14/04/2026

ESCRITA E LIBERDADE ( Maria de Fátima Ferreira Rodrigues )

 Quando teus exércitos chegaram

A escrita estava pronta
A estrada estava dada
Sem temor
se fez a história
Não há prisões para a palavra
Ela canta, ela voa, ela sangra
Na palavra me faço e me refaço
Na escrita perdôo, crio e transbordo!
A palavra liberta !

Por Priscila Faria; in Nesse Corpo de Água Doce

 há penas mais pesadas que as dadas nos cárceres

penas que somente por nós podem ser pagas

asas amarradas, que só encontram liberdade

com o peso de uma pena na mão

 

na minha insustentável leveza

eu sinto

tudo o tempo todo

me toca

sinto muito

eu voo

TAPUIA ( Raul Bopp apud Mário da Silva Brito ) in Poesia do Modernismo, 1968.

 

As florestas ergueram braços peludos para esconder-te

com ciúmes do sol.

E a tua carne triste se desabotoa nos seios,

recém-chegados do fundo das selvas.

Pararam no teu olhar as noites da Amazônia, mornas e imensas.

No teu corpo longo

ficou dormindo a sombra das cinco estrelas do Cruzeiro.

O mato acorda no teu sangue

sonhos de tribos desaparecidas

– filha de raças anônimas

que se misturaram em grandes adultérios!

E erras sem rumo assim, pelas beiras do rio,

que teus antepassados te deixaram de herança.

O vento desarruma os teus cabelos soltos

e modela um vestido na intimidade do teu corpo exato.

À noite o rio te chama

e então te entregas à água preguiçosamente,

como uma flor selvagem

ante a curiosidade das estrelas.

Por Priscila Faria; in Nesse Corpo de Água Doce

 eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos

que veja a beleza desfocada

quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia

que abrace a menina, penetre a mulher

quero a palavra perfurante

na garganta

a palavra que treme e vibra e contrai

a palavra da água da morte do medo do fim

eu quero a palavra engasgada

sem fôlego, sem batimentos, sem culpa

quero a palavra mapa, procura e dedos

a palavra sem ida e sem volta

que se contradiga

a palavra descrente da verdade do agora

eu quero uma palavra que é tudo

e que não sabe de nada

quero a palavra que reinvente a vida

materialidade fina e transcendente

do meu gozo, num único verbete

uma fogueira, um altar, a porta

do céu ou do inferno

eu quero a palavra muda

a palavra que desnude a poesia

eu quero o milagre do verso

porque meu sexo não sabe ser escrito

13/04/2026

FLOR DE TANGERINA ( Alceu Valença )

 Hoje eu sonhei que ela voltava

E vinha muito mais que linda
À meia-luz me acordava
Cheirando à flor de tangerina

Eu lhe amava e mergulhava
No seu olhar de onça-menina
E docemente me afogava
Em suas águas cristalinas

Depois sonhei que ela voltava
E dessa vez bem mais que linda
À meia-luz me afagava
E sua pele era tão fina
Quando acordei, meu bem chegava
Seria onça ou menina?
Chegar assim, de madrugada
Cheirando à flor de tangerina
Cheirando à flor

BORBOLETA ( Alceu Valença )

 Ela é uma borboleta

Pequenina e feiticeira
Anda no meio da noite
Procurando quem lhe queira

Minha camisa
Foi manchada de vermelho
Tem um beijo desbotado
De batom ou de carmim

E a feiticeira
Tem a boca encarnada
Um beijo e uma dentada
Sempre guardados pra mim

Ai, feiticeira
Tem a boca encarnada
Um beijo e uma dentada
Sempre guardados pra mim

Feiticeira
Feiticeira

Um beijo e uma dentada
Sempre guardados pra mim
Eu procuro a borboleta
Feiticeira descarada
Pelo batom na camisa
Pela marca da dentada

Tem um beijo e uma dentada
Sempre guardados pra mim

11/04/2026

O QUE SERÁ ( À FLOR DA PELE ) ( Chico Buarque )

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
E nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

A ILHA ( Djavan )

 Um facho de luz

Que a tudo seduz
Por aqui
Estrela cadente
Reluzentemente
Sem fim

E um cheiro de amor
Empestrado no ar
A me entorpecer
Quisera viesse do mar
E não de você

Um raio que inunda
De brilho
Uma noite perdida
Um estado de coisas
Tão puras
Que movem uma vida

E um verde profundo
No olhar
A me endoidecer
Quisera estivesse
No mar
E não em você

Porque seu coração
É uma ilha
A centenas
De milhas daqui

10/04/2026

NESTE SILÊNCIO ( Artur Ferreira )

 Olhando nos meus, teus olhos gritavam:

diz, diz que me amas, diz da paixão
que sentes por mim.

Tremendo em silêncio, teus lábios diziam:
beija-me, deixa-me beber teu amor,
passear no teu corpo, fazer-te gozar.

Teus seios eretos, ansiando diziam:
somos teus, para sempre,
suga-nos e bebe nosso sumo de amor!

E à noite, teu corpo tremendo, pedia:
vem e me toma, guarda-te e morre
dentro de mim!

Teu sexo úmido, ansiando, chorava:
vem, te prometo prazeres sem fim,
vem meu amor e renasce em mim!

E eu, surdo da vida e surdo do amor,
não ouvia os teus gritos teu desejo por mim.

E quando o tédio infame, afinal tomou conta
e o descaso doído nos fez companhia,
afinal nossa hora chegou.

E sem gritos nem choros,
sem amor e sem ódios,
sem eu o saber,
levastes minha vida.

E hoje, no imenso vazio,
de um silêncio sem fim,
eu ouço teus gritos
que antes não ouvia.

ESSES HÁBITOS QUE TENS ( Artur Ferreira )

 Hoje acordei

e ainda sonhando,
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas.

Esse hábito doce que tens
de me acordar.

Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo.

Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã.

Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário.

Esse hábito lindo que tens
de me excitar.

E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta.
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo.

NOITE DE MENDIGO ( Eliana Mora )

 Fui seqüestrada nas entranhas

desta noite
por uma espécie de Senhor
da madrugada
Era meu corpo a implorar
por um abrigo
tal qual imensa ilha
desgarrada

Ele insistia em relembrar mistérios
entumecia agredia
(desterrava)
E evocava um outro tipo
de tremor
Algo que fosse o avesso
(uma morada)

Amanhecia
e as plantas já secavam
daquelas gotas tão iguais às
do meu corpo
E a viagem (ante o sol)
se transformava
em mais algum delírio que
desponta
de uma louca (e tão mendiga)
madrugada

O CAMINHO DAS NUVENS ( Eliana Mora )

 Senti na pele

os dedos teus
colando em mim
um surfe estranho
a voltejar
em minhas ondas
olhando enfim para as
paisagens tão
redondas
ouvindo o som
do que de longe
já conheces

E tomas posse
do terreno
demarcado
que amanhece
todo dia
em cama fria
Porém que túmido
servil
e orvalhado
sabe mostrar das noites
frias
resultado

Terreno morno
que se tranca a esperar
que possas vir
[de alguma nuvem
despencar]
Para sorver na noite
a fonte
do esplendor

Colhermos juntos
tão sentido
e doce

amor

RITMO DESNUDO ( Eliana Mora )

 As pétalas de um corpo

são assim
Podem querer se dar
se desfolhar
De certo modo podem mesmo latejar
E ele vai ficando
um tanto mais safado
mais desnudo
E na vergonha
deixa de dizer que ainda fica
mudo
Por que ninguém queria ouvir
um grito seu
E vai perdendo aquele jeito
duro
um ar de estátua
sólido e salino
de planta seca mas vivaz
um certo ar mordaz
[ou ar divino]
De algo que encolheu
que foi fechando
que se rompeu num ritmo
perverso
escondendo de si mesmo
um próprio indesejado
verso
Que tocou desafinado
sem sentido
E assim permaneceu por muito
tempo
[um tempo infindo]
Sem ter pensado
ou procurado achar
perdão
Ou ainda tão somente ter
olhado
Se ainda tinha corda
aquele corpo
Solo virgem

[violão]

PRECE ( Eliana Mora )

 Preciso do veludo

dos teus cílios
da maciez
e da audácia do
teu cheiro
da embriaguez
que vem da
tua boca

Preciso te tocar
preciso voltar
a ouvir
o som
do teu corpo

AS PORTAS DO MEU COFRE ( Eliana Mora )

 Insensata alma

às vezes presa por um fio
A conviver interpretar
como quizer
a luta e o delírio de morar
num corpo
que respira que se inspira
E permanece assim
calado
Como que a temer
os seus escritos
seu papel
algum teclado

E o desafio de morar
num bicho
um ente
que não retoca seus
segredos
[só os sente]

Em tolas gotas
de um secreto mal de amor

Que vivem presas
muito mais por que
trancaram-se
as portas de seu cofre
Do que por desistir
ou esquecer
de ter sonhado

Com o fascínio
e o sabor de certo
beijo
tom carmim

Que já não está
em tua boca

[cor marfim]

TEU FRUTO ( Carlos Seabra )

 Chupo

teu fruto
na moita
que o vento
açoita
com boca
afoita
que grita
como louca
que goza
como vento
e geme
como mulher

O AMAR DO MAR ( Carlos Seabra )

 boca do mar

beijo de sal
lábios da praia
pele de areia

língua de rio
decote de dunas
seios de ilhas
abraço do sol

correntes de desejo
cheiro de algas
ondas de prazer
espuma que rebenta

gemidos das gaivotas
gozo das nuvens
céu que se funde
no azul do mar

PRIMAVERA ( Maria da Saudade Cortesão Mendes)

 A Musa que passava

Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo -
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.

MA E MI ( Rosa Leonor Pedro )

 Meu amor, procuro o ritmo do teu corpo no meu corpo,

procuro o alento do teu peito no meu
o ar que a tua boca respira na minha.

Procuro em ti o ritmo interno, bem dentro,
no fundo de cada movimento, no centro do teu coração.

Quero-te inteira na minha vida na minha alma
quero dançar contigo esta harmonia de sentir
e saber-te em cada átomo, em cada elemento,
sentir-te bem fundo no meu ventre,
ser tua mãe e tua filha ao mesmo tempo, que é não ter tempo.

Quero ser a árvore e a semente, quero ser a terra lavrada
e por cima dela emergir para sempre:
como no mar me deitas e me embalas antes de nascer,
sempre nos teus braços,
recomeçar esta dança do ventre
da eterna bailarina
que neste mundo eu sou...

FRAGILIDADE ( Rosani Abou Adal )

 Teu corpo ausente do meu corpo,

sou tão frágil como um instante,
uma onda que se quebra no ninho de ostras.
Tuas mãos não repousam sobre meu ventre,
sou tão pequena como um segundo.
Tuas mãos não aquecem meu coração,
sou tão fria quanto a neve.
Sou uma camponesa colhendo
tâmaras, pistache, misk e snôbar.
Não sinto frio, teu corpo me aquece.
És sementes florescendo nos campos.

MISTÉRIOS DA INTIMIDADE ( Rosani Abou Adal )

 Nossa intimidade é tão secreta

quanto as confidências de um soberano.
Nosso amor, cinto de castidade,
ninguém descobre nossas mãos proibidas.
Comemos maçãs e semeamos segredos
distantes do mundo e da vida.
Fugimos das pessoas como crianças carentes
em busca de carinho e afeto.
Ninguém nos percebe cercados de quatro paredes,
ninguém desvenda nossos mistérios.
Somos Édipo e Jocasta da era tecnológica.
Num pequeno vaso grego lapidamos
nossos sonhos, fantasias, medos,
verdades, mentiras,
fragilidades e sentimentos.
Vivemos o medo de ser descobertos
como meninos que roubam frutas
dos quintais e correm dos cachorros bravos.
Não sabemos quem somos,
não sei quem tu és.
Meu presente e meu passado?
Do futuro nada sei.
Quem és tu que me fazes fugir de mim mesma?

AQUÁRIO ( Rosani Abou Adal )

 Tudo frio na madrugada.

Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.

PERDIDOS NO UNIVERSO ( Rosani Abou Adal )

 Há momentos em que me sinto

tão forte quanto as montanhas do Tibet.
Beijo teus lábios, sinto infinita paz.
Existem instantes em que sou
tão grande quanto a força divina,
toco tua intimidade, vôo céus, percorro oceanos,
atravesso horizontes e alcanço tua base aveludada,
sou tão forte como os deuses do Olimpo.
Existem dias em que me sinto
tão pequena como um átomo perdido na galáxia,
teus lábios estão distantes dos meus,
não sinto o gosto de tua boca,
não escuto tua voz de acalanto,
não te toco corpo nem alma,
não sinto teu cheiro no meu corpo,
tuas mãos não me afagam,
perdida no universo
sou o núcleo de um átomo.

NUA ( Rosani Abou Adal )

 Sinto-me como um cabide

que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.

CARÊNCIA NA NOITE ( Rosani Abou Adal )

 Procurei-te por todos os cantos e bares.

Nas mesas vazias, nem sinal de tua sombra.
No céu, a estrela solitária.
O silêncio das ruas, a minha inquietude.
Do outro lado da calçada
ninguém me acompanha os passos.
Uma gata mia no cio,
abraça muros e portões
com unhas afiadas.
Os olhos verdes brilham
para encontrar aconchego
na próxima esquina, debaixo de um automóvel,
num casarão de luzes apagadas.
Brilham tanto que parecem
gerar sete gatinhos em cinco minutos.
Com passos lentos, caminho
seguindo teus rastros,
tuas marcas felinas invisíveis.
A calçada sem pegadas.
Em casa, um ombro amigo,
a coberta fria me aquece e me acolhe.
Sem vestes, abraço a espuma e durmo.