POÉTICA LEITURA
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
09/06/2026
Hans Magnus Enzensberger in Destinatário Desconhecido - Uma Antologia Poética (1957-2023) tradução do alemão : Daniel Arelli
APELO ( Carlos Drummond de Andrade )
Meu honrado marechal
dirigente da nação,
venho fazer-lhe um apelo:
não prenda Nara Leão.
Soube que a Guerra, por conta,
lhe quer dar uma lição.
Vai enquadrá-la — esta é forte —
no artigo tal… não sei não.
A menina disse coisas
de causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
abala a Revolução?
Narinha quis separar
o civil do capitão?
Em nossa ordem social
lançar desagregação?
Será que ela tem na fala
mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
em vez de Nara, é leão?
Se o general Costa e Silva,
já nosso meio - chefão,
tem pinta de boa-praça,
por que tal irritação?
Ou foi alguém que, do contra,
quis criar amolação
a Seu Artur, inventando
este caso sem razão?
Que disse a mocinha, enfim,
de inspirado pelo Cão?
Que é pela paz e amor
e contra a destruição?
Deu seu palpite em política,
favorável à eleição
de um bom paisano — isso é crime,
acaso, de alta traição?
E, depois, se não há preso
político, na ocasião,
por que fazer da menina
uma única exceção?
Ah, marechal, compre um disco
de Nara, tão doce, tão
meigamente brasileira
e remeta ao escalão
que, no Palácio da Guerra,
estuda, de lei na mão,
o que diz uma cantora
dentro da (?) Constituição.
Ao ouvir o que ela canta
e penetra o coração,
o que é música de embalo
em meio a tanta aflição,
o gabinete zangado,
que fez um tarantantão
denunciando Narinha,
mudava de opinião.
De música precisamos,
para pegar no rojão,
para viver e sorrir,
que não está mole, não.
Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
para a voz que, pelos ares,
espalha sua canção.
Meu ilustre marechal
dirigente da nação,
não deixe, nem de brinquedo,
que prendam Nara Leão.
04/06/2026
EXAUSTO ( Adélia Prado ) in "Bagagem" - São Paulo: Editora Siciliano, 1993)
25/05/2026
KIZOMBA, FESTA DA RAÇA ( Jonas Rodrigues, Luiz Carlos da Vila, Rodolpho da Vila )
Valeu Zumbi
24/05/2026
Por Célia Moura; poesia inédita, 2026
Ausento-me
OPÇÃO ( Alberto Bresciani ) In Sem Passagem para Barcelona - José Olympio, Rio de Janeiro, 2015
Arquitetos adotam a transparência
SORTE ( Alberto Bresciani ) In Sem Passagem para Barcelona - José Olympio, Rio de Janeiro, 2015
O destino não nos pertence
BANCOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.
a despeito de todas as precauções em depositar no lugar
BECOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.
quem tem caminho reto não se mete em vereda, aconselhava-
DIAS DE IRA ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.
DO AMOR E SEUS SILÊNCIOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.
No destempero e ardências
GAIVOTA ( Cecília Lara )
aprendi com Prado a escrever uma parte do meu dia
Por Carla Andrade
Ela gosta do inesperado.
Por isso anda distraída
Pela vida.
De vez em quando tropeça em cadarços… e cai.
De vez em quando tropeça em amores… e voa!
22/05/2026
O PECADO DO RIO (Mia Couto) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresent. de José Castello. Cia. das Letras, SP, 2016
Na igreja,
MULHER ( Mia Couto ) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresentação de José Castello. Cia. das Letras, São Paulo, 2016
Solteira, chorei.
AVESSO BÍBLICO ( Mia Couto ) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresent. de José Castello. Cia. das Letras, SP, 2016
No início,
já havia tudo.
Estava criado o Homem.
Por Célia Moura, in Terra De Lavra
21/05/2026
MINHA MÃE DIZ ( Diva Cunha ) do livro Canto de Página
Minha mãe diz
que eu sou da pá virada
a da vida torta
os modelos dela são outros:
santa terezinha do menino Jesus
santa rita de cássia
santas
fora as santas domésticas
que foram sacrificadas
no dia a dia
e ninguém viu
sangradas como galinhas
maceradas em vinha d’alhos
postas a dormir no sereno
para secar odores
enfurnadas como bananas verdes
esfregadas nos ladrilhos
claros dos banheiros
costuradas em botões de quatro furos
esbofeteadas e sacudidas
como colchões e almofadas
para desprender o pó das horas
secaram todas
nos linhos brancos
dos lençóis bordados
ao morrer, não morreram
entregaram a alma a deus,
que provavelmente não as perdoou
pelo gasto inútil
que fizeram dos seus talentos."
CERTAS MULHERES ( Diva Cunha )
Certas mulheres catam coisas pequeninas
conchas, feijões, letras
outras distraem-se nos espelhos
contam rugas
algumas contam nuvens
criam cachorros e gatos como crianças
certas mulheres guardam mágoas
ressentimentos, botões, elásticos
algumas são como certos homens
não contam nada
ocupadas com coisas incontáveis.
POEMA DA AMANTE ( Adalgisa Nery )
Eu te amo
OS ERROS ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in O Nome das Coisas
DE UM AMOR MORTO ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in "Geografia"
De um amor morto fica
18/05/2026
ESTA MANHÃ O SILÊNCIO ( João Ricardo Lopes ) De Em Nome da Luz, 2022
esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,
sou agora toda a minha vida, o meu destino














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