21/06/2026

SOB PONTES SOU TUA ( Luiza De Marillac Bessa Luna Michel )

 Do traslado do teu sempre amor

Meu amante em fim tão presente
As chamas que todas tão acesas
Exalam perfume duma baunilha

Teu Rei Sol já invadiu a Deusa Lua
Num lapso que quase todo bondoso
Fez-se todo sendo só pequena parte
No verdor de toda a tua maturidade

Eu o clamo na potência tão grandiosa
Na luz constante que já em imploras
Rendida toda paixão em sã memórias
Não morrerei sem à praia para ver-te

Não te ofendas com meu alto gemido
Sou como ovelha desgarrada sofrendo
Vivendo pra um novo amor tão distante
Toma esta flor que o botão é todo teu.

BANHO DE RIO ( Djavan )

 Folha de saião

Uma colcha de brim
Longe um cantador
Versejou pra mim
Fumega lampião
Na parede
O sonho secou
Na nesga do amor
Há sede
Dias como bois
Passam e nem me veem
Ah meu cantador
Versejar pra que?
Hoje eu tô tão assim
Sem saber
Prazer nenhum
Sem meu amor
Não tomo banho de rio
Nem sou feliz tão cedo

ATITUDE ( Djavan )

 Por você de tudo farei

Te quero demais
Você sabe
Tudo, tudo é atitude
Até o mar que é a vida do pescador
Esse mar eu te dou
Diga o que é que eu sou pra você
Se sou pouco ou nada
Não me diga nada
Magoar pra quê?
Até porque eu
Não saberei viver sem você
Longe de ti, dias sem céu
A refletir nos olhos meus
Casas sem cor, nenhum lugar
Que eu queira ir ou passar
Se você não está ali
Pra me abalar
Com sua doce visão
As mãos frias de amor
Aquecendo as minhas mãos
Dona da luz
Que invade o meu coração.

COMBINADO ( Carolina Salcides )

 Toca-me mais.

Beba sem pressa.
Coma com fúria.
Atente-se aos detalhes:
Laços e fitas
Caras e bocas.
Desvende os olhares.
Adivinhe o que eu nem sei o que quero.
Surpreenda.
Embriague-se um pouco.
Mas não fique bobo.
Proteja-me.
Desgoverne meu reino
Bagunce minha ordem.
Viole meus segredos
E não tenha medo.
Eu não mordo!
Só um pouquinho.
Vale tentar.
Na próxima lua,
Eis a previsão:
Serei Toda Tua.

FLOR DO MEDO ( Djavan )

 Venha me beijar de uma vez

Você pensa demais
Pra decidir
Venha a mim de corpo e alma

Libera e deixa o que for
Nos unir
Não vá fugir mais uma vez
Vença a falta de ar
Que a flor do medo traz

Tente pensar
Pode até ser mau e tal
Mas pode até ser
Que seja demais

Tudo vai mudar
Posso pressentir
Você vai lembrar e rir
Alguma dor
Que não vai matar ninguém
Pode ser vista e nos rondar

Não precisa se assustar
Isso é clamor
De amor
Venha me beijar de uma vez
Feito nuvem no ar
Sem aflição

Venha a mim de corpo e alma
Libera a paz do meu coração
Não vá se perder outra vez
Nesse mesmo lugar
Por onde já passou

Tente pensar
Pode até ser sonho e tal
Mas pode até ser
Que seja o amor

MULTI ( Carolina Salcides )

 Batom na boca, comida na mesa, esmalte fresco, casa limpa.

Roupa passada, flores regadas, salto alto, pé na estrada.
Cabelos ao vento, corpo ao sol.
Curvas e cores, dores, amores.
Tempo curto, amor demais.
Homem, crianças, animais.
Dona de tudo, dona de si.
Varre dançando, se olha no espelho, vive amando.
Acorda cedo, corre, voa , cai, levanta.
Chora, ri, sonha, concretiza.
Bruxa, fada, sacerdotisa.
Faz feitiço na cozinha
Sortilégios a luz do dia
Faz magia na cama.
Beija, olha nos olhos
Ama, ama.

STRIP - TEASE ( Soares Feitosa )

 Jamais eu ficaria quieto

sob o teu olhar;

que muito menos quietos,
no direito de ir e vir,
sobre o teu corpo,
seriam os meus olhos lívidos. 

Porque sobre mim,
bastam os sons
dos teus vestidos:
já me desvestem a alma.

COSTURAR ( Janaína Cavallin )

 A gente podia poder costurar o tempo,

Bordando em cima dos erros
Para que eles sumissem.
Costurar as pessoas
Que gostamos pertinho.
Costurar os domingos,
Um mais perto do outro.
Costurar o amor verdadeiro no peito
De quem a gente ama.
Costurar a verdade
Na boca dos seres.
Costurar a saudade
No fundo de um baú
Para que ela
De lá não fuja.
Costurar a auto estima bem alto,
Pra que nunca ela caia.
Costurar o perdão na alma
E a bondade na mão.
Costurar o bem no bem
E o bem sobre o mal.
Costurar a saúde na enfermidade
E a felicidade em todo lugar.

LAR ( Rosa Lobato Faria ) in O Sétimo Véu ; 2003; Ed. ASA, 2017

 Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.

Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.

20/06/2026

À POESIA ( Célia Moura ) in Terra De Lavra

Aos meus dias de pranto,
às vertigens ocas
espaços inexplorados
e às virgens destrambelhadas
o meu aplauso.
Às Flor de Lótus
quimeras incendiadas
de paz e Opala
minha rendição.
À poesia, mãe amada
companheira de glória e infortúnio,
única e dedicada amiga
todas as pérolas,
poemas, almas decepadas
ouro, platina,
filhos que amei
sem parir e chorei.
Agonia que jamais ousei
de meu ventre
amor aos pedaços
pela enseada de azul e nada
À poesia e somente a ela
todas as alegrias,
todas as tragédias!

16/06/2026

VERDES APARÊNCIAS ( Maria Luísa Ribeiro ) in Mergulho Nos Poros. Goiânia, GO: Movimento Editora, 2013.

Eram de barro os cântaros

que acolheram os licores da carne.

Era de algodão cru o tecido do lençol

que acobertava

um falso rei e uma rainha falsa.


Sob as rosas mornas

onde os cacos se devoravam

e a pressa dos suicidas

apregoava encantamento,

os cântaros vertiam

beijos de proveta

sobre a fenda pretendida.


Avolumavam-se outras fomes

e o ritmo da porfia

consagrava-se.


E ao som do tilintar dos dentes

nas bordas da taça de cristal,

voavam estilhaços de vinho

e uma nódoa de veneno

sobre a mesa esparramava-se.


Era um tempo de carnes secas

e verdes aparências.

RESTOS DE JARDIM ( Maria Luísa Ribeiro ) in Mergulho Nos Poros. Goiânia, GO: Movimento Editora, 2013.

Não tenho mais canteiros

para encantar sementes

nem ensaios de orquídeas.


Meu coração é uma cava só

um resto de jardim e

uma morada de cactus.


Metade de mim é solidez

a outra é solidão

a linha do meio

é um filete de sangue.


As vezes é tanta a saudade de mim

que ignoro a marca da divisa

e às escondidas abraço-me.


E quando encharco-me de espinhos

e vejo meu sangue correr

na calçada da solidez

e no porquê da solidão.


Para não morrer de dor

estou de mim

cada dia mais longe.

SOB A PELE DAS ÁGUAS ( Maria Luísa Ribeiro ) in Mergulho Nos Poros. Goiânia, GO: Movimento Editora, 2013.

Por baixo do casco do meu peito

existe um rasgo do tamanho

de uma dúvida.


Quando andava

com um pedaço do coração

pregado em cada parte,

eu era um oceano de certezas.


Nadava sobre a pele das águas

onde tudo o que se enxerga

se parece com verdade.


Mas a ousadia do mergulho

tem o preço dos tropeços.


Quando o voo não é mais rasante,

o riso de alma já é uma saudade,

é possível ver-se

pelo avesso

Por Alice Vieira

Guarda-me adormecida para sempre no teu peito
ou deixa-me voar uma vez mais
sobre esta terra de ninguém
onde morro por qualquer coisa que me fale de ti.
Há noites assim em que o silêncio se transforma
ao de leve numa lâmina que minuciosamente
rasga o linho onde ficou esquecido
o corpo que habitamos
em provisórias madrugadas felizes.
Depois é só abrir os braços e acreditar
que ainda faltam muitas horas para a partida
e que à-toa pelos corredores ainda escorre
uma razão primeira a trazer-me de volta.
E eu adormecida para sempre no teu peito.
E eu acorrentada para sempre no teu peito.
E de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas;
porque as palavras certas
estavam todas em histórias erradas
que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor.
Muito ao longe uma voz desgarrada
estabelece o fim do verão.
E eu adormecida para sempre no teu peito
e eu acorrentada para sempre no teu peito...
 

13/06/2026

Por Célia Moura

Há um rumor em mim
como terra sequiosa
à espera de chuva,
e cada verso que nasce
é um corpo imperfeito
onde me procuro.
Escrevo-te
como quem se abre devagar,
porque há silêncios
que só florescem
quando alguém os toca.
Trago nas palavras
o peso do que não fui
e a sede do que ainda arde.
Escrevo-te com o corpo inteiro,
e a alma em carne viva,
como quem lavra a própria pele
à procura de sentido.
E em cada verso
fica um pouco mais de mim
não inteira,
mas suficiente
para que o amor
me reconheça.

Por Célia Moura


Em teus olhos inquietos
guardo o mistério
das coisas que não se dizem.
Há neles o silêncio das ostras,
fechadas sobre um brilho antigo,
feito de dor e de tempo.
E eu,
como quem aprende o mar,
aproximo-me sem saber
se o amor
é abrir a ferida
ou apenas habitá-la.

10/06/2026

TANTAS PALAVRAS ( Dominguinhos & Chico Buarque )

Tantas palavras

Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
"Give me a kiss, darling"
"Play it again"

Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou c'est fini
C'est fini

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui

CERTAS CANÇÕES (Tunai & Milton Nascimento )

 Certas canções que ouço

Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz

Certa emoção me alcança
Corta-me a alma sem dor
Certas canções me chegam
Como se fosse o amor

Contos da água e do fogo
Cacos de vidas no chão
Cartas do sonho do povo
E o coração pro cantor

Vida e mais vida ou ferida
Chuva, outono ou mar
Carvão e giz, abrigo
Gesto molhado no olhar

Calor que invade, arde
Queima, encoraja
Amor que invade, arde
Carece de cantar

09/06/2026

Hans Magnus Enzensberger in Destinatário Desconhecido - Uma Antologia Poética (1957-2023) tradução do alemão : Daniel Arelli

Não leia odes, meu filho, leia os horários dos trens:
são mais exatos. Desenrole os mapas náuticos
enquanto ainda é tempo. Fique atento, não cante.
Virá o dia em que voltarão a pregar listas
no portão e a pintar marcas no peito dos que dizem
não. Aprenda a passar incógnito, aprenda mais que
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Exercite a pequena traição,
a imunda salvação de cada dia. É para
fazer fogo que servem as encíclicas,
e os manifestos, para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos. Raiva e paciência são necessárias
para soprar nos pulmões do poder
o pó fino e mortífero, moído
por aqueles que tanto puderam aprender,
que são exatos, por você.

APELO ( Carlos Drummond de Andrade )

Meu honrado marechal

dirigente da nação,

venho fazer-lhe um apelo:

não prenda Nara Leão.

 

Soube que a Guerra, por conta,

lhe quer dar uma lição.

Vai enquadrá-la — esta é forte —

no artigo tal… não sei não.

 

A menina disse coisas

de causar estremeção?

Pois a voz de uma garota

abala a Revolução?

 

Narinha quis separar

o civil do capitão?

Em nossa ordem social

lançar desagregação?

 

Será que ela tem na fala

mais do que charme, canhão?

Ou pensam que, pelo nome,

em vez de Nara, é leão?

 

Se o general Costa e Silva,

já nosso meio - chefão,

tem pinta de boa-praça,

por que tal irritação?

 

Ou foi alguém que, do contra,

quis criar amolação

a Seu Artur, inventando

este caso sem razão?

 

Que disse a mocinha, enfim,

de inspirado pelo Cão?

Que é pela paz e amor

e contra a destruição?

 

Deu seu palpite em política,

favorável à eleição

de um bom paisano — isso é crime,

acaso, de alta traição?

 

E, depois, se não há preso

político, na ocasião,

por que fazer da menina

uma única exceção?

 

Ah, marechal, compre um disco

de Nara, tão doce, tão

meigamente brasileira

e remeta ao escalão

 

que, no Palácio da Guerra,

estuda, de lei na mão,

o que diz uma cantora

dentro da (?) Constituição.

 

Ao ouvir o que ela canta

e penetra o coração,

o que é música de embalo

em meio a tanta aflição,

 

o gabinete zangado,

que fez um tarantantão

denunciando Narinha,

mudava de opinião.

 

De música precisamos,

para pegar no rojão,

para viver e sorrir,

que não está mole, não.

 

Nara é pássaro, sabia?

E nem adianta prisão

para a voz que, pelos ares,

espalha sua canção.

 

Meu ilustre marechal

dirigente da nação,

não deixe, nem de brinquedo,

que prendam Nara Leão.

Foto: a cantora Nara Leão durante uma apresentação.

04/06/2026

EXAUSTO ( Adélia Prado ) in "Bagagem" - São Paulo: Editora Siciliano, 1993)

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

25/05/2026

KIZOMBA, FESTA DA RAÇA ( Jonas Rodrigues, Luiz Carlos da Vila, Rodolpho da Vila )

 Valeu Zumbi

O grito forte dos Palmares
Que correu terras, céus e mares
Influenciando a Abolição

Zumbi valeu
Hoje a Vila é Kizomba
É batuque, canto e dança
Jongo e Maracatu

Vem, menininha, pra dançar o Caxambu

Ô ô nega mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ô ô Clementina
O pagode é o partido popular

Sacerdote ergue a taça
Convocando toda a massa
Nesse evento que com graça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção

Esta Kizomba é nossa constituição

Que magia
Reza ageum e Orixá
Tem a força da Cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais
E a beleza pura dos seus rituais

Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o Apartheid se destrua