18/04/2026

NO FUNDO ( Edgardo Xavier )

 Parou em ti o meu olhar de fome

a minha angústia, o insulto
o meu querer morrer quebrantado
para voltar como fúria ao teu ventre.

Tive vontade de tumulto
de álcool forte que assim me escorresse e lavasse
que me sujasse na força dos teus dedos
na inclemência de braços, pernas, unhas ou dentes
raiva nas bocas dormentes, tesão, ira, destruição
e o voo torpe em destinos de mau agouro
a dizer da queda, do fogo, do peso do céu
à beira da memória.

Veio de longe a morte soluçada
O galope das bestas na calçada
O derramar da sede nos socalcos da maré
e o subterrâneo gemer de ânsias
como se nos amassemos nesta noite
e não fossemos só destroços no fundo de um uivo.

17/04/2026

SOLSTÍCIO DE VERÃO ( Maíra Dal’ Maz ) in Vira Uma Pedra O Tempo - Patuá, São Paulo, 2024

 digamos que hoje é mesmo

o dia mais longo do ano
e que nele estou ajoelhada

é também o dia mais longo
da vida da vespa-do-figo
que vive somente um dia

o único objetivo dela
é entrar em um minúsculo jardim
despejar seus ovos e ali morrer

não é ironia para uma vespa
nascer e morrer
no dia mais longo do ano

ironia é eu nunca ter comido um figo
nem ter despejado ovos
nem ter morrido

digamos que eu queira saber qual é
exatamente
a minha função no organismo de Gaia

saberia dizer?

LITHIUM ( Maíra Dal’ Maz ) in Vira Uma Pedra O Tempo - Patuá, São Paulo, 2024

 na envergadura de um pé de cana

uma pessoa observa
depois da chuva, as flores são brancas
isso é uma espécie de ilusão
por causa do contraste do verde com o resto
aquele verde que Belchior chorou
mas não era Belchior ali
naquele sonho, era noite
eu estava deitada também
no meio do canavial
vendo as estrelas
desde então, se vejo as flores brancas
da cana-de-açúcar
quero me deitar entre elas
esperar anoitecer
enfim chorar do lítio
todo o sal.

BARRAGEM ( Maíra Dal’ Maz ) in Vira Uma Pedra O Tempo - Patuá, São Paulo, 2024

 se arrependimento matasse

não precisaria me explicar
nunca mais. essa queimadura
o buraco na sua blusa
nunca mais o barulho que faz
a minha língua seca ao lembrar
e o choque de lembrar de tudo
o que você me disse
mesmo sendo uma só palavra
uma só palavra: aquela
que eu não disse, aquela que insiste
em conter a morte.

CORPOEMA ( Lívia Natália ) in Em Face dos Últimos Acontecimentos; Caramurê, Salvador, 2022

 Sou forte como as pedras

quando cedem às Águas.
Moldo-me no vento das substâncias,
nos silêncios que se desenham nas ondas.

Sou forte como as asas dos pássaros,
como as pernas delicadas de um flamingo:
sou aquela cor que lhe grita no corpo
algo desfeito de sutilezas.

Sou forte. Sou brava.
Mas me dobro em entranhas miúdas
e meu sangue é cheio de esperas,
como as minhas lágrimas.

Sou forte como aquela flor
que verga sob o vento grave.

Sou aquela flor que verga
para guardar no pólen
o seu futuro perfume.

UMA HISTÓRIA COM REFRÕES ( Adélia Prado ) in O Jardim das Oliveiras - Record, Rio de Janeiro, 2025

 Por causa da chuva,

a vida toma a presença
de quando eu era menina
e comia de tudo e muito.
O estômago satisfeito
gerava bons pensamentos.
Sentir medo era bom,
a mãe abraçava a gente,
oh! vida maravilhosa!
A oficina parava às quatro e meia,
o pai comia primeiro
pra tomar banho depois.
Tudo ainda por acontecer:
um puxado na casa,
trocar por tacos o piso de tijolos,
lamparinas por lâmpadas,
e, quem sabe, um rádio,
um ferro elétrico.
Oh! vida maravilhosa!
Ideias me beliscando
como piabinhas no córrego
beliscando-me as pernas,
meu noivo e eu nos contínhamos,
teria uma lua de mel para comer sozinha,
cartões nos felicitando,
caixas cheias de presentes.
Oh! vida maravilhosa!
Se cavasse bem
onde morava a Egita benzedeira,
encontraria uma botija estourando de ouro
e quando o menino nascesse
ia tremer de fascínio e medo
pelos cabritinhos que volta e meia
arrombavam a cerca da horta.
Eu imitaria minha mãe
abraçando ele com força:
Tonim, Tonim, é só um cabritim,
e o mel do amor escorreria
dos olhos pro coração.
Oh! vida maravilhosa!

VEROSSÍMIL ( Adélia Prado) in Poesia Reunida - Siciliano, 1991.

Antigamente, em maio, eu virava anjo.
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
'Canta alto, espevita as palavras bem'.
Eu levantava voo rua acima.



REGRESSO ( Alexandra Vieira de Almeida )

 A chuva se abriu em pétalas

a navegar no doce mar das ruas
Eu, alma nua
me entreabri no colo das ondas
firmemente convicta de sua volta
que teima em escapar como uma vaga noturna
As espumas entrechocavam-se com meus lábios
despertos na secura do árido deserto
O oásis se fez cama ardente dos sexos
na minha imaginação que se encontrava
com seu distante regresso 
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com os olhos cheios de lágrimas
Espero seu regresso 
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com seu distante regresso 
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com os olhos cheios de lágrimas 
Espero seu regresso
oração desfolhada que se atira
no riso de minha face molhada
Regresso, ao inverso
no inverno de meu verso.

TODO AMOR ( Marina V. Medeiros )

 Todo amor é imenso

todo amor é insano
todo amor emociona
e faz verter lágrimas de felicidade.
Todo amor é dádiva
todo amor promove desejos
todo amor é único.
Esse nosso amor
é tudo isso e mais alguma coisa.
Pedi a Ele que fizesse
desse nosso amor
um amor infinito.

O AMOR EM LINGUAGEM DE COMPUTADOR (versão 2)(Maria Carlos Loureiro)Acasos e Mistérios, Quetzal Ed, 1998-Lisboa, Portugal.

 Percorro com os dedos o teclado

e acaricio nele a tua pele
que imagino morena e macia.

Envolvo com o olhar o monitor aceso
e aprocuro aí os teus olhos
que suponho escuros e ardentes.

Passeio com o rato no tapete
e sinto os teus lábios no meu corpo,
vagarosamente deslizando
e deixando nele o sabor que imagino em ti.

SILÊNCIO ( Juana de Ibarbourou ) Tradução de Hector Zanetti

 Minha casa tão longe do mar.

Minha vida tão lenta e cansada.
Quem me dera deter-me a sonhar!
Uma noite de lua na praia!
Morder musgos avermelhados e ácidos
E ter por fresquíssimo travesseiro
Um montão dessas curvas pedras
Que há polido o sal das águas.
Dar o corpo aos ventos sem nome
Abaixo o arco do céu profundo
E ser toda uma noite, silêncio,
No vazio ruidoso do mundo.

A HORA ( Juana de Ibarbourou ) Tradução de Maria Teresa Almeida Pina

 Toma-me agora que ainda é cedo

e que levo dálias novas na mão.

Toma-me agora que ainda é sombria
esta taciturna cabeleira minha.

Agora que tenho a carne cheirosa
e os olhos limpos e a pele de rosa.

Agora que calça minha planta ligeira
a sandália viva da primavera.

Agora que em meus lábios repica o sorriso
como um sino sacudido às pressas.

Depois… oh, eu sei
que já nada disto mais tarde terei!

Que então inútil será teu desejo,
como oferenda posta sobre um mausoléu.

Toma-me agora que ainda é cedo
e que tenho rica de nardos a mão!

Hoje, e não mais tarde. Antes que anoiteça
e se torne murcha a corola fresca.

Hoje, e não amanhã. Oh amante! Não vês
que a trepadeira crescerá cipreste?

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL ( Cristina Peri Rossi ) Tradução de Maria Teresa Almeida Pina

 Se fosse analfabeta

aprenderia em teu corpo
a ler com códigos
que têm os pássaros
com códigos que têm as águas
e o abecedário transparente
de tua nudez
forma da luz
refletida no espelho
– xadrez escuro -.

POEMA ( Louise Labé ) Tradução de Sérgio Duarte

 Belos olhos que fingem não me ver

Mornos suspiros, lágrimas jorradas
Tantas noite em vão desperdiçadas
Tantos dias que em vão vi renascer;

Queixas febris, vontades obstinadas
Tempo perdido, penas sem dizer,
Mil mortes me aguardando em mil ciladas
Que o destino me armou por me perder.

Risos, fronte, cabelos, mãos e dedos
Viola, alaúde, voz que diz segredos
À fêmea em cujo peito a chama nasce!

E quanto mais me queima, mas lamento
Que desse fogo que arde tão violento
Nem uma só fagulha te alcançasse.

CHUVA ( Ribeiro Couto) Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960

 A chuva fina molha a paisagem lá fora.

O dia está cinzento e longo. Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora.
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta.
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria.

Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando.

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia.

I (2) ( Luíza Mendes Furia ) In Vênus em Escorpião - Patuá, São Paulo, 2016

 Abandonei o tempo dos limites.

É do infinito que a alma mais tem fome.

A vida tece a urdidura do avesso
E é de loucura que o corpo se sacia.

Minha paixão não teme estes abismos.
O que se busca é nesta névoa que se oculta.

CANÇÃO ( Cecília Meireles ) in Viagem; 1939

 Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e minhas duas mãos quebradas.

BALADA DAS DEZ BAILARINAS DO CASSINO ( Cecília Meireles ) in Retrato Natural; 1949

 Dez bailarinas deslizam

por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores,
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

As dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

MELANCOLIA ( Henriqueta Lisboa ) in A Face Lívida: poesia, 1945.

 Água negra

negros bordes
poço negro
com flor.

Água turva
densa escuma
turvo limo
com flor.

Noite espessa
sem lanterna
espesso poço
com flor.

sobra, corpo
de serpente
na oferenda
da flor

Risco de morte
violenta,
árdua morte
de asfixia
veneno letal
fatal
quase que puro
suicídio
com uma
lenta
lenta
flor.

SERENA ( Henriqueta Lisboa ) in Velário; 1936.

 Essa ternura grave

que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavi-
dade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levi-
tação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.
 

A MENINA SELVAGEM ( Henriqueta Lisboa ) in livro Lírica; 1958. Poema integrante da série O Menino Poeta, 1939/1941

 Para Ângela Maria

A menina selvagem veio da aurora

acompanhada de pássaros,
estrelas - marinhas
e seixos.
Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.
A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Oferecei bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

OS LÍRIOS ( Henriqueta Lisboa ) in A Face Lívida; 1945

 Certa madrugada fria

irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranqüila.

Por Marilia Cafe

 fio do risco do sol

cega mormaço seu movimento

canto de olho desfoca lume

dentro tudo se aparelha

corpo batuque proposital

desejo de segundo corpo

transposição de tessitura

borboletas se divertindo

composição mágica do cérebro

órgãos e suas músicas naturais.

CAFÉ (Jorge Ben Jor )

 Meu amor meu amor

Me faz um cafezinho
Com aroma e com carinho
Meu amor meu amor
Me dá um cafezinho
Com açúcar e com beijinhos
Café!
O preto que virou ouro
Nas terras do Salgueiro
Em 1727 um nobre
Chamado Palheta
Trouxe a cultura do café
Para o Brasil
Depois vieram os barões
do café
Um cartel que mandava
Queimava, jogava fora
Mas não dava

O preto que virou ouro
Nas terras do Salgueiro
Uma infusão feita com a semente
Torrada e moída
Contém cafeína e proteína
Planta maravilhosa e
Originária da Etiópia
E abissínia Abissínia
Etiópia Etiópia
Quem vai querer
Quem vai querer
Quem vai querer
Café

14/04/2026

ESCRITA E LIBERDADE ( Maria de Fátima Ferreira Rodrigues )

 Quando teus exércitos chegaram

A escrita estava pronta
A estrada estava dada
Sem temor
se fez a história
Não há prisões para a palavra
Ela canta, ela voa, ela sangra
Na palavra me faço e me refaço
Na escrita perdôo, crio e transbordo!
A palavra liberta !

Por Priscila Faria; in Nesse Corpo de Água Doce

 há penas mais pesadas que as dadas nos cárceres

penas que somente por nós podem ser pagas

asas amarradas, que só encontram liberdade

com o peso de uma pena na mão

 

na minha insustentável leveza

eu sinto

tudo o tempo todo

me toca

sinto muito

eu voo

TAPUIA ( Raul Bopp apud Mário da Silva Brito ) in Poesia do Modernismo, 1968.

 

As florestas ergueram braços peludos para esconder-te

com ciúmes do sol.

E a tua carne triste se desabotoa nos seios,

recém-chegados do fundo das selvas.

Pararam no teu olhar as noites da Amazônia, mornas e imensas.

No teu corpo longo

ficou dormindo a sombra das cinco estrelas do Cruzeiro.

O mato acorda no teu sangue

sonhos de tribos desaparecidas

– filha de raças anônimas

que se misturaram em grandes adultérios!

E erras sem rumo assim, pelas beiras do rio,

que teus antepassados te deixaram de herança.

O vento desarruma os teus cabelos soltos

e modela um vestido na intimidade do teu corpo exato.

À noite o rio te chama

e então te entregas à água preguiçosamente,

como uma flor selvagem

ante a curiosidade das estrelas.

Por Priscila Faria; in Nesse Corpo de Água Doce

 eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos

que veja a beleza desfocada

quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia

que abrace a menina, penetre a mulher

quero a palavra perfurante

na garganta

a palavra que treme e vibra e contrai

a palavra da água da morte do medo do fim

eu quero a palavra engasgada

sem fôlego, sem batimentos, sem culpa

quero a palavra mapa, procura e dedos

a palavra sem ida e sem volta

que se contradiga

a palavra descrente da verdade do agora

eu quero uma palavra que é tudo

e que não sabe de nada

quero a palavra que reinvente a vida

materialidade fina e transcendente

do meu gozo, num único verbete

uma fogueira, um altar, a porta

do céu ou do inferno

eu quero a palavra muda

a palavra que desnude a poesia

eu quero o milagre do verso

porque meu sexo não sabe ser escrito

13/04/2026

FLOR DE TANGERINA ( Alceu Valença )

 Hoje eu sonhei que ela voltava

E vinha muito mais que linda
À meia-luz me acordava
Cheirando à flor de tangerina

Eu lhe amava e mergulhava
No seu olhar de onça-menina
E docemente me afogava
Em suas águas cristalinas

Depois sonhei que ela voltava
E dessa vez bem mais que linda
À meia-luz me afagava
E sua pele era tão fina
Quando acordei, meu bem chegava
Seria onça ou menina?
Chegar assim, de madrugada
Cheirando à flor de tangerina
Cheirando à flor

BORBOLETA ( Alceu Valença )

 Ela é uma borboleta

Pequenina e feiticeira
Anda no meio da noite
Procurando quem lhe queira

Minha camisa
Foi manchada de vermelho
Tem um beijo desbotado
De batom ou de carmim

E a feiticeira
Tem a boca encarnada
Um beijo e uma dentada
Sempre guardados pra mim

Ai, feiticeira
Tem a boca encarnada
Um beijo e uma dentada
Sempre guardados pra mim

Feiticeira
Feiticeira

Um beijo e uma dentada
Sempre guardados pra mim
Eu procuro a borboleta
Feiticeira descarada
Pelo batom na camisa
Pela marca da dentada

Tem um beijo e uma dentada
Sempre guardados pra mim

11/04/2026

O QUE SERÁ ( À FLOR DA PELE ) ( Chico Buarque )

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
E nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo