09/06/2026

Hans Magnus Enzensberger in Destinatário Desconhecido - Uma Antologia Poética (1957-2023) tradução do alemão : Daniel Arelli

Não leia odes, meu filho, leia os horários dos trens:
são mais exatos. Desenrole os mapas náuticos
enquanto ainda é tempo. Fique atento, não cante.
Virá o dia em que voltarão a pregar listas
no portão e a pintar marcas no peito dos que dizem
não. Aprenda a passar incógnito, aprenda mais que
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Exercite a pequena traição,
a imunda salvação de cada dia. É para
fazer fogo que servem as encíclicas,
e os manifestos, para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos. Raiva e paciência são necessárias
para soprar nos pulmões do poder
o pó fino e mortífero, moído
por aqueles que tanto puderam aprender,
que são exatos, por você.

APELO ( Carlos Drummond de Andrade )

Meu honrado marechal

dirigente da nação,

venho fazer-lhe um apelo:

não prenda Nara Leão.

 

Soube que a Guerra, por conta,

lhe quer dar uma lição.

Vai enquadrá-la — esta é forte —

no artigo tal… não sei não.

 

A menina disse coisas

de causar estremeção?

Pois a voz de uma garota

abala a Revolução?

 

Narinha quis separar

o civil do capitão?

Em nossa ordem social

lançar desagregação?

 

Será que ela tem na fala

mais do que charme, canhão?

Ou pensam que, pelo nome,

em vez de Nara, é leão?

 

Se o general Costa e Silva,

já nosso meio - chefão,

tem pinta de boa-praça,

por que tal irritação?

 

Ou foi alguém que, do contra,

quis criar amolação

a Seu Artur, inventando

este caso sem razão?

 

Que disse a mocinha, enfim,

de inspirado pelo Cão?

Que é pela paz e amor

e contra a destruição?

 

Deu seu palpite em política,

favorável à eleição

de um bom paisano — isso é crime,

acaso, de alta traição?

 

E, depois, se não há preso

político, na ocasião,

por que fazer da menina

uma única exceção?

 

Ah, marechal, compre um disco

de Nara, tão doce, tão

meigamente brasileira

e remeta ao escalão

 

que, no Palácio da Guerra,

estuda, de lei na mão,

o que diz uma cantora

dentro da (?) Constituição.

 

Ao ouvir o que ela canta

e penetra o coração,

o que é música de embalo

em meio a tanta aflição,

 

o gabinete zangado,

que fez um tarantantão

denunciando Narinha,

mudava de opinião.

 

De música precisamos,

para pegar no rojão,

para viver e sorrir,

que não está mole, não.

 

Nara é pássaro, sabia?

E nem adianta prisão

para a voz que, pelos ares,

espalha sua canção.

 

Meu ilustre marechal

dirigente da nação,

não deixe, nem de brinquedo,

que prendam Nara Leão.

04/06/2026

EXAUSTO ( Adélia Prado ) in "Bagagem" - São Paulo: Editora Siciliano, 1993)

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

25/05/2026

KIZOMBA, FESTA DA RAÇA ( Jonas Rodrigues, Luiz Carlos da Vila, Rodolpho da Vila )

 Valeu Zumbi

O grito forte dos Palmares
Que correu terras, céus e mares
Influenciando a Abolição

Zumbi valeu
Hoje a Vila é Kizomba
É batuque, canto e dança
Jongo e Maracatu

Vem, menininha, pra dançar o Caxambu

Ô ô nega mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ô ô Clementina
O pagode é o partido popular

Sacerdote ergue a taça
Convocando toda a massa
Nesse evento que com graça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção

Esta Kizomba é nossa constituição

Que magia
Reza ageum e Orixá
Tem a força da Cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais
E a beleza pura dos seus rituais

Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o Apartheid se destrua

24/05/2026

Por Célia Moura; poesia inédita, 2026

 Ausento-me

Nas palavras interditas
Como se morresse
À margem de um voo de ave.

Trago nos olhos
A platina do silêncio
Quando todos os gritos
Se exilaram no imenso areal.

Busco incessantemente a chave que deixaste
Junto à foz das palavras
Que nunca ousaste.

Só meus cabelos,
Jazigos de pequenitas conchas,
Inquietos, permanecem vida
No ventre do desassossego
Deliciando-me na enseada
Onde ousadamente fomos tudo que inventámos
Gargalhando esta alegria que sinto
Por ser criança.

OPÇÃO ( Alberto Bresciani ) In Sem Passagem para Barcelona - José Olympio, Rio de Janeiro, 2015

 Arquitetos adotam a transparência

como regra e matéria-prima
cobrem as cidades com casas de vidro
quase tudo se sabe
de lado a lado

é livre a visão
do peito rasgado
da luz que se apaga
dois gatos à espera
papilas que exultam

(o verbo esconder resseca
as coordenadas abertas)

há até quem prefira
vender suas vestes
e assim exposto
no ventre da urbana vitrine
apenas estar
em linha reta

outros rezam
pelo final das tempestades
ou pelo tiro na testa

SORTE ( Alberto Bresciani ) In Sem Passagem para Barcelona - José Olympio, Rio de Janeiro, 2015

 O destino não nos pertence

nem a deuses runas
ou a leitoras de entranhas

A nudez e a tardia
indisciplina dos corpos
inutilmente perseguem a luz

Como agora
arriscar as veias?
Onde se apaga
o vazio?

Soube de búfalos
que trocam o cansaço
pela própria morte

JÁ NÃO HÁ DOMINGOS ( Mia Couto )

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

BANCOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.

 a despeito de todas as precauções em depositar no lugar

apropriado tudo aquilo que lhe pareceu suspeito (óculos,
celular, chaves), o autoritário equipamento detector de metais
dispara. a cidadã é barrada à entrada do recinto destinado aos
deuses protetores dos juros e dos índices bovespa e dow jones.
espoliada de sua dignidade, a humilhada ré descobre que um
prosaico batom esquecido na bolsa fora o causador do suposto
atentado. finalmente liberada, resta ainda enfrentar os olhares
em fila, irados pela demora e que, ato contínuo, despem-se de
seus pertences, rumo à esperança da própria liberação

BECOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.

 quem tem caminho reto não se mete em vereda, aconselhava-

me a mãe, o medo do sobressalto a escorrer do afeto, sem
saber que as descobertas se revelam apenas no entrecruzar do
caminho e a conquista à saída do labirinto

os becos e seus inocentes nomes de santos não atendem à
demanda de mercado, insignificantes artérias esquecidas,
deixam que a cidade cresça ao seu redor e ficam ali, pulsantes
e vingados, tênues sopros de resistência e muda contestação,
negação ao gigantismo, sedução para o não cumprimento do
conselho

DIAS DE IRA ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.

Ira furor brevis est
(Horácio)
No furor mais insano

dos ardores intensos

a marca da traição

: revoltos sentidos


Nos braços da ira

a lava das palavras

tatua impropérios

: inesperada queimadura

(por fim)

Compaixão e ungüentos

compressas frias

gestos de paz

: ardências já cinzas

DO AMOR E SEUS SILÊNCIOS ( Dalila Teles Veras ) in Retratos Falhados; São Paulo: Escrituras, 2008.

 No destempero e ardências

da fúria inaugural
a palavra sem proveito
(verbalização de corpos)

No rito já maturado
do caminho reconhecido
a muda comunhão
(frêmito de carne e espírito)

Urgências mitigadas
os silêncios primordiais
já agora interpretáveis
(epifania outonal)

GAIVOTA ( Cecília Lara )

 aprendi com Prado a escrever uma parte do meu dia

[para chorar.
há pouco o pranto foi intenso
estava chovendo muito, mas insisto
que a água na varanda era salgada, portanto,
de pranto, e não de chuva,
fui tirar a água com um balde
e estava gostando de ficar descalça
com água pelas canelas
quando inesperadamente senti o cheiro
da casa da minha vó.
imaginei que ele estivesse comigo.
por algum motivo saíra de seu sono de raízes
e achara importante me visitar.
perguntei: veio pra ajudar ou pra julgar?
ela disse: ajudar. Vim te contar um segredo
pois diga.
você não é uma mulher. Você é uma gaivota.
e acariciou minhas penas, e alisou meu bico fino.

Por Carla Andrade

 Ela gosta do inesperado.

Por isso anda distraída

Pela vida.

De vez em quando tropeça em cadarços… e cai.

De vez em quando tropeça em amores… e voa!

22/05/2026

O PECADO DO RIO (Mia Couto) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresent. de José Castello. Cia. das Letras, SP, 2016

 Na igreja,

Rosarinho se confessou:
engravidei do rio, senhor padre.

Com gesto de água
arredondou o ventre.

O padre
se enrugou:
ela que não usasse desculpa
para os seus mortais pecados.

A ofensa tremia
na voz dela quando retorquiu:
— Desculpe, padre,
mas Nossa Senhora
não emprenhou de um feixe de luz?

Para mais, acrescentou Rosarinho,
o senhor padre
nem nunca, nem jamais viu esse rio.

E rematou
com lânguida saudade: aquele ondear,
as tonturas que ele traz...

Pegou o padre pela mão
e o convidou a descer o vale.

Agora,
todas as noites
o padre se banha
nas águas do rio pecador.

MULHER ( Mia Couto ) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresentação de José Castello. Cia. das Letras, São Paulo, 2016

 Solteira, chorei.


Casada, já nem lágrima tive.

Viúva, perdi olhos
para tristezas.

O destino da mulher
é esquecer-se de ser.

AVESSO BÍBLICO ( Mia Couto ) In Poemas Escolhidos. Seleção do autor. Apresent. de José Castello. Cia. das Letras, SP, 2016

 No início,

já havia tudo.

Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.

Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.

Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.

E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.

Estava criado o Homem.

Por Célia Moura, in Terra De Lavra


Escrevo-te meu amor
com o sangue que fiz jorrar deste ventre inútil
mutilando-me como quem abomina rosas,
achando-as belas,
como se um dia tivesse tido um magnífico jardim
de onde se esbanjassem pétalas, flores, árvores
mel e canela.
Desabitei-me
quando dei por mim era apenas sangue, Tchaikovsky
e a criança que abandonaram a meio da estrada.
Perdoa-me!
Talvez um dia eu retorne em forma de mar
e te faça baloiçar,
ou enquanto condor
só para te fazer voar.
Se te escrevo ainda meu amor
e te trago meus olhos rasgados de lágrimas,
ventre mutilado de facas
é para te dizer o rumo das flores.
Irei no borbulhar das fontes.

21/05/2026

MINHA MÃE DIZ ( Diva Cunha ) do livro Canto de Página

 Minha mãe diz

que eu sou da pá virada
a da vida torta

os modelos dela são outros:
santa terezinha do menino Jesus
santa rita de cássia
santas

fora as santas domésticas
que foram sacrificadas
no dia a dia
e ninguém viu
sangradas como galinhas
maceradas em vinha d’alhos
postas a dormir no sereno
para secar odores
enfurnadas como bananas verdes
esfregadas nos ladrilhos
claros dos banheiros
costuradas em botões de quatro furos
esbofeteadas e sacudidas
como colchões e almofadas
para desprender o pó das horas

secaram todas
nos linhos brancos
dos lençóis bordados
ao morrer, não morreram
entregaram a alma a deus,
que provavelmente não as perdoou
pelo gasto inútil
que fizeram dos seus talentos."

CERTAS MULHERES ( Diva Cunha )

 Certas mulheres catam coisas pequeninas

conchas, feijões, letras

outras distraem-se nos espelhos

contam rugas

algumas contam nuvens

criam cachorros e gatos como crianças

certas mulheres guardam mágoas

ressentimentos, botões, elásticos

algumas são como certos homens

não contam nada

ocupadas com coisas incontáveis.

POEMA DA AMANTE ( Adalgisa Nery )

 Eu te amo

Antes e depois de todos os acontecimentos

Na profunda imensidade do vazio

E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo

Em todos os ventos que cantam,

Em todas as sombras que choram,

Na extensão infinita dos tempos

Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo

Em todas as transformações da vida,

Em todos os caminhos do medo,

Na angústia da vontade perdida

E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo

Em tudo que estás presente,

No olhar dos astros que te alcançam

E em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo

Desde a criação das águas, desde a idéia do fogo

E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente

Desde a grande nebulosa

Até depois que o universo cair sobre mim

Suavemente.

OS ERROS ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in O Nome das Coisas

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

 

DE UM AMOR MORTO ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in "Geografia"

 De um amor morto fica

Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora

18/05/2026

ESTA MANHÃ O SILÊNCIO ( João Ricardo Lopes ) De Em Nome da Luz, 2022

 esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,

trepou as travincas, as teias altas, as cérceas geladas
e atravessou a pedra, o cimento, as fissuras, o próprio ar

sou agora toda a minha vida, o meu destino

e a casa estremeceu
e as palavras – ferro congelado –
doeram nas mãos