16/05/2026

RESIDÊNCIA ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Regressarás pela ladeira velha

sem aviso.
Será como ontem, ao entardecer:
remoto, repentino, o assobio.
E no caminho, um soluço de festa
derramado.

A luz será húmida
a chuva íntima
sobre a marca dos teus pés.
Dedo a dedo, folha a folha
tocarás os cheiros
os sortilégios do quintal –
o limoeiro anão da avó
o decrépito izaquenteiro
o ocá assombradíssimo
o kimi torto
e à entrada, no barro gravado,
o fantasma do bode branco.
O degrau há-de ranger ao primeiro passo.
Subirás devagar, concreto
sem pisar a tábua solta no soalho.
A porta estará aberta, a tocha acesa.

OS HERÓIS ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Na raiz da praça

sob o mastro
ossos visíveis, severos, palpitam.
Pássaros em pânico derrubam trombetas
recuam em silêncio as estátuas
para paisagens longínquas.
Os mortos que morreram sem perguntas
regressam devagar de olhos abertos
indagando por suas asas crucificadas

O ANEL DAS FOLHAS ( Conceição Lima ) no livro "A Dolorosa Raiz do Micondó". São Paulo: Geração Editorial, 2012.

 Viviam plantas, viviam troncos, viviam sapos

vivia a escada, vivia a mesa, a voz dos pratos
um untueiro em tamanho maior que tudo
fruteiras em permanente parto de gordos frutos
palpáveis, acessíveis, incansáveis limoeiros
makêkês, beringelas, pega-latos
verdes kimis, ali dormiam longos swá-swás
e ido-ido era a montanha cheia de espinhos
onde os morcegos iam cair no kapwelé.

O micondó era a força parada e recuada
escutava segredos, era soturno, era a fronteira
e tinha frutos que baloiçavam, baloiçavam
nunca paravam de baloiçar. 

Não havia horas, ninguém tinha pressa
senão minha mãe
E eu amava na doce vénia dos canaviais
o restolhar de verdes folhas e ondas mansas.

As viuvinhas e pirikitos e keblankanás
- que eu rastejava para agarrar -
erguiam então um alarido de asas e chilreios.
E o mundo voava, o mundo era alto, o mundo era alado.

As borboletas que nada faziam, que só passeavam
tinham guache nas asas, tinham asas, eram lassas
e nada faziam, nada faziam, só passeavam.

Quando eu fugia com as borboletas
Quando eu voava com as viuvinhas
e me perdia nos canaviais
minha mãe, a voz, descia as escadas
aberta como uma rede.

ÁGUA GRANDE ( Conceição Lima ) no livro "Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico". Edição Autora, 2015.

 Falo-te agora de um rio em mim nascente

Lodo e agrião, ondas mansas em corrente
Um rio recôndito como o coração da ilha.

Água Grande não tão Congo não tão Nilo
Água Grande sem canoas sem regatas
apenas rio
Cumprindo no mar seu destino de água.

Mas tu que conheces todas as cidades
Tu de tantos rios peregrino habitante
Não conheces o rosto da minha cidade
Não conheces o rio no corpo da minha
cidade.

Água Grande além de todas as viagens
Rio apenas, irmão de todos os rios.

VIM PARA ACENDER O TEU NOME ( Conceição Lima ) no livro "Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico". Edição Autora, 2015.

 Vim para acender o teu nome

nas pálpebras do poema.
O teu nome em excesso e carência
geminado
na atónita face de cansados deuses.

Mas a multidão cavalga o dorso
de díspares caminhos
E alguém em mim pergunta pelos
antepassados.

Regresso do fundo da memória
e do esquecimento.

A CASA ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Aqui projectei a minha casa:

alta, perpétua, de pedra e claridade.
O bsalto negro, poros
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
da cor dos ibiscos
para o telhado.

Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem tranca nos caminhos.

Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar –
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul.
E reinvento em cada rosto fio
a fio

as linhas inacabadas do projecto

A HERANÇA ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Sei que buscas ainda

o secreto fulgor dos dias
anunciados.
Nada do que te recusam
devora em ti
a memória dos passos calcinados.
É tua casa este exílio
este assombro esta ira.
Tuas as horas dissipadas
o hostil presságio
a herança saqueada.
Quase nada.
Mas quando direito e lúgubre
marchas ao longo da Baía
um clamor antigo
um rumor de promessa
atormenta a Cidade.
A mesma praia te aguarda
com seu ventre de fruta e de carícia
seu silêncio de espanto e de carência.
Começarás de novo, insone
com mãos de húmus e basalto
como quem reescreve uma longa profecia 

A MÃO ( Conceição Lima ) no livro "A Dolorosa Raiz do Micondó". São Paulo: Geração Editorial, 2012.

 Toma o ventre da terra

e planta no pedaço que te cabe
esta raiz enxertada de epitáfios.

Não seja tua lágrima a maldição 
que seqüestra o ímpeto do grão 
levanta do pó a nudez dos ossos, 
a estilhaçada mão 
e semeia

girassóis ou sinos, não importa 
se agora uma gota anuncia 
o latente odor dos tomateiros 

a viva hora dos teus dedos.

CIRCUM - NAVEGAÇÃO ( Conceição Lima ) no livro "O País de Akendenguê". Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

 Os barcos regressam

carregados de cidades e distância.

Adormecem os grilos
Uma criança escuta a concavidade de um búzio.

Talvez seja o momento de outra viagem
Na proa, decerto, a decisão da viragem.

Aqui se engendram alquimias
Lentos hinos bordados em lacerações
Sossegaram os mortos
Há grutas e pássaros de fogo
Rebentos de incómodos recados

O difícil ofício de lavrar a paciência.

Acontece a arte da viragem
Tanta aprendizagem de leme e remendo.

É quando o olho imita o exemplo da ilha
E todos os mares explodem na varanda.

DESCOBERTA ( Conceição Lima ) em "Vozes Poéticas da Lusofonia". seleção Luís Carlos Patraquim. Sintra: Edição CM de Sintra,1999.

 Após o ardor da reconquista 

não caíram manás sobre os nossos campos. 
E na dura travessia do deserto 
Aprendemos que a terra prometida 
era aqui. 
Ainda aqui e sempre aqui. 
Duas ilhas indómitas a desbravar. 
O padrão a ser erguido 
pela nudez insepulta dos nossos punhos. 

ESCRITURA ( Conceição Lima ) no livro "O País de Akendenguê". Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

 Chove na capital que morto libertaste

Chove em Bissau, derradeiro planalto
e a chuva põe no vento uma rajada e pranto.

Há frescos corpos tombados nas águas
Corpos alheios à vaidades das trincheiras
Inocentes, completos corpos
Somados aos soluços da trombeta.

Que halo circunda esta queda?

Quem gravará seus nomes na epiderme da pedra?

Seus sudários de demora e quezília
Seu pecúlio de desdita e rebento.

Também a desolação é uma escritura.
Também o atraiçoado sobrevive
ao saque do rosto, amassa esquecimentos
dispara um cometa.

A nudez é um caminho, esta procura te inventa.  

ESTÁTUAS ( Conceição Lima ) no livro "O País de Akendenguê". Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

 Neste país as estátuas desdenham alturas.

Traficam na praça, devassam estradas
Têm mãos pensativas e barro na planta dos pés.

HASTE (Conceição Lima) no livro "A Dolorosa Raiz do Micondó". Lisboa: Editorial Caminho, 2006.

 Num certo campo de um ermo lugar

um caule dobra agora o dorso – verga
se lhe roça o eco da intempérie.

Em qualquer campo aquém do luar
num estreito canto de um país vulgar
o caule cede o dorso
se lhe bate a mão da ventania –
duplica na coluna o peso do próprio corpo.

Soergue depois a inclinação da linha
e retoma o vertical instinto de sua raiz –
permanece

KWAME ( Conceição Lima ) no livro "O País de Akendenguê". Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

 Deixei longe o clarim.

Vim ouvir a alegria das rosas
Ébrias gaivotas
Esta frescura tingindo de princípio o teu canto.

Além dos retalhos do mapa
Vim tocar as tábuas da profecia.

Acostumo-me ao perpétuo fogo
Na fronte de Acra.

Que diriam as palavras
O que diriam
Sobre o árduo fulgor da tua mortalha?

MÁTRIA ( Conceição Lima ) no livro "O Útero da Casa". Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

 Quero-me desperta

se ao útero da casa retorno
para tactear a diurna penumbra
das paredes
na pele dos dedos rever a maciez
dos dias subterrâneos
os momentos idos

Creio nesta amplidão
de praia talvez ou de deserto
creio na insônia que verga
este teatro de sombras

E se me interrogo
é para te explicar
riacho de dor cascata de fúria
pois a chuva demora e o obô entristece
ao meio-dia

Não lastimo a morte dos imbondeiros
a Praça viúva de chilreios e risonhos dedos

Um degrau de basalto emerge do mar
e nas danças das trepadeiras reabito
o teu corpo
templo mátrio
meu castelo melancólico

de tábuas rijas e de prumos

METAMORFOSE (Conceição Lima ) no livro "O País de Akendenguê". Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

 Hoje as palavras nada dizem de naufrágios.

Pétalas apenas
Pétalas não visíveis
Infinitas pétalas
E na ponta dos nossos dedos
O fantasma de uma doce, habitável Cidade
Suas vestes de púrpura e de lenda
Seu corpo, fruto tenaz e justa partilha.
De uma exacta metamorfose somos testemunhas. 

15/05/2026

HÁ PESSOAS QUE PERDEM ( Martha Medeiros )

 há pessoas que perdem os óculos

o emprego, o ônibus, o fígado
rompem contratos, noivados
perdem a estreia do teatro
há pessoas que perdem a viagem, os amigos
rompem o nervo ciático
perdem a cabeça, a deixa, a memória
faturam cachês minguados
há pessoas que perdem dinheiro, fazenda, anéis
a missa das seis
rompem a noite atrás de motéis, de mulheres
que perdem o vestido, a calcinha, o pudor
há pessoas que perdem o valor, o isqueiro
perdem o lugar, o sono, o poder
corrompem o amor, perdem sua vez
há mães que perdem seus filhos
então não há mais nada a perder

SE CONTARMOS TODAS AS PALAVRAS ( Martha Medeiros )

 se contarmos todas as palavras que

trocamos
daria para escrever um bom romance
eu nem te conhecia e contei meus absurdos
tu nem me conhecia e contou teus muitos
planos
se contarmos todos os olhares que trocamos
daria para encher um lago inteiro
eu nem te conhecia e contei o meu passado
tu nem me conhecia e contou teu desespero
se contarmos todos os silêncios que
trocamos
daria para povoar um edifício
eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios
se contarmos todas as fantasias que trocamos
daria pra dizer que amantes fomos
mas o amor exige beijos e abraços
e não reconheceu o nosso encanto

VESTIDOS MUITO LONGOS E JUSTOS ME INCOMODAM ( Martha Medeiros )

 vestidos muito longos e justos incomodam

o beijo dos galãs não tem sabor
e Hollywood fica longe demais
do meu supermercado favorito


ser bela e calma, quanta inutilidade
mais vale um bom olhar profundo
e uma vida de verdade


dois filhos de cabeça boa
um marido bem tarado
uma empregada chamada Maria
cinema de mãos dadas
um salário legal no fim do mês
aquela viagem marcada


novela, trânsito, profissão
sexo, banho morno, musse de limão


me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia

DE MIM, QUE TANTO FALAM ( Martha Medeiros )

 de mim, que tanto falam

quero que reste
o que calei
que tanto rezam por mim
quero que fique
o que pequei
de mim, que tanto sabem
quero que saibam
que não sei

TIMIDEZ ( Cecília Meireles )

 Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve.

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes.

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando.

- e um dia me acabarei.

DESFILE DE MODA ANTIGO ( Maya Angelou )

Seus cabelos, modelados, rostos exaustos

ossos salientes, na altura dos quadris,
as modelos desfilavam, suportadas e enfezadas
e depois, faziam biquinhos com os lábios.

Elas tinham um jeito nojento, ostentado como um banner,
enquanto olhavam de cima a baixo, na altura do nariz.
Eu iria para o inferno antes que me vendessem
qualquer coisa que elas vestiam.

Toda a Burguesia Negra diz: “vamos”
quando “bora” é o que querem dizer,
deveria olhar em volta, para cima e para baixo,
antes de ficarem se achando.

“Certamente”, eles juram, “é isso o que eu vou vestir
quando for ao clube de campo”.
Eu os lembraria: por favor, olhem esses joelhos,
ralados de esfregar o chão da patroa.

13/05/2026

NASCENTE ( Flávio Venturini & Murilo Antunes )

Clareia manhã
O sol vai esconder
A clara estrela
Ardente
Pérola do céu refletindo
Teus olhos

A luz do dia a contemplar teu corpo
Sedento
Louco de prazer e desejos
Ardentes

12/05/2026

PALCO INVÍSIVEL ( Sara F. Costa ) O Movimento Impróprio do Mundo; Âncora Editora, 2016

 trago comigo as gigantes perguntas

que ardem no peso da fala.
de ti espero a noite corrompida,
a solidão contínua
que vai até aos prédios e retorna
mas acredito na tua companhia
como acredito na vaidade do sol
a vida ruge-me nos ombros
enquanto a vergonha respira
entre segredos.
onde estás e por onde andaste
são grutas miseráveis
que se erguem pela lógica
porque a tua presença não faz sentido
somos atores de um palco invisível
não te percas no retorno
porque a verdade é que nunca cá vieste.

CANÇÃO DA VERDADE JOVEM (Vasko Popa) in A Rosa do Mundo 2001 Poemas Para O Futuro; Assírio & Alvim 2001

 A verdade cantava no escuro

No cimo da tília sobre o coração

O sol há-de amadurecer dizia
No cimo da tília sobre o coração
Se os olhos o iluminarem

Troçámos da canção
Agarrámos prendemos a verdade
Cortámos-lhe a cabeça debaixo da tília

Os olhos estavam noutro sítio
Ocupados com outra obscuridade
E nada viram
(tradução de Eugénio de Andrade) 

TALVEZ QUEM VÊ BEM NÃO SIRVA PARA SENTIR (Alberto Caeiro) O Pastor Amoroso; Poemas Completos de A. Caeiro; Presença 1994

 Talvez quem vê bem não sirva para sentir

E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.

OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE ( Álvaro Feijó ) in Os Poemas de Álvaro Feijó; Portugália, 1961

 1

Quando eu morrer – e hei - de morrer primeiro
do que tu – não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem
fecha-me os olhos com um beijo.
                                                          Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria.
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

2
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei - de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E se quiseres partir e o coração
to peça, diz - mo.  A travessia é longa. Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

MOMENTO NUM CAFÉ ( Ruy Cinatti ) 56 Poemas; de Antiguidades Burlesco-Sentimentais; Relógio D´Água, 1981

 As mãos lindas que vi deixam-me absorto:

compridos dedos, polegares de espátula,
um dedilhar de flores em jardins ociosos,
só comparável a conversa amena
de duas mulheres simples debruçadas
sobre o tampo liso de uma mesa.

A riqueza da vida reside nisto:
um leve toque no ombro do próximo
uma cortina de chuva vedando a verdade
olhos indiferentes, indiscretos
e um ar de encanto, um fácil soluço
ouvido longe, como que em segredo.

UM VIOLEIRO TOCA ( Almir Sater & Renato Teixeira )

 Quando uma estrela cai no escurão da noite

E um violeiro toca suas mágoas
Então, os óio dos bichos vão ficando iluminados
Rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado

Quando o amor termina, perdido numa esquina
E um violeiro toca sua sina
Então, os óio dos bichos vão ficando entristecidos
Rebrilham neles lembranças dos amores esquecidos

Quando o amor começa, nossa alegria chama
E um violeiro toca em nossa cama
Então, os óio dos bichos são os olhos de quem ama
Pois a natureza é isso, sem medo, nem dó, nem drama
Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam
Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam

FELICIDADE ( Marcelo Jeneci & Chico César )

 Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz

Sentirá o ar sem se mexer
Sem desejar como antes sempre quis
Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o Sol quando voltar

Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz
Se chorar, chorar é vão
Porque os dias vão para nunca mais

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o Sol brilha para você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem

Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nesta hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o Sol quando voltar

Dançar na chuva quando a chuva vem
Dançar na chuva quando a chuva
Dançar na chuva quando a chuva vem

11/05/2026

IDENTIFICAÇÃO ( Egito Gonçalves ) in O Amor Deságua em Delta - Editorial Inova, 1971

 O areal é o desenho branco do teu corpo

E o rio corre como se tu não existisses
Sonolentas pálpebras cerrando-se
As nuvens cortam as manchas do luar.

Aguardando o quebrar da tua voz
Que a sulcará de ternura e de ruído
A paz ronda a silenciosa margem
Onde se estende o teu vulto imaginado

A AVENTURA É FICAR ( Egito Gonçalves ) in A Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro; Assírio & Alvim, 2001

 Calafetado contra os sonhos, fico

Contigo, prisioneiro dos liames
Que te cercam e cercam o teu rosto,
A tua carne rasgada nos arames.

Extinguiu-se o apelo da partida.
As quilhas já não sofrem a espuma.
Fico contigo na luta pelo dia
No endurecido leito de caruma.

Tu estás sentada sobre a terra.
Pelas searas corre um vento rude.
Teu corpo é uma espiga amadurecida
Pela água aprisionada do açude.

Corsários acamaradam no mar largo.
Mas do teu caule fino, nasce e ondeia
À minha volta, uma canção serena
Que me prende docemente à sua teia.