04/02/2026

É O MAR QUE ENSINA A PERDER ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 é o mar que ensina a perder


ensina outra gravidade
outra respiração
outro sangue

é o mar que ensina a ouvir palavras como
quebrassem umas sobre
as outras —
na busca de uma flor antiga sem país

a esquecer enfim —
é o mar que ensina a ir

e a brilhar como no escuro brilham navios cargueiros
e corpos amando

APROXIMA-TE DO AMOR ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 aproxima-te do amor sem muitas perguntas

aprende-o impensado, intocado ainda
sem perguntas aproxima-te, como descobrindo no
tempo um tempo sem
palavras
com medo de que
se chamado, o amor
(esse pássaro)
se assuste

PORQUE O AMOR TORNA FRÁGIL ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 porque o amor torna frágil tudo o que toca

e porque eu mesma não evitei que
tocasse meu corpo
meus ossos
minha respiração
meu sono
por isso temo por mim —
pelo risco de desabar a um
tremor de pálpebras

PORQUE UMA DE MIM CHAMA ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 porque uma de mim chama

mas a outra hesita

porque uma de mim espera a noite
mas a outra guarda a manhã

porque se cruzam na passagem, e uma olha
mas a outra desvia

porque permaneci no meio, e
o amor deita sombra em minha boca -
e numa de mim quero dizê-lo
mas na outra calá-lo

na outra, este medo de ferir com a voz

ALIÁS ( Djavan )

 Existem coisas que o amor diz

Com aquela coisa a mais
De quem é feliz
Jóias caras produzidas no coração
Tiaras sem fim
Guardo essa luzes pra te servir

É tanta coisa que o amor faz
Vem como um rio
Em sua calma voraz
Timidez, mas sabe voar
Pra fugir da sombra do não-querer
Ademais, quem é que quer sofrer?

Você, o sonho, meus pés, o chão
Mesmo que bravo
O mar vira na canção
Mística rosa, ave rubra
Meu Deus do céu, da boca rubi
Beijo esperado, me leve a ti

É um sacrifício dizer um não
Em seu ofício de obedecer à paixão
Seja como for
Sempre se faz por prazer
Tudo o que o amor diz
Aliás, quem não quer ser feliz?

ALEGRE MENINA ( Dori Caymmi & Jorge Amado )

 O que fizeste, sultão, de minha alegre menina

Palácio real lhe dei, um trono de pedraria
Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis
Ametista para os dedos, vestidos de diamantes
Escravas para serví-la, um lugar no meu dossel
E a chamei de rainha, e a chamei de rainha

O que fizeste, sultão, de minha alegre menina

Só desejava campina, colher as flores do mato
Só desejava um espelho de vidro prá se mirar
Só desejava do sol calor para bem viver
Só desejava o luar de prata prá repousar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar

No baile real levei a tu alegre menina
Vestida de realeza, com princesas conversou
Com doutores praticou, dançou a dança faceira
Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira
Entrou nos braços do rei, rainha, mas verdadeira

PRINCE CHARMANT ( Florbela Espanca ) in Livro de Soror Saudade, 1923

 No lânguido esmaecer das amorosas

Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas

Das noites da minh 'alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente.
Olhos postos num sonho, humildemente.
Mãos cheias de violetas e de rosas.

E nunca O encontrei! Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!

Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas.
- Nunca se encontra Aquele que se espera!

CEBOLA ( Maria Lúcia Dal Farra )

 Gosta dos dias longos

esta milenar senhora!
Memorialista,
enrodilha-se na lembrança das próprias folhas
em permanente esforço de perpetuá-las.
Preferida dos faraós,
deve (por cero) ter inspirado a técnica
em que se eternizaram.

Objeto arqueológico de todas as idades,
esta esfinge
foi dita em sânscrito, persa,
latim, grego. Guarda por exemplo
(em gravidez poliglota)
a nostalgia do antigo lar egípcio,
a travessia do deserto, a ausência da mesa,
a carência de alento –
o fundo pranto hebreu que ainda hoje
(inadvertido e fortuito)
compartilha
com quem lhe devassa a alma.

Percorre com faca teu ventre sagrado
é topar com inscrições inauditas,
passagens secretas,
falsas portas,
inesperadas relíquias.

Que apenas a maldição que eu mereça
recaia sobre mim!

AUTORRETRATO ( Maria Teresa Horta )

 Eu sou outra em mim mesma

E sou aquela

Sou esta
Dançando sobre as lágrimas

Sou o gozo
No gosto de ser espelho
E me faz multiplicar em todo o lado

Eu sou múltipla
Veneno em minha veia

Estrangeira
rasgando o seu passado

sou cruel
dúplice e sedenta
mil vezes morri no desamparo

eu sou esta que nego
e a outra onde me afirmo
faço nela e naquela o meu retrato

e se na história desta  me confirmo
na vida da outra não me traio

feita de ambas à beira do abismo
sou a mesma mulher nascida em maio. 

DE AMOR ( Maria Teresa Horta )

 Falar da paixão

Mais do que o sangue

Mais do que o fogo
Trazido ao coração

Mais do que a rosa acesa
Só por dentro

Revolvendo no peito
A ponta de um arpão

Falar da febre sem fé
Do animal feroz

Dos líquens abertos
E dos lírios

Falar desassossego sem razão
Uma raiva que silva no delírio

Contar quanto dói a dor
No peito
Quanto é contraditória
Esta prisão

Que me faz ficar livro no que sinto
E logo envenenada à tua mão

ARMA ( Maria Teresa Horta )

 Estou ferida

Mulher amada

De teu lume
E de teu fito

Estou ferida com a tua arma
Carregada
Com o que eu sinto

Estou ferida
Com teu costume

De meu segredo
Teu espanto

Estou ferida
De não te ser
Na raiva de te querer tanto

AS TUAS MÃOS ( Maria Teresa Horta )

 As tuas mãos

Compridas e serenas
De pele esticada sobre os dedos
As tuas mãos macias
Como vales
Que prendem ne prendem e desprendem

As tuas mãos
Sedentas
mais profundas de secretas razões

e que se afundam
nas partes mais fundas do meu corpo

que me fazem gemer
e que me iludem
me rasgam
curam e descuram
me vestem de amor e de ventura

INCÊNDIO ( Maria Teresa Horta )

 Este fogo em mim

Água revolta

Este incêndio do corpo
Desatado

Este fermento do beijo
Que escorrega

Esta loucura ardendo
Em todo o lado

CAÇA ( Maria Teresa Horta )

 Quando te esquivas

Persigo
Vou à caça

Farejo quando te sigo
Corro com os lobos na mata
E na floresta eu arrisco

Quando te escondes
Insisto
Tomo o gosto da montada

Sou caçadora e poeta
Danço com as bruxas e acendo
A fogueira sobre água

Quando perdes a palavra
Trepo os montes que eu invento
Sou sereia destes mares num oceano sem tempo

MIRAGEM ( Djavan )

 Com a mão de um desejo

Selvagem
Roubarei a seda
Que o beijo guardou
Só pra dar uma riqueza
Pro meu amor
Vivo por que te vejo
Miragem

Num lampejo de abelha
Fazendo o mel
Vou fazer no céu
Do teu carinho

Uma lã pro cio
Na certeza
De quem faz o vinho
Teu calor
Alucina
E a pleno rigor
Domina

Feito uma coisa
Que mata de prazer
Deixa ver
Se eu não morrer
Te quero de novo
Ando por onde vejo
Miragem
Um beijo passou por mim

MAL SECRETO ( Jards Macalé & Waly Salomão )

 Não choro

Meu segredo é que sou
Rapaz esforçado
Fico parado, calado, quieto
Não corro
Não choro
Não converso
Massacro meu medo
Mascaro minha dor
Já sei sofrer
Não preciso de gente
Que me oriente
Se você me pergunta:
Como vai?
Respondo sempre igual:
Tudo legal
Mas quando você vai embora
Movo meu rosto do espelho
Minha alma chora
Vejo o Rio de Janeiro
Comovo, não saldo, não mudo
Meu sujo olho vermelho
Não fico parado
Não fico calado
Não fico quieto
Corro, choro, converso e tudo mais
Jogo num verso
Intitulado o mal secreto

POEMA AO DESEJO ( Maria Teresa Horta )

 Empurra a tua espada

No meu ventre
Enterra-a devagar até o cimo

Que eu sinta de ti a queimadura
E a tua mordedura nos meus rins

Deixa depois que a tua boca
Desça
E me contorne as pernas de doçura

Ò meu amor a tua língua
Prende
Aquilo que desprende de loucura

VIOLÊNCIA ( Maria Teresa Horta )

 Ó secreta violência

Dos meus sentidos domados

Em mim parto
E em mim esqueço

Senhora do meu
Silêncio
Com tantos quartos fechados

Anoite e desguarneço
Despeço aquilo que
Faço

Ò semelhante e firmeza
Mulher doente de afagos

MULHERES ( Maria Teresa Horta )

 Há nas mulheres

O sono de uma ausência
Como uma faça aberta sobre os ombros
À qual a carne adere impaciente
Cicatrizando já durante o sono

E há também
o estar impaciente

calarmos impacientes
todo o corpo

Sorrir não devagar
Claramente
Lugares inventados sobre os olhos

E há ainda em nós
O estar presente
Diariamente calmas e seguras

Mulheres demasiado
Serenamente

Nas casas
Nas camas
E nas ruas

E como se toda esta herança
Não chegasse
Como se ainda quiséssemos aumentá-la

Fechamos os braços de cansaço
Como se da vida
Chegasse o inventá-la

E se do sono
Nos vem o esquecimento
Quantas insónias cansamos nós por dentro

NOITE ( Maria Teresa Horta )

 De noite só quero vestido

O tecido dos teus dedos
E sobre os ombros a franja
Do final dos cabelos

Sobre os seios quero
A marca
Do sinal dos teus dentes

E a vergasta dos teus
Lábios
A doer-me sobre o ventre

Nas pernas e no pescoço
Quero a pressão mais
Ardente

E da saliva o chicote
Da tua língua dormente

MEMÓRIA ( Maria Teresa Horta )

 Retenho com os meus

Dentes
A tua boca entreaberta

E as plantas das mãos
Dormentes
Resvalam brandas e certas

As tuas mãos no meu peito

E ao longo
Das minhas pernas

BONDADE ( Raquel Naveira )

 Sou mulher

E te prendo
Num visgo de mel,
Numa teia de aranha.

Sinto-me perversa,
Trágica fêmea
Que se nutre de teu sangue
Até a morte.

O dom que te prende a mim
Como uma algema de ouro,
Um elo encantado
Que te comove
É minha bondade:
Sou uma alma simples,
Em meus bosques sagrados
Bebes em fontes de cristal.

Meu sabor te agrada
Como licor de rosas,
A suavidade é um perfume
Em meu amplo jardim.

Pobre amado,
Te sacrificas por mim,
Novo Cristo
Crucificado em meus braços!