29/04/2026

CONCHA PARTIDA (Anne Morrow Lindbergh ) in O Unicórnio e Outros Poemas

 Não procures mais a concha perfeita, a forma

inteira e inviolada, que não trincou sob os dentes do tempo;
a armadura de alabastro ainda intocada
pela ação erosiva das areias e das ondas que rolam na praia.

Que outra beleza poderíamos resgatar do mar inconstante
do que estes pequenos esqueletos que se espalham
como flores dispersas sob o céu,
ainda intactas em sua renúncia de vida?

Eis a manhã da criação
retida em seu pequeno lábio, concavidade vazia, destemida;
sua moldura vazada persiste, como um testamento,
em fragmentos, de seu primeiro movimento terreno.

Veja a espiral que mostra as nervuras
de seu crescimento. Erguida como uma bússola em seu arco,
balança-se eternamente no absoluto,
cantando a beleza como uma flauta de prata.

Por Rupi Kaur, in O Que O Sol Faz Com As Flores

 tentei fugir tantas vezes mas

assim que eu dava as costas
meu peito sucumbia ao peso
eu voltava ofegante
talvez por isso te deixasse
arrancar minha pele
qualquer coisa
era melhor que nada
deixar que me tocasse
mesmo que sem gentileza
era melhor do que não ter suas mãos
eu aguentava o abuso
eu não aguentava a ausência
eu sabia que queria vida de uma coisa morta
mas não importava
que estivesse morta
porque pelo menos
era minha

Por Rupi Kaur, in Outros Jeitos de Usar a Boca

 ele pergunta o que eu faço

digo que trabalho em uma empresa pequena
que produz embalagens para –
ele me interrompe no meio da frase
não não o que você faz para pagar as contas
o que te enlouquece
o que te deixa com insônia

eu digo eu escrevo
ele me pede para mostrar alguma coisa
com as pontas dos dedos
toco a parte interna de seu antebraço
e vou roçando até o pulso
os pelos se arrepiam
vejo ele fechar a boca
os músculos se comprimem
seus olhos se derramam nos meus
como se eu fosse o motivo
pelo qual eles piscam
eu desvio o olhar
quando ele se move em minha direção
eu recuo

é isso que você faz então
você exige atenção
minhas bochechas coram
dou um sorriso tímido
confesso que
não consigo evitar

TARDE ( Milton Nascimento & Márcio Borges )

 Das sombras quero voltar

Somente aprendi muita dor
E vi com tristeza o amor
Morrer devagar, se apagar
Quero voltar
Poder a saudade não ter
Não ver tanta gente a vagar
Sem saber viver
Vou sem parar
Das tardes mais sós renascer
E mesmo se a dor encontrar
Sabendo o que sou
Não peço mais perdão
Porque já sofri demais

O TEMPO SECA A BELEZA ( Cecília Meireles ) in Retrato Natural

O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

SE TE ABAIXASSES ( Cecília Meireles ) in Poemas, 1947

Se te abaixasses, montanha,
poderia ver a mão
daquele que não me fala
e a quem meus suspiros vão.

Se te abaixasses, montanha,
poderia ver a face
daquele que se soubesse
deste amor talvez chorasse.

Se te abaixasses, montanha,
poderia descansar.
Mas não te abaixes, que eu quero
lembrar, sofrer, esperar.

LUA ADVERSA ( Cecília Meireles ) in Vaga Música

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua.
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua.
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu.

PERSONAGEM ( Cecília Meireles ) in Viagem

Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.

DUAS CONTAS ( Garoto, Aníbal Augusto Sardinha )

 Teus olhos

São duas contas pequeninas
Qual duas pedras preciosas
Que brilham mais que o luar

São eles
Guias do meu caminho escuro
Cheio de desilusão
E dor
Quisera que eles soubessem
O que representam pra mim
Fazendo
Que eu prossiga feliz
Ai, amor
A luz dos teus olhos

Por Cecília Meireles, in Retrato Natural

Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

SÍTIO III ( trecho )( Neide Archanjo ) In Todas as Horas e Antes – Poesia Reunida A Girafa, São Paulo, 2004


Era um sonho negro
comprimindo a testa
arrancando novamente o coração
do seu compasso inerte.
Era um tremor primário
desabrochado em meu ventre
descendo embrenhado
chegando acuado estremecido
espraiado.
Era uma égua negra
(em contornos eqüestres)
erguendo à luz da meia-noite
e sobre o metal dos cascos
o corpo úmido
de relincho e espuma
os olhos certeiros
de furor e graça.
(Crescia a égua
e do enorme cio e do enorme salto
emigravam
crinas lumes maravilhas.)

Era negra.
Que me ensinava essa nova paisagem
África América
sangue e raiz alforriados
senão que deveria colher ali
(sob a terra escura do seu corpo escuro)
a híbrida claridade?

Tinha um modo vadio de andar
cheio de panos
as mãos coalhadas de anéis
o pescoço ajaezado
dois olhos de veludo
dois seios
como duas ilhas conjugadas
duras concentradas
num cerne preto
intumescido rutilante.
Sublevadas.
Mais o fogo cruzado
vindo vivo ateado
do fundo de um vulcão
enfurnado entre dois montes
coxas lava ebulição.
Quando dormia o santo vigiava
a noite do seu corpo
uma noite tão antiga
etíope ou persa?
(pele que a cobria)
uma noite tão sensível
larga alta
(manto que a encobria).
Não era noite
era dia.

E quantas andaduras numa só:
passo galope trote salto balanço
ancas molecas num vaivém safado
de mucama
de égua solta no pasto
só passível de caça e resgate
debaixo do laço forte do amor.

E veio égua
estendendo os braços
onde sorriam braceletes de marfim
pulseiras de prata
(ai de mim!)
enigmas segredos
hieróglifos de ouro
tatuagens de mil anos.

Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.

Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.

(Sentada
nua).
 

28/04/2026

VIOLINO - MARINHO ( Patrícia Hoffmann ) In blog Espólio do Sol

 A infância coleciona

coisas pequenas.
Ele guardava em segredo
uma miniatura do mar.
Dentro dela morava um
violino - marinho
com quem ele costumava
chorar
durante toda a chuva.
Chorar de brinquedo.

55 ( Casimiro de Brito ) In Intensidades, 1995

 Cidade caótica —

A borboleta atravessa a rua
Com o sinal vermelho.

Por Lílian Maial in www.lilianmaial.com

Quero um homem que me conheça,

Que me penetre, não só a carne,
Mas principalmente o coração,
Com força, vigor e paixão.

Quero que me devore e me beba,
Não só o gozo do sexo,
Mas o prazer de estar junto,
De ser cúmplice e complexo.

Que me prenda e me enrosque,
Não só os braços e pernas,
Mas a alma, com abraços e toques,
Que ultrapassem barreiras externas.

Quero que me jogue na cama
E me use, não como objeto,
Mas como a outra metade,
Indispensável para ser completo.

Que me faça arrepiar e arder,
Não só de desejo e loucura,
Mas da febre de possuir e poder
Compartilhar sua candura.

Que me tateie e percorra,
Que aprenda meus caminhos,
Me oferte sua intimidade,
Me sufoque de carinhos.

Que desvende meus segredos,
Não todos, senão perde o mistério
E a indefinição que dá medo,
Que atrai e tira do sério.

Não quero ser sua vadia, sua meretriz,
Mesmo de forma carinhosa, de paixão.
Porque ele não admite que sua voz
Profane a pureza de minha devassidão.

Não quero ser seu espelho e nem seu reflexo,
Porque ele não precisa ser orientado, nem de adulação.
Está comigo por afinidade e pele,
Por saudade e por satisfação.

Quer compartilhar meus momentos
Ao meu lado, sem mudar meu rumo jamais.
Quer ser amigo, meu porto seguro,
Mesmo que nunca venha a ser o cais.

Quero um homem que se mostre mortal
E felino, livre e escravo de meus olhos,
Atento e sincero, idoso e menino,
Rude e gentil ao dilatar os poros.

Quero um amante que me seduza,
Fúria e abrigo, calor e aconchego,
Dentes e lábios, pêlos e dedos,
A rolar na grama, a morder os seios.

Quero olhos e pálpebras piscando,
Gozo suado e mãos dadas,
Sexo e nexo, amada amando,
Liberdade e vidas atadas.

INTERMÉDIO ( Cristina Garcia Lopes ) In O Continente e Outros Poemas; Funalfa Edições, Juiz de Fora, 2004.

 tarde de chuva

um samba no piano

um samba?
é, são esses acordes complicados
uma pauta inverossímil

a síncope
a descompostura:
sofisticada maneira de se partir o silêncio em dois

talvez seja isso
o que chamam
amor

INDIVIDRO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 de mim não sei mais que um medo

nessa lição da morte

já você
cintila tão lindo
exatamente no vidro
exatamente no corte

O MUNDO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 o único lugar confortável no mundo

é o amor

depois que os espinhos
são retirados da pele
esse é o nome
de quase tudo

27/04/2026

ESPELHO ( Raiça Bomfim )

 Dentro da pele,

dentro da casa,
dentro do cosmo.

Entrar e sair de mim,
entrar e sair do mundo.

Eis-me prismática
em minha vida:

eu sou a casa,
eu sou a presa,
sou a janela.

Emissário de meu corpo,
saio e volto a minha cabeça,
a meu ventre,
a meu coração.

Entrar e sair de mim,
entrar e sair do mundo,
dançar o corpo entre
e refletir.

ENTRE ( Raiça Bomfim )

 Emenda em seu corpo

as faces controversas
de meu rosto.

Penetra seu verbo
no intermédio
do silêncio
e da estridência.

Segue o gesto
com que digo venha,
nega o outro
com que ordeno saia.

VERDE ( Raiça Bomfim )

 Chegar à palavra verde

em que a língua se refresca
e abre na boca túmida
de som.

Dizer verde de ouvidos metidos
no mangue murmurento
onde azul e amarelo
enterram-se fervorosamente
um no outro.

Roçar os lábios no verde
e coçar as costas da expressão
na casca da árvore acesa.

Deitar o verbo entre os pelos
da selva e ver o verde
manando entre os nós
da nossa voz.

TEREZA MULTIDÃO ( Raiça Bomfim )


Tereza quer ser bonita

Ajeita-se como pode
Lhe gritam feia, coitada
Queriam arrancar-lhe a cara
Tereza está sempre errada
Precisa ser corrigida

Eu vou te foder, Tereza
Grita aquele
Eu vou te foder, Tereza
Grita o outro
Nós vamos foder Tereza
Grita o coro

Tereza se sente linda
Se veste toda viçosa
Quem vê, logo fica louco
Deseja roubar-lhe o gosto
Tereza é um alvoroço
Não dá pra se controlar

Nós vamos foder Tereza
Gritam quatro
Nós vamos foder Tereza
Gritam trinta
Nós vamos foder Tereza
Gritam todos

Tereza diz a seu noivo
Não faz assim que eu não gosto
Machuca, incomoda um pouco
O moço não dá ouvidos
Tereza que aguente e goste
Porque ele não vai parar

Eu vou te foder, Tereza
Grita aquele
Eu vou te foder, Tereza
Grita o outro
Nós vamos foder Tereza
Grita o coro

Tereza, nas madrugadas,
Se deita com muitos homens
Tereza que é tão gulosa
Não é disso que ela gosta?
Vai ter bem o que merece
Vão lhe dar uma lição!

Nós vamos foder Tereza
Gritam quatro
Nós vamos foder Tereza
Gritam trinta
Nós vamos foder Tereza
Gritam todos

Tereza é quase uma muda
Comentam que é meio tonta
Aceita, permite, apoia
Não conta nada a ninguém
Adora engolir calada
Tereza está sempre errada

Eu vou te foder, Tereza
Grita aquele
Eu vou te foder, Tereza
Grita o outro
Nós vamos foder Tereza
Grita o coro

Tereza parece uma gralha
Não poupa nenhuma queixa
Adora uma discussão
Faz tudo pra encher o saco
É chata, louca e sacal
Vai ter que aprender por mal

Nós vamos foder Tereza
Gritam quatro
Nós vamos foder Tereza
Gritam trinta
Nós vamos foder Tereza
Gritam todos

Tereza é um nome que eu tenho
Tereza é uma amiga minha
Tereza é quem não conheço

Tereza é uma multidão

 

FALA DE FREI TITO AOS TORTURADORES (Iacyr Anderson Freitas) in Viavária; Nankin-Funalfa, São Paulo-Juiz de Fora, 2010

 Não pode morrer de novo

quem já morreu muitas vezes.
Deixai descansar agora
um corpo exaurido há meses.

Um corpo que já provou
da vida os venenos todos.
Num colchão de urina e fezes,
a tortura e seus engodos.

Por isso a corda em meu corpo
(pois que suicídio não seja):
para que morram comigo
os que mataram a igreja

que deve ser qualquer homem,
antes que as feras o domem.