morre-se nada
POÉTICA LEITURA
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
25/03/2026
HORÁRIO DO FIM ( Mia Couto ) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
IDENTIDADE ( Mia Couto ) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
Preciso ser um outro
DIZ O MEU NOME ( Mia Couto ) in 'Raiz de Orvalho'
Diz o meu nome
DESTINO (Mia Couto) in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
à ternura pouca
TARDIO ( Mia Couto )
Quando quis ser fruto
FURÚNCULO ( Flávia Santana Valadão )
Poesia é furúnculo
Tenho um gigante, quente,
Latejando em minh’alma
Desde os 11 anos de idade
Prestes e vindo à furo.
PÉTALAS ( Flávia Santana Valadão )
Sento-me no chão
À esquerda da porta do banheiro
De nossa casa!
Minha esposa sentada no vaso
De pernas abertas
Concentradamente,
Mexe em sua vulva
Contemplo a cena,
Flor rosa em pétalas: clitória
Extasia-me
A lépida liberdade de seus pequenos lábios
Ostentando desenho ímpar
Um fora na ninfoplastia
Enquanto caça pelos
Os mesmos e macios pelos
Que pôs em minha boca
Na primeira noite de amor
Em suas mãos, braços, ser
Há um vigor fértil
Revolverá sempre o solo de minha existência
O desejo de que pudesse gestar em seu ventre
Uma síntese de nosso amor
Nessa hora, me olha cúmplice
Fios de franja da cor de ouro
Caem em seu rosto
Ela sorri com boca e olhos
A abraço, seus cabelos roçam meus seios nus
Como o vento a encosta.
É DESERTO... ( Elaine Dauzcuk ) in O Ponto ; 2025, Editora Patuá.
Nessa areia sereia não brinca
Essa areia é para quem
Grita sem falar
Queima sem arder
É deserto…
Quando os cabelos caem
É a perna colada à cama
É corpo mumificado no lençol
É o peito sem movimento
É deserto…
Quando tomo banho
E não estou no banho
Quando como
E não estou quando como
É deserto…
Quando você não está
E quando também não estou quando você não está
É deserto…
Quando eu não me chamo
Quando eu me canso sem descansar
Quando descanso sem cansar
Quando só me pergunto quando
É deserto…
E eu não deserto
Decerto um camelo será apropriado
Na próxima temporada
porque não me iludo:
há tantos oásis quanto desertos
há tanta seca quanto chuva
É deserto…
quando os cabelos caem
e não sou calva
não me iludo:
há tantos fios para nascer e cair
quanto desertos para atravessar
convoco caravanas de panos coloridos
para me proteger
do que arde só para doer
tenho as entranhas cheias de areia
mas não me iludo:
sou feita de água.
ABRE-CAMINHO ( Elaine Dauzcuk ) in O Ponto ; 2025, Editora Patuá.
Ele numa ponta
Eu na outra
Ele fez a ponte
Em dois versos
Eu passei e voltei
Bem no meio do caminho
Ele fez a ponte
De cabeça baixa e acenou
Despenteado
Muitas luas minguaram
E a ponte ainda ali
Perfumada de alfazema
Cravada de girassóis
O tempo parou
Ou guardamos o tempo?
Pegamos os facões do querer
E bota a arrancar medo
Abrir estrada de ar
Fechar caminho de ferida
A ponte agora
Tem estação para chegar
Desembarque na primavera
E passagens para quando Deus quiser
Corre, voa veloz o instante
E ganha o céu
De ponte já fizemos trilhos
O amor tem pressa
Cospe saudade
Vê filme, passa as folhas do livro
Manteiga no pão
Porque esse trem a gente não perde
Já faz parte do nosso chão.
TODA PALAVRA É CORPO ( Inês Falafogo )
toda a palavra é corpo
e a liberdade movimento
um vendaval solto
dançando preso cá dentro
cabeça língua lábios
juntos ao mesmo tempo
de vermelho presença
de cravo unguento
minha cabeça sentença
minha língua certeza
meus lábios enormes
serena no encontro
porque me vês de longe
— ser livre é ter fome
andar de boca aberta
ávida de instantes
de espanto desperta
enchendo a barriga com gigantes
encontra-me no caos imerso
lugar imenso que atravesso
sou tudo quanto basta ao excesso
não há nada mais livre que ser de mim
sentimento que, por fim, bendigo
— poder nascer e morrer comigo
ESTAÇÃO UENO, TÓQUIO ( para Yu Miri ) ( Karen Kazue Kawana )
vidas são gastas
vidas se perdem
vidas são consumidas
em gestos vãos
vidas pelas que se passa
sem serem vividas
meras cenas
em sucessão
vidas que acabam
luzes que se apagam
já sem brilho
FANTASIA ( Karen Kazue Kawana )
Eu a criei e alimentei.
Achei que me completaria.
Ela cresceu e engordou.
Não cabia mais entre meus braços.
Quem se aninhava entre os dela era eu.
Quando despertei e a olhei nos olhos,
soube que foi tudo desperdício,
não havia amor nem gratidão.
Todas as horas que lhe dediquei
não passaram de febre e delírio.
HISTÓRIA ( Karen Kazue Kawana )
Tornar-me foi um desfazer-me.
Despir-me de pele e de sonhos.
Cada passo à frente foi mais leve,
porque despojado de propósito,
movido por inércia e desalento.
Caminhei por várias vias
sem telefone, sem dinheiro,
sem medo dos perigos.
De meu, tinha só o corpo,
que sempre foi só carne,
nunca um objeto de desejo.
Não tinha sexo, nem etnia,
ignorava que, nos outros,
ele pudesse despertar repulsa,
ou ser motivo de cobiça.
Mirava o alto, as miragens,
queria ser apenas espírito.
MEDUSA ( Viviane de Santana Paulo )
não há nada que não seja um labirinto
desde o reencontro com um amigo de infância
após muitos anos
a ficar preso no elevador de um edifício
desde o ínvio olhar de quem mais confio
a ouvir o meu nome dito por quem tanto amo
seja asfalto ou montanha
seja mar ou rio
seja céu ou ponte
seja tempo ou jornal
seja ontem ou gestos
espelho ou brincadeira
sejam as construções modernas
ou um punhado de terra
não há nada que não seja um labirinto
fora ou dentro de mim
e perseus eu matei
com a minha indiferença
com a minha resignação e abandono
com a minha própria coragem
de me olhar no espelho
BOCAS AO SOL ( Yara Osman )
Há muito tempo
me tornei uma parede.
Uma parede com dois olhos,
aquela que viu tudo
e nunca disse nada.
A única que não caiu
de uma casa
milhares de vezes bombardeada.
Do outro lado do muro
há pessoas dormindo
com a boca aberta para o sol,
e os olhos — mesmo fechados —
fixos nos meus.
Com olhos abertos,
a morte me observa
como um gato
observa uma borboleta.
Com asas abertas,
a morte me encara
como uma borboleta
encara o fogo.
A morte me visita.
A morte dorme comigo.
Rouba meu lençol.
E toda vez que esqueço
que sou uma parede,
ela me mostra meu pai
com a boca aberta para o sol.
BAILARINA ( Djavan )
A cada pirueta que você dá
FERA ( Djavan )
Você é coisa demais
Pode fazer meu coração sofrer.
ENCONTRAR - TE ( Djavan )
Qualquer lugar








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