13/05/2026

NASCENTE ( Flávio Venturini & Murilo Antunes )

Clareia manhã
O sol vai esconder
A clara estrela
Ardente
Pérola do céu refletindo
Teus olhos

A luz do dia a contemplar teu corpo
Sedento
Louco de prazer e desejos
Ardentes

12/05/2026

PALCO INVÍSIVEL ( Sara F. Costa ) O Movimento Impróprio do Mundo; Âncora Editora, 2016

 trago comigo as gigantes perguntas

que ardem no peso da fala.
de ti espero a noite corrompida,
a solidão contínua
que vai até aos prédios e retorna
mas acredito na tua companhia
como acredito na vaidade do sol
a vida ruge-me nos ombros
enquanto a vergonha respira
entre segredos.
onde estás e por onde andaste
são grutas miseráveis
que se erguem pela lógica
porque a tua presença não faz sentido
somos atores de um palco invisível
não te percas no retorno
porque a verdade é que nunca cá vieste.

CANÇÃO DA VERDADE JOVEM (Vasko Popa) in A Rosa do Mundo 2001 Poemas Para O Futuro; Assírio & Alvim 2001

 A verdade cantava no escuro

No cimo da tília sobre o coração

O sol há-de amadurecer dizia
No cimo da tília sobre o coração
Se os olhos o iluminarem

Troçámos da canção
Agarrámos prendemos a verdade
Cortámos-lhe a cabeça debaixo da tília

Os olhos estavam noutro sítio
Ocupados com outra obscuridade
E nada viram
(tradução de Eugénio de Andrade) 

TALVEZ QUEM VÊ BEM NÃO SIRVA PARA SENTIR (Alberto Caeiro) O Pastor Amoroso; Poemas Completos de A. Caeiro; Presença 1994

 Talvez quem vê bem não sirva para sentir

E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.

OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE ( Álvaro Feijó ) in Os Poemas de Álvaro Feijó; Portugália, 1961

 1

Quando eu morrer – e hei - de morrer primeiro
do que tu – não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem
fecha-me os olhos com um beijo.
                                                          Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria.
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

2
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei - de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E se quiseres partir e o coração
to peça, diz - mo.  A travessia é longa. Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

MOMENTO NUM CAFÉ ( Ruy Cinatti ) 56 Poemas; de Antiguidades Burlesco-Sentimentais; Relógio D´Água, 1981

 As mãos lindas que vi deixam-me absorto:

compridos dedos, polegares de espátula,
um dedilhar de flores em jardins ociosos,
só comparável a conversa amena
de duas mulheres simples debruçadas
sobre o tampo liso de uma mesa.

A riqueza da vida reside nisto:
um leve toque no ombro do próximo
uma cortina de chuva vedando a verdade
olhos indiferentes, indiscretos
e um ar de encanto, um fácil soluço
ouvido longe, como que em segredo.

UM VIOLEIRO TOCA ( Almir Sater & Renato Teixeira )

 Quando uma estrela cai no escurão da noite

E um violeiro toca suas mágoas
Então, os óio dos bichos vão ficando iluminados
Rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado

Quando o amor termina, perdido numa esquina
E um violeiro toca sua sina
Então, os óio dos bichos vão ficando entristecidos
Rebrilham neles lembranças dos amores esquecidos

Quando o amor começa, nossa alegria chama
E um violeiro toca em nossa cama
Então, os óio dos bichos são os olhos de quem ama
Pois a natureza é isso, sem medo, nem dó, nem drama
Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam
Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam

FELICIDADE ( Marcelo Jeneci & Chico César )

 Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz

Sentirá o ar sem se mexer
Sem desejar como antes sempre quis
Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o Sol quando voltar

Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz
Se chorar, chorar é vão
Porque os dias vão para nunca mais

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o Sol brilha para você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem

Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nesta hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o Sol quando voltar

Dançar na chuva quando a chuva vem
Dançar na chuva quando a chuva
Dançar na chuva quando a chuva vem

11/05/2026

IDENTIFICAÇÃO ( Egito Gonçalves ) in O Amor Deságua em Delta - Editorial Inova, 1971

 O areal é o desenho branco do teu corpo

E o rio corre como se tu não existisses
Sonolentas pálpebras cerrando-se
As nuvens cortam as manchas do luar.

Aguardando o quebrar da tua voz
Que a sulcará de ternura e de ruído
A paz ronda a silenciosa margem
Onde se estende o teu vulto imaginado

A AVENTURA É FICAR ( Egito Gonçalves ) in A Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro; Assírio & Alvim, 2001

 Calafetado contra os sonhos, fico

Contigo, prisioneiro dos liames
Que te cercam e cercam o teu rosto,
A tua carne rasgada nos arames.

Extinguiu-se o apelo da partida.
As quilhas já não sofrem a espuma.
Fico contigo na luta pelo dia
No endurecido leito de caruma.

Tu estás sentada sobre a terra.
Pelas searas corre um vento rude.
Teu corpo é uma espiga amadurecida
Pela água aprisionada do açude.

Corsários acamaradam no mar largo.
Mas do teu caule fino, nasce e ondeia
À minha volta, uma canção serena
Que me prende docemente à sua teia.

ENGARRAFAMENTO ( Egito Gonçalves ) in O Esperado Fim do Mundo Já Partiu - Uma Antologia; Língua Morta, 2020

 O dia está triste,

Perséfona deve ter sido hoje forçada por Vulcano.
O inverno derrama-se na cidade
como se tivéssemos de pagar
os problemas do Inferno. Os automóveis
engarrafam o trânsito
de Santa Catarina – a rua,
não a santa
que dos gemidos de Perséfona não entende –
Sejamos pacientes. Saboreemos
Este momento em que os motores em ralenti
Aguardam o orgasmo dos deuses.

AS MINHAS MENINAS ( Chico Buarque de Holanda )

 Olha as minhas meninas

As minhas meninas
Pra onde é que elas vão
Se já saem sozinhas
As notas da minha canção
Vão as minhas meninas
Levando destinos
Tão iluminados de sim
Passam por mim
E embaraçam as linhas
Da minha mão

As meninas são minhas
Só minhas na minha ilusão
Na canção cristalina
Da mina da imaginação
Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de não
E a solidão
Maltratar as meninas
As minhas não

As meninas são minhas
Só minhas
As minhas meninas
Do meu coração

DEITADO SOB AS NUVENS (Egito Gonçalves )in O Esperado Fim do Mundo Já Partiu - Uma Antologia; Língua Morta, 2020

 Deitado sob as nuvens

recebo nos olhos o esplendor
que sombreia os escombros. Olho-as
como símbolos, vêm do meio-dia
solar que afastei, de fímbria
branca, ventres
de água, túrgidos. Levantarão
ainda outros poemas quando já não existam
(não existem agora?) longe daqui
num outro cérebro, num olhar pousado
nas sólidas ruínas, nos destroços
de que o inverno se nutre – por isso
afinal vos amo, nuvens, onde estais…

A SOMBRA SOU EU ( Almada Negreiros )

 A minha sombra sou eu,

ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

09/05/2026

MULHER DA VIDA ( Cora Coralina )

 Mulher da Vida,

Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.

ROSA DE HIROSHIMA ( Vinícius de Moraes )

 Pensem nas crianças mudas, telepáticas

Pensem nas meninas cegas, inexatas
Pensem nas mulheres, rotas alteradas
Pensem nas feridas como rosas cálidas

Mas, ó, não se esqueçam da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária
A rosa radioativa, estúpida e inválida
A rosa com cirrose, a anti - rosa atômica
Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada

08/05/2026

CANTA CORAÇÃO ( Geraldo Azevedo & Carlos Fernando )

 Canta, canta, passarinho

Canta, canta, miudinho
Na palma da minha mão

Quero ver você voando
Quero ouvir você cantando
Quero paz no coração

Eu quero ver você voando
Quero ouvir você cantando
Na palma da minha mão

Na palma da minha mão
Tem os dedos, tem as linhas
Que olhar cigano caminha
Procurando alcançar

A nau perdida
O trem que chega, a nova dança
Mata verde, esperança
Em suas tranças vou voar

Passarinho
Vou voar

Meu alegre coração
É triste como um camelo
É frágil que nem brinquedo
É forte como um leão

É todo zelo, é todo amor, é desmantelo
É querubim, é cão de fogo
É Jesus Cristo
É Lampião

Passarinho
Eu vou voar

07/05/2026

OS FOGOS DA FALA ( Geraldo Carneiro ) In Folias Metafísicas. Relume Dumará, 1995.

 a fala aflora à flor da boca

às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma

ORQUESTRA ( Poeta da Cidade ) in Ela, Metafisicamente Doutro Mundo - Editora Cultura, 2026

 Fosse eu o maestro da sinfonia

que é todo o teu corpo;

tocasse eu esse órgão etéreo que escondes

e que nasceu da orquestra do teu sexo.


Elevar-te-ia às casas mais endeusadas

da música clássica.

Um concerto dos deuses, de deuses e para deuses:

- Nós!

Dirigisse eu as cordas vocais do teu esemble,

e fizesse parte do teu quarteto de sopro,

tirar - to - ia num só fôlego.


És um desejo dos deuses.

A materialização do viver eterno

em sintonia com a música que me fazes escrever.

POETA DA CIDADE é o pseudónimo de Pedro Freitas, poeta e dizedor de Poesia

Por Ana Luísa Amaral, in A Arte de Ser Tigre

 Se eu varresse todas as manhãs as pequenas

agulhas que caem deste arbusto e o chão
que lhes dá casa, teria uma metáfora perfeita para
o que me levou a desamar - te. Se todas as manhãs
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto não passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manhãs olhasse a teia a enfeitar - lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclusão, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a erosão. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neurônio meu, unia memória que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funerária.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.

Por Ana Luísa Amaral, in Às Vezes O Paraíso

 Um céu e nada mais — que só um temos,

como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
neram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

Poemas Malditos, Gozosos e Devotos – XII ( Hilda Hilst )

 Estou sozinha se penso que tu existes.

Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhança.
E igualmente sozinha se tu não existes.
De que me adiantam
Poemas ou narrativas buscando

Aquilo, que se não é, não existe
Ou se existe, então se esconde
Em sumidouros e cimos, nomenclaturas

Naquelas não evidências
Da matemática pura? É preciso conhecer
Com precisão para amar? Não te conheço.

Só sei que desmereço se não sangro.
Só sei que fico afastada
De uns fios de conhecimento, se não tento.

Por ANTONIO GAMONEDA, in LIVRO DO FRIO; Assírio & Alvim, 1999

 Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa

no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino:
chegar à margem e ter medo da quietude da água.

04/05/2026

SONETO ( Ana Cristina Cesar ) In Inéditos e Dispersos, Ática, São Paulo, 1998

 Pergunto aqui se sou louca

Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil ?

COISA MAIS MAIOR DE GRANDE ( Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior )

 Enquanto eu acreditar que a pessoa é a coisa mais maior

de grande
Pois que na sua riqueza revoluciona e ensina
Pois pelas aulas do tempo, aprende, revolta por cima
Eu vou cantar... Por aí
Eu vou cantar... Por aí
Bonito é que gente é sempre assim tão diferente de
gente
Assim como a voz que ecoa não é mais a daquele que
grita
E essa beleza, na dessemelhança, me aguça a cabeça, me
agita
Eu vou cantar... Por aí
Eu vou cantar... Por aí
Que nada se repete sob o sol
O movimento da vida não deixa que a vida seja sempre
igual
Pois nada se repete, nem o sol
Pois veja que o bem só é bem pra quem ele
Faz bem mas pr'um outro pode ser um mal
Pois nada se repete sob o sol
O pai já não é mais o filho, nem foi o avô e nem é o
irmão
Nada se repete, nem o sol
Que pena daquele que pensa da sua exata continuação
Na desparecença dos tempos aprendo as tranças e
tramas
Das novas lições
Eu vou cantar... Por aí

UMA LAGARTIXA LOUCA ( Iara Maria Carvalho ) In Saraivada, Sarau das Letras, Mossoró, 2015

 de um lado para o outro.

a cerâmica da casa era a mesma.
a poeira, sempre a mesma poeira, era a construção
do vizinho.
o ano passou, a poeira foi levando os meus trinta
anos pra debaixo do tapete colorido.

e eu sobrevivi.

contando nos dedos cada dia.
desejando ser o último.
vá embora. ande. corra, sua lagartixa louca, acabe.

sobrevivi aos trinta anos com uma cárie a menos.
um sonho a menos.
um pai a menos.

e se é tempo de voar,
desengaiolo os lírios do meu cérebro de cimento

e deliro.

SINHÁ ( Iara Maria Carvalho ) in Na Boca do Forno, Editora CJA, Natal - RN, 2026

 Pensei que mulheres não silenciavam mulheres.

Pensei que mulheres não violavam mulheres.
Pensei que mulheres não matavam mulheres.
Pensei que mulheres eram, sobretudo, mulheres:
antes de tudo,
principalmente
- Mulheres.

Mas há mulheres com H maiúsculo.

COMPRIMIDA ( Iara Maria Carvalho ) in Na Boca do Forno, Editora CJA, Natal - RN, 2026

 Me dobrava

como uma camisa velha
guardada no fundo
da gaveta.

Me dobrava
como um saco plástico
vindo do mercado
- reutilizável.

Me dobrava
como uma conta paga
garantia de nome limpo
e depósito de desejos.

E eu respirava
entre naftalinas
e sangue pisado.