25/05/2026

KIZOMBA, FESTA DA RAÇA ( Jonas Rodrigues, Luiz Carlos da Vila, Rodolpho da Vila )

 Valeu Zumbi

O grito forte dos Palmares
Que correu terras, céus e mares
Influenciando a Abolição

Zumbi valeu
Hoje a Vila é Kizomba
É batuque, canto e dança
Jongo e Maracatu

Vem, menininha, pra dançar o Caxambu

Ô ô nega mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ô ô Clementina
O pagode é o partido popular

Sacerdote ergue a taça
Convocando toda a massa
Nesse evento que com graça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção

Esta Kizomba é nossa constituição

Que magia
Reza ageum e Orixá
Tem a força da Cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais
E a beleza pura dos seus rituais

Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o Apartheid se destrua

24/05/2026

Por Célia Moura; poesia inédita, 2026

 Ausento-me

Nas palavras interditas
Como se morresse
À margem de um voo de ave.

Trago nos olhos
A platina do silêncio
Quando todos os gritos
Se exilaram no imenso areal.

Busco incessantemente a chave que deixaste
Junto à foz das palavras
Que nunca ousaste.

Só meus cabelos,
Jazigos de pequenitas conchas,
Inquietos, permanecem vida
No ventre do desassossego
Deliciando-me na enseada
Onde ousadamente fomos tudo que inventámos
Gargalhando esta alegria que sinto
Por ser criança.

OPÇÃO ( Alberto Bresciani ) In Sem Passagem para Barcelona - José Olympio, Rio de Janeiro, 2015

 Arquitetos adotam a transparência

como regra e matéria-prima
cobrem as cidades com casas de vidro
quase tudo se sabe
de lado a lado

é livre a visão
do peito rasgado
da luz que se apaga
dois gatos à espera
papilas que exultam

(o verbo esconder resseca
as coordenadas abertas)

há até quem prefira
vender suas vestes
e assim exposto
no ventre da urbana vitrine
apenas estar
em linha reta

outros rezam
pelo final das tempestades
ou pelo tiro na testa

SORTE ( Alberto Bresciani ) In Sem Passagem para Barcelona - José Olympio, Rio de Janeiro, 2015

 O destino não nos pertence

nem a deuses runas
ou a leitoras de entranhas

A nudez e a tardia
indisciplina dos corpos
inutilmente perseguem a luz

Como agora
arriscar as veias?
Onde se apaga
o vazio?

Soube de búfalos
que trocam o cansaço
pela própria morte

JÁ NÃO HÁ DOMINGOS ( Mia Couto )

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BANCOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.

 a despeito de todas as precauções em depositar no lugar

apropriado tudo aquilo que lhe pareceu suspeito (óculos,
celular, chaves), o autoritário equipamento detector de metais
dispara. a cidadã é barrada à entrada do recinto destinado aos
deuses protetores dos juros e dos índices bovespa e dow jones.
espoliada de sua dignidade, a humilhada ré descobre que um
prosaico batom esquecido na bolsa fora o causador do suposto
atentado. finalmente liberada, resta ainda enfrentar os olhares
em fila, irados pela demora e que, ato contínuo, despem-se de
seus pertences, rumo à esperança da própria liberação

BECOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.

 quem tem caminho reto não se mete em vereda, aconselhava-

me a mãe, o medo do sobressalto a escorrer do afeto, sem
saber que as descobertas se revelam apenas no entrecruzar do
caminho e a conquista à saída do labirinto

os becos e seus inocentes nomes de santos não atendem à
demanda de mercado, insignificantes artérias esquecidas,
deixam que a cidade cresça ao seu redor e ficam ali, pulsantes
e vingados, tênues sopros de resistência e muda contestação,
negação ao gigantismo, sedução para o não cumprimento do
conselho

DIAS DE IRA ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.

Ira furor brevis est
(Horácio)
No furor mais insano

dos ardores intensos

a marca da traição

: revoltos sentidos


Nos braços da ira

a lava das palavras

tatua impropérios

: inesperada queimadura

(por fim)

Compaixão e ungüentos

compressas frias

gestos de paz

: ardências já cinzas

DO AMOR E SEUS SILÊNCIOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.

 No destempero e ardências

da fúria inaugural
a palavra sem proveito
(verbalização de corpos)

No rito já maturado
do caminho reconhecido
a muda comunhão
(frêmito de carne e espírito)

Urgências mitigadas
os silêncios primordiais
já agora interpretáveis
(epifania outonal)

GAIVOTA ( Cecília Lara )

 aprendi com Prado a escrever uma parte do meu dia

[para chorar.
há pouco o pranto foi intenso
estava chovendo muito, mas insisto
que a água na varanda era salgada, portanto,
de pranto, e não de chuva,
fui tirar a água com um balde
e estava gostando de ficar descalça
com água pelas canelas
quando inesperadamente senti o cheiro
da casa da minha vó.
imaginei que ele estivesse comigo.
por algum motivo saíra de seu sono de raízes
e achara importante me visitar.
perguntei: veio pra ajudar ou pra julgar?
ela disse: ajudar. Vim te contar um segredo
pois diga.
você não é uma mulher. Você é uma gaivota.
e acariciou minhas penas, e alisou meu bico fino.

Por Carla Andrade

 Ela gosta do inesperado.

Por isso anda distraída

Pela vida.

De vez em quando tropeça em cadarços… e cai.

De vez em quando tropeça em amores… e voa!

22/05/2026

O PECADO DO RIO (Mia Couto) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresent. de José Castello. Cia. das Letras, SP, 2016

 Na igreja,

Rosarinho se confessou:
engravidei do rio, senhor padre.

Com gesto de água
arredondou o ventre.

O padre
se enrugou:
ela que não usasse desculpa
para os seus mortais pecados.

A ofensa tremia
na voz dela quando retorquiu:
— Desculpe, padre,
mas Nossa Senhora
não emprenhou de um feixe de luz?

Para mais, acrescentou Rosarinho,
o senhor padre
nem nunca, nem jamais viu esse rio.

E rematou
com lânguida saudade: aquele ondear,
as tonturas que ele traz...

Pegou o padre pela mão
e o convidou a descer o vale.

Agora,
todas as noites
o padre se banha
nas águas do rio pecador.

MULHER ( Mia Couto ) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresentação de José Castello. Cia. das Letras, São Paulo, 2016

 Solteira, chorei.


Casada, já nem lágrima tive.

Viúva, perdi olhos
para tristezas.

O destino da mulher
é esquecer-se de ser.

AVESSO BÍBLICO ( Mia Couto ) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresent. de José Castello. Cia. das Letras, SP, 2016

 No início,

já havia tudo.

Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.

Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.

Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.

E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.

Estava criado o Homem.

Por Célia Moura, in Terra De Lavra


Escrevo-te meu amor
com o sangue que fiz jorrar deste ventre inútil
mutilando-me como quem abomina rosas,
achando-as belas,
como se um dia tivesse tido um magnífico jardim
de onde se esbanjassem pétalas, flores, árvores
mel e canela.
Desabitei-me
quando dei por mim era apenas sangue, Tchaikovsky
e a criança que abandonaram a meio da estrada.
Perdoa-me!
Talvez um dia eu retorne em forma de mar
e te faça baloiçar,
ou enquanto condor
só para te fazer voar.
Se te escrevo ainda meu amor
e te trago meus olhos rasgados de lágrimas,
ventre mutilado de facas
é para te dizer o rumo das flores.
Irei no borbulhar das fontes.

21/05/2026

MINHA MÃE DIZ ( Diva Cunha ) do livro Canto de Página

 Minha mãe diz

que eu sou da pá virada
a da vida torta

os modelos dela são outros:
santa terezinha do menino Jesus
santa rita de cássia
santas

fora as santas domésticas
que foram sacrificadas
no dia a dia
e ninguém viu
sangradas como galinhas
maceradas em vinha d’alhos
postas a dormir no sereno
para secar odores
enfurnadas como bananas verdes
esfregadas nos ladrilhos
claros dos banheiros
costuradas em botões de quatro furos
esbofeteadas e sacudidas
como colchões e almofadas
para desprender o pó das horas

secaram todas
nos linhos brancos
dos lençóis bordados
ao morrer, não morreram
entregaram a alma a deus,
que provavelmente não as perdoou
pelo gasto inútil
que fizeram dos seus talentos."

CERTAS MULHERES ( Diva Cunha )

 Certas mulheres catam coisas pequeninas

conchas, feijões, letras

outras distraem-se nos espelhos

contam rugas

algumas contam nuvens

criam cachorros e gatos como crianças

certas mulheres guardam mágoas

ressentimentos, botões, elásticos

algumas são como certos homens

não contam nada

ocupadas com coisas incontáveis.

POEMA DA AMANTE ( Adalgisa Nery )

 Eu te amo

Antes e depois de todos os acontecimentos

Na profunda imensidade do vazio

E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo

Em todos os ventos que cantam,

Em todas as sombras que choram,

Na extensão infinita dos tempos

Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo

Em todas as transformações da vida,

Em todos os caminhos do medo,

Na angústia da vontade perdida

E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo

Em tudo que estás presente,

No olhar dos astros que te alcançam

E em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo

Desde a criação das águas, desde a idéia do fogo

E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente

Desde a grande nebulosa

Até depois que o universo cair sobre mim

Suavemente.

OS ERROS ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in O Nome das Coisas

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

 

DE UM AMOR MORTO ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in "Geografia"

 De um amor morto fica

Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora

18/05/2026

ESTA MANHÃ O SILÊNCIO ( João Ricardo Lopes ) De Em Nome da Luz, 2022

 esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,

trepou as travincas, as teias altas, as cérceas geladas
e atravessou a pedra, o cimento, as fissuras, o próprio ar

sou agora toda a minha vida, o meu destino

e a casa estremeceu
e as palavras – ferro congelado –
doeram nas mãos

ANOITECE ( João Ricardo Lopes ) De A Pedra Que Chora Como Palavras, 2001


anoitece
talvez sejas o mar e
eu vá descendo pelas pernas
azuis do teu corpo, como
a bola de fogo que se introduz mais dentro
nas linhas demasiadas do caderno
ou nos recônditos músculos
do oceano

16/05/2026

RESIDÊNCIA ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Regressarás pela ladeira velha

sem aviso.
Será como ontem, ao entardecer:
remoto, repentino, o assobio.
E no caminho, um soluço de festa
derramado.

A luz será húmida
a chuva íntima
sobre a marca dos teus pés.
Dedo a dedo, folha a folha
tocarás os cheiros
os sortilégios do quintal –
o limoeiro anão da avó
o decrépito izaquenteiro
o ocá assombradíssimo
o kimi torto
e à entrada, no barro gravado,
o fantasma do bode branco.
O degrau há - de ranger ao primeiro passo.
Subirás devagar, concreto
sem pisar a tábua solta no soalho.
A porta estará aberta, a tocha acesa.

OS HERÓIS ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Na raiz da praça

sob o mastro
ossos visíveis, severos, palpitam.
Pássaros em pânico derrubam trombetas
recuam em silêncio as estátuas
para paisagens longínquas.
Os mortos que morreram sem perguntas
regressam devagar de olhos abertos
indagando por suas asas crucificadas

O ANEL DAS FOLHAS ( Conceição Lima ) no livro "A Dolorosa Raiz do Micondó". São Paulo: Geração Editorial, 2012.

 Viviam plantas, viviam troncos, viviam sapos

vivia a escada, vivia a mesa, a voz dos pratos
um untueiro em tamanho maior que tudo
fruteiras em permanente parto de gordos frutos
palpáveis, acessíveis, incansáveis limoeiros
makêkês, beringelas, pega - latos
verdes kimis, ali dormiam longos swá - swás
e ido-ido era a montanha cheia de espinhos
onde os morcegos iam cair no kapwelé.

O micondó era a força parada e recuada
escutava segredos, era soturno, era a fronteira
e tinha frutos que baloiçavam, baloiçavam
nunca paravam de baloiçar. 

Não havia horas, ninguém tinha pressa
senão minha mãe
E eu amava na doce vénia dos canaviais
o restolhar de verdes folhas e ondas mansas.

As viuvinhas e pirikitos e keblankanás
- que eu rastejava para agarrar -
erguiam então um alarido de asas e chilreios.
E o mundo voava, o mundo era alto, o mundo era alado.

As borboletas que nada faziam, que só passeavam
tinham guache nas asas, tinham asas, eram lassas
e nada faziam, nada faziam, só passeavam.

Quando eu fugia com as borboletas
Quando eu voava com as viuvinhas
e me perdia nos canaviais
minha mãe, a voz, descia as escadas
aberta como uma rede.

ÁGUA GRANDE ( Conceição Lima ) no livro "Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico". Edição Autora, 2015.

 Falo-te agora de um rio em mim nascente

Lodo e agrião, ondas mansas em corrente
Um rio recôndito como o coração da ilha.

Água Grande não tão Congo não tão Nilo
Água Grande sem canoas sem regatas
apenas rio
Cumprindo no mar seu destino de água.

Mas tu que conheces todas as cidades
Tu de tantos rios peregrino habitante
Não conheces o rosto da minha cidade
Não conheces o rio no corpo da minha
cidade.

Água Grande além de todas as viagens
Rio apenas, irmão de todos os rios.

VIM PARA ACENDER O TEU NOME ( Conceição Lima ) no livro "Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico". Edição Autora, 2015.

 Vim para acender o teu nome

nas pálpebras do poema.
O teu nome em excesso e carência
geminado
na atónita face de cansados deuses.

Mas a multidão cavalga o dorso
de díspares caminhos
E alguém em mim pergunta pelos
antepassados.

Regresso do fundo da memória
e do esquecimento.

A CASA ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Aqui projectei a minha casa:

alta, perpétua, de pedra e claridade.
O bsalto negro, poros
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
da cor dos ibiscos
para o telhado.

Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem tranca nos caminhos.

Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar –
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul.
E reinvento em cada rosto fio
a fio

as linhas inacabadas do projecto

A HERANÇA ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Sei que buscas ainda

o secreto fulgor dos dias
anunciados.
Nada do que te recusam
devora em ti
a memória dos passos calcinados.
É tua casa este exílio
este assombro esta ira.
Tuas as horas dissipadas
o hostil presságio
a herança saqueada.
Quase nada.
Mas quando direito e lúgubre
marchas ao longo da Baía
um clamor antigo
um rumor de promessa
atormenta a Cidade.
A mesma praia te aguarda
com seu ventre de fruta e de carícia
seu silêncio de espanto e de carência.
Começarás de novo, insone
com mãos de húmus e basalto
como quem reescreve uma longa profecia