09/09/2026

Por Margarida Antunes

 Fala-me do tempo como se não fosse em ti

que todos os dias nascem.
Como se as estações se sucedessem
e não fosse sempre Verão na tua boca.
Como se não crescessem frutos nos teus dedos
e eu não sentisse neles o doce dos dias.
Falam-me do tempo como se nos teus braços
as horas não fossem mais pequenas
e os dias se tecessem mais devagar.
Como se o amor não obedecesse ao vento da vida
E pudesses ficar — para sempre —
a encher o mundo de presentes,
eternos como a natureza.



SUBLIMAÇÃO ( Jade Dantas )

Encontra-me no beijo
que te envio.

Toca a espera do meu corpo
a sonhar o teu.

Flutua, amado,
entre mim e o que és.


BRIGA NO BECO ( Adélia Prado )

 Encontrei meu marido às três horas da tarde

com uma loura oxigenada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mãos e palavras
que nunca suspeitei conhecesse.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava pelos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe piranha, bicho pior, fêmea ofendida.
Uivava.
Gritei, gritei, gritei até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais, fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão.
Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me medindo graças.
Desde então, faço milagres.

ANIVERSÁRIO XXV ( Mário Domingos )

Acordei um dia dentro dos teus olhos
de um sono leve e tranquilo, tumultuoso e denso.
Dizem que devo ter sonhado, mas nem ecos
de palavras, franjas de luz, neblina,
vaga escadaria, túnel infinito
me chegam aos recantos da memória.

Acordei a amar-te dentro dos teus olhos,
a hora indefinida,
em silêncio, deslumbrado.

Só depois veio o sonho.

ÚNICO POEMA DE AMOR ( Lúcio Cardoso )

 tudo tão calmo

a vida dormindo
como agora que tombasse sem murmúrio
na planície do meu pensamento
folhas mortas que não voam,
pássaros imóveis que não cantam,
água parada que não corre.


e teu corpo como um lírio sobre a terra,
e a terra muda impregnada de perfume,
teus olhos grandes como flores noturnas,
flores que se abrem na doçura do silêncio
e minha sombra como uma nuvem perdida
debruçada sobre teus cabelos imóveis
que bóiam na água da planície.

A PALAVRA ( António Ramos Rosa )

 A palavra é uma estátua submersa, um leopardo

que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.

Por Joaquim Pessoa

Quero-te para além das coisas justas
 e dos dias cheios de grandeza.
A dor não tem significado quando me roubam as árvores,
as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas.

RETALHOS ( Márcia Maia ) In Em Queda Livre; Edição da autora, Recife, 2005

 sabe a amor a sono esse cheiro

de terra molhada
cortinas corridas rádio tocando baixinho
talvez luiz melodia
um tempo em que dormíamos
abraçados nas tardes quentes do subúrbio.

não há mais nós nem subúrbio
— amor tampouco —
só o cheiro de terra molhada na tarde
de verão chuvosa e quente

além de vez por outra essa lembrança

MARÍTIMA ( Márcia Maia ) In Em Queda Livre; Edição da autora, Recife, 2005

 era àquela hora em que o mar por estar

o céu já quase rosa tem um tom entre
o verde - prata e o violeta.

havia sargaços — tantos — um manto verde
escuro sobre a areia e a maré vazante
descobria os primeiros arrecifes.

uma lua — crescente — brotava do horizonte
quando tuas mãos sorriam em minha pele
desvendando caminhos de antigamente

e debruçava-se azul sobre a janela quando
acordei — pele salgada de amor e maresia
e o eco da tua voz em minha boca.


ASTERISCOS ( Alberto da Cunha Melo ) De Círculo Cósmico, 1966

 Como um suicida que deixa

uma carta em cima da mesa,
para descansar a polícia,
deixo o meu poema no mundo.

Minha dor lógica jamais
necessitou de testemunho
outro, que não fosse o meu corpo,
sob os ataúdes do Céu.

Pisei nas calçadas da vida
(de cabeça baixa) e gritaram;
desci sem nenhuma palavra
e eles morreram de vergonha.

O telefone negro toca
na sala interminavelmente
deserta. Que nova esperança
dirá um telefone negro?

Os meus amigos têm olhos
horríveis, diante de mim.
Mas não pergunto o que lhes fiz:
deixo o meu poema na mesa.


POÉTICA ( Vinicius de Moraes )

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.

A PERA ( Vinicius de Moraes )

Como de cera
E por acaso
Fria no vaso
A entardecer

A pera é um pomo
Em holocausto
À vida, como
Um seio exausto

Entre bananas
Supervenientes
E maçãs lhanas

Rubras, contentes
A pobre pera:
Quem manda ser a?

O RIO ( Vinicius de Moraes )

 Uma gota de chuva

A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.

Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

08/09/2026

ORIGEM ( Célia Moura ) in Vestida De Silêncio, Universitária Editora, 2000

Cubram-me somente
O corpo já inerte
De pétalas vermelhas
E frescas açucenas brancas.
Recitem-me um poema
Em gemidos de piano.
Serenem meu sono breve
Com um fado de ilusão.
Queimem incenso,
Sem quaisquer prantos.
Plantem velas acesas pelos cantos!
Inundem-me de Amor!
Sorriam-me subtilmente.
Não serei ausente.
Derramem hinos de luz e de vento.
Retalhos de palavras retidas e rendidas
Nos escombros deste tempo.
Fazei dessa partida
Uma inspiração à Origem
Como um embrionário regresso
Ao ventre da Terra Mãe,
Meu útero de silêncio.
Cubram-me apenas
O corpo ainda presente
De rosas vermelhas
E castas açucenas.

Por Célia Moura, in No Hálito De Afrodite

Desço pelas virilhas que já ousei morder
e à evocação dos corpos bailando
na eira.
Teu prazer será sempre meu regresso
embriaguez que me aquieta
tua boca, essa fonte onde se incendeiam girassóis
e ninhos de andorinhas.
Sabes-me a trigo e mel no alpendre das manhãs.

03/09/2026

O RISO E A FACA ( Tom Zé )

Quero ser o riso e o dente
Quero ser o dente e a faca
Quero ser a faca e o corte
Em um só beijo vermelho

Fiz meu berço na viração
Eu só descanso na tempestade
Só adormeço no furacão

Eu sou a raiva e a vacina
Procura de pecado e conselho
Espaço entre a dor e o consolo
A briga entre a luz e o espelho

02/09/2026

ELA E EU ( Caetano Veloso )

 Há flores de cores concentradas

Ondas queimam rochas com seu sal
Vibrações do Sol no pó da estrada
Muita coisa, quase nada
Cataclismas, carnaval

Há muitos planetas habitados
E o vazio da imensidão do céu
Bem e mal e boca e mel
E essa voz que Deus me deu
Mas nada é igual a ela e eu

Lágrimas encharcam minha cara
Vivo a força rara desta dor
Clara como a luz do Sol que tudo anima
Como a própria perfeição da rima para amor

Outro homem poderá banhar-se
Na luz que com essa mulher cresceu
Muito momento que nasce
Muito tempo que morreu
Mas nada é igual a ela e eu

30/08/2026

Por Célia Moura

Como se sempre te tivesse pertencido
assim entraste com fôlego e loucura
pelo meu corpo.
Derrubaste tudo à tua passagem
e eu que, já não te esperava
desarrumei minha alma
e em teus braços fortes de tornado
me doei furacão.
Por instantes, horas, dias
fomos essência renegada
por décadas.
Sim, fomos amor na girândola do tempo,
e agora?!
Agora pertencemo-nos
que nos importa o que dizem
os outros!
Eles nem sequer existem!
Enquanto nós sim,
fazemos amor na terra acabada
de fecundar
e como duas crianças
famintas de beijos
nos rebolamos nela,
gargalhamos mar
e utopia,
em seu ventre
sem cessar.

29/08/2026

NAVEGANDO ( Maria João Cantinho )

É quando se acende o desejo
que a nossa loucura recomeça,
e a tua urgência, meu amor,
desaba sobre o meu corpo.

As tuas mãos, meu amor,
que me procuram, sôfregas,
e me fazem navegar,
esse sortilégio
que me leva ao êxtase.

Sigo-te, nesta viagem
pelo avesso da ternura
e digo-te palavras enlouquecidas,
canto o tempo, canto a noite,
meu amor,
desaguando nesta enseada infinita.

Lá fora, o rumor quieto do mundo.

Por Cláudia Lucas Chéu

O acanhamento asfixia

portanto, despe-te

põe-te nua

ninguém te vai penetrar a cabeça com ideias sujas

há nódoas que são condecorações, acredita

sinais na pele que algum deus marcou

deixando uma pista.

A DESIMPORTÂNCIA DO FALO EXPLICADA A CAVALHEIROS ( Cláudia Lucas Chéu )

Sobrevalorizado no gozo sempre foi o falo.

Um homem que domine bem a língua,

em ambos os sentidos,

precisa pouco de se preocupar com a eficácia

ou a beleza do seu falo.

As damas,

e os cavalheiros que também apreciem,

conquistam-se pelo uso da boca.

Digamos que o falo diverte mas não conduz ao êxtase.

Nisto não se fala, por pudor

ou por medo de amedrontar o ceptro

sobre o qual sempre se julgou girar o mundo.

O falo é belo, sim senhores —

alguns, outros são medonhos,

estilo cobra cega —

Só não julguem como obra de arte

a exposição de artesanato, cavalheiros.


O mastro não faz a caravela que descobre mundos,

e a bandeira hasteada está longe de ser um país.

25/08/2026

Por Alexandra Santos, in Palavras Sussurradas, Chiado Editora, 2014

 Passeio as mãos pelo teu corpo e sinto-te

Sinto o pulsar do teu coração que bate desenfreado
Sinto a tua respiração num ritmo descontrolado
Sinto que queres ser minha como eu ser teu
Sinto que és a rainha deste plebeu
Mas sinto essencialmente a tua pele
Toda ela é a tua essência
Toda ela é a mulher que foste,
A mulher que és, a mulher que amo:
Pele madura, vivida,
Repleta de marcas do tempo,
Perfeita para mim;
Pele suave, sensível,
Propensa a arrepios,
Beijada até ao fim
Pele é tua é minha é nossa
Onde a tua termina, a minha começa
Quando a tua sente frio, a minha te aquece
Quando a tua sente ardor, a minha te arrefece
Não preciso de mapa para me orientar
Mas na tua pele ainda me posso perder
Em cada cicatriz, em cada recanto,
Em cada sinal, em cada encanto
Pele com pele, eu sinto o teu aroma
Pele com pele, o nosso único idioma

HABITA - ME ( Cília Campos ) in Girassol; Edições Chiado Books, 2019

Abro as pestanas
esfrego os olhos
ponho o meu melhor sorriso
solto os cabelos
Rego as flores dentro do peito
primavero - me
aconchego a alma
estou serena e calma
Riem-se as borboletas
da barriga
arranco as raízes dos pés
estico os braços
num abraço
Habita-me

SONHEI CONTIGO ( Nuno Júdice ) in Poesia Reunida 1967-2000; D. Quixote, 2000


Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes tu, a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
das fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

24/08/2026

Por Célia Moura

Virás no cio das feras
Acariciar-me a exaustão derramada
Pelas colinas já saciadas em volúpia.
Estarei provavelmente debruçada no silêncio
E feliz se do céu cairem as primeiras chuvas
Mensageiras de vida.
Dos meus seios
Se enamorarão ventos
Quimeras
Esperas.
Ah! Quem disse que era amor
Não sabia, não sentiu…
Foram mares!

21/08/2026

TU ME QUERES CASTA ( Alfonsina Storni ) tradução: Osvaldo Orico

Tu me queres alva,

me queres de espuma,

me queres de nácar,

que seja açucena

mais casta que todas.

De perfume suave;

corola fechada.

Nem raio de lua

filtrado me toque.

Nem a margarida,

seja minha irmã.

Tu me queres nívea,

tu me queres branca,

tu me queres casta.

 

Tu, que as taças todas

já tiveste à mão.

Os lábios corados

de frutos e mel.

Tu, que no banquete

coberto de pâmpanos,

as carnes gastaste

festejando a Baco.

Tu, que nos jardins

escuras do engano,

lascivo e vermelho

correste ao abismo.

 

O’ tu, que o esqueleto,

não sei por que graça

ou por que milagre

conservas, intacto,

só me queres branca,

(que Deus te perdoe!)

só me queres casta,

(que Deus te perdoe!)

só me queres alva.

 

Foge para o bosque,

vai para a montanha,

purifica a boca,

vive na humildade.

Segura com as mãos

a terra orvalhada.

Alimenta o corpo

de raiz amarga.

Bebe a água das rochas

dorme sobre a geada,

renova os tecidos

com salitre e água.

Conversa com os pássaros,

lava-te na aurora.

E já quando as carnes

ao corpo te voltem.

E quando hajas posto

nos carnes a alma

que, pelas alcovas,

ficou enredada.

Então,—homem puro,—

pretende-me nívea,

pretende-me branca,

pretende-me casta.

O POETA E A LUA ( Vinicius de Moraes )

 
Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pelo fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de luxúria.


O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.


O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perpassa
Um salso cheiro de lua.


E a luz, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.


Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.

20/08/2026

Por Casimiro de Brito

Amo-te porque não me amo

inteiramente. O que me faz falta

é infinito

mas tu és do bem que me falta

o enigma onde se condensam

a terra e o sol o ar as águas

invioladas

e tenho a boca cheia

de música ondulação

do teu silêncio.

ENTRASTE ( Casimiro de Brito )

 Entraste na casa do meu corpo,

desarrumaste as salas todas

e já não sei quem sou, onde estou.

O amor sabe.

O amor é um pássaro cego

que nunca se perde no seu voo.

19/08/2026

Por Célia Moura


Benditas as chuvas
que te lavam a alma
afagam os cabelos
e o passado jamais circunscrito
no odor liberto dos poros
quando Abril resgatado
incendiará
de luz os olhos de todas crianças
sem casa.
Benditas as mãos,
da criança que te resgatou
essa consciência sofrida,
presente de ideais tatuados no sangue.
Bendita seja tua alma peregrina,
tua solidão imensa
por tantos cuspida, traída,
ultrajada,
mais jamais vendida!