11/04/2026

A ILHA ( Djavan )

 Um facho de luz

Que a tudo seduz
Por aqui
Estrela cadente
Reluzentemente
Sem fim

E um cheiro de amor
Empestrado no ar
A me entorpecer
Quisera viesse do mar
E não de você

Um raio que inunda
De brilho
Uma noite perdida
Um estado de coisas
Tão puras
Que movem uma vida

E um verde profundo
No olhar
A me endoidecer
Quisera estivesse
No mar
E não em você

Porque seu coração
É uma ilha
A centenas
De milhas daqui

10/04/2026

NESTE SILÊNCIO ( Artur Ferreira )

 Olhando nos meus, teus olhos gritavam:

diz, diz que me amas, diz da paixão
que sentes por mim.

Tremendo em silêncio, teus lábios diziam:
beija-me, deixa-me beber teu amor,
passear no teu corpo, fazer-te gozar.

Teus seios eretos, ansiando diziam:
somos teus, para sempre,
suga-nos e bebe nosso sumo de amor!

E à noite, teu corpo tremendo, pedia:
vem e me toma, guarda-te e morre
dentro de mim!

Teu sexo úmido, ansiando, chorava:
vem, te prometo prazeres sem fim,
vem meu amor e renasce em mim!

E eu, surdo da vida e surdo do amor,
não ouvia os teus gritos teu desejo por mim.

E quando o tédio infame, afinal tomou conta
e o descaso doído nos fez companhia,
afinal nossa hora chegou.

E sem gritos nem choros,
sem amor e sem ódios,
sem eu o saber,
levastes minha vida.

E hoje, no imenso vazio,
de um silêncio sem fim,
eu ouço teus gritos
que antes não ouvia.

ESSES HÁBITOS QUE TENS ( Artur Ferreira )

 Hoje acordei

e ainda sonhando,
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas.

Esse hábito doce que tens
de me acordar.

Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo.

Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã.

Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário.

Esse hábito lindo que tens
de me excitar.

E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta.
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo.

NOITE DE MENDIGO ( Eliana Mora )

 Fui seqüestrada nas entranhas

desta noite
por uma espécie de Senhor
da madrugada
Era meu corpo a implorar
por um abrigo
tal qual imensa ilha
desgarrada

Ele insistia em relembrar mistérios
entumecia agredia
(desterrava)
E evocava um outro tipo
de tremor
Algo que fosse o avesso
(uma morada)

Amanhecia
e as plantas já secavam
daquelas gotas tão iguais às
do meu corpo
E a viagem (ante o sol)
se transformava
em mais algum delírio que
desponta
de uma louca (e tão mendiga)
madrugada

O CAMINHO DAS NUVENS ( Eliana Mora )

 Senti na pele

os dedos teus
colando em mim
um surfe estranho
a voltejar
em minhas ondas
olhando enfim para as
paisagens tão
redondas
ouvindo o som
do que de longe
já conheces

E tomas posse
do terreno
demarcado
que amanhece
todo dia
em cama fria
Porém que túmido
servil
e orvalhado
sabe mostrar das noites
frias
resultado

Terreno morno
que se tranca a esperar
que possas vir
[de alguma nuvem
despencar]
Para sorver na noite
a fonte
do esplendor

Colhermos juntos
tão sentido
e doce

amor

RITMO DESNUDO ( Eliana Mora )

 As pétalas de um corpo

são assim
Podem querer se dar
se desfolhar
De certo modo podem mesmo latejar
E ele vai ficando
um tanto mais safado
mais desnudo
E na vergonha
deixa de dizer que ainda fica
mudo
Por que ninguém queria ouvir
um grito seu
E vai perdendo aquele jeito
duro
um ar de estátua
sólido e salino
de planta seca mas vivaz
um certo ar mordaz
[ou ar divino]
De algo que encolheu
que foi fechando
que se rompeu num ritmo
perverso
escondendo de si mesmo
um próprio indesejado
verso
Que tocou desafinado
sem sentido
E assim permaneceu por muito
tempo
[um tempo infindo]
Sem ter pensado
ou procurado achar
perdão
Ou ainda tão somente ter
olhado
Se ainda tinha corda
aquele corpo
Solo virgem

[violão]

PRECE ( Eliana Mora )

 Preciso do veludo

dos teus cílios
da maciez
e da audácia do
teu cheiro
da embriaguez
que vem da
tua boca

Preciso te tocar
preciso voltar
a ouvir
o som
do teu corpo

AS PORTAS DO MEU COFRE ( Eliana Mora )

 Insensata alma

às vezes presa por um fio
A conviver interpretar
como quizer
a luta e o delírio de morar
num corpo
que respira que se inspira
E permanece assim
calado
Como que a temer
os seus escritos
seu papel
algum teclado

E o desafio de morar
num bicho
um ente
que não retoca seus
segredos
[só os sente]

Em tolas gotas
de um secreto mal de amor

Que vivem presas
muito mais por que
trancaram-se
as portas de seu cofre
Do que por desistir
ou esquecer
de ter sonhado

Com o fascínio
e o sabor de certo
beijo
tom carmim

Que já não está
em tua boca

[cor marfim]

TEU FRUTO ( Carlos Seabra )

 Chupo

teu fruto
na moita
que o vento
açoita
com boca
afoita
que grita
como louca
que goza
como vento
e geme
como mulher

O AMAR DO MAR ( Carlos Seabra )

 boca do mar

beijo de sal
lábios da praia
pele de areia

língua de rio
decote de dunas
seios de ilhas
abraço do sol

correntes de desejo
cheiro de algas
ondas de prazer
espuma que rebenta

gemidos das gaivotas
gozo das nuvens
céu que se funde
no azul do mar

PRIMAVERA ( Maria da Saudade Cortesão Mendes)

 A Musa que passava

Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.

MA E MI ( Rosa Leonor Pedro )

 Meu amor, procuro o ritmo do teu corpo no meu corpo,

procuro o alento do teu peito no meu
o ar que a tua boca respira na minha.

Procuro em ti o ritmo interno, bem dentro,
no fundo de cada movimento, no centro do teu coração.

Quero-te inteira na minha vida na minha alma
quero dançar contigo esta harmonia de sentir
e saber-te em cada átomo, em cada elemento,
sentir-te bem fundo no meu ventre,
ser tua mãe e tua filha ao mesmo tempo, que é não ter tempo.

Quero ser a árvore e a semente, quero ser a terra lavrada
e por cima dela emergir para sempre:
como no mar me deitas e me embalas antes de nascer,
sempre nos teus braços,
recomeçar esta dança do ventre
da eterna bailarina
que neste mundo eu sou...

FRAGILIDADE ( Rosani Abou Adal )

 Teu corpo ausente do meu corpo,

sou tão frágil como um instante,
uma onda que se quebra no ninho de ostras.
Tuas mãos não repousam sobre meu ventre,
sou tão pequena como um segundo.
Tuas mãos não aquecem meu coração,
sou tão fria quanto a neve.
Sou uma camponesa colhendo
tâmaras, pistache, misk e snôbar.
Não sinto frio, teu corpo me aquece.
És sementes florescendo nos campos.

MISTÉRIOS DA INTIMIDADE ( Rosani Abou Adal )

 Nossa intimidade é tão secreta

quanto as confidências de um soberano.
Nosso amor, cinto de castidade,
ninguém descobre nossas mãos proibidas.
Comemos maçãs e semeamos segredos
distantes do mundo e da vida.
Fugimos das pessoas como crianças carentes
em busca de carinho e afeto.
Ninguém nos percebe cercados de quatro paredes,
ninguém desvenda nossos mistérios.
Somos Édipo e Jocasta da era tecnológica.
Num pequeno vaso grego lapidamos
nossos sonhos, fantasias, medos,
verdades, mentiras,
fragilidades e sentimentos.
Vivemos o medo de ser descobertos
como meninos que roubam frutas
dos quintais e correm dos cachorros bravos.
Não sabemos quem somos,
não sei quem tu és.
Meu presente e meu passado?
Do futuro nada sei.
Quem és tu que me fazes fugir de mim mesma?

AQUÁRIO ( Rosani Abou Adal )

 Tudo frio na madrugada.

Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.

PERDIDOS NO UNIVERSO ( Rosani Abou Adal )

 Há momentos em que me sinto

tão forte quanto as montanhas do Tibet.
Beijo teus lábios, sinto infinita paz.
Existem instantes em que sou
tão grande quanto a força divina,
toco tua intimidade, vôo céus, percorro oceanos,
atravesso horizontes e alcanço tua base aveludada,
sou tão forte como os deuses do Olimpo.
Existem dias em que me sinto
tão pequena como um átomo perdido na galáxia,
teus lábios estão distantes dos meus,
não sinto o gosto de tua boca,
não escuto tua voz de acalanto,
não te toco corpo nem alma,
não sinto teu cheiro no meu corpo,
tuas mãos não me afagam,
perdida no universo
sou o núcleo de um átomo.

NUA ( Rosani Abou Adal )

 Sinto-me como um cabide

que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.

CARÊNCIA NA NOITE ( Rosani Abou Adal )

 Procurei-te por todos os cantos e bares.

Nas mesas vazias, nem sinal de tua sombra.
No céu, a estrela solitária.
O silêncio das ruas, a minha inquietude.
Do outro lado da calçada
ninguém me acompanha os passos.
Uma gata mia no cio,
abraça muros e portões
com unhas afiadas.
Os olhos verdes brilham
para encontrar aconchego
na próxima esquina, debaixo de um automóvel,
num casarão de luzes apagadas.
Brilham tanto que parecem
gerar sete gatinhos em cinco minutos.
Com passos lentos, caminho
seguindo teus rastros,
tuas marcas felinas invisíveis.
A calçada sem pegadas.
Em casa, um ombro amigo,
a coberta fria me aquece e me acolhe.
Sem vestes, abraço a espuma e durmo.

AUSÊNCIA ( Rosani Abou Adal )

 Sonho te possuir nos meus braços

nas quatro estações do ano,
mas estás sempre distante de mim.
A vontade está aquém dos meus sonhos.
Estou sozinha meio à multidão
que desconhece meus sentimentos.
Quero te tocar e sentir teu calor,
a multidão não pode ser tocada.
Estás sempre fugindo de mim
como uma presa do caçador.
Não posso te identificar,
és meu segredo.
Quero te beijar a todo instante,
não sinto o gosto dos teus lábios.
Quero segurar tuas mãos,
não consigo tocar o invisível.
Quando compartilhamos o mesmo lençol,
assumes forma de felino,
sou uma caçadora que volta feliz da caçada.
Mesmo diante de nossa privacidade
tenho certeza que nunca estaremos juntos.

SORTILÉGIO ( Núbia Marques )

 tua boca tem mil noites

mil angústias
mil silêncios
dissipados rumos
rotineiros itinerários

tua boca tem mil lanças
mil dores
mil gritos lancinantes
mil tendões emparelhados
aparvalhados
emuralhados

tua boca morde auroras redentoras
polpa de fruto maldito
salivando veneno de extintos séculos

tempo haverá
e mil noites sazonadas
mil angústias apodrecidas
mil dores adormecidas
mil gritos já canção

serão vomitados e se cristalizarão
em mil estrelas candentes.

O BELO NAVIO ( Charles Baudelaire ) in As Flores do Mal, Assírio & Alvim; fevereiro de 2025, pp. 215 - 217

 Ó mole encantadora! Eu quero descrever-te

As belezas que adornam tua mocidade;
    Quero pintar essa beleza
Que sabe aliar a infância com a maturidade.

Quando varres o ar com a tua saia larga
Pareces uma nau, bela, a fazer-se ao largo,
    Ondeando, com as velas ao vento,
Seguindo um ritmo doce e preguiçoso e lento.

Sobre o pescoço forte e esses ombros largos,
Meneia-se a cabeça, exibe estranhas graças;
    Com um ar plácido e triunfante
Segues o teu caminho, imponente criança.

Ó mole encantadora! Eu quero descrever-te
As belezas que adornam a tua mocidade;
    Quero pintar essa beleza,
Que sabe aliar a infância com a maturidade.

O teu colo que avança e soergue o tecido,
Esse triunfal colo é como um belo armário
    De portas abauladas, claras,
Que, tal como os escudos, atraem os brilhos;

Escudos provocadores, com bicos cor-de-rosa!
Armário com segredos, cheio de boas coisas,
    De vinhos, perfumes, licores
Fazendo delirar mentes e corações!

Quando carres o ar com a tua saia larga,
Pareces uma nau, bela, a fazer-se ao largo,
    Ondeando, com as velas ao vento,
Seguindo um ritmo doce e preguiçoso e lento.

As tuas pernas, sob anáguas que se agitam,
Atormentam desejos obscuros, irritam-nos,
    Tal como duas feiticeiras
Mexendo um filtro negro em profunda caldeira.

Teus braços, que não temem os precoces hércules,
São das nédias jibóias os sólidos émulos,
    Feitos pra estreitar tenazmente
O teu amante, até o gravares no coração.

Sobre o pescoço forte e esses ombros largos,
Meneia-se a cabeça, exibe estranhas graças;
    Com um ar plácido e triunfante
Segues o teu caminho, imponente criança.

APRENDIZADO ( Ferreira Gullar )

 Do mesmo modo que te abriste à alegria

abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.


CASTELOS, ESTAÇÕES ( Arthur Rimbaud ) tradução de Augusto de Campos

 Castelos, estações,

Que almas é sem senões?

Castelos, estações.

Eu fiz o mágico estudo
Da Felicidade, eis tudo.

Que eu possa ouvir outra vez
Cantar seu galo gaulês.

Desejos? Dores? Olvida.
Ela é a luz da minha vida.

O Encanto entrou em minha alma.
Doravante tudo é calma.

O que esperar do meu verso?
Que voe pelo universo.

Castelos, estações!

E se me arrastar o mal,
Seu fel me será fatal.

Que a morte com seu desprezo
Me liberte desse peso!

- Castelos, estações!

OS CORVOS ( Arthur Rimbaud )

 Senhor, quando os campos são frios

E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos.
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.

Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.

Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!

Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.

A ESTRELA CHOROU ROSA ( Arthur Rimbaud ) traduçâo de Augusto de Campos

 A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.

O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o homem sangrou negro o altar dos teus quadris.

VÊNUS ANADIÔMENE ( Arthur Rimbaud )

 Como de um verde túmulo em latão o vulto

De uma mulher, cabelos brunos empastados,
De uma velha banheira emerge, lento e estulto,
Com déficits bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar;
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas,
E o redondo dos rins como a querer voar.

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor,
Particularidades que demandam lupa.

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VENUS;
- E todo o corpo move e estende a ampla garupa
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.

09/04/2026

A ARTEMIS (desconheço a autoria )

 Diante do fogo que brilha no meio da noite,

eu busco encontrar tua Face, ó Deusa Diana.
Qual a Luz do Dia, Sem Pólos, Eterna e Radiante,
de igual natureza é a Deusa, Noturna e Arredia.

No meio das trevas, relembras o gêmeo Apolo,
és Luz presa ao barro da tênue e fugaz lamparina.
és Lua, mensagem do Sol que, em meio à penumbra,
deslumbra com a forma brilhante, sutil, feminina.

Ó Virgem que aplacas e animas a informe matéria,
aquela que se desintegra quando tu te afastas
e que se organiza se dela tu te aproximas.
Contudo, apesar do pulsar deste eterno contato,
és Virgem, e desta Matéria não te contaminas.

Além do que nasce e do que se destrói, permaneces,
pois Zeus concedeu-te a eterna pureza intocável.
Mas, mesmo intocável, de dentro de mim, Tu me aqueces.
És Chama Ardente no meio da noite tão fria.

Mas quando eu cessar de espelhar-me nas sombras da noite
e partir em busca de meu nome Oculto e Divino,
é ao teu encontro que irei, certamente, Diana,
Ó Ígnea Dama, Ó Deusa Irmã-Luz do Dia.

LUA E ESTRELA ( Vinicius Cantuária )


Menina do anel de Lua e estrela
Raios de Sol no céu da cidade
Brilho da Lua, noite é bem tarde
Penso em você, fico com saudade

Manhã chegando, luzes morrendo
Nesse espelho que é nossa cidade
Quem é você, qual o seu nome
Conta pra mim, diz como eu te encontro

Mas deixo ao destino, deixo ao acaso
Quem sabe eu te encontro de noite no Baixo
Brilho da Lua , noite é bem tarde
Penso em você, fico com saudade

III ( Lourdes Espínola ) tradução: Albano Martins

 A lua foi um presente poeirento

- perfeito e único -
que tinha que devolver no dia seguinte:
dependurei-a, pontual,
polida, clara,
dançando na ponta dum fio transparente.
 
Restaurar o meu corpo,
dar-lhe
luz, cor, movimento
ou talvez um coração espremido
em frases de poemas como fugas.
Um gesto, uma sombra, uma silhueta,
construir com círculos de ritmo
um rosto, uma luz, um carrocel,
ou melhor, uma perfeita analogia.
Restaurar o meu corpo:
Uma abstracção tão luminosa cm seu desejo.

COMO TERRA MALDITA ( Lourdes Espínola ) tradução: Albano Martins

 Como terra maldita,

o centro do teu útero.
Como intermináveis escravos
sem valor de mercado:
as mulheres
passam de mão em mão,
mas as suas nunca
aprisionarão o próprio destino.

I ( Lourdes Espínola ) tradução: Albano Martins

 A viagem da minha vida:

suficientemente fechada
para me proteger,
suficientemente porosa
para que tu penetres...