13/03/2026

À ISADORA DUNCAN ( Ana Júlia Lima )

 Águas subterrâneas

presas em meu corpo enlamaçado

procuram desaguar por onde seu rastro

pintou a liberdade

quadro de muitas pinceladas

coreografia não ensaiada

                         Corre

feito água na relva

                         árvore possuída pela

ventania

                      da sua presença

Solo fértil para a procriação

de desejos incontornáveis

os meus dedos alcançam o céu

mas quero tocar a origem

o começo úmido do mundo.

Há dias em que o meu ventre cria

troco de casca

sou a nova fonte do que serei um dia

há dias em que o meu ventre pesa

carrego a dança fúnebre:

dois passos entre morrer e renascer.

O tecido com que fui represada

anseia por escorrer

por um corpo em ondas

dourado pela luz de Isadora.

 

SACRIFÍCIO ( Ana Júlia Lima )

 Sacrifício

substantivo masculino

atrelado ao corpo feminino

pacto forjado ao íntimo.

Sempre estive aqui

ouvi e nunca falei

procriei, mas não semeei.

Eu as vi emergir das águas

crescer na terra

e queimar nas chamas

agora as escuto gritar

e quero ouvir a minha voz

em um espaço de vozes

inimagináveis

que conversam comigo

no mesmo tom de fúria e união.

Rasguei o contrato imposto

às minhas ancestrais

e queimei junto das roupas não lavadas.

O banho de água fria

não foi o suficiente

para me apagar

é muito mais de dentro

mais fundo

mais quente:

meu sangue já não responde aos punhais.

Minhas raízes fizeram-se flexíveis

com a minha própria enxurrada

que limpou teu nome da minha pele

e agora se espalham pelo chão do mundo.

18/02/2026

Por Adelina Barradas De Oliveira, in O Mar Dos Meus Olhos, Edições Esgotadas - 2024.

 Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens.
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma
         Dedicado a Sophia de Mello Breyner Andresen, Prémio Camões 1999

ENCANTERIA ( Paulo César Pinheiro )

 Vou queimar a lamparina

Quando o rei me der sinal
Eu sou da casa de mina
Ele é da casa real

Eu desci da Lua cheia
Pelo raio que alumia
Eu cheguei na sua aldeia
Pra fazer encanteria

Eu vim ver minha maninha
Dona do fundo do mar
Ela canta de noitinha
De manhã torna a cantar

Moço, apague essa candeia
Deixa tudo aqui no breu
Quero nada que clareia
Quem clareia aqui sou eu

Vou queimar a lamparina
Quando o rei me der sinal
Eu sou da casa de mina
Ele é da casa real

Vim depressa como o vento
Mas não sei porque é que eu vim
Foi num canto de lamento
Que alguém chamou por mim

Acho que cheguei mais cedo
Antes de quem me chamou
Mas, se me chamou com medo
Vou-me embora, agora eu vou

De qualquer maneira eu deixo
Nessa casa, minha luz
Abro ponto e ponto fecho
Deixo o resto com Jesus
Vou queimar a lamparina
Quando o rei me der sinal
Eu sou da casa de mina
Ele é da casa real

17/02/2026

TEMPO ( Carolina Salcides )

 Busco o estado em que minha alma resplandeça

Esta, goza somente em liberdade e plenitude
Vibra ao menor sopro que um vento teça
E inóspita fica quando se enche de inquietude.

De almas desérticas meus olhos desviam
Busco amores afins
Paisagens vivas, puras e solitárias
Vou no sentido contrário, na profundeza das coisas.

Estou encontrando-me. Vivendo para mim.
Tão bom voar, mas melhor ainda caminhar observando.
Estou egoísta...
As palavras são só minhas, e os dias e as noites.

Desconectei-me. Desprendi.
Andei por novos rumos, me despedi.

Desculpem a ausência, eu estava comigo.

DESPERTAR ( Carolina Salcides )

 A paixão é o trem da vida, não é o trilho

 não é só um homem ou um caminho quente
Não é o gozo, o grito, os cabelos ao vento, o trabalho que realiza...
É tudo ao mesmo tempo!
 Ela não é única (uma só pra toda vida) 
A vida é cheia de paixões sem paixão a vida é um chá morno.
A paixão não é palpável é cada célula pulsante e o arrepio que desperta no corpo e na alma.
Ela desperta os ossos, desperta a fome.
Paixão é fome.
É preciso se alimentar, se preencher completamente.
Você merece isso. Merece mais.
Ame-se. Desperte.
O morno é confortante e só.
Hoje, quero acordar faminta para o mundo!

Por Carolina Salcides

 Eu quero o melhor de mim,

que toda feminilidade dance em cada passo.
Que a leveza me conduza e a criatividade transborde.
Eu quero a liberdade da viagem,
a sintonia com a minha verdade.
Que os céus me guiem
e a magia se revele.

ANGELUS ( Elisa Ribeiro )

 Os cumes além, muito além das minhas asas

o mar que sequer avisto
sei-te à beira da praia
alheia e sozinha.
 

Atravesso as rochas
murmuro às tuas costas
palavras incompreensíveis
te abraço desajeitado
meu corpo informe
te assedia
aspiro
teu cabelo líquido
o sol suspenso por um centímetro
desaba
junto comigo.

AS CATARATAS ( Elisa Ribeiro )

 Abrimos uma fenda

na parede líquida do tempo
tateei as bordas com os dedos
atravessei a mão o braço
depois a cabeça
e então o corpo inteiro
você veio atrás de mim
minha coragem
intimidando seu medo

 

não havia ninguém do outro lado
além de nós
e um concierge fardado
estamos no paraíso, eu disse
você arqueou as sobrancelhas
e concordou com a cabeça
a cortina brutal de água às suas costas
caindo
entramos no Hotel Vazio
de mãos dadas
e fomos
por uma fração de tempo
para sempre.

ATÉ PENSEI ( Chico Buarque )

 Junto à minha rua havia um bosque

Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia, toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via

Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha

Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia de sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via

Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha

Toda a dor da vida me ensinou essa modinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha

ALUMBRAMENTO ( Chico Buarque & Djavan )

 Deve ser bem morna

Deve ser maternal
Sentar no colchão
E sorrir, e zangar
Tapear tua mão
Isso sim, isso não

Deve ser bem louca
Deve ser animal
Hálito de gim
Vai fingir, vai gemer
E dizer:
Ai de mim!

E de repente deve ter
Um engenho, um poder
Que é pro menino fraquejar
Alucinar, derreter

Deve estar com pressa
E partir, e deixar
Cica de caju
No olhar do guri
Por aí
Deve ser

THE HEART IS A LONELY HUNTER ( Golgona Anghel )

 Arqueja-me o dilúculo no ventrículo

esquerdo da alma

quando te avisto a descer, meditabunda,

a avenida da minha liberdade de expressão.

 

Conto-te os passos em ordem minguante,

desde a esquina da mais cruel alucinação

e as rãs rezam, em voz baixa,

o hino nacional.

 

Reconheço-te a sinalização temporária dos sorrisos,

mas pressinto a derrogação tácita

das listas de espera,

enquanto um relógio de pedra imita as faces do poente.

 

Desfraldo a fresta da nossa gesta

e vejo uma placa a pendular ao alísio.

Vai e vem, vem e vai, como o badalejo

de um sino de vaca.

 

Um badalejo de bronze. A tresandar a queijo e a azedão.

Viro-a ao contrário,

 

de modo a dispor as letras de frente para mim.

Estas, grandes, gordas, inchadas, incorporam, na sua opulência,

a pergunta queres sentir-me dentro de ti ?

16/02/2026

Por Golgona Anghel, in Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho - Porto Editora, 2013

 O desinteresse acumula-se à minha volta

como as camadas seculares

no tronco de uma sequóia.

Fico imune a queixinhas.

Lavo sozinho a minha roupa.

A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.

No lugar do grito,

uma greta.

Mãos nos bolsos,

bico calado.

Evito vitrinas e espelhos.

Tenho medo que a verdade

me possa desfigurar o rosto.

Por Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam; Mariposa Azual, 2011

 Passas horas a olhar-me em silêncio

enquanto invocas o sono
à beira de uma corona com limão.
Que tipo de cadáver sou eu neste preciso instante?

Quero pensar que não vês em mim
a decadência do império romano
pintado por cima desta linda vista de Lisboa.

Não sou nenhuma sobremesa
flambée ao lume das velas
no deserto de Atacama.

Quero acreditar que neste bordel ruidoso
a luz ténue e intermitente do despertador
mostra ainda com rigor científico
Os resultados dos nossos electrocardiogramas.

Vá, apaga lá esse cigarro e vem!
Regressemos aos lugares-comuns!
Sentemo-nos na nossa cama.

15/02/2026

Por Golgona Anghel, in Vim Porque Me Pagavam; Mariposa Azual, 2011

 Na sala de leitura da insónia,

Quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.

Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.

No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.

Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida
– olhai –
Sou o novo modelo para o fracasso

SEIO ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Tarde, 1963

 O teu seio que em minha mão

Tive uma vez, que vez aquela!
Sinto-o ainda, e ele é dentro dela
O seio-idéia de Platão.

AD INSTAR DELPHINI ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Tarde, 1963

 Teus pés são voluptuosos: é por isso

Que andas com tanta graça, ó Cassiopéia!
De onde te vem tal chama e tal feitiço,
Que dás idéia ao corpo, e corpo à idéia?

Camões, valei-me! Adamastor, Magriço,
Dai-me força, e tu, Vênus Citeréia,
Essa doçura, esse imortal derriço.
Quero também compor minha epopéia!

Não cantarei Helena e a antiga Tróia,
Nem as Missões e a nacional Lindóia,
Nem Deus, nem Diacho! Quero, oh por quem és,

Flor ou mulher, chave do meu destino,
Quero cantar, como cantou Delfino,
As duas curvas de dois brancos pés!

O SÚCUBO ( Manuel Bandeira ) in Carnaval, 1919

 Quando em silêncio a casa adormecia e vinha

Ao meu quarto a aromada emanação dos matos,
Deslizáveis astuta, amorosa e daninha,
Propinando na treva o absinto dos contatos.

Como se enlaça ao tronco a ondulação da vinha,
Um por um despojando os fictícios recatos,
Estreitáveis-me cauta e essa pupila tinha
Fosforescências como a pupila dos gatos.

Tudo em vós flamejava em instintiva fúria.
A garganta cruel arfava com luxúria.
O ventre era um covil de serpentes em cio.

Sem paixão, sem pudor, sem escrúpulos — éreis
Tão bela! e as vossas mãos, fontes de calefrio,
Abrasavam no ardor das volúpias estéreis.

AS TRÊS MARIAS ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948

 Atrás destas moitas,

Nos troncos, no chão,
Vi, traçado a sangue,
O signo-salmão!

Há larvas, há lêmures
Atrás destas moitas.
Mulas-sem-cabeça,
Visagens afoitas.

Atrás destas moitas
Veio a Moura-Torta -
Comer as mãozinhas
Da menina morta!

Há bruxas luéticas
Atrás destas moitas,
Segredando à aragem
Amorosas coitas.

Atrás destas moitas
Vi um rio de fundas
Águas deletérias,
Paradas, imundas!

Atrás destas moitas.
— Que importa? Irei vê-las!
Regiões mais sombrias
Conheço. Sou poeta,
Dentro d'alma levo,
Levo três estrelas,
Levo as três Marias!

AMORA ( Renato Teixeira )

 Depois da curva da estrada

Tem um pé de araçá
Sinto vir água nos olhos
Toda vez que passo lá

Sinto o coração flechado
Cercado de solidão
Penso que deve ser doce
A fruta do coração

Vou contar para o seu pai
Que você namora
Vou contar pra sua mãe
Que você me ignora

Vou pintar a minha boca
No vermelho da amora
Que nasce lá no quintal
Da casa onde você mora

UNIDADE ( Manuel Bandeira ) in Belo, Belo; 1948

 Minh'alma estava naquele instante

Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi verão
O verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sófrega mocidade

Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo
Foi então que minh'alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.

TERNURA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Enquanto nesta atroz demora,

Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;

Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;

Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;

Por que os escondas de teu seio
No doce e pequenino vale,
— Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;

E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha.