se do sono
Nos vem o esquecimento
Quantas insónias cansamos nós por dentro

NOITE ( Maria Teresa Horta )

 De noite só quero vestido

O tecido dos teus dedos
E sobre os ombros a franja
Do final dos cabelos

Sobre os seios quero
A marca
Do sinal dos teus dentes

E a vergasta dos teus
Lábios
A doer-me sobre o ventre

Nas pernas e no pescoço
Quero a pressão mais
Ardente

E da saliva o chicote
Da tua língua dormente

MEMÓRIA ( Maria Teresa Horta )

 Retenho com os meus

Dentes
A tua boca entreaberta

E as plantas das mãos
Dormentes
Resvalam brandas e certas

As tuas mãos no meu peito

E ao longo
Das minhas pernas

BONDADE ( Raquel Naveira )

 Sou mulher

E te prendo
Num visgo de mel,
Numa teia de aranha.

Sinto-me perversa,
Trágica fêmea
Que se nutre de teu sangue
Até a morte.

O dom que te prende a mim
Como uma algema de ouro,
Um elo encantado
Que te comove
É minha bondade:
Sou uma alma simples,
Em meus bosques sagrados
Bebes em fontes de cristal.

Meu sabor te agrada
Como licor de rosas,
A suavidade é um perfume
Em meu amplo jardim.

Pobre amado,
Te sacrificas por mim,
Novo Cristo
Crucificado em meus braços!

HABITADO ( Raquel Naveira )

 Tu me habitas

Como uma lâmpada acesa,
Um coração,
Um pássaro
E se ardo
Palpito
E canto
É porque estou em ti
E estás em mim.

Tu me habitas
Como um sopro,
Uma seiva,
Um segredo
E se arfo,
Floresço
E calo
É porque
Estás em mim
E estou em ti.

De tanto amá-lo
Transformo-me em ti
E em mim mesma,
Obedeço
A uma realidade
Que me habita
Rio subterrâneo
Que corre em minhas profundezas.

SOMENTE AMOR ( Valdenides Cabral de Araújo Dias )

 Deixa deitar-me em teu colo

E contar-te a minha saudade
Que voa de lá para cá
Sem rumo certo.
Atingindo cada ponto do meu corpo
Atravessando minha alma
Meus sentidos
Meus sonhos
Vencendo as distâncias
Vivendo em mim.

Deixa contar-te o meu desejo
Desdobrado em quilômetros
De retas e curvas
De subidas e descida
De frias madrugadas
Do desespero de tua sombra
Que se deita comigo na cama
E não me toca
Não me sente
Não me despe
Não me beija
Mas me tem
De corpo
E alma.

FLORAÇÃO ( Valdenides Cabral de Araújo Dias )

 Dentro de mim

Um anjo
Bate as asas
E se vai adentrando
Músculos, nervos,
Ossos, sangue,
Fincando a tal ponto,
Invisível,
Que o quê de mim,
Visível,
É lascivo,
Profano,
Puro gozo.

SEIOS ( Nathália de Sousa )

 Me fazem tanta vergonha

Esses meus seios safados.
Por qualquer rosto bonito
Eles ficam eriçados.
Quando se sentem soltinhos
Livres do meu sutiã,
Começam a ficar pontudos
Mas despertam na manhã.
Nas ruas, um olhar de homem
Olhar safado, guloso,
Deixa meus peitinhos doidos,
Sem sossego, sem repouso.
E na cama, nossa mãe!
Querem mil beijos, lambidas,
Não descasam um instante,
Me matam, feliz da vida.

CHANTILLY E FRAMBOESA ( Nathália de Sousa )

 O sabor do homem

Vai mais com chantilly.
Um pouco de creme no peito,
Outro no umbigo
E uma boa camada bem ali,
Onde as bocas femininas
Adoram festejar.
Já o corpo da mulher
Pede sabor de framboesa,
Calda vermelha escorrendo
Dos seios ao sexo em chamas.
São dois sabores fortes
Que me deixam insana.

PERDÃO ( Nathália de Sousa )

 Peço-te perdão, meu ex-marido,

Pelos adultérios que jamais confessei.
Mas quem resistiria?
O teu primo tinha os olhos verdes
E fazia descer rios de desejo
Que a barragem de minha calcinha
Não conseguia deter.
O oficial do Corpo de Bombeiros
Que me ofereceu uma carona
Do Centro a Copacabana,
Era lindo, lindo, e tinha um fogo
Capaz de incendiar a antiga Roma.
Houve outros deslizes, confesso,
Mas o melhor de todos, deslumbrante,
Foi com um fauno de 15 aninhos.
Divino. Belíssimo. Esbelto infante.

ODOR DE FÊMEA ( Nathália de Sousa )

 O homem pode me prender

Por pouco ou quase nada.
Se ele gosta do cheiro
De minha calcinha usada,
Pronto. Caio de quatro,
Apaixonada.

AURÉLIO ( Nathália de Sousa )

 Meu namorado Aurélio, lindo,

Que mexia muito bem com a língua
E com os meus pequenos lábios,
Dizia que cabaço era um fruto
Da família das bignoniáceas.
E que hímen, sem  nenhuma complacência,
– dizia ele, bem sacana, todo prosa –
Era o cabaço da irmandade religiosa.

AMOR NA TARDE ( Nathália de Sousa )

 Eu sinto uma atração especial,

Vaginal, por homens maduros.
Mais fantasiosos que concretos,
Mais maleáveis do que duros,
Eles me preenchem de palavras doces
Me fazem de menina sobre a cama,
Me querem com fardinha de colégio,
Me cercam de carinho e muitas tramas.
Não têm a pressa dos adolescentes,
Nem a arrogância do adulto macho.
Seus exercícios de língua são caminhos
Onde me perco, me procuro e me acho.

EU GOZO, SIM ( Nathália de Sousa )

 Gozo, sim, e digo sem medo.

Gozo no cinema, no metrô,
Onde eu estiver, aonde for.
Basta pensar no homem amado
Que enfiou em mim no sábado passado.
Gozo no pau, de virar o corpo, a alma
E a xota pelo avesso.
Se sou louca, não me lembro
Ou logo esqueço.
Gozo com os dedos há décadas,
Desde que uma menina
Chamada Nathália
Descobriu os rios de prazer
De sua genitália.

EXPLICAÇÃO ( Nathália de Sousa )

 Não, meu amor, não precisa

Explicar o que já sei.
Todo homem, algum dia,
Escravo, plebeu ou rei,
Não levanta, não esporra,
Não cumpre sua função
De derramar leite, gala,
Na visguenta escuridão
Que a mulher oferece
Depois de beijar, chupar.
Ah, o pior da broxada
É ouvir você explicar.

ÚLTIMO SONETO ( Graça Nascimento )

 Quando voei para longe de nós dois

Pra conjugar um “eu estou” sem “tu estás”
Eu decidi mesmo deixar tudo pra trás
Pois nosso amor com o meu sonho se indispôs

Acreditei que eras tão meu quanto era tua
Em poesia decantei todo teu ser
Vivi os sonhos que nunca sonhei viver
Me enchi de mar, de céu, estrelas e de lua

Mas ao sentir fragilidade no que davas
Quase morri vendo que pouco me amavas
E nos delírios dessa dor chorei por mim

Para curar então meu peito dolorido
Eu disse a ele que havia esquecido
E numa estória de amor escrevi FIM.

A ROLA DO MEU AMADO ( Graça Nascimento )

 Essa rola singular do meu amado

Tão igual e diferente das demais
Entra em mim com a sinfonia de alguns ais
Me mostrando o lado santo do pecado

Quando cresce no crescer da minha entrega
E endurece para entrar no paraíso
Abro as portas sem temor e sem juízo
E ao amor nada mais a vida nega

Sedutora e atrevida me domina
Dominada em meu poder que lhe fascina
Entra e sai até me ver cair vencida

No prazer de entregar e possuir
Num só ato a delicia de existir
Ao senti-la me regando com a vida

ROLANDO EM ROLAS ( Graça Nascimento )

 Cada uma com um quê particular

Todas foram num momento especiais
Nelas li as partituras colossais
De gemidos que espalhei por todo ar

Cada uma conseguiu me deflorar
Pois a todas dei momentos virginais
Umas menos, já outras tiveram mais
Conseguindo o que souberam conquistar

Uma a uma me levaram em viagens
Me mostrando nova cor novas paisagens
E deixando o meu caminho iluminado

Mas preciso confessar em poesia
Se eu pudesse todas elas trocaria
Pela rola singular do meu amado.