29/09/2026

VENTOS Substantivo masculino, aqui plural e forte ( Ana Elisa Ribeiro ) in Dicionário de Imprecisões; Impressões de Minas, BH, 2019

A palavra leque faz virem aos meus olhos de dentro
um grupo de mulheres que se abanam no calor dos trópicos,
a despeito de usarem vestidos de muitos panos.
Por que não os tiram então? Mais charmoso é usar leque.

Mas o que me incomoda na palavra leque
é o fato de ela não dizer o que ela faz,
tanto quanto diz abanico.
Somente no verbo é que o leque se realiza: abanar.

Abanar é, pois, então, produzir ela mesma o seu vento,
amenizando um calor externo
que nada diz sobre seu coração.
O abano pode ser também produzido por outrem,
como faziam aqueles servos que viviam a ventilar as damas.
Eu já prefiro os homens que causam calores.
 

PAIXÃO Substantivo feminino singular ( Ana Elisa Ribeiro ) in Dicionário de Imprecisões; Impressões de Minas, BH, 2019

Assombro, susto; desgoverno e desequilíbrio.
É químico, insolúvel.
Efêmero, graças a Deus.

ABERTURAS Substantivo feminino de frestas e gretas ( Ana Elisa Ribeiro ) in Dicionário de Imprecisões; Impressões de Minas, BH, 2019

Janela vem do latim,
diminutivo de porta — portinha,
e não se parece com fenestra
e nem com ventana
e isso me vem incomodando
desde as pequenas descobertas

mas já que, em português,
a palavra janela é o que é,
e ainda chamando-se assim,
ela permite uma abertura
por onde passam o vento,
a chuva e o ruído da rua:

Enquadre d’onde se observa
a vida de dentro e a de fora;
a dos outros e d’onde a nossa
se dá a ver. Vista de longe,
a moldura de alguma cena.
E tê-la como moldura ou como limite
é da conta de cada um.

CARINHO Substantivo masculino singular ( Ana Elisa Ribeiro ) in Dicionário de Imprecisões; Impressões de Minas, BH, 2019

Emprega-se a palavra afagar para dizer de um carinho,
de um tipo de toque que lembra veludo, pelúcia,
geralmente feito apenas com as mãos de um
sobre a pele de outro, no rosto, usualmente.
Embora eu tenha afagado ao longo da vida,
só usei essa palavra em um texto, uma vez,
em janeiro de dois mil e dezenove,
quando precisei me declarar a um amor distante no mapa
e não havia modo de tocar-lhe o rosto carinhosamente.
A palavra afagar fez as vezes do meu toque,
sendo ele uma pessoa sensível ao verso.
 

Por Luljeta Lleshanaku - Tradução de Inês Dias e Marjeta Mendes

Na minha família
as orações eram rezadas secretamente,
em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor;
quase murmuradas,
com um suspiro no princípio e no fim,
fino e limpo como uma gaze.

Junto à casa
havia apenas uma escada para subir,
de madeira, encostada à parede o ano inteiro,
de modo a reparar o telhado em Agosto, antes das chuvas.
Mas, em vez de anjos,
subiam e desciam homens
sofrendo de ciática.

Rezavam-Lhe olhos nos olhos,
na esperança de renegociar os seus contratos
ou adiar os respectivos prazos.

“Senhor, dá-me forças”, nada mais,
pois eram descendentes de Esaú,
abençoados com a única bênção que restara de Jacob
– a espada.

Na minha casa
a oração era considerada uma fraqueza
que nunca se devia mencionar,
tal como fazer amor.
E, tal como fazer amor,
era seguida pela assustadora noite do corpo.

Por Vinícius de Moraes

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito.

SONETO XXVII ( Guilherme de Almeida )

Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado
passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo, esquecido de teu olhar — coitado!
Vais — coitada! — esquecida de que existo:
como se nunca tu me houvesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado!

Se às vezes, sem querer, nos entrevemos;
se, quando passo, o teu olhar me alcança,
se os meus olhos te alcançam, quando vais,

— ah! só Deus sabe e só nós dois sabemos! —
volta-nos sempre a pálida lembrança
daqueles tempos que não voltam mais!

À ESPERA DE ÍCARO ( Muriel Rukeyser ) Tradução de Nelson Santander

Ele disse que voltaria e que beberíamos vinho juntos
Disse que tudo seria melhor do que antes
Disse que estávamos no limiar de uma nova relação
Disse que nunca mais se encolheria diante do pai
Disse que se dedicaria às invenções em tempo integral
Disse que me amava, que entrar em mim,
Disse ele, era entrar no mundo e no céu
Disse que todas as fivelas estavam bem firmes
Disse que a cera era a melhor cera
Disse Espere por mim aqui na praia
Disse Só não chore

Lembro-me das gaivotas e das ondas
Lembro-me das ilhas escurecendo sobre o mar
Lembro-me das moças rindo
Lembro-me de dizerem que ele só queria fugir de mim
Lembro-me da minha mãe dizendo: Inventores são como poetas: gentalha
Lembro-me dela dizendo que os que testam as invenções são piores
Lembro-me dela acrescentar: Mulheres que amam gente assim são as Piores de todas
Tenho esperado o dia inteiro, ou talvez por mais tempo.
Eu mesmo gostaria de ter experimentado aquelas asas.
Teria sido melhor do que isso.

Por Ana Goês

E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar

Por Sylvia Plath - Tradução de Mônica Magnani Monte

Achava que não podia ser magoada;
achava que com certeza era
imune ao sofrimento —
imune às dores do espírito
ou à agonia.

Meu mundo tinha o calor do sol de abril
Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro.
Minha alma em êxtase, ainda assim
conheceu a dor suave e aguda que só o prazer
pode conter.

Minha alma planava sobre as gaivotas
que, ofegantes, tão alto se lançando,
lá no topo pareciam roçar suas asas
farfalhantes no teto azul
do céu.

(Como é frágil o coração humano —
um latejar, um frêmito —
um frágil, luzente instrumento
de cristal que chora
ou canta.)

Então de súbito meu mundo escureceu
E as trevas encobriram minha alegria.
Restou uma ausência triste e doída
Onde mãos sem cuidado tocaram
e destruíram
minha teia prateada de felicidade.

As mãos estacaram, atônitas.
Mãos que me amavam, choraram ao ver
os destroços do meu firma-
mento.

(Como é frágil o coração humano —
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora.)

CHUVAS DE OUTONO ( Célia Moura ) in Hálito De Afrodite; dezembro, 2018

Ela desce oblíqua
Beijando teu útero
Onde renasce uma nova sinfonia,
Terra ferida na ferocidade do estio
Deturpação de cérebros ocos
Gestos alienados.
Elas, as primeiras chuvas de Outono
Devolvem-te as mãos que acariciam,
As mãos que salvam!
Envolvem-se no solo declarando seu pacto de paixão.
Saúdam-te com voos de gaivota em debandada,
Silêncios rasgando alvoradas em cadências de batuque
Esse deslumbramento que faz vibrar teus seios
Florescendo gotículas de verde azul mar
Cristais sobre o rosto
Acariciando todo o teu corpo desnudado.
Chuvas!
Renovação de vida sem que Afrodite
Se arrelie.
Esta celebração com odor a terra molhada
Onde apetece ser Amor em ti
Sublimação das esferas
Dentro dos teus braços.

26/09/2026

CICATRIZES ( Célia Moura )

Despe-me sem que um só dedo me toque
deixa-me permanecer assim
tal qual sou,
nua perante todos os meus estilhaços
lambendo cicatrizes.
Entendê-las uma a uma,
acarinhá-las como um filho
a quem bateram na escola,
adoptá-las em mim como mãe e concebê-las
vitória.
Não vás já embora,
fica aqui comigo no epicentro do ciclo,
roendo maçãs
olhando-me como se jamais me tivesses visto,
enquanto mergulho no meu ancestral mar de núpcias
para firmar na Luz um novo ritual
trazendo fogueiras ao peito,
gaivotas nos pés e cúmplices sorrisos
tão nossos.
Beija-me sem que eu sinta
teu olhar em minha nudez exposta.
Leva-me contigo no esvoaçar das pombas!

24/09/2026

NUM SAMBA CURTO ( Paulinho da Viola )

 Meu samba andou parado

Até você aparecer
Mudando tudo
Lançando por terra o escudo
Do meu coração
Em repouso
Ontem uma rocha fria
Hoje assim exposto
Deixando entrar sem medo a vida
Aquilo que eu não via

Só agora eu reparei
Que não vi seu rosto
E que você partiu
Sem deixar seu nome
Só me resta seguir
Rumo ao futuro
Certo de meu coração
Mais puro

Quem quiser que pense um pouco
Eu não posso explicar meus encontros
Ninguém pode explicar a vida
Num samba curto

MEMÓRIA DAS ÁGUAS ( Roberto Mendes & Jorge Portugal )

 Amores são águas doces

Paixões são águas salgadas
Queria que a vida fosse
Essas águas misturadas

Eu que já fui afluente
Das águas da fantasia
Hoje molho mansamente
As margens da poesia

Cachoeira da Vitória
Timbó das pedras de seixo
Vocês são minha memória
Correm em mim desde o começo

Quando o Subaé subia
Beijando o Sergimirim
Um amor de águas limpas
Nascia dentro de mim

E foi assim pela vida
Navegando em tantas águas
Que mesmo as minhas feridas
Viraram ondas ou vagas

Hoje eu lembro dos meus rios
Em mim mesma mergulhada
Águas que movem moinhos
Nunca são águas passadas

Eu sou memória das águas
Eu sou memória das águas

20/09/2026

TEIA DE RENDA ( Milton Nascimento & Túlio Mourão )

De mil canteiros de ilusões
Brotam desejos que já vivi
Já conversados, já tão sentidos
Campos de força, tempos atrás


Em meu destino o que restou
Marca profunda de muito amor
Tão procurada, iluminada
Essa loucura que me abraçou


O que se deu, que se trocou
Quanta verdade a se entrelaçar
Que se sofreu, o que se andou
Quase ninguém nos acompanhou


O que me cerca, onde hoje estou
Numa saudade sem tempo e fim
Acomodada, gente parada
Teia de renda que me cercou


Eu não aceito o que se faz
Negar a luz fingindo que é paz
A vida é hoje, o sol é sempre
Se já conheço eu quero é mais


O que se andar, o que crescer
Se já conheço eu quero é mais

18/09/2026

EU E MAIS NADA ( Mika Andrade )

sua presença é sempre devorada pela noite
você apenas surge imponente
com o nascer do sol
eu fico as madrugadas vacilantes
entre frio, solidão e lágrimas cortantes
enrodilhada em mim mesma

sua falta cava um buraco no espaço
eu me enfio dentro dele
e no escuro desse abismo
passo a conviver mais comigo

sua ausência crescente
vai se tornando imensidão
e mudando em mim
o conceito de solidão

quando o sol nasce
nem mais percebo
as cortinas
elas ficam fechadas
e comigo
estão apenas eu, eu mesma
e mais nada

HOJE & SEMPRE ( Mika Andrade )

seu olhar de encontro ao meu
nunca será como fogo alaranjado

talvez a necessidade do seu toque
antecipe o corte

algumas vezes eu tive a sensação terrível
de estar me violentando
para suprir os seus desejos

aquelas flores
que agora estão murchas
ainda espalham o aroma da morte

hoje e sempre

GUARÂNIA DA LUA NOVA ( Luiz Vieira )

Ouvi dizer que o tempo apaga
Lembranças amargas
Que a vida nos traz
Há muito que estou esperando
O tempo passando
E não encontro paz.
Será que o tempo não tem tempo
De olhar meus olhos tristes de chorar
E as cicatrizes do desgosto
Que trago em meu rosto
De tanto esperar


Saudade,
Bichinha danada
Que em mim fez morada
E não quer se mudar,
Tem gosto de jiló verdinho
Plantado na lua nova do penar
O tempo vai passando
E eu vejo o desejo
Da reconciliação
Meu medo é não saber se ela
Traz no peito a lua nova
Do perdão

MEMÓRIA FOTOGRÁFICA ( Mika Andrade )

A partir de agora
Seus olhos caramelos
Me perseguiram até o fim
Assim como você persegue
Quem caminha ou anda de bike
Teu latido repercutirá
em infinitos ecos
Em uma memória que se fará
Inesgotável pra te tornar
Inesquecível


X ( Florbela Espanca ) in Charneca Em Flor, 1931

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida,
– Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

Por Marina Rabelo, in Stela e Outros Poemas de Amor. Offset Editora, Natal, 2021

 cheguei à conclusão de que não há vinho

que me faça esquecer você,
pois todas as uvas têm o seu nome.

sinto-as redondas e aflitas
na ponta da minha língua.

NÃO LIMPE OS PÉS ANTES DE ENTRAR ( Marina Rabelo ) in Stela e Outros Poemas de Amor. Offset Editora, Natal, 2021

 Entre com a lama, a grama, a poeira

e a areia do mar.

Entre com o barulho das ruas, do samba
e dos versos do poeta de mesa de bar.

Entre com o cheiro do asfalto, do ônibus lotado
e do pastel de carne com suco de maracujá.

A porta está aberta,
pode entrar: eu quero minha alma suja
e feliz.

IV ( Maria Judite De Carvalho ) in A Flor Que Havia Na Água Parada - poemas, Europa América, 1998

Eu dantes tinha olhos verdes
Só agora reparei
Verdes, viam tudo verde
por que eram verdes, não sei.
Sorriam àquela flor
Que havia na água parada
Verde flor, na verde água
da vida transfigurada.
Hoje olham e reconhecem
que há muito mais cores para ver.
Cor de flor, que logo esquecem
Cor de charco a apodrecer.

17/09/2026

CANSADA DE SER MULHER ( Madalena Palma )

Estou cansada de ser mulher
Esgotada de ser aquela que os homens procuram
Para viver momentos de prazer
Estou cansada de ser carne e gozo
Fatigada de ser um ser vazio e sem alma
De ser fonte de desejo e de não beijar
Estou farta de mandar embora da minha vida
Quem nunca deixei verdadeiramente entrar
Estou sem sangue frio nas veias
Para implacavelmente continuar a ser mulher

EM MIM ( Madalena Palma )

No meu corpo vivem
Todas as formas das tuas mãos
Quando em movimentos lentos
Retomo cada gesto que me encheu
E cada lugar nunca antes habitado
Por ter sido a ti que entreguei uma pele sem véu

ANGÚSTIA ( Virgínia Do Carmo )

Ensaiamos os dias em trapézios
instáveis. Na superfície movediça
de construções humanas em suspensão.
Segurando na fragilidade do equilíbrio
o prumo da justiça.

Sempre que caímos, por mais que tentemos
evitar a vertigem da ordem, todos os factos
se perdem na dispersão dos elementos.

PESO ( Virgínia Do Carmo )

Tão cheias as mãos de pedras
e de lama, de ruas sem saída,
de linhas que não são nem casas,
nem caminhos, nem janela,
nem telhado, nem paredes.

Tão cheias as mãos de destinos
confusos que não se perdoam, que
se magoam nos declives imperfeitos
dos corações sem margens. Tão cheias
as mãos de pedras e de lama. De asas
sem corpo onde fechar a dor.

E o peso. O peso dessa angústia
sem braços.
O peso.

PALAVRAS GRAVES ( Virgínia Do Carmo )

Tão difícil colocar a voz no chão e andar.
Descer às sílabas simples das coisas, à plana
brancura dos significados claros. Crescem as
razões do peito que não quer ser casa, crescem
loucas, inventadas à pressa na pressa
da fala: tecto danificado, paredes frágeis,
buracos no soalho. Palavras, nada
mais. Palavras graves e provas inúteis.
Um dicionário de obstáculos a cobrir-se
de pó na parte mais funda da vida.

TORTURA ( Virgínia Do Carmo )

São de vidro as pétalas que me rebentam
na boca. Não há grito ou palavra que não
se rasgue quando o mundo me chega aos lábios.
Até o silêncio sangra quando o pensamento
me atravessa a língua para chegar ao coração.

Um dia o meu íntimo será feito apenas
de poemas esgaçados.

LUTO ( Virgínia Do Carmo )

Que farei agora com as dores tépidas
que me consomem os ossos do entendimento?

Que farei com tantos gritos atirados
ao esquecimento agora que a garganta é
um crivo deformado e a voz uma depressão
incómoda na sequência dos significados?

As esperas inacabadas, os equívocos das mãos
abertas para nada, que farei eu com elas?

Porque não escrevi todos os poemas quando
o mundo era ainda um lugar belo e perfeito,
quando o meu coração era ainda inteiro
e virgem, quando tinha ainda os olhos limpos
de tanto mal?

Que farei agora com as cinzas do meu peito?
Onde vou eu sepultar as alegrias mortas?

NÃO HÁ LUGARES SEGUROS ( Virgínia Do Carmo )

 Não estamos a salvo, ainda.

Nem dos desfazeres do mundo,
nem dos atrasos da paciência.
Não há lugares seguros onde guardar
equívocos. Nem âncoras que bastem
ao arrasto da solidão.

Não estamos ainda em terra. Não há
farol nem costa. E somos frágeis demais
para tanto mar. Para tanto abismo.
Para tanto.

Não estamos a salvo, ainda.
Nem das coisas inevitáveis.
Nem das coisas sérias e óbvias.

Não há lugares seguros neste mundo.

QUASE NADA ( Virgínia Do Carmo ) in A Menina Que Aprendeu A Matar Centopeias E Outros Poemas; Poética, 2023

É tanta a rouquidão das aves
nesta áspera noite. Tão sinuoso
o céu, tão amargo o roçar
das asas no choro do vento.
Queimei toda a água
dos meus olhos à força
de te chamar. Perdi a voz
e quase todas as penas.
Voo cega e sem norte.
Tenho frio e desconheço
se me procuras ou se me esperas.
Voo triste. Exausta.
Quase morta. Tão fria.
A crescer para ser
pedra. Quase queda.
Quase nada.

Por Célia Moura

Deixa-me brincar contigo
sussurrar-te palavras ao ouvido
mordiscar-te levemente as orelhas
emaranhando meus dedos em teus cabelos de menino
enroscando-me em teu colo
como uma criança feliz.
Apeteces-me tanto!
Deixa-me levar-te
aos meus locais de exílio,
tu que sempre julgaste conhecer-me de lés a lés
e jamais ultrapassaste meu óbvio sorriso.
Apeteces-me tanto neste momento
que chegas a doer-me!
Por não estares em mim,
pois se estivesses
nada mais serias que o efémero momento
onde deslizo ânsias,
onde desesperadamente existo,
instantes!
Apenas fluis em mim como um rio.
Meu sangue nas artérias, irrequieto
esta perda de mim
dentro de mim,
angústia sufocada de tantos gritos
rasgando meu peito
ultrajando nossos corpos
no âmago cristalino da saudade
e este peregrinar absurdo entre as gentes.