09/04/2026

RENATA MARIA ( Chico Buarque )

Ela era ela era ela no centro da tela daquela manhã
Tudo o que não era ela se desvaneceu
Cristo, montanhas, florestas, acácias, ipês

Pranchas coladas na crista das ondas, as ondas suspensas no ar
Pássaros cristalizados no branco do céu
E eu, atolado na areia, perdia meus pés

Músicas imaginei
Mas o assombro gelou
Na minha boca as palavras que eu ia falar
Nem uma brisa soprou
Enquanto Renata Maria saía do mar

Dia após dia na praia com olhos vazados de já não a ver
Quieto como um pescador a juntar seus anzóis
Ou como algum salva-vidas no banco dos réus

Noite na praia deserta, deserta, deserta daquela mulher
Praia repleta de rastros em mil direções
Penso que todos os passos perdidos são meus

Eu já sabia, meu Deus
Tão fulgurante visão
Não se produz duas vezes no mesmo lugar
Mas que danado fui eu
Enquanto Renata Maria saía do mar

08/04/2026

DOMINGO DE MANHÃ ( Manuel Halpern )

 Quantos homens

se apaixonam por ti
ao sábado à tarde
enquanto passeiam os filhos
no parque
e se distraem
do balanço
do baloiço
na adivinhação
das partes do corpo
que trazes tapadas

Mal sabem que a tua solidão
não se preenche
com a desventura erótica
de um corpo
que te cubra
sem consolo
Não há falta
de quem se deite
contigo
sábado à noite
apenas quem acorde
ao teu lado
domingo de manhã

OUVIDOS ( Maria do Rosário Pedreira )

 Quando estou sozinha,

sento os mortos à mesa
e dou-lhes de comer –
um prato a cada um, em

troca dessas histórias que
morro de saudades de os
ouvir contar. E escuto-os

com a velha paixão – tal
qual estivessem vivos –
para não me fugirem as
suas vozes da memória.

Às vezes choro, claro –
e nem é por eles já não
terem dentes e me
deixarem quase tudo no

prato; mas por os ver ali,
ao pé de mim, e me sentir
na mesma tão sozinha.

SETE CENAS DE IMYRA ( Taiguara )

 Imyra, Tayra, Ipy

Primeira cena: o nascer
Do beijo de Ara rendy
Jemopotyr - florecer

É gema, é germe, é gen-luz
Imyra brilha no ar
Corou vermelho e azul
Por sobre o virgem rosar
É rosa gente, é razão
É rosa umbilical
Jukira, sal, criação
Potyra, flor-animal

Imyra, Tayra, Ipy
Segunda cena: crescer
Ferir o espaço e abrir
A flor primal de mulher

Figura, cor, rotação
Calor, janela, pombal
Palmeira, morro, capim
Moreno, ponte, areal
Retina, boca, prazer
Compasso, ventre, casal
Descanso, livre lazer
Loucura, vida real

Imyra, Tayra, Ipy
Terceira cena: saber
Que o índio que vive em ti
É o lado mago em teu ser

Se vim dos Camaiurá
Ou das missões, guarani
Nasci pr'a ti meu lugar
Nação doente, Tupi
Por isso vou me curar
Da algema dentro de mim
Por isso vou encontrar
A gema dentro de mim

Imyra, Tayra, Ipy
A quarta cena é mostrar
O que há de pedra no chão
O que há de podre no ar

Criança em frente ao pilar
Imaginando seu mar
O mastro imenso, o navio
A vela, o vento, o assobio
É caravela, é alto-mar
Até de novo acordar
Pr'o que há de podre no chão
Pr'o que há de pedra no ar

Imyra, Tayra, Ipy
A quinta cena é sofrer
Cunhã curvada a chorar
Tayra tensa a temer

Fui companheira dos sós
Fui protetora das leis
Fui braço amigo de avós
Até o rei perdoei
Hoje faminta sou ré
Como um cachorro vadio
Arrasto inchado o meu pé
Por chãos de fogo e de frio

Imyra, Tayra, Ipy
A sexta cena é esperar
No céu branqueia Jacy
Tatá verdeja no mar

Vislumbre claro, visão
Valei-me, meu pai! Que luz!
Como se um trecho de chão
Se erguesse em asas azuis
Dobrando a curva do céu
Pr'a mergulhar sobre o mal
E o justo império de Ipy
Chegasse ao mundo, afinal!

Imyra, Tayra, Ipy
A cena sete é um saci
Pé dentro do ano dois mil
No centro - sol do Brasil
Aos sete dias do mês
Um dia azul de leão
Me deram vida vocês
Dou vida hoje à expressão
Quero essa língua outra vez
Quero esse palco, esse chão
Brinca Tupi-português
Dentro do meu coração

FINADOS ( Ana Martins Marques )

 A morte se expia vivendo.

 Giuseppe Ungaretti, “Sou uma Criatura”

Estava a morte por perto

e por isso a vida
armou sua vingança:
aumentando-nos a fome
a vontade de cerveja
e condimentos
o desejo de gastar o dia ao sol.
Tuas camisas nos armários
agora apenas vestem a si mesmas.
Seria preciso usá-las, levá-las para passear,
manchá-las de café, tinta, graxa,
desodorante, suor.
Uma ofensa à morte
um desafio.
Quem sabe tudo o que morreu
com quem morreu?
Um livro nunca escrito
um novo amor
um pensamento que permanecerá
impensado.
Quem sabe o que essa morte
trouxe à vida?
As casas
coloridas
estão alegres sem motivo.


Acabamos de lançar tuas cinzas
surpresos de que reste
tão pouco de ti
depois seguimos em silêncio
ao sol
em meio a tudo o que
te sobreviveu
— e tu estás
em tudo


Estamos todos reunidos
na praia da palavra infância

um barco é um nó no mar

dormem tarde nesta época
as luzes do dia

estamos todos reunidos em torno
do seu lento apagamento

o mar devolve espumando
o que comeu

sob sua superfície brilhante
pastam peixes coloridos

anêmonas, pedras, corais
como sob a capa de um livro

estamos todos reunidos em torno
do ouriço da palavra ouriço

este ano você não veio

justo no primeiro ano da sua morte
você não deveria faltar

estamos todos reunidos em torno
da fogueira do seu nome


É como se a infância não fosse um tempo
mas um lugar
com seus cumes seus esconderijos
suas pequenas clareiras
um lugar, aquele onde cometemos
nosso primeiro crime
há quem tenha matado um coelho
há quem tenha matado um sapo
há quem tenha matado um cão
há quem tenha mentido perseguido destroçado
deixado morrer
por capricho
de minha parte matei uma criança:
uma menina morreu em mim
por onde vou carrego
seu cadáver
e a forma exata do seu corpo
repousa no meu corpo
como num vestido
largo demais

DEPOIS DO AMOR ( Luís Filipe Parrado )

 De mais nada posso falar:

só deste cheiro a fruta espessa, crua,
que de ti me fica nos dedos,
na polpa, entre a pele e as unhas,
mesmo depois do sabonete e da água corrente.

GAZEL DO UNIVERSO COMEÇANDO ( Carlos Nejar )

 1.

Irei, irás
onde os ventos
nos exigem.

E o universo
é o começo
de estar contigo.

2.

O arado
com o trigo
vai rodar.

Irei, irás
com os cabelos
rodando.

O céu irá
rodar
no colo plúmeo
das espigas.

Seguirás
com as colinas
e os plátanos
rodando.

O mundo
é tua mão
desprevenida.

Vai rodando
a alma
no teu corpo,
o feno dos meses,
tuas tranças.

Irei, irás
onde reluz
de outro limite,
o mar.

E o universo todo
é o começo
de estar contigo.

VI (Pedro Lyra)

 Eu te toco

                te beijo

                                   te navego

te percorro em mergulho

                                    a descobrir

em que parte de ti é que me instalo:

é nas lindes das células

                                          lá onde

lateje a linfa que te faz tão única?

nos vãos das veias

                               lá por onde pulse

a seiva que arrastou-me até a ti?

Mas não é só nas aras do teu corpo

que eu desejo

                         e preciso

                                       me encontrar

como não só no meu é que te encontras:

- estamos nas vivências um do outro

no  que funda e transfunde nossos seres

ou nem nos somos;

                                  e

                                       ou sim ou não

justifica-se

                     ou não

                                  nosso nascer.

LADAINHA ( Cassiano Ricardo )

 Por que o raciocínio,

os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.

Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

07/04/2026

TENDO A LUA ( Herbert Vianna )

 Eu hoje joguei tanta coisa fora

Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim

O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante e sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu

Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares
Mas de bailarinos
E de você e eu

04/04/2026

PUTA (Júlia Duarte )

 Comprei o baú inteiro

Jóias e jóias marcaram tempos
Desfilaram festas
Enterraram almas
E se fizeram herança

No vaivém da dança
Acompanharam donas e santas
Dormiram em cabeceiras de mármore
Multiplicando a frieza que brilha

Meretrizes, mulatas e malandros
Carregam o reinado nos bolsos
Seus pés gastos beijam ruas
Que ficam para trás

A cama é mais justa do que roupa de puta
Para quem divide o lençol
Abraça o sujo
E acorda atrasado cheio de culpa

As jóias esquentam no sol
Pelo corpo da Puta rica
Cujo corpo arde de graça
Na beira do rio

E ninguém faz nada.

BEIJO ( Júlia Duarte )


Um beijo é pluma


E apesar do sonho meu

Escapa para o céu


Um beijo é doce

Quando a língua passeia pelos lábios

Até que o açúcar acabe


Um beijo é verdade

Depois de unir os lábios

Se unem olhares fixos


Um beijo é ilusão

Você encontra uma outra língua

no escuro do sono solto


Um beijo é paixão

O tempo não passa

E você gruda


Um beijo é despedida

As bocas descolam

Para a lágrima passar


Um beijo é culpa

Mal acontece

Em virtude do que já foi


Um beijo é o que você quiser.

FLORES ( Júlia Duarte )

 Ela fechou a porta

A outra dormiu os olhos por um segundo

Ela prometeu não voltar
A outra chorou de amor

Ela deixou seu cheiro
A outra sentiu saudades

Ela deixou um bilhete
A outra não leu

Ela não ligou
A outra herdou o silêncio

Ela foi procurar seu tempo
A outra ficou sem ar

Ela disse que voltaria um dia
A outra acreditou

Ela se entregou para alguém
A outra cobriu o rosto com a palma da mão

Ela dançou seu corpo em outras pernas
A outra se perdeu

Ela sorriu
A outra dormiu para sempre

Ela comprou flores
A outra gelou

Ela foi dizer adeus
A outra não se mexeu

Ela abraçou
A outra não sentiu

Ela fechou os olhos da outra
E a outra não abriu

FICA COMIGO ( Júlia Duarte )

 Beija-me

Abraça-me

Me sinto bem assim
Com você

Acena
do teu amor
para o meu

Porque eu também amo
Sabia?

Mesmo depois
De cair
no engano da vida mansa

Dança
Comigo a poesia dos lábios

A chegada
Da carne quente

Ausente de qualquer lágrima

Um presente
É você

Cada vez que abre os olhos
Entra em mim

Em um mar sem fim
Me afogo no desejo

Tiro o pó da alma
Busco o ar
Encontro seus olhos no alto

Para você
Que visitou minha solidão

E lá ficou
Sem pressa

Na companhia
Dos passos

E como eu gosto.

VEM? ( Júlia Duarte )

 Arrepia o corpo

No meu

Sobe e desce
O calor

Abraça
Pele com pele

Fala baixo
No ouvido

Beija
Meu beijo

Olha
Pra cima

Me sente
De baixo

Vira
A página

Respira
O lençol

Segura
A cama

Luta
As pernas

Relaxa
Sem dor

Mexe
O pescoço

Me encontra
De olhos

Pintados

A SURPRESA É O ORGASMO ( Júlia Duarte )

 Enferma

Cheia dos não-me-toques

A vida descansa
e respinga gargalhadas

Cochicha
sobre a sujeira

Não pisca
sobre a traição

Condena
pelas costas das mãos

Em orações
demolidas

O importante
é amar

Selar o beijo
e a dor

Meu pai sempre disse:

- Seja feliz.

Minha mãe sempre disse:

- Pense antes de fazer qualquer coisa.

Impossível ser feliz
se planejada a vida

A surpresa
é o orgasmo

Escondido
nas esquinas de uma vida traiçoeira

Que ordena.
E mais nada.

PRONTO, FALEI (Júlia Duarte )

 Seus cabelos

abrem portas
e batem pernas

Se apresentam
e representam
um sonho vencido

Do alto
ela me convida
para um passeio

Na sua carne
Deito de olhos
abertos

Descubro
o que ela guarda
embaixo da roupa

Sua pele
segue minha língua
Sem atalhos

Fico horas e horas
sentindo seu corpo
igual ao meu

A água na cabeceira
me faz ter certeza
que ainda sou eu

Por mais um dia.