21/03/2026

TUA SOMBRA ( Francesca Randazzo Eisemann ) tradução de Floriano Martins

 tua sombra

decompõe com um sorriso
a dor
de todos os olhares
ela que cruza fronteiras
e cobre de ondas e areia
muitos outros
– eu vou seguir
descobrindo espaços –
alguns relatos
de estrelas em nossas pupilas,
da verdade e de outros planetas
que giram em suas órbitas,
são o sol
que posso evocar
correndo pelas minhas mãos
– como o calor das histórias
que trouxeste
para curar feridas e apagar cicatrizes –
teu olhar na sombra
abre
outro
buraco
por onde só entra a luz

VIDA ( Francesca Randazzo Eisemann ) tradução de Floriano Martins

 vida

atrevo-me a pronunciar suas cores
ver a luz
entre tuas correntes
como um laço de palavras
vida
denunciada
no cuidado
com que nasce das pedras
eu te escuto
na sombra do silêncio
quando a porta é desfeita
fechada por dentro
alma que cresce
movimento
e isca
pensamento
dedos de meu pés
língua
nervo
nuvem de todas as formas
olho que as cria
eu quero fazer o mapa da tua pele
lançá-la inteira ao vento
e aprender a voar
sem o tom do vazio
vida
objetiva e zoom
mundo que se abre
após me haver apertado
tantos braços

CIDADE INVERSA ( Karen Valladares ) tradução de Floriano Martins

                                            Ninguém sonha com o mundo.

                                                                                    (Jorge Luis Borges)

A cidade

é uma lâmpada
um leque.
Por vezes
é um pássaro,
espelho da morte,
poeira de nosso próprio corpo.
Uma criança que nos usa como pipa,
um cachorro que lambe nossas sombras.
Homens e mulheres
que avançam em qualquer direção.
Às vezes simplesmente não avançam.
É longa,
imóvel
sem fôlego.
A cidade não é nada mais
restos de lixo
voando em um céu negro
ou azul
ou amarelo.
Esta cidade
é como um verso ruim
“É uma batalha silenciosa no crepúsculo,
Um toque de guitarra ou uma espada velha.”
A cidade
é um rio
carregado de pedras
onde a pedra atinge o rio.
Esta cidade,
esta cidade precisamente
é o mundo
com o qual ninguém sonha.

QUEM ME LEVARÁ SOU EU ( Dominguinhos - Manduka )

 Amigos a gente encontra

O mundo não é só aqui
Repare naquela estrada
Que distância nos levará
As coisas que eu tenho aqui
Na certa terei por lá
Segredos de um caminhão
Fronteiras por desvendar
Não diga que eu me perdi
Não mande me procurar
Cidades que eu nunca vi
São casas e braços a me agasalhar
Passar como passam os dias
Se o calendário acabar
Eu faço voltar o tempo outra vez, sim
Tudo outra vez a passar
Não diga que eu fiquei sozinho
Não mande alguém me acompanhar
Repare, a multidão precisa
De alguém mais alto a lhe guiar

Quem me levará sou eu
Quem regressará sou eu
Não diga que eu não levo a guia
De quem souber me amar
 

A LUZ OBLÍQUA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 A luz oblíqua da tarde

Morre e arde
Nas vidraças

Nas coisas nascem fundas taças
Para a receber,
E ali eu vou beber.

A um canto cismo
Suspensa entre as horas e um abismo

A vibração das coisas cresce.
Cada instante
No seu secreto murmurar é semelhante
A um jardim que verdeja e que floresce.

A PEQUENA PRAÇA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 A minha vida tinha tomado a forma de uma pequena praça

Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me á praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica das pequenas lojas
onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E á mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia á mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficavam ao canto desta praça

Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram as testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti.

MANHÃ ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Na manhã recta e branca do terraço

Em vão busquei meu pranto e minha sombra

O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente

No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura

A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide

Mergulho atré meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva

O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne.

A NOITE E A CASA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 A noite reúne a casa e o seu silêncio

Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos.

PORQUE OS OUTROS SE MASCARAM... ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

AMANHEÇO ( Karen Valladares ) tradução de Floriano Martins

 Eu amanheço, e não precisamente na manhã.

Abro os olhos e caminham devagar, procurando o que se desconhece.
Aqui as primeiras horas engolfam completamente a casa.
Algo continua batendo dentro de mim
e meu corpo estendido na cama,
pensando em tudo
pensando com os olhos abertos
com as mãos abertas
com o coração aberto como uma flor
com as palavras abertas, embora mudas,
com os pássaros noturnos indo para seu ninho
e não para meu telhado
e não para minhas árvores
e não para meu quintal
e não para pender nas varandas
a cantar o que vier à mente.
Amanheço, e não precisamente na manhã
não precisamente na tarde
não precisamente na madrugada.
Aqui o tempo disseca
torna-se outro
se reinventa
renasce
foge
e volta sempre que quiser.
Eu amanheço
e não precisamente
nas jornadas corretas do tempo.

ELES ME PERSEGUEM ( Laura Nieves ) - Tradução de Gladys Mendía

 suas bocas

suas mãos
suas palavras
Macha de Tchekhov,
Frankenstein de Shelley
as fadas dos Grimm
os mortos de James Joyce
Till Eulenspiegel
Fausto de Goethe
o Lobo da Estepe de Hesse
Ulisses de Homero
a senhorita O’Keefe de Woolf
todos conspiraram
uma caçada contra mim.

Eles aparecem nas ruas
nas vitrines das lojas
nos provadores das lojas
nos espelhos
no olho de um gato manhoso
na moça das hortaliças
em uma criança que traz pedras em suas mãos
no cachorro que lambe as costas
depois que o toquei
no mercado
na padaria
na cozinha
para onde vou
eles aparecem
com suas histórias
suas queixas
seus desejos.

Eles são meus anjos
meus demônios
tudo aquilo
do qual posso renegar
mas também amar.

Eles são meus tios
minha mãe
meu irmão
meus amigos
todos com histórias
todos com desejos
todos são eles
todos somos eles.

Uma bela ficção
da qual não
queremos acordar.

O CHEIRO DE CANELA ( Laura Nieves ) - Tradução de Gladys Mendía

Minha mãe e eu quebrávamos canela

sobre uma mesa de madeira.

 

Abaixo, uma aranha
tecia um ninho para seus filhotes.

 

Nós conversávamos
nos amávamos
nos beijávamos
quebrávamos canela.

 

O cheiro impregnava a sala
nas cadeiras de plástico trançado
na mesa de madeira
onde juntas selávamos as capas
com o fogo de uma vela.

 

Meus dedos se enchiam de cera branca
eu lembrava da Ave Maria da igreja
e da tabuada
não aprendida para segunda-feira.

 

Lá fora, era noite
dentro de casa
cheirava a leite morno
a pão doce
a maduro assado
à canela quebrada
por nossas mãos.

 

Minha mãe colocava
um pão doce
e leite morno na mesa.

 

Eu a observava
falava sobre gatos
as travessuras da cadela
o líquido branco como leite
que sai das plantas
quando brinco.

 

Ela falava sobre a escola
a sorte
suas dores nas articulações
sua tia má
que a tratava como escrava.

 

Enquanto isso, eu
mergulhava meus dedos na superfície
do leite morno
feito nata
teia de aranha branca
em meus dedos.

 

Eu adorava ouvi-la
amava comovê-la
sentia-a mãe
e pai ao mesmo tempo.

 

Eu ansiava ser adulta
queria cuidar dela
protegê-la
porque era morna como o leite
doce como o pão do meu prato
perfeita e perfumada como a canela
que quebrava com suas mãos.

 

Eu a amava tanto
que um dia à tarde
parti para agradá-la.

17/03/2026

BEIJO (Vasco Gato) in UM MOVER DE MÃO (Assírio & Alvim, 2000)

 quando te beijo o beijo que tu me beijas

é que a flor envolve a terra que toca a flor
e é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus lábios dizerem que não
que não houve tempo antes de nós

13/03/2026

À ISADORA DUNCAN ( Ana Júlia Lima )

 Águas subterrâneas

presas em meu corpo enlamaçado

procuram desaguar por onde seu rastro

pintou a liberdade

quadro de muitas pinceladas

coreografia não ensaiada

                         Corre

feito água na relva

                         árvore possuída pela

ventania

                      da sua presença

Solo fértil para a procriação

de desejos incontornáveis

os meus dedos alcançam o céu

mas quero tocar a origem

o começo úmido do mundo.

Há dias em que o meu ventre cria

troco de casca

sou a nova fonte do que serei um dia

há dias em que o meu ventre pesa

carrego a dança fúnebre:

dois passos entre morrer e renascer.

O tecido com que fui represada

anseia por escorrer

por um corpo em ondas

dourado pela luz de Isadora.

SACRIFÍCIO ( Ana Júlia Lima )

Sacrifício

substantivo masculino

atrelado ao corpo feminino

pacto forjado ao íntimo.

Sempre estive aqui

ouvi e nunca falei

procriei, mas não semeei.

Eu as vi emergir das águas

crescer na terra

e queimar nas chamas

agora as escuto gritar

e quero ouvir a minha voz

em um espaço de vozes

inimagináveis

que conversam comigo

no mesmo tom de fúria e união.

Rasguei o contrato imposto

às minhas ancestrais

e queimei junto das roupas não lavadas.

O banho de água fria

não foi o suficiente

para me apagar

é muito mais de dentro

mais fundo

mais quente:

meu sangue já não responde aos punhais.

Minhas raízes fizeram-se flexíveis

com a minha própria enxurrada

que limpou teu nome da minha pele

e agora se espalham pelo chão do mundo.

18/02/2026

Por Adelina Barradas De Oliveira, in O Mar Dos Meus Olhos, Edições Esgotadas - 2024.

 Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens.
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma
         Dedicado a Sophia de Mello Breyner Andresen, Prémio Camões 1999

ENCANTERIA ( Paulo César Pinheiro )

 Vou queimar a lamparina

Quando o rei me der sinal
Eu sou da casa de mina
Ele é da casa real

Eu desci da Lua cheia
Pelo raio que alumia
Eu cheguei na sua aldeia
Pra fazer encanteria

Eu vim ver minha maninha
Dona do fundo do mar
Ela canta de noitinha
De manhã torna a cantar

Moço, apague essa candeia
Deixa tudo aqui no breu
Quero nada que clareia
Quem clareia aqui sou eu

Vou queimar a lamparina
Quando o rei me der sinal
Eu sou da casa de mina
Ele é da casa real

Vim depressa como o vento
Mas não sei porque é que eu vim
Foi num canto de lamento
Que alguém chamou por mim

Acho que cheguei mais cedo
Antes de quem me chamou
Mas, se me chamou com medo
Vou-me embora, agora eu vou

De qualquer maneira eu deixo
Nessa casa, minha luz
Abro ponto e ponto fecho
Deixo o resto com Jesus
Vou queimar a lamparina
Quando o rei me der sinal
Eu sou da casa de mina
Ele é da casa real