07/02/2026

O SOLITÁRIO ( Manoel de Barros ) in livro "Face imóvel" (1942), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 Os muros enflorados caminhavam ao lado de um 

homem solitário 
  Que olhava fixo para certa música estranha 
  Que um menino extraía do coração de um sapo.

  Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer 
  Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas

  Que me faziam esquecer de tudo 
  Olhando os barcos sobre as ondas…

  No entanto o homem passava ladeado de muros! 
  E eu não pude descobrir em seu olhar de morto 
  O mais pequeno sinal de que estivesse esperando alguma dádiva!

  Seu corpo fazia uma curva diante das flores.

2 ( Manoel de Barros ) in livro "Poesia" (1947), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 São mil coisas impressentidas 

Que me escutam:
O movimento das folhas 
O silêncio de onde acabas de voltar 
E a luz que divide o corpo do nascente

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam: 
São os pássaros assustados, assustados, 
Tuas mãos que descobrem o convite da terra 
E os poemas como ilhas submersas…

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam: 
Sou eu apreensivamente 
Solicitado pela inflorescência 
Redescoberto pelo bulir das folhas…

8 ( Manoel de Barros ) in livro "Poesia" (1947), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 A boca está aberta, seca e escura 

De raízes mortas
Encontro restos de orvalho 
No rosto da terra, e os bebo

Ao silêncio do enxofre que penetra 
Deito-me para germinar
Ouço fluir a seiva 
Ouço o caule crescer

Do ventre que gesta sob ramas 
Uma flor de moliços depois 
Irá comendo o contorno dos lábios 
E as mãos sem despedidas.

Corpo em árvore feito 
Serei como talha de pedra 
Na terra, com molduras de fresco 
E hortênsias…

Ervas tolhiças crescerão 
Nos interstícios do ser 
E o que foi música e sede de sarças 

Há de ser pasto de águas

11 (Manoel de Barros) in livro "Poesia" (1947), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 Aqui: ardo e maduro. 

Compreendo as azinheiras. 
Compreendo a terra podre e fermentada 
De raízes mortas.

Compreendo a presciência do fruto 
Na carne intocada.

E assisto crescerem 
Frescos, nessa carne, os teus dedos.

Compreendo esse garfo na terra 
A germinar ferrugens 
Sob laranjais…

E o grão que semearam na pedra. 
E mais: os troncos rugosos 
Pendendo suas bocas para as águas.

ZONA HERMÉTICA ( Manoel de Barros ) in livro "Poesia" (1947) 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos; 

Uma remembrança de mil novecentos e onze; 
Um rosto de moça cuspido no capim de borco; 
Um cheiro de magnólias secas. O poeta 
Procura compor esse inconsútil jorro; 
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo 
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto: 
O homem não se desvendou, nem foi atingido: 
Na zona onde repousa em limos 
Aquele rosto cuspido e aquele 
Seco perfume de magnólias, 
Fez-se um silêncio branco. E aquele 
Que não morou nunca em seus próprios abismos 
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas 
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto 
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

X (Manoel de Barros) no livro "O Guardador de Águas" (1989), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 É o mais engenhoso estafermo. 

Sem mexer com a boca ele tira ardor de pétalas! 
Atrás de sua casa trabalha um tordo cego 
E um rio emprenhado de rãs até os joelhos. 
De manhã ouve frases do tordo. 
Prende aragens de manga nos cabelos. 
O lodo aceso das moscas — 
Guarda em vasos de pedra. 
Ave, pedras! 
Um roxo a vegetal encorpa em seu casaco — o 
mesmo roxo enfermo das violetas desmolhadas… 
Sabe coisas por concha e água. 
Cigarras lhe sonetam sobre outubro. 
Esse homem 
Teria, sim 
O que um poeta falta para árvore.

7 ( Manoel de Barros )in livro "O Guardador de Águas" (1989), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 O rio atravessou um besouro pelo meio — e uma falena. 

Era um besouro de âmbar, hosco 
E uma falena de Ocaso. O besouro 
Enfiou na falena seu aguilhão 
E a trouxe para seu esconderijo. 
Depois esplendorou-a toda antes de comê-la.

8 (Manoel de Barros) in livro "O Guardador de Águas" (1989), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 Uma chuva é íntima 

Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas; 
Se aparecem besouros nas folhagens; 
Se as lagartixas se fixam nos espelhos; 
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores; 
E o escuro se umedeça em nosso corpo.

10 (Manoel de Barros) in livro "O guardador de águas" (1989), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, 

    a lesma deixa risquinhos líquidos… 
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as 
   palavras
Neste coito com letras! 
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se 
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma 
    escorre… 
Ela fode a pedra. 
Ela precisa desse deserto para viver.

12 ( Manoel de Barros ) in livro "O Guardador de Águas" (1989), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 Que a palavra parede não seja símbolo 

de obstáculos à liberdade 
nem de desejos reprimidos nem de proibições na infância 
etc. (essas coisas que acham 
os reveladores de arcanos mentais) 
Não. 
Parede que me seduz é de tijolo, adobe 
preposto ao abdômen de uma casa. 
Eu tenho um gosto rasteiro de 
ir por reentrâncias 
baixar em rachaduras de paredes 
por frinchas, por gretas — com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego. 
Tal um verme que iluminasse.

III ( Manoel de Barros ) in livro "O Guardador de Águas" (1989), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 Chove torto no vão das árvores. 

Chove nos pássaros e nas pedras. 
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros. 
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados. 
Crianças fugindo das águas 
Se esconderam na casa. 
Baratas passeiam nas fôrmas de bolo… 
A casa tem um dono em letras. 
Agora ele está pensando — 
        no silêncio líquido 
        com que as águas escurecem as pedras… 
Um tordo avisou que é março.

NAS ASAS DO MOINHO ( Paulinho Nogueira )

Pintarei sete cores
nas asas do moinho,
e chamarei o vento,
e chamarei o vento.

Gira, gira, meu moinho,
ao soprar das ventanias,
quem quiser moer cantigas
moa a dor junto com o trigo.
O meu pão de cada dia
é da mais pura farinha,
tem a casaca bem curtida
mas a polpa é a poesia.

Meu moinho, tu me ensinas
o segredo do arco-íris,
a cor branca é muito simples
mas é a cor que se conquista.
Essa paz que eu canto existe,
não é fim, mas é caminho,
é no meu roda-moinho
que ouço a voz mansa da brisa.

06/02/2026

CADERNO DE ANDARILHO ( Manoel de Barros ) - Retrato de Concerto A Céu Aberto Para Solos De Ave, 1991

 Quando menino encompridava rios.

Andava devagar e escuro — meio formado em silêncio.
Queria ser a voz em que uma pedra fale.
Paisagens vadiavam no seu olho.
Seus cantos eram cheios de nascentes.
Pregava-se nas coisas quanto aromas.

CADERNO DE APONTAMENTOS - XIII ( Manoel de Barros ) de Concerto A Céu Aberto Para Solos De Ave, 1991

 Certas palavras tem ardimentos; outras, não.

A palavra jacaré fere a voz.
É como descer arranhado pelas escarpas de um serrote.
É nome com verdasco de lodo no couro.
Além disso é agríope (que tem olho medonho).
Já a palavra garça tem para nós um
sombreamento de silêncios...
E o azul seleciona ela!

05/02/2026

NO FUNDO DOS RELÓGIOS ( Filipa Leal ) in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"; Deriva Editores)

 Demoro-me neste país indeciso

que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.

COR-RESPONDÊNCIA ( Elisa Lucinda ) in "O Semelhante". Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

 Remeta-me 

os dedos 
em vez de cartas de amor 
que nunca escreves 
que nunca recebo. 
Passeiam em mim estas tardes 
que parecem repetir 
o amor bem-feito 
que você tinha mania de fazer comigo. 
Não sei amigo 
se era seu jeito 
ou de propósito 
mas era bom 
sempre bom 
e assanhava as tardes 
Refaça o verso 
que mantinha sempre tesa 
a minha rima 
firme 
confirme 
o ardor dessas jorradas 
de versos que nos bolinaram os dois 
a dois. 

Pense em mim 
e me visite no correio 
de pombos onde a gente se confunde 
Repito: 
Se meta na minha vida 
outra vez meta 
Remeta. 

DISTÂNCIA JUSTA ( Cristina Peri Rossi ) tradução: Sandra Santos

 No amor, e no boxe,

tudo é questão de distância.
Se te aproximas demasiado excito-me
assusto-me
obscureço digo parvoíces
começo a tremer.
Mas se estás longe
sofro entristeço
esforço-me
e escrevo poemas.

NÃO QUISERA QUE CHOVESSE ( Cristina Peri Rossi ) tradução: Sandra Santos

 Não quisera que chovesse

eu juro-te
que chovesse nesta cidade
sem ti
e escutar os ruídos da água
a cair
e pensar que ali onde estás a viver
sem mim
chove sobre a mesma cidade
Talvez tenhas o cabelo molhado
o telefone à mão
que não usas
para chamar-me
para dizer-me
esta noite te amo
me inundam as lembranças de ti
desculpa-me
a literatura matou-me
mas a ela tanto te assemelhavas.

04/02/2026

É O MAR QUE ENSINA A PERDER ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 é o mar que ensina a perder


ensina outra gravidade
outra respiração
outro sangue

é o mar que ensina a ouvir palavras como
quebrassem umas sobre
as outras —
na busca de uma flor antiga sem país

a esquecer enfim —
é o mar que ensina a ir

e a brilhar como no escuro brilham navios cargueiros
e corpos amando

APROXIMA-TE DO AMOR ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 aproxima-te do amor sem muitas perguntas

aprende-o impensado, intocado ainda
sem perguntas aproxima-te, como descobrindo no
tempo um tempo sem
palavras
com medo de que
se chamado, o amor
(esse pássaro)
se assuste

PORQUE O AMOR TORNA FRÁGIL ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 porque o amor torna frágil tudo o que toca

e porque eu mesma não evitei que
tocasse meu corpo
meus ossos
minha respiração
meu sono
por isso temo por mim —
pelo risco de desabar a um
tremor de pálpebras

PORQUE UMA DE MIM CHAMA ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 porque uma de mim chama

mas a outra hesita

porque uma de mim espera a noite
mas a outra guarda a manhã

porque se cruzam na passagem, e uma olha
mas a outra desvia

porque permaneci no meio, e
o amor deita sombra em minha boca -
e numa de mim quero dizê-lo
mas na outra calá-lo

na outra, este medo de ferir com a voz

ALIÁS ( Djavan )

 Existem coisas que o amor diz

Com aquela coisa a mais
De quem é feliz
Jóias caras produzidas no coração
Tiaras sem fim
Guardo essa luzes pra te servir

É tanta coisa que o amor faz
Vem como um rio
Em sua calma voraz
Timidez, mas sabe voar
Pra fugir da sombra do não-querer
Ademais, quem é que quer sofrer?

Você, o sonho, meus pés, o chão
Mesmo que bravo
O mar vira na canção
Mística rosa, ave rubra
Meu Deus do céu, da boca rubi
Beijo esperado, me leve a ti

É um sacrifício dizer um não
Em seu ofício de obedecer à paixão
Seja como for
Sempre se faz por prazer
Tudo o que o amor diz
Aliás, quem não quer ser feliz?

ALEGRE MENINA ( Dori Caymmi & Jorge Amado )

 O que fizeste, sultão, de minha alegre menina

Palácio real lhe dei, um trono de pedraria
Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis
Ametista para os dedos, vestidos de diamantes
Escravas para serví-la, um lugar no meu dossel
E a chamei de rainha, e a chamei de rainha

O que fizeste, sultão, de minha alegre menina

Só desejava campina, colher as flores do mato
Só desejava um espelho de vidro prá se mirar
Só desejava do sol calor para bem viver
Só desejava o luar de prata prá repousar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar

No baile real levei a tu alegre menina
Vestida de realeza, com princesas conversou
Com doutores praticou, dançou a dança faceira
Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira
Entrou nos braços do rei, rainha, mas verdadeira

PRINCE CHARMANT ( Florbela Espanca ) in Livro de Soror Saudade, 1923

 No lânguido esmaecer das amorosas

Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas

Das noites da minh 'alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente.
Olhos postos num sonho, humildemente.
Mãos cheias de violetas e de rosas.

E nunca O encontrei! Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!

Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas.
- Nunca se encontra Aquele que se espera!

CEBOLA ( Maria Lúcia Dal Farra )

 Gosta dos dias longos

esta milenar senhora!
Memorialista,
enrodilha-se na lembrança das próprias folhas
em permanente esforço de perpetuá-las.
Preferida dos faraós,
deve (por cero) ter inspirado a técnica
em que se eternizaram.

Objeto arqueológico de todas as idades,
esta esfinge
foi dita em sânscrito, persa,
latim, grego. Guarda por exemplo
(em gravidez poliglota)
a nostalgia do antigo lar egípcio,
a travessia do deserto, a ausência da mesa,
a carência de alento –
o fundo pranto hebreu que ainda hoje
(inadvertido e fortuito)
compartilha
com quem lhe devassa a alma.

Percorre com faca teu ventre sagrado
é topar com inscrições inauditas,
passagens secretas,
falsas portas,
inesperadas relíquias.

Que apenas a maldição que eu mereça
recaia sobre mim!

AUTORRETRATO ( Maria Teresa Horta )

 Eu sou outra em mim mesma

E sou aquela

Sou esta
Dançando sobre as lágrimas

Sou o gozo
No gosto de ser espelho
E me faz multiplicar em todo o lado

Eu sou múltipla
Veneno em minha veia

Estrangeira
rasgando o seu passado

sou cruel
dúplice e sedenta
mil vezes morri no desamparo

eu sou esta que nego
e a outra onde me afirmo
faço nela e naquela o meu retrato

e se na história desta  me confirmo
na vida da outra não me traio

feita de ambas à beira do abismo
sou a mesma mulher nascida em maio. 

DE AMOR ( Maria Teresa Horta )

 Falar da paixão

Mais do que o sangue

Mais do que o fogo
Trazido ao coração

Mais do que a rosa acesa
Só por dentro

Revolvendo no peito
A ponta de um arpão

Falar da febre sem fé
Do animal feroz

Dos líquens abertos
E dos lírios

Falar desassossego sem razão
Uma raiva que silva no delírio

Contar quanto dói a dor
No peito
Quanto é contraditória
Esta prisão

Que me faz ficar livro no que sinto
E logo envenenada à tua mão

ARMA ( Maria Teresa Horta )

 Estou ferida

Mulher amada

De teu lume
E de teu fito

Estou ferida com a tua arma
Carregada
Com o que eu sinto

Estou ferida
Com teu costume

De meu segredo
Teu espanto

Estou ferida
De não te ser
Na raiva de te querer tanto

AS TUAS MÃOS ( Maria Teresa Horta )

 As tuas mãos

Compridas e serenas
De pele esticada sobre os dedos
As tuas mãos macias
Como vales
Que prendem ne prendem e desprendem

As tuas mãos
Sedentas
mais profundas de secretas razões

e que se afundam
nas partes mais fundas do meu corpo

que me fazem gemer
e que me iludem
me rasgam
curam e descuram
me vestem de amor e de ventura

INCÊNDIO ( Maria Teresa Horta )

 Este fogo em mim

Água revolta

Este incêndio do corpo
Desatado

Este fermento do beijo
Que escorrega

Esta loucura ardendo
Em todo o lado