17/02/2026

TEMPO ( Carolina Salcides )

 Busco o estado em que minha alma resplandeça

Esta, goza somente em liberdade e plenitude
Vibra ao menor sopro que um vento teça
E inóspita fica quando se enche de inquietude.

De almas desérticas meus olhos desviam
Busco amores afins
Paisagens vivas, puras e solitárias
Vou no sentido contrário, na profundeza das coisas.

Estou encontrando-me. Vivendo para mim.
Tão bom voar, mas melhor ainda caminhar observando.
Estou egoísta...
As palavras são só minhas, e os dias e as noites.

Desconectei-me. Desprendi.
Andei por novos rumos, me despedi.

Desculpem a ausência, eu estava comigo.

DESPERTAR ( Carolina Salcides )

 A paixão é o trem da vida, não é o trilho

 não é só um homem ou um caminho quente
Não é o gozo, o grito, os cabelos ao vento, o trabalho que realiza...
É tudo ao mesmo tempo!
 Ela não é única (uma só pra toda vida) 
A vida é cheia de paixões sem paixão a vida é um chá morno.
A paixão não é palpável é cada célula pulsante e o arrepio que desperta no corpo e na alma.
Ela desperta os ossos, desperta a fome.
Paixão é fome.
É preciso se alimentar, se preencher completamente.
Você merece isso. Merece mais.
Ame-se. Desperte.
O morno é confortante e só.
Hoje, quero acordar faminta para o mundo!

Por Carolina Salcides

 Eu quero o melhor de mim,

que toda feminilidade dance em cada passo.
Que a leveza me conduza e a criatividade transborde.
Eu quero a liberdade da viagem,
a sintonia com a minha verdade.
Que os céus me guiem
e a magia se revele.

ANGELUS ( Elisa Ribeiro )

 Os cumes além, muito além das minhas asas

o mar que sequer avisto
sei-te à beira da praia
alheia e sozinha.
 

Atravesso as rochas
murmuro às tuas costas
palavras incompreensíveis
te abraço desajeitado
meu corpo informe
te assedia
aspiro
teu cabelo líquido
o sol suspenso por um centímetro
desaba
junto comigo.

AS CATARATAS ( Elisa Ribeiro )

 Abrimos uma fenda

na parede líquida do tempo
tateei as bordas com os dedos
atravessei a mão o braço
depois a cabeça
e então o corpo inteiro
você veio atrás de mim
minha coragem
intimidando seu medo

 

não havia ninguém do outro lado
além de nós
e um concierge fardado
estamos no paraíso, eu disse
você arqueou as sobrancelhas
e concordou com a cabeça
a cortina brutal de água às suas costas
caindo
entramos no Hotel Vazio
de mãos dadas
e fomos
por uma fração de tempo
para sempre.

ATÉ PENSEI ( Chico Buarque )

 Junto à minha rua havia um bosque

Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia, toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via

Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha

Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia de sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via

Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha

Toda a dor da vida me ensinou essa modinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha

ALUMBRAMENTO ( Chico Buarque & Djavan )

 Deve ser bem morna

Deve ser maternal
Sentar no colchão
E sorrir, e zangar
Tapear tua mão
Isso sim, isso não

Deve ser bem louca
Deve ser animal
Hálito de gim
Vai fingir, vai gemer
E dizer:
Ai de mim!

E de repente deve ter
Um engenho, um poder
Que é pro menino fraquejar
Alucinar, derreter

Deve estar com pressa
E partir, e deixar
Cica de caju
No olhar do guri
Por aí
Deve ser

THE HEART IS A LONELY HUNTER ( Golgona Anghel )

 Arqueja-me o dilúculo no ventrículo

esquerdo da alma

quando te avisto a descer, meditabunda,

a avenida da minha liberdade de expressão.

 

Conto-te os passos em ordem minguante,

desde a esquina da mais cruel alucinação

e as rãs rezam, em voz baixa,

o hino nacional.

 

Reconheço-te a sinalização temporária dos sorrisos,

mas pressinto a derrogação tácita

das listas de espera,

enquanto um relógio de pedra imita as faces do poente.

 

Desfraldo a fresta da nossa gesta

e vejo uma placa a pendular ao alísio.

Vai e vem, vem e vai, como o badalejo

de um sino de vaca.

 

Um badalejo de bronze. A tresandar a queijo e a azedão.

Viro-a ao contrário,

 

de modo a dispor as letras de frente para mim.

Estas, grandes, gordas, inchadas, incorporam, na sua opulência,

a pergunta queres sentir-me dentro de ti ?

16/02/2026

Por Golgona Anghel, in Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho - Porto Editora, 2013

 O desinteresse acumula-se à minha volta

como as camadas seculares

no tronco de uma sequóia.

Fico imune a queixinhas.

Lavo sozinho a minha roupa.

A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.

No lugar do grito,

uma greta.

Mãos nos bolsos,

bico calado.

Evito vitrinas e espelhos.

Tenho medo que a verdade

me possa desfigurar o rosto.

Por Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam; Mariposa Azual, 2011

 Passas horas a olhar-me em silêncio

enquanto invocas o sono
à beira de uma corona com limão.
Que tipo de cadáver sou eu neste preciso instante?

Quero pensar que não vês em mim
a decadência do império romano
pintado por cima desta linda vista de Lisboa.

Não sou nenhuma sobremesa
flambée ao lume das velas
no deserto de Atacama.

Quero acreditar que neste bordel ruidoso
a luz ténue e intermitente do despertador
mostra ainda com rigor científico
Os resultados dos nossos electrocardiogramas.

Vá, apaga lá esse cigarro e vem!
Regressemos aos lugares-comuns!
Sentemo-nos na nossa cama.

15/02/2026

Por Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam; Mariposa Azual, 2011

 Na sala de leitura da insónia,

Quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.

Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.

No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.

Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida
– olhai –
Sou o novo modelo para o fracasso

SEIO ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Tarde, 1963

 O teu seio que em minha mão

Tive uma vez, que vez aquela!
Sinto-o ainda, e ele é dentro dela
O seio-idéia de Platão.

AD INSTAR DELPHINI ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Tarde, 1963

 Teus pés são voluptuosos: é por isso

Que andas com tanta graça, ó Cassiopéia!
De onde te vem tal chama e tal feitiço,
Que dás idéia ao corpo, e corpo à idéia?

Camões, valei-me! Adamastor, Magriço,
Dai-me força, e tu, Vênus Citeréia,
Essa doçura, esse imortal derriço.
Quero também compor minha epopéia!

Não cantarei Helena e a antiga Tróia,
Nem as Missões e a nacional Lindóia,
Nem Deus, nem Diacho! Quero, oh por quem és,

Flor ou mulher, chave do meu destino,
Quero cantar, como cantou Delfino,
As duas curvas de dois brancos pés!

O SÚCUBO ( Manuel Bandeira ) in Carnaval, 1919

 Quando em silêncio a casa adormecia e vinha

Ao meu quarto a aromada emanação dos matos,
Deslizáveis astuta, amorosa e daninha,
Propinando na treva o absinto dos contatos.

Como se enlaça ao tronco a ondulação da vinha,
Um por um despojando os fictícios recatos,
Estreitáveis-me cauta e essa pupila tinha
Fosforescências como a pupila dos gatos.

Tudo em vós flamejava em instintiva fúria.
A garganta cruel arfava com luxúria.
O ventre era um covil de serpentes em cio.

Sem paixão, sem pudor, sem escrúpulos — éreis
Tão bela! e as vossas mãos, fontes de calefrio,
Abrasavam no ardor das volúpias estéreis.

AS TRÊS MARIAS ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948

 Atrás destas moitas,

Nos troncos, no chão,
Vi, traçado a sangue,
O signo-salmão!

Há larvas, há lêmures
Atrás destas moitas.
Mulas-sem-cabeça,
Visagens afoitas.

Atrás destas moitas
Veio a Moura-Torta -
Comer as mãozinhas
Da menina morta!

Há bruxas luéticas
Atrás destas moitas,
Segredando à aragem
Amorosas coitas.

Atrás destas moitas
Vi um rio de fundas
Águas deletérias,
Paradas, imundas!

Atrás destas moitas.
— Que importa? Irei vê-las!
Regiões mais sombrias
Conheço. Sou poeta,
Dentro d'alma levo,
Levo três estrelas,
Levo as três Marias!

AMORA ( Renato Teixeira )

 Depois da curva da estrada

Tem um pé de araçá
Sinto vir água nos olhos
Toda vez que passo lá

Sinto o coração flechado
Cercado de solidão
Penso que deve ser doce
A fruta do coração

Vou contar para o seu pai
Que você namora
Vou contar pra sua mãe
Que você me ignora

Vou pintar a minha boca
No vermelho da amora
Que nasce lá no quintal
Da casa onde você mora

UNIDADE ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948

 Minh'alma estava naquele instante

Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi verão
O verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sófrega mocidade

Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo
Foi então que minh'alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.

TERNURA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Enquanto nesta atroz demora,

Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;

Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;

Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;

Por que os escondas de teu seio
No doce e pequenino vale,
— Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;

E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha.

MANCHA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Para reproduzir o donaire sem par

Desse alvo rosto e desse irônico sorriso
Que desconcerta e prende e atrai, fora preciso
A mestria de Helleu, de Boldini ou Besnard.

Luz faiscante malícia ao fundo desse olhar,
E há mais do inferno ali do que do paraíso.
O amor é tão-somente um pretexto de riso
Para esse coração flutuante e singular.

Flor de perfume raro e de esquisito encanto,
Ela zomba dos que (pobres deles!) sem cor
Vão-lhe aos pés ajoelhar ingenuamente. Enquanto

Alguém não lhe magoar a boca de veludo.
E não a fizer ver, por si, que isso de amor
No fundo é amargo e triste e dói mais do que tudo.

VOLTA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Enfim te vejo. Enfim no teu

Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!

Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!

Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!

CONFISSÃO ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Se não a vejo e o espírito a afigura,

Cresce este meu desejo de hora em hora.
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura.
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora.

E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo.

Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim tão linda e rara.
Que hesito, balbucio e me acobardo.

MARISA ( Manuel Bandeira ) in Mafuá do Malungo, 1948

 Muitas vezes a beira-mar

Sopra um fresco alento de brisa
Que vem do largo a suspirar.
Assim é o teu nome, Marisa,
Que principia igual ao mar
E acaba mais suave que a brisa.

TREM DE FERRO ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Manhã, 1936

 Café com pão

Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Ágora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
(drop
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...

MATÉRIA DE POESIA ( Manoel de Barros )Gramática Expositiva do Chão (Poesia Quase Toda) Ed.: Civilização Brasileira; 1990.

Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para  poesia.

O homem que possui um pente e uma árvore serve para a poesia.

Terreno de 10X20, sujo de mato – os que nele gorjeiam: detritos semoventes, latas servem para poesia.

Um Chevrolet gosmento Coleção de besouros abstêmios, o bule de braque sem boca são bons para poesia.

As coisas que não levam a nada tem grande importância, cada coisa ordinária é um elemento de estima, cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia ou na geral.

O que se encontra em um ninho de João Ferreira, caco de vidro, grampos, retratos de formatura servem demais para poesia.

As coisas que não pretendem como por exemplo pedras que cheiram a água, homens que atravessam períodos de árvore se prestam para a poesia.

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma, o que você não pode vender no mercado, como por exemplo o coração verde dos pássaros serve para a poesia.

As coisas que os líquens comem, sapatos, adjetivos, têm muita importância para os pulmões da poesia.

 Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita pisa e mija em cima serve para poesia.

Os loucos de água e estandarte servem demais.

O traste é ótimo, o pobre diabo é colosso.

Tudo que explique o alicate cremoso e o lobo das estrelas serve demais da conta.

Pessoas desimportantes dão para poesia.

Qualquer pessoa ou escada, tudo que explique a lagartixa de esteira e a  laminação de sabiás é muito importante para a poesia.

O que é bom para o lixo é bom para poesia.

 O importante sobre maneira é a palavra repositório.  A palavra repositório eu conheço bem, tem muitas repercussões como um algibe entupido de silêncio sabe a droços.

As coisas jogadas fora têm grande importância- como um homem jogado fora.

Aliás, é também objeto de poesia saber qual o período médio que um homem, jogado fora pode permanecer na terra sem nascer em sua boca as raízes da escória.

As coisas sem importância são bens de poesia.

 Pois é assim que um Chevrolet gosmento chega ao poema e as andorinhas de junho. 



13/02/2026

ALMA NOVA ( Fernando Abreu & Zeca Baleiro )

 Sempre que te vejo assim

Linda, nua
E um pouco nervosa
Minha velha alma
Cria alma nova
Quer voar pela boca
Quer sair por aí.

E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Ainda não é hora
De partir.

Então ficamos
Minha alma e eu
Olhando o corpo teu
Sem entender.

Como é que a alma
Entra nessa história
Afinal o amor
É tão carnal.

Eu bem que tento
Tento entender
Mas a minha alma
Não quer nem saber
Só quer entrar em você
Como tantas vezes
Já me viu fazer.


E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Você tem muito
Que aprender.