quando te beijo o beijo que tu me beijas
POÉTICA LEITURA
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
17/03/2026
BEIJO (Vasco Gato) in UM MOVER DE MÃO (Assírio & Alvim, 2000)
13/03/2026
À ISADORA DUNCAN ( Ana Júlia Lima )
Águas subterrâneas
presas em meu corpo enlamaçado
procuram desaguar por onde seu rastro
pintou a liberdade
quadro de muitas pinceladas
coreografia não ensaiada
Corre
feito água na relva
árvore possuída pela
ventania
da sua presença
Solo fértil para a procriação
de desejos incontornáveis
os meus dedos alcançam o céu
mas quero tocar a origem
o começo úmido do mundo.
Há dias em que o meu ventre cria
troco de casca
sou a nova fonte do que serei um dia
há dias em que o meu ventre pesa
carrego a dança fúnebre:
dois passos entre morrer e renascer.
O tecido com que fui represada
anseia por escorrer
por um corpo em ondas
dourado pela luz de Isadora.
SACRIFÍCIO ( Ana Júlia Lima )
Sacrifício
substantivo masculino
atrelado ao corpo feminino
pacto forjado ao íntimo.
Sempre estive aqui
ouvi e nunca falei
procriei, mas não semeei.
Eu as vi emergir das águas
crescer na terra
e queimar nas chamas
agora as escuto gritar
e quero ouvir a minha voz
em um espaço de vozes
inimagináveis
que conversam comigo
no mesmo tom de fúria e união.
Rasguei o contrato imposto
às minhas ancestrais
e queimei junto das roupas não lavadas.
O banho de água fria
não foi o suficiente
para me apagar
é muito mais de dentro
mais fundo
mais quente:
meu sangue já não responde aos punhais.
Minhas raízes fizeram-se flexíveis
com a minha própria enxurrada
que limpou teu nome da minha pele
e agora se espalham pelo chão do mundo.
18/02/2026
Por Adelina Barradas De Oliveira, in O Mar Dos Meus Olhos, Edições Esgotadas - 2024.
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
ENCANTERIA ( Paulo César Pinheiro )
Vou queimar a lamparina
17/02/2026
TEMPO ( Carolina Salcides )
Busco o estado em que minha alma resplandeça
DESPERTAR ( Carolina Salcides )
A paixão é o trem da vida, não é o trilho
Por Carolina Salcides
Eu quero o melhor de mim,
ANGELUS ( Elisa Ribeiro )
Os cumes além, muito além das minhas asas
AS CATARATAS ( Elisa Ribeiro )
Abrimos uma fenda
ATÉ PENSEI ( Chico Buarque )
Junto à minha rua havia um bosque
ALUMBRAMENTO ( Chico Buarque & Djavan )
Deve ser bem morna
THE HEART IS A LONELY HUNTER ( Golgona Anghel )
Arqueja-me o dilúculo no ventrículo
esquerdo da alma
quando te avisto a descer, meditabunda,
a avenida da minha liberdade de expressão.
Conto-te os passos em ordem minguante,
desde a esquina da mais cruel alucinação
e as rãs rezam, em voz baixa,
o hino nacional.
Reconheço-te a sinalização temporária dos sorrisos,
mas pressinto a derrogação tácita
das listas de espera,
enquanto um relógio de pedra imita as faces do poente.
Desfraldo a fresta da nossa gesta
e vejo uma placa a pendular ao alísio.
Vai e vem, vem e vai, como o badalejo
de um sino de vaca.
Um badalejo de bronze. A tresandar a queijo e a azedão.
Viro-a ao contrário,
de modo a dispor as letras de frente para mim.
Estas, grandes, gordas, inchadas, incorporam, na sua opulência,
a pergunta queres sentir-me dentro de ti ?
16/02/2026
Por Golgona Anghel, in Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho - Porto Editora, 2013
O desinteresse acumula-se à minha volta
como as camadas seculares
no tronco de uma sequóia.
Fico imune a queixinhas.
Lavo sozinho a minha roupa.
A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.
No lugar do grito,
uma greta.
Mãos nos bolsos,
bico calado.
Evito vitrinas e espelhos.
Tenho medo que a verdade
me possa desfigurar o rosto.
Por Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam; Mariposa Azual, 2011
Passas horas a olhar-me em silêncio
15/02/2026
Por Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam; Mariposa Azual, 2011
Na sala de leitura da insónia,
SEIO ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Tarde, 1963
O teu seio que em minha mão
AD INSTAR DELPHINI ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Tarde, 1963
Teus pés são voluptuosos: é por isso
O SÚCUBO ( Manuel Bandeira ) in Carnaval, 1919
Quando em silêncio a casa adormecia e vinha
AS TRÊS MARIAS ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948
Atrás destas moitas,
AMORA ( Renato Teixeira )
Depois da curva da estrada


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