à boca que
entrega o silêncio,
a outra pede
com saliva.
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
Visto-me de silêncio
Confesso que te amo,
Pois que se crivem balas
Iluminados
Esta noite não quero saber de conselho
Amemos! Quero de amor
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu
De mim não falo mais :não quero nada.
O corpo não espera. Não. Por nós
Acordei numa madrugada fria
gritando e suando ensandecida.
Não cria no que via:
um pote de vidro sobre a mesa
de madeira velha do porão,
lá estava meu filho,
envolto no cordão.
Rasgava-me
o peito
o ventre,
de dor
de fúria
de culpa.
Vi-me ali ferida, caída, vazia,
e um ser natimorto a me observar,
como se fosse a culpada
por sua vida não vingar.
Vi-me igual à Frida que
pintou esse sonho meu,
e eternizou nossos filhos
ela, na tela e eu, no papel.
Eras, minha senhora, um jardim do inverno
As tâmaras negadas a pássaros sem nome.
As fontes da fome.
Atrás do Palácio
Não posso na verdade te chamar
Quando não posso olhar-te o rosto
olho-te os pés.
Mãe é linha de frente,
peito nu em zona de guerra
Se há na língua, além do sentido
forma prima esquartejada
desço a rua
Quem toca piano sob a chuva,
Abri de par em par as portadas das janelas
A noite desce inescrutável
as estrelas são efígies destituídas de rosto
no vento, sopram signos diáfanos,
arredios como serpentes não encantadas
em todo o horizonte, amontoa-se o espólio
da ausência, essa forma que toma
o que foi e o que não será e jaz
na vala entre as coisas circundantes e teu corpo
(na soleira do ser,
a vigência do nada espreita)
entre sombras sem substância,
o pensamento divaga como um bote
cujo laço foi rompido
mas, desde que a vida se recusou imaginada,
o drama se deslocou para trás do palco,
entre mecanismos e metalinguagem
o corcel trôpego do teu espírito
encontra espelhos que conduzem
ao claustro na noite larga
é preciso retornar à planície
dos fatos e dos homens, tendo acima os caminhos aéreos
que as correntes frias e as andorinhas traçam
sim, é preciso sempre retornar das torres
onde a loucura se refugia,
onde toda voz é um eco,
e o vento é um látego que fustiga
escuta o uivo doce das palmeiras,
o orvalho nascendo sobre as pétalas da grama,
sem esperar de deus o canto
os pilares da noite suportam todo o vazio,
deixando-te os ombros para o pouso
de mãos tênues e pássaros
desde que caíste no irremediável,
estás destinado ao nunca mais
abandona-te a este ofício –
respiras, logo dissipas
este sopro breve de vida
mas, sob a asa lépida do instante,
faz – demoradamente – a tua morada
floresta de pelos
no travesseiro
colchão encardido
cílios flutuam
são polens
na manhã sem janela
pentelhos vagueiam
são fiapos
na procissão das formigas
(pausa doméstica)
ando farta
de comer o mundo
tenho festas
na esquina do silêncio
faço cestas
tranço fios de esquecimento
andas farto
de sorver os desencontros
cambaleias
na viela do receio
trazes mate
fazes combustão da dor
varar (n)a madrugada:
existir é rota de colisão