Busco o estado em que minha alma resplandeça
POÉTICA LEITURA
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
17/02/2026
TEMPO ( Carolina Salcides )
DESPERTAR ( Carolina Salcides )
A paixão é o trem da vida, não é o trilho
Por Carolina Salcides
Eu quero o melhor de mim,
ANGELUS ( Elisa Ribeiro )
Os cumes além, muito além das minhas asas
AS CATARATAS ( Elisa Ribeiro )
Abrimos uma fenda
ATÉ PENSEI ( Chico Buarque )
Junto à minha rua havia um bosque
ALUMBRAMENTO ( Chico Buarque & Djavan )
Deve ser bem morna
THE HEART IS A LONELY HUNTER ( Golgona Anghel )
Arqueja-me o dilúculo no ventrículo
esquerdo da alma
quando te avisto a descer, meditabunda,
a avenida da minha liberdade de expressão.
Conto-te os passos em ordem minguante,
desde a esquina da mais cruel alucinação
e as rãs rezam, em voz baixa,
o hino nacional.
Reconheço-te a sinalização temporária dos sorrisos,
mas pressinto a derrogação tácita
das listas de espera,
enquanto um relógio de pedra imita as faces do poente.
Desfraldo a fresta da nossa gesta
e vejo uma placa a pendular ao alísio.
Vai e vem, vem e vai, como o badalejo
de um sino de vaca.
Um badalejo de bronze. A tresandar a queijo e a azedão.
Viro-a ao contrário,
de modo a dispor as letras de frente para mim.
Estas, grandes, gordas, inchadas, incorporam, na sua opulência,
a pergunta queres sentir-me dentro de ti ?
16/02/2026
Por Golgona Anghel, in Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho - Porto Editora, 2013
O desinteresse acumula-se à minha volta
como as camadas seculares
no tronco de uma sequóia.
Fico imune a queixinhas.
Lavo sozinho a minha roupa.
A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.
No lugar do grito,
uma greta.
Mãos nos bolsos,
bico calado.
Evito vitrinas e espelhos.
Tenho medo que a verdade
me possa desfigurar o rosto.
Por Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam; Mariposa Azual, 2011
Passas horas a olhar-me em silêncio
15/02/2026
Por Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam; Mariposa Azual, 2011
Na sala de leitura da insónia,
SEIO ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Tarde, 1963
O teu seio que em minha mão
AD INSTAR DELPHINI ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Tarde, 1963
Teus pés são voluptuosos: é por isso
O SÚCUBO ( Manuel Bandeira ) in Carnaval, 1919
Quando em silêncio a casa adormecia e vinha
AS TRÊS MARIAS ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948
Atrás destas moitas,
AMORA ( Renato Teixeira )
Depois da curva da estrada
UNIDADE ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948
Minh'alma estava naquele instante
TERNURA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917
Enquanto nesta atroz demora,
MANCHA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917
Para reproduzir o donaire sem par
VOLTA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917
Enfim te vejo. Enfim no teu
CONFISSÃO ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917
Se não a vejo e o espírito a afigura,
TREM DE FERRO ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Manhã, 1936
Café com pão
MATÉRIA DE POESIA ( Manoel de Barros )Gramática Expositiva do Chão (Poesia Quase Toda) Ed.: Civilização Brasileira; 1990.
Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia.
O homem que possui um pente e uma árvore serve para a poesia.
Terreno de 10X20, sujo de mato – os que nele gorjeiam: detritos semoventes, latas servem para poesia.
Um Chevrolet gosmento Coleção de besouros abstêmios, o bule de braque sem boca são bons para poesia.
As coisas que não levam a nada tem grande importância, cada coisa ordinária é um elemento de estima, cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia ou na geral.
O que se encontra em um ninho de João Ferreira, caco de vidro, grampos, retratos de formatura servem demais para poesia.
As coisas que não pretendem como por exemplo pedras que cheiram a água, homens que atravessam períodos de árvore se prestam para a poesia.
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma, o que você não pode vender no mercado, como por exemplo o coração verde dos pássaros serve para a poesia.
As coisas que os líquens comem, sapatos, adjetivos, têm muita importância para os pulmões da poesia.
Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita pisa e mija em cima serve para poesia.
Os loucos de água e estandarte servem demais.
O traste é ótimo, o pobre diabo é colosso.
Tudo que explique o alicate cremoso e o lobo das estrelas serve demais da conta.
Pessoas desimportantes dão para poesia.
Qualquer pessoa ou escada, tudo que explique a lagartixa de esteira e a laminação de sabiás é muito importante para a poesia.
O que é bom para o lixo é bom para poesia.
O importante sobre maneira é a palavra repositório. A palavra repositório eu conheço bem, tem muitas repercussões como um algibe entupido de silêncio sabe a droços.
As coisas jogadas fora têm grande importância- como um homem jogado fora.
Aliás, é também objeto de poesia saber qual o período médio que um homem, jogado fora pode permanecer na terra sem nascer em sua boca as raízes da escória.
As coisas sem importância são bens de poesia.
Pois é assim que um Chevrolet gosmento chega ao poema e as andorinhas de junho.
13/02/2026
ALMA NOVA ( Fernando Abreu & Zeca Baleiro )
Sempre que te vejo assim










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