03/02/2026

INERME ( Maiara Gouveia ) in O silêncio Encantado

 depois de tudo, a cintura entre os dedos

absorvo o silêncio encantado

ela ainda pulsa, não entende,
quando calado sorvo todo encantamento

porque a palavra nesse instante é vã
e a resposta no suor desfalecido
é, sem dúvida, mais válida

— deixa o corpo descansar sorrindo
deixa o silêncio ecoar bebendo
a rosa cálida de sabor divino

mas ela, aflita, pousa em mim uma vontade
ainda tesa e retesada e até no rosto
a vontade repetida reitera.

UM LITIOKÓ ( Maiara Gouveia ) in O silêncio Encantado

 Suponhamos,

você me convence
de que eu devo levantar
a blusa, só um pouquinho, pra você
encostar de leve a língua em meu umbigo
e ver a pele molhadinha só um pouquinho, só um
pouquinho, não é mesmo? Então, seguindo esse raciocínio,
apertando-me a cintura até eu perder o tino, esfregava a barba no
meu rosto e o corpo bruto contra o ventre amolecido, mordia o pescocinho,
murmurava na orelhinha uns segredinhos devassos, enquanto seu torso imponente
comprimindo minha barriguinha; assim, naturalmente, gozava na minha cara e depois dormia?

Suponhamos, no entanto, que eu prefira vê-lo de joelhos. E ordene: de joelhos! Agora vá
beijando meus pés até que eu mande você parar; mas antes, grite: “minha deusa, minha
deusa!” implorando complacência, depois deite. Pra que eu possa encaixar o meu
quadril no seu e cavalgar, enquanto falo sobre o quanto foder com outro
homem, nesse instante, poderia ser igualmente bom, ou até melhor,
dando uns tapas na sua cara engraçada, cheia de espanto, e, de
repente, te fizesse com os
dedos tudo o que um
homem não pode
fazer com o
membro.

SEGUNDA ELEGIA (em três cantos) ( Maiara Gouveia ) in O silêncio Encantado

 I. pesadelo

miares sinistros:
gatos pardos passeiam
entre os cacos do telhado

caem ríspidas,
como um golpe de navalha
folhas escuras sobre a pele

a noite
quebrou-se em sombras,
nacos de alma em carne viva

nenhum súbito ímpeto
relampeja entre as nuvens
maciças de cinza sujo

II. sonho

a sala ampla e arejada,
o frescor das tardes de primavera:

um vestido leve de seda pura
em tons pastéis, o breve baile
entre beijos suaves

lá fora,
o sol estende-se em estupendo lençol
feito uma plantação de laranjas

lá dentro,
as cores do vestido parecem mais quentes,
lampejo de corpos, fagulhas de vida

III. despertar

na flor da pele
a alma na boca
o sangue de orvalho

INERME DESENCANTO ( Maiara Gouveia ) in De Pleno Deserto

 depois de tudo, a cintura entre os dedos

absorvo o silêncio encantado

 

ela ainda pulsa, não entende,

quando calado sorvo todo encantamento

 

porque a palavra nesse instante é vã,

e a resposta no suor desfalecido

é, sem dúvida, mais válida

 

— deixa o corpo descansar sorrindo

deixa o silêncio ecoar bebendo

a rosa cálida de sabor divino

 

mas ela, aflita, pousa em mim uma vontade

ainda tesa e retesada e até no rosto

a vontade repetida reitera.

A MORTE CANTA. O CORPO SONHA. ( Maiara Gouveia ) in De Pleno Deserto

 Horas em chamas

Bebe a chama escura das horas,
o sangue do tempo.
Deita na sombra que estiola
no corpo sedento.

Cada segundo é uma porta aberta
Vejo seu dorso.
Quero tapar todas as frestas.
Mas você foge entre os dedos, nos seios,
no meio das pernas.

Enquanto a morte canta
Esse sopro de gelo na espinha é a morte que canta:
Não se retém o amor na concha das mãos.
Não se retém.
O amor, não se retém. Fica.
Enquanto puder.

O corpo sonha
Não vive a despedida com afinco.
Mas suga o primeiro pasmo até a última gota.

Há tanto mistério a ser capturado em pleno dia.
Há tanta noite umedecida no sonho do corpo.

NO SUMIDOURO ( Maiara Gouveia )

 Ao redor do quarto

migra um cortejo de aves. Não vemos
pois estamos fechados.

Ao redor do quarto
      um barco repousa em um mar sem ondas. Não vemos
pois estamos partindo.

Ao redor do quarto
baleias abertas e peixes mortos cobrem a angra. Não vemos
pois estamos sangrando.

Porque estamos sozinhos não vemos
suicidas engolfados nas brânquias tóxicas
dos cardumes. Não vemos

a morte solitária dos corais. Não vemos
a embarcação vazia permanecer
no silêncio das águas. Não vemos:

      pois estamos no escuro.

Por Hilda Hilst - in De Ode Fragmentária, 1961.

 O cavalo no vale.

E mais além
O meu olhar mais verde do que o vale
E claro de esperança
E querer bem.

O vento no capim.
O vermelho cansado deste outono.
Os roseirais em mim.
E tudo me parece
Tão tranquilo e leve.

E com muito cuidado
Como quem tem na mão a flor e o quadro

Espero que a paisagem desta tarde

Adormeça
O cavalo no vale
O vento no capim
Os roseirais em mim.

02/02/2026

LEUSEMYA ( Myriam Fraga )

 Aos poucos, devagar,

Como sombras na tarde,
Um arrepio breve, um espasmo.
Sutil e lânguido sob a pele

Escorre em minhas veias
Onde os dentes do tempo desenharam
A rota das ausências e os perigos da noite

E onde chorando, cumpro a solidão
Dos condenados, inexplorado território
Do prazer que não se esgota

Nem mesmo quando a morte, esta canalha,
Vai apagando o sol desse segredo
E lentamente escreve com sua marca
O que vivido ainda não foi e se repete,

Sofreguidão da carne que no tempo,
Entre artérias e músculos e segredos,
Tenta escrever em vão novos roteiros
Neste corpo febril que aos poucos se destroça
Explodindo em violetas sob a pele.

Será a vida apenas este ardor implacável,
Esta salsugem escorrendo das artérias?
Aquele que no escuro se avizinha
Envolto em sombras, o maldito, amor bandido,
Com seus dedos de pianista
Acendendo no teclado a sinfonia do desejo?

Escuros anjos do espaço, sujos anjos do insondável,
Estendam sobre mim as suas negras asas
Para que se faça a luz no oscilante coração
Antes que apague, antes mesmo que apague...

AH, MAR(Aline Rochedo Pachamama) no livro "Pachamama: a poesia é a alma de quem escreve". Pachamama Editora, 2015.

 Eu quero viver deste mar

Vasto, amplo, divino
Mar das minhas canções
O mar que me cega os ouvidos

De suaves todos os tons
De ondas sereninhas
Sereias de areia
E estrelas pequeninas

Meu mar de verde-azul
Invado-te hoje sem medo
Em ti posso navegar
Conto-te os meus segredos

Mar de sal tão doce lembrança
Que amplia anseios da alma
Quero ser tão parte sua
Numa fúria contraditória calma

Sonho meu mar mais perto
Nas areias desenhando versos
E vê-lo da janela do quarto
Quando o sol dele nascer completo

Eu quero Viver deste mar
Embriagar-me deste convívio
Necessidade minha de estar
Inebriada pelo infinito.

O ENCONTRO COM MAKUNAIMA (Julie Dorrico) no livro "Eu Sou Macuxi e Outras Histórias". Caos e Letras, 2019.

 Quando Makunaima me encontrou

eu estava no estéril asfalto da vida.
Em sonho, ele me chamou!

Quando Makunaima me encontrou, soltou um:
– Já era tempo!
Eu concordei.

Quando Makunaima me enlaçou em seu amor,
eu soube que era macuxês.
Makunaima enviou o Ely para me dizer:
– Você é pemon-macuxi!
Eu aceitei.
E agora eu sei:

Eu sou pimenta
panela de barro
cobra
damorida
onça
olho puxado
cabelo preto
cor amarela
Eu finalmente posso dizer, com ternura, que sou macuxi.

Por Beatriz Rocha, da obra A Mulher Grande, Editora Urutau, 2021).

 Peço para apagarem a luz

mas não entendem que são as luzes todas:
do quarto, da rua, das cidades
das estrelas, do universo
pois sou incapaz de sustentar um olhar

E talvez nem toda a escuridão
de um universo sem luzes
seja capaz de
vedar a timidez dos meus olhos
e a aflição das minhas mãos tímidas

De me fazer ser capaz de sustentar um olhar:

das mulheres
deitadas de baixo de mim
na minha cama

das mulheres
deitadas em cima de mim
na minha cama

das mulheres
deitadas de lado comigo
na minha cama

MEADOS DE MAIO ( Irene Lisboa ) in 'Antologia Poética'

Chuvoso maio! 

Deste lado oiço gotejar 
sobre as pedras. 
Som da cidade.
Do outro via a chuva no ar. 
Perpendicular, fina, 
Tomava cor, 
distinguia-se 
contra o fundo das trepadeiras 
do jardim. 
No chão, quando caía, 
abria círculos 
nas pocinhas brilhantes, 
já formadas.

Há lá coisa mais linda 
que este bater de água 
na outra água? 
Um pingo cai 
E forma uma rosa
um movimento circular, 
que se espraia. 
Vem outro pingo 
E nasce outra rosa
e sempre assim! 

Os nossos olhos desconsolados, 
sem alegria nem tristeza, 
tranquilamente 
vão vendo formar-se as rosas, 
brilhar 
e mover-se a água.

CATARINA EUFÉMIA (Sophia de Mello Breyner Andresen) in Dual, 1972. Poema sobre a ceifeira Catarina Eufémia (1928-1954)

 O primeiro tema da reflexão grega é a justiça

E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro
 no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

ACALANTO ( Ada Ciocci Curado ) In Acalanto, 1991

 Vai amado. 

Busca por onde quiseres, 
com quem quiseres, 
como quiseres, 
o prazer. 
Até mesmo, 
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor. 
E, 
se por acaso te cansares 
e, 
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares, 
se desejares, 
volta. 
Serei a que conforta. 
Não saberás da dor, 
da saudade, 
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.

SENSAÇÕES ( Isabel Ferreira ) no livro "Todos Os Sonhos. Antologia da poesia moderna angolana". UEA, 2005.

 Procuro teu corpo lânguido

No encontro teu olhar ao meu
Tão rente meu ser ao teu.

A vista teu olhar me despe
Neste enleio deixo-me vogar em ti
Logo-logo de mim não sinto.

Pinto meus lábios nos teus:
Sinto que não é sonho!
São sensações. Se há ilusão. Que se dista de mim!

NO CAIS DOS AFECTOS II ( Isabel Ferreira ) no livro "O Leito do Silêncio". Kujiza Kuami, 2014.

 Encadeio a tua escuridão.

Perdido no teu convés, o tempo silente cochila.
Há um estado de silêncios!
A brisa afaga o nosso momento.
Incendeias em pequenos instantes. Acendo o
meu umbral.
No celeiro do amor, o rio é eterno e lento o desaguar.
Sedento, quedo-me à tua espera num leito de rosas!
E assim atraco no cais do nosso ponto do mar.
A canoa ondula e tu fumegas enquanto perdura
a espera!

NO CAIS DOS AFECTOS ( Isabel Ferreira ) no livro "O Leito do Silêncio". Kujiza Kuami, 2014

 Sou um nicho de querências quando tu vens contente!

Chegas! Atracas no meu cais.
Sinto que o teu porto é o meu país...

Imigras em mim. Eu abrigo-me em ti.
Rasgas o meu colo. Flutuas no meu solo...

Há um estranho fulgor nos olhos dos teus olhos.
Levito.
Leio a voz do teu silêncio de querença, inauguro-
-te em suaves brumas.

Eis-me vitrina da vontade!
Atraca no meu rio, rema até à foz.
Não remanches! Não baixes os braços! Nem desperdices
o leme!
Emigremos ao cosmo que nosso!

DE LÍRIOS ( Isabel Ferreira ) no livro "Todos Os Sonhos. Antologia da Poesia Moderna Angolana". UEA, 2005.

 Sacudi a madrugada

Qual amante despeitada
Suportei o sonho promíscuo
 
Palavras na lavra
Oculta da tua boca

Perdem-se nas paredes do teu corpo ...

O despertar
Um prometido

Gilka Machado, em "Sublimação" no livro "Poesias Completas". Léo Christiano Editorial; Funarj, 1992.

O mundo necessita de poesia,
cantemos, poetas, para a humanidade;
que nossa voz suba aos arranha-céus,
e desça aos subterrâneos,
acompanhando ricos e pobres
nos atropelos
das carreiras
de ambição
e na luta pelo pão!

Lavemo-nos das máscaras histriônicas,
tenhamos a coragem
de propalar a existência eterna
do sentimento;
ponhamos termo
a esses malabarismos
de palhaços
falsos
da modernidade,
permanecendo diferentes,
diante da multidão
insensibilizada,
enferma.

A humanidade quer rir de tudo,
porém é alvar sua gargalhada;
foge das tristezas,
mas paira ausente
em meio aos prazeres,
desligada em toda parte,
perdida em si mesma.

O homem anda esquecido
do caminho da fé
que a poesia sempre lhe ensinou.
O homem está inquieto
porque lhe falta a posse das distâncias
que só a poesia proporciona.
O homem se sente miserável
porque a poesia já não lhe enche a alma
daquele ouro inesgotável
do sonho.

O mundo necessita de poesia,
(não importem assuadas)
cantemos alto, poetas, cantemos!
Que seja nossa voz
um sino de cristal,
um sino-guia de perdidos rumos,
vibrando do nevoeiro da inconsciência
do momento angustioso!

Nosso destino, poetas, é o destino
das cigarras e dos pássaros:
- cantar diante da vida,
cantar
para animar o labor do Universo,
cantar para acordar
ideias e emoções;
porque no nosso canto
há um trigo louro,
um pão estranho que impulsiona
o braço humano,
e os cérebros orienta,
uma hóstia
em que os espíritos encontram,
na comunhão da beleza,
a sublimação da existência.
O mundo necessita de poesia,
cantemos alto, poetas, cantemos!

AOS HERÓIS DO FUTEBOL BRASILEIRO (Gilka Machado) (1938). In: PEDROSA, Milton. Gol de letra: o futebol na literatura brasileira.

Há quarenta milhões de pensamentos

impulsionando os vossos movimentos...
na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza

Que os Leônidas e os Domingos
fixem na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil!

Eia,
atletas franzinos,
gigantes débeis
que com astúcia e audácia
tenacidade e energia
transfigurai-vos
traçando com astúcia e audácia
aos olhos surpresos da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido País!

Avante
astros obscuros
sóis morenos...
continuai deslumbrando
as louras multidões
com vossos malabarismos e fulgores
de relâmpagos
humanos!

Em vossos pés magnéticos e alados
paira, neste momento,
o destino da Pátria!

Aos vossos pés geniais
curvam-se, reverentes,
os cérebros do Universo.

Em vossos pés heróicos
depõe um beijo
a alma do Brasil!

ESBOÇO ( Gilka Machado ) in "Sublimação". Typ. Baptista de Souza, 1938.

 Teus lábios inquietos

pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforescentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...

NUA ( Maria Eduarda Lima ) in “Carreto” Editora Primata, 2025.

 lembro com saudade

saudades imensas
daquele que me fez tanto mal

*

tenho acordado
cantarolando músicas
que não sei a letra

sempre às cinco da manhã

*

antes de dormir
me cubro com lençol
para que fantasmas
não transem comigo
enquanto durmo

*

a música que ele colocava para mim
aquela que ninguém conhece dos beatles
a única que ninguém conhece dos beatles

*

ou será que era tudo mentira