29/03/2026

LESBOS ( Sylvia Plath ) organização, tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. São Paulo: Iluminuras, 2007.

 Safadeza na cozinha!

As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel -
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha - olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir -
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.

Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.

O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico.
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.

O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.

Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.

Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."

Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar.
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras

Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.

IV ( Irene Lisboa )

 Ó luxúria brutal, perversa e felina,

dos outros, alheia,
sem pensamentos nem repouso!
retira-me da frente o venenoso cálice,
a tua peçonha adocicada.
Que a morte, o nirvana, a indiferença
dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.

Abro os braços e meço: cá, lá cá, lá.
solidão, infinita solidão!
E neste movimento, neste balouço, adormeço,
Cá, lá morte, vida. morte, vida.
Todas as ausências, todas as negações.

AUSÊNCIA ( Gabriela Mistral )

 Se vai de ti meu corpo gota a gota.

Se vai minha cara no óleo surdo;
Se vão minhas mãos em mercúrio solto;
Se vão meus pés em dois tempos de pó.

Se vai minha voz, que te fazia sino
fechada a quanto não somos nós.
Se vão meus gestos, que se enovelam,
em lanças, diante de teus olhos.
E se te vai o olhar que entrega,
quando te olha, o zimbro e o olmo.

Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
como umidade de teu corpo evaporo.
Vou-me de ti com vigília e com sono,
e em tua recordação mais fiel já me borro.
e em tua memória volto como esses
que não nasceram nem em planos nem em bosques

Sangue seria e me fosse nas palmas
de teu trabalho e em tua boca de sumo.
Tua entranha fosse e seria queimada
em marchas tuas que nunca mais ouço,
e em tua paixão que retumba na noite,
como demência de mares sós.

Se nos vai tudo, se nos vai tudo!

GUARDEI - ME PARA TI ( Lya Luft )

 Guardei-me

para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.

É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.

FLUTUAÇÕES ( Flora Figueiredo )

 O sonho aprendeu a pairar bem alto,

lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.
Namorou a trôpega ilusão,
até que trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim, aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.

A CADELA (Lêdo Ivo)

 Atraídos pelo cheiro de sangue de suas entranhas

os cachorros seguem a cadela no cio como se fossem o séquito
de uma negra rainha. E a farejam num movimento impudico
que talvez merecesse ser chamado de amor.
A cadela finge que a perseguição a incomoda
e negaceia como as mulheres requestadas.
Um odor penetrante de vida a acompanha
entre os dois sóis que limitam a passagem do dia.
À noite, quando a encerram no galpão,
os cachorros ficam do lado de fora, desolados e fiéis.
E seus ganidos na escuridão nos ensinam
que o amor é uma paixão inútil, uma porta fechada.

PANTEÃO NACIONAL ( Matilde Campilho ) in Jóquei, 2014.

 Mercúrio, meu cabrão:

Tu que alinhaste a melena
de ouro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
jeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
e um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante

SACI - PERERÊ ( Cleonice Rainho )

 Bonequinho preto

de uma perna só,
cachimbo na boca
e gorro vermelho
— fogo vivo de suas magias.

Original e engraçadinho
podia ser de qualquer cor
ou de qualquer raça,
esse negrinho,
pois já virou
até passarinho...

Molequinho esperto
levado, faz artes
como Pedro Malazartes
e pelas estradas
aos viajantes persegue
— traidor como quê
esse Saci-Pererê.

Mas no nosso carro,
ele dança e pula
com um pé só,
sem ouvir vovó
que conta sua lenda e diz:
— Pra nós é um mascote,
símbolo de sorte
dessa viagem feliz.

PENETRAÇÃO DO POEMA DAS SETE FACES ( Elisa Lucinda ) A Carlos Drumond de Andrade

 Ele entrou em mim sem cerimônias

Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

QUE MIMO! ( Tobias Barreto )

 Tu és morena e sublime

Como a hora do sol posto.
E, no crepúsculo eterno
Que te envolve o lindo rosto,
O céu desfolha canduras
De alvoradas e jasmins,
E passam roçando n'alma
As asas dos querubins.

Teu corpo que tem o cheiro
De cem capelas de rosas,
Que t'enche a roupa de quebros,
De ondulações graciosas,
Teu corpo derrama essências
Como uma campina em flor:
Beijá-lo!  fôra loucura;
Gozá-lo! morrer de amor.

27/03/2026

MEDO DE AMAR Nº 2 ( Sueli Costa & Tite de Lemos )

 Você me deixa um pouco tonta

Assim meio maluca
Quando me conta
Essas tolices e segredos
E me beija na testa
E me morde na boca
E me lambe na nuca

Você me deixa surda e cega
Você me desgoverna
Quando me pega
Assim nos flancos e nas pernas
Como fosse o meu dono
Ou então meu amigo
Ou senão meu escravo

E eu sinto o corpo mole
E eu quase que desfaleço
Quando você me bole e bole
E mexe e mexe
E me bate na cara
E me dobra os joelhos
E me vira a cabeça

Mas eu não sei se quero ou se não quero
Esse insensato amor que eu desconheço
E que nem sei se é falso ou se é sincero
Que me despe e me vira pelo avesso

Não eu não sei se gosto ou se não gosto
De sentir o que eu sinto e que me atormenta
E eu confesso que tremo desse sentimento
Que de repente chega e que me ataca

E assim me faz perder-me
E nem saber se esses carinhos
São suaves ou velozes
Se o que escuto é o silêncio
Ou se ouço vozes

25/03/2026

OS AMIGOS ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in 'Musa'

 Voltar ali onde

A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão

QUANDO ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in 'Dia do Mar'

 Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta

Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

25 DE ABRIL( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in 'O Nome das Coisas'

 Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

APESAR DAS RUÍNAS ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in 'Antologia Poética'

 Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

SABENDO DE MIM ( Mia Couto ) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 Fui sabendo de mim

por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

VERSOS PARA A PATRÍCIA ( Mia Couto) in 'Raiz de Orvalho'

 1. Ilha

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra

Meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me

Depois, não
me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.

2. Véspera
Há um perfume
que trabalha em mim
e me acende,
antigo,
sobre a poeira

Há um rosto
que regressa à fonte
água readormecendo

E só hoje reparo
o labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu

Pássaros brancos
vão pousando
na varanda dos teus olhos

Só hoje enfrento o sol
fogo imóvel,
labareda de água

Andemos, meu amor,
de coração descalço sobre o sol

HORÁRIO DO FIM ( Mia Couto ) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 morre-se nada

quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

IDENTIDADE ( Mia Couto ) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 Preciso ser um outro

para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

DIZ O MEU NOME ( Mia Couto ) in 'Raiz de Orvalho'

 Diz o meu nome

pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
                                  [os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

DESTINO (Mia Couto) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 à ternura pouca

me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

TARDIO ( Mia Couto )

  Quando quis ser fruto

fui fome,
não mais do que areia
de um chão sem cio.

Quando sonhei ser pano
fui agulha.
E morri no sono do gesto
de enrolar o fio.

Quando aprendi a ser poente
já não havia céu.

Quando quis anoitecer
tudo era luz.

E assim me condeno
em livre vício:

No mais derradeiro
eu só vislumbro um início.

FURÚNCULO ( Flávia Santana Valadão )

 Poesia é furúnculo

Tenho um gigante, quente,

Latejando em minh’alma

Desde os 11 anos de idade

Prestes e vindo à furo.

PÉTALAS ( Flávia Santana Valadão )

Sento-me no chão

À esquerda da porta do banheiro

 

De nossa casa!

 

Minha esposa sentada no vaso

De pernas abertas

 

Concentradamente,

 

Mexe em sua vulva

Contemplo a cena,

 

Flor rosa em pétalas: clitória

 

Extasia-me

 

A lépida liberdade de seus pequenos lábios

Ostentando desenho ímpar

 

Um fora na ninfoplastia

 

Enquanto caça pelos

Os mesmos e macios pelos

Que pôs em minha boca

 

Na primeira noite de amor

 

Em suas mãos, braços, ser

Há um vigor fértil

Revolverá sempre o solo de minha existência

O desejo de que pudesse gestar em seu ventre

 

Uma síntese de nosso amor

 

Nessa hora, me olha cúmplice

 

Fios de franja da cor de ouro

Caem em seu rosto

Ela sorri com boca e olhos

 

A abraço, seus cabelos roçam meus seios nus

Como o vento a encosta.

É DESERTO... ( Elaine Dauzcuk ) in O Ponto ; 2025, Editora Patuá.

Nessa areia sereia não brinca

Essa areia é para quem

Grita sem falar

Queima sem arder

É deserto…

Quando os cabelos caem

É a perna colada à cama

É corpo mumificado no lençol

É o peito sem movimento

É deserto…

Quando tomo banho

E não estou no banho

Quando como

E não estou quando como

É deserto…

Quando você não está

E quando também não estou quando você não está

É deserto…

Quando eu não me chamo

Quando eu me canso sem descansar

Quando descanso sem cansar

Quando só me pergunto quando

É deserto…

E eu não deserto

Decerto um camelo será apropriado

Na próxima temporada

porque não me iludo:

há tantos oásis quanto desertos

há tanta seca quanto chuva

É deserto…

quando os cabelos caem

e não sou calva

não me iludo:

há tantos fios para nascer e cair

quanto desertos para atravessar

convoco caravanas de panos coloridos

para me proteger

do que arde só para doer

tenho as entranhas cheias de areia

mas não me iludo:

sou feita de água.

ABRE-CAMINHO ( Elaine Dauzcuk ) in O Ponto ; 2025, Editora Patuá.

Ele numa ponta

Eu na outra

Ele fez a ponte

Em dois versos

Eu passei e voltei

Bem no meio do caminho

Ele fez a ponte

De cabeça baixa e acenou

Despenteado

Muitas luas minguaram

E a ponte ainda ali

Perfumada de alfazema

Cravada de girassóis

O tempo parou

Ou guardamos o tempo?

Pegamos os facões do querer

E bota a arrancar medo

Abrir estrada de ar

Fechar caminho de ferida

A ponte agora

Tem estação para chegar

Desembarque na primavera

E passagens para quando Deus quiser

Corre, voa veloz o instante

E ganha o céu

De ponte já fizemos trilhos

O amor tem pressa

Cospe saudade

Vê filme, passa as folhas do livro

Manteiga no pão

Porque esse trem a gente não perde

Já faz parte do nosso chão.