Não sei se é
POÉTICA LEITURA
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
06/07/2026
SURDINA ( Cecília Meireles ) de Mar Absoluto (1945) in Obra Poética; Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1987
Quem toca piano sob a chuva,
JEANNE COM BLUSA BRANCA ( Graça Pires ) in Fui Quase Todas As Mulheres de Modigliani, Ed. Poética, Braga, 2017
Abri de par em par as portadas das janelas
GRAMÁTICA DA NOITE ( Laís Araruna de Aquino )
A noite desce inescrutável
as estrelas são efígies destituídas de rosto
no vento, sopram signos diáfanos,
arredios como serpentes não encantadas
em todo o horizonte, amontoa-se o espólio
da ausência, essa forma que toma
o que foi e o que não será e jaz
na vala entre as coisas circundantes e teu corpo
(na soleira do ser,
a vigência do nada espreita)
entre sombras sem substância,
o pensamento divaga como um bote
cujo laço foi rompido
mas, desde que a vida se recusou imaginada,
o drama se deslocou para trás do palco,
entre mecanismos e metalinguagem
o corcel trôpego do teu espírito
encontra espelhos que conduzem
ao claustro na noite larga
é preciso retornar à planície
dos fatos e dos homens, tendo acima os caminhos aéreos
que as correntes frias e as andorinhas traçam
sim, é preciso sempre retornar das torres
onde a loucura se refugia,
onde toda voz é um eco,
e o vento é um látego que fustiga
escuta o uivo doce das palmeiras,
o orvalho nascendo sobre as pétalas da grama,
sem esperar de deus o canto
os pilares da noite suportam todo o vazio,
deixando-te os ombros para o pouso
de mãos tênues e pássaros
desde que caíste no irremediável,
estás destinado ao nunca mais
abandona-te a este ofício –
respiras, logo dissipas
este sopro breve de vida
mas, sob a asa lépida do instante,
faz – demoradamente – a tua morada
AFLUENTES ( Daniela Galdino )
floresta de pelos
no travesseiro
colchão encardido
cílios flutuam
são polens
na manhã sem janela
pentelhos vagueiam
são fiapos
na procissão das formigas
(pausa doméstica)
ando farta
de comer o mundo
tenho festas
na esquina do silêncio
faço cestas
tranço fios de esquecimento
andas farto
de sorver os desencontros
cambaleias
na viela do receio
trazes mate
fazes combustão da dor
varar (n)a madrugada:
existir é rota de colisão
ARTE POÉTICA ( Adília Lopes ) in Um Jogo Bastante Perigoso,1985. In Caras Baratas Antologia Relógio d´água, 2004
Escrever um poema
05/07/2026
DEDOS E DEDOS ( Vasco Gato ) in Um Mover De Mão; Assírio & Alvim, 2000
ASTUTO ( Vânia Melo )
O Amor está arrumando um jeito
de morar em mim, no peito,
O amor não para, não avisa nem nada.
antes que se vista a melhor roupa,
o amor já fez tocaia,
o amor está pronto,
o amor me aguarda…
me benze,
se protege
e ataca.
EU TENHO ESCÁPULAS ( Maria Luiza Machado )
são ossos
ou músculos
ou cartilagens
– na verdade
eu não entendo nada
de anatomia –
que me parecem umas asas
nas costas
só descobri que as tinha
há algumas semanas
quando me atrevi
a me vasculhar
frente a um espelho
eu tenho medo de espelhos
os evito desde que
por causa deles achei
umas muitas linhas brancas na barriga
e furos enormes nas coxas
mas gostei de descobrir minhas asas
olho como se movimentam
dependendo do que faço com os braços
imagino agora qual forma
devem estar tento
enquanto escrevo sobre
meu reflexo
por tanto inominável
por tanto tempo nunca chamado
de
meu corpo
ÚTERO ( Bárbara Uila )
De baixo de sete
peles
útero
frente de sete cores
cabeça
guiada
no pulo do galo
cristais no
caminho
na rua estreita
encruzilhada
ponho sua prenda
e vazo
não olho para trás
não pode
sigo no passo
apertado
vento
vulto
raio
FORNADA ( Carollini Assis )
No preparo do pão
ASTRO ( Yasmin Morais )
Minha pele envolve-se na noite;
Adorno-me em arrecifes de estrelas;
Teço a carne imberbe em limos cintilantes;
E pertenço a ti, que nas fibras de meu pertencimento;
Aloja-se astro, em morada.
Meus pés findáveis tateiam a infinitude das Eras;
Regresso ao teu leito como uma Adhara flamejante;
E de todas as amantes,
Reivindico os domínios do teu Céu.
Meu corpo agarra-se à vestígios de tua poeira cósmica;
Tu, que te vais sem hora,
E me deixas rainha-absoluta,
Nos átrios de estrelas nuas;
Cadentes; clementes, de um zelo insone,
E insolente.
Aguardo o regresso, eclosões no Infinito,
De teus lábios, famintos — às bordas de minha galáxia.








