02/05/2026

TODAS ÍAMOS SER RAINHAS ( Gabriela Mistral ) in Antologia Poética

 Todas íamos ser rainhas

de quatro reinos sobe o mar:
Rosália com Efigênia
e Lucila com Soledade.

Lá no vale de Elqui, cingido
por cem montanhas, talvez mais,
que com dádivas ou tributos
ardem em rubro ou açafrão,

nós dizíamos embriagadas
com a convicção de uma verdade,
que havíamos de ser rainhas
e chegaríamos ao mar.

Com aquelas tranças de sete anos
e camisolas de percal,
perseguindo tordos fugidos
sob a sombra do figueiral,

dizíamos que nos nossos reinos,
dignos de fé como o Corão,
seriam tão perfeitos e amplos
que se entenderiam ao mar.

Quatro esposos desposaríamos
quando o tempo fosse chegado,
os quais seria reis e poetas
como David, rei de Judá.

E por serem grandes os reinos
eles teriam, por sinal,
mares verdes, repletos de algas
e a ave selvagem do faisão.

Por possuírem todos os frutos,
a árvore do leite e do pão,
o guaiaco não cortaríamos
nem morderíamos metal.

Todas íamos ser rainhas
e de verídicos reinar;
porém nenhuma foi rainha
nem no Arauco nem em Copásn.

Rosália beijou marinheiro
que já tinha esposado o mar,
e ao namorador nas Guaitecas
devorou-o a tempestade.

Sete irmãos criou Soledade
e seu sangue deixou no pão.
E seus olhos quedaram negros
de nunca terem visto o mar.

Nos vinhedos de Montegrande
ao puro seio de trigal,
nina os filhos de outras rainhas
porém os seus nunca, jamais.

Efigênia achou estrangeiros
no seu caminho e sem falar
seguiu-o sem saber-lhe o nome
pois o homem se assemelha ao mar.

Lucila que falava ao rio,
às montanhas e aos canaviais,
esta, nas luas da loucura
recebeu reino de verdade.

Entre as nuvens contou dez filhos,
fez nas salinas seu reinado,
viu nos rios os seus esposos
e seu manto na tempestade.

Porém lá no vale de Elqui,
onde há cem montanhas ou mais,
cantam as outras que já vieram,
como as que vieram cantarão:

Na terra seremos rainhas
e de verídico reinar,
e sendo grandes os nossos reinos,
chegaremos todas ao mar.

O SERÃO ( Mário Quintana ) in Antologia Poética

 Inutilmente, ao longo das ruas,

Os Anjos fazem trottoir
Inutilmente.

Ninguém quer levar para casa
um pouco de céu:
a lembrança do que se perdeu
sempre incomoda.

Nos apartamentos
Os solitários bebem uísque e soda
Os afamiliados também.

Subitamente
um deles ri muito alto
— não se lembra de quê.

Um último Anjo retirante
espia
espia ainda a velha sala iluminada.

DE ALMA ABERTA ( Natália Correia ) in Poesia Completa

 Tomai-me as ancas fartas dão para égua

e as açucenas que ainda são mamudas.
Dos olhos tomai pranto, é boa rega,
já que a chorar por vós vos dei fartura.

Dos ouvidos, silvos que os ocuparam
tomai que até farelo pus em música.
Calo a farinha. Anjos a trituraram.
De agro celeste, o grão não mói a Musa.

De árduos sentidos que chamais pecados
tomai só os mortais. Dão uma récua.
Dos imortais nem um que são velados
por vapores de alvorada paraclética.

Tomai riso também se quereis folia:
mete rabeca e balho o Sprito Santo.
Nos fúlgidos milagres da pombinha
embuça-se o divino no profano.

Tomai polme a ferver de ilhoa irada,
mesmo o coice que dá depois de morta.
Eu deito fogo para não ser queimada.
Mas serva e cerva sou por trás da porta.

Tomai gestos que são dos sete palmos
e para vermes eu não ponho a rubrica.
De publicar-me em pó estais perdoados.
Devo-me eterna vendida em hasta pública.

Traficantes de peles, à puridade
vos digo: só mentira arrecadais.
Porque tal como o lótus, a verdade
vos dou na comunhão que não tomais.

Por Rupi Kaur, in O Que O Sol Faz Com As Flores

 eu passo dias de cama debilitada pela perda

eu tento chorar para te trazer de volta
mas a água já ferveu
e ainda assim você não voltou
eu arranho a pele até ver sangue
perdi a noção do tempo
o sol se transforma em lua e
a lua se transforma em sol e
eu me transformo em espírito
uma dúzia de pensamentos
me atravessam num segundo
você já deve estar chegando
mas é melhor se for engano
eu estou bem
não
eu sinto ódio
sim
eu te odeio
talvez
eu não supere
eu vou
eu te perdoo
eu quero arrancar meu cabelo
de novo e de novo e de novo
até que minha cabeça exausta faça silêncio

ENGUIÇO ( Flora Figueiredo ) in Amor A Céu Aberto

 Eis um amor que bate à porta

em hora imprópria.
Ousado, liga a lâmpada frouxa,
joga a trouxa de roupa ainda manchada
do sangue das costas lanhadas.
Impõe cadeado no portão,
como se não fosse sair mais,
caminha decidido sobre minha paz.
Esse temido amor de hora errada
já vem assobiando pelo corredor.
O trinco da porta é fraco
e não sustenta;
a oração é rala e pouco aguenta,
o medo é pequeno e permissivo.
A tal amor que chega inoportuno,
eu me condeno.
Porque me condeno é que me sinto vivo.

O LOBO ( Ana Bailune ) in 15 Poemas Volume I

 Ele se foi de mim,

E hoje uiva nas estepes,
Solitário lobo,
Sem casa e sem pouso,
Tão longe de mim.

Ah, e eu te procurei,
E eu te quis por perto,
Num resgate
De peito aberto
Desse meu triste e imensurável
Deserto.

Lobo, se tu uivas
Em noites assim
De luar claro,
Algo estremece em mim…
Pois és a parte que me falta,
A que fugiu de mim
No dia em que nasci.

E eu espero,
E eu procuro,
Deixo a porta sempre aberta
E um bom naco de minha carne
Na esperança de rever-te,
Na esperança de juntar-me a ti,
Pedaço de minha alma.

Anseio pela alegria
De finalmente, reencontrar-te,
Parte ausente de mim,
Nem que seja
No limiar da incerteza,
No meu último dia,
Criatura Divina.

VOCÊ ( Charles Bukowski ) in O Amor É Um Cão dos Diabos

 você é uma fera, ela disse

sua enorme barriga branca
e seus pés cabeludos.
você jamais corta as unhas
e tem mãos gordas
como as patas de um gato
seu nariz vermelho e brilhante
e os maiores bagos que
eu já vi.
você lança esperma como
uma baleia lança água pelo
buraco das costas.

fera, fera, fera,
ela me beijou,
o que você quer para o
café da manhã?

MINHA AMADA DOIDIVANA ( Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior)

 Do fundo dos teus olhos, vêm mais cores

Que todo o arco-íris possa dar, eu sei
Das sombras do teu corpo, vêm mais luzes
Do que as luzes do universo a bailar pra mim

Eu sei que teus carinhos são bem mais, bem mais
Que qualquer mão sedosa no amor, eu sei
Mas sei que no teu seio mais amores
Que vêm zombar de uma paixão, de um ser tão teu

Sei por onde andas, dói-me o peito
Sei com quem me enganas, me magoas demais
Mas sei que quanto mais de mim caçoas
Quanto mais feres minh'alma
Mais me sinto preso a ti, mi amor

E o amor, ó minha amada doidivana
Não é assim tão fácil de calar e eu sei
Mas dói saber, amada tropicana
Somente eu não estou a fim de te explorar
Doidivana

A DEUSA DE UM METRO E OITENTA ( Charles Bukowski ) in O Amor É Um Cão dos Diabos

 sou grande

suponho que é por isso que minhas mulheres sempre
parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e que voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela o suficiente para
ser agarrado
e eu me agarro todo
nela,
puxo-lhe a cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho de verdade,
chupo-lhe o lábio superior
sua xoxota
sua alma
monto sobre ela e lhe digo,
"vou lançar suco quente e branco
dentro de você. não voei desde
Galveston para jogar
xadrez".

depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo de seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado de seu corpo
aferro-me às suas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.

ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de um metro e oitenta
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor,
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.

ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui.

ALGO PRA VALER, UMA BOA MULHER ( Charles Bukowski ) in Sobre Amor

 ficam sempre escrevendo sobre os touros, os toureiros,

aqueles que nunca os viram,
e enquanto vou rompendo as teias das aranhas para pegar meu vinho
o aham dos bombardeiros, maldito bam rompendo a calmaria,
e preciso escrever uma carta pro meu padre sobre certa puta da rua 3
que fica me chamando às 3 da manhã;
velhas escadas acima, bunda cheia de farpas,
pensando em poetas de livro de bolso e no padre,
e domino a máquina de escrever como uma máquina de lavar,
e veja veja os touros ainda estão morrendo
e ainda os cevam e os ceifam
como trigo nos campos,
e o sol está preto como tinta, isto é tinta preta,
e a minha esposa fala Brock, pelo amor de Deus,
a máquina de escrever a noite toda,
como vou conseguir dormir? e eu me enfio na cama e
beijo seu cabelo desculpa desculpa desculpa
às vezes eu fico empolgado não sei por quê
amigo meu disse que ia escrever sobre
Manolete…
quem é esse? ninguém, criança, alguém morto
como Chopin ou nosso velho carteiro ou um cão,
dorme, dorme,
e eu a beijo e esfrego sua cabeça,
uma boa mulher,
e logo ela pega no sono e eu espero
a manhã.

ADAPTAÇÃO ( Adélia Maria Woellner ) in Infinito em Mim

 A lua 

repousou no mar 
e se fez branco barco, 
para viver as emoções. 

Aprendeu a flutuar, 
para usufruir 
sensações não conhecidas. 
Só assim pôde 
enfrentar tempestades 
e retornar, melhor, 
ao porto de origem.

PRECE ( Adélia Maria Woellner ) in Infinito em Mim

 Eu queria cantar o mundo, 

com voz bem afinada, 
e fazer ressoar meu canto 
em cada canto, 
em cada estrada. 

Eu queria tocar qualquer instrumento, 
que vertesse som, 
que fluísse música com harmonia 
e fazer cada corpo vibrar 
ao compasso da minha melodia. 

Eu queria ser pintor, 
espalhar cores, muitas cores, 
manchar telas com habilidade, 
retratar a natureza, os sentimentos, 
alegrar olhos e almas 
e transmitir paz, serenidade. 

Eu pedi a Deus tudo isso, 
pois queria enternecer corações, 
encher a vida de alegria, 
colorir pensamentos 
e despertar emoções. 

Antes mesmo de nascer, 
eu pedi para ser esteta. 
Ah! como eu pedi a Deus!
Pedi tanto, tanto, 
que Deus me fez poeta.

ALIENAÇAO ( Adélia Maria Woellner ) in Infinito de Mim

 As nuvens se encolheram, 

abrindo caminho no céu, 
revelando a infinitude do vazio. 

O vento não soltou a voz; 
os animais se aninharam silenciosamente; 
as ondas se largaram, mansamente; 
o sol e a lua se encontraram no espaço; 
as hastes das plantas se dobraram 
e as flores encostaram as pétalas na relva, 
em gesto de reverência; 
os galhos das árvores se uniram, 
como se fossem mãos em prece. 

A natureza se prostrou, 
usufruindo a beleza da revelação. 

Só os homens, 
mergulhados no ruído do fazer, 
nada viram, 
nada ouviram. 
Nem entenderam 
por que tudo aconteceu.

APRENDIZ ( Adélia Maria Woellner ) in Infinito Em Mim

 Nasci de outras terras, 

vermelhas como a cor do sol 
da tarde 
anunciando estiagem. 
Foi longa e árida 
a viagem. 
Pés crestados 
na terra partida, 
ressequida 
de húmus e de vida. 
Porém, sobrevivi. 

Nasci de outras águas, 
fecundada fui 
no encontro das ondas com os rochedos. 
Por isso, 
cresci sem medos, 
mas parti os lábios 
no sal e no sol. 
Não pude sorrir, 
porém, sobrevivi. 

Surgi de outros ventos. 
Fui gerada em tufões, 
mas nasci do ventre da brisa. 
Rodopiei em rodamoinhos 
e fustiguei folhas, flores e frutos. 
Provei sabores 
doces e amargos.
Corri mundos e não pude parar. 
Cansei, 
mas sobrevivi. 

Apareci assim, 
de repente, 
como salamandra entusiasmada. 
Vesti-me de cor e calor, 
lambi a casca da madeira seca 
e enxuguei o tronco úmido de lágrimas. 
Fogo incontrolado, 
querendo alcançar o céu, 
queimei e me consumi, 
vendo meu pranto arder ao léu. 
Mesmo assim, 
sobrevivi.

Agora, sou como sou. 
Estou reaprendendo a viver.

SONHO PARA O INVERNO ( Arthur Rimbaud ) in Antologia Poética

 No inverno, iremos num trenzinho rosa

De azuis almofadões.
Será bom. Um ninho de beijos loucos pousa
Na maciez dos vagões.

Fecharás os olhos para jamais enxergar,
Pela vidraça, os tão soturnos,
Monstruosos esgares das sombras a passar
De lobos e demos noturnos.

E depois sentirás a face que se arranha.
Então esse beijinho, igual a doida aranha,
No pescoço a correr.

E me dirás: "Procura!", inclinando a cabeça,
– Levaremos tempo a buscar a miúda besta
– Que viaja a valer.

A ETERNIDADE ( Arthur Rimbaud ) in Antologia Poética

 Outra vez na tarde!

Quê? – A Eternidade.
É o mar que parte
Com o vasto sol.

Alma sentinela,
Múrmuro confessar,
Desta noite nula
E do dia a brilhar.

Liberas-te então,
Humanos sufrágios,
Do entusiasmo vão
E voes conforme.

Visto que te calas,
Brasas de cetim,
O Dever se exala
E não diz: enfim.

Nada de esperança.
Destino deserto.
Ciência com paciência,
O suplício é certo.

Outra vez na tarde.
Quê? – A Eternidade.
É o mar que parte
Com o vasto sol.

CORAÇÃO LOGRADO ( Arthur Rimbaud ) in Poesia Completa

 Meu coração baba na popa.

Triste e cheirando a caporal:
Vêm-lhe jogar jatos de sopa.
Meu coração baba na popa:
Sob os apupos dessa tropa
Que lança risos em geral,
Meu coração baba na popa,
Triste e cheirando a caporal!

Itifálicos, soldadescos,
Foi por insultos depravado!
Fazem, chegando a tarde, afrescos
Itifálicos, soldadescos.
Fluxos abracadabrantescos,
Salvai meu coração coitado:
Itifálicos, soldadescos,
Foi por insultos depravado!

Quando mascar não possam mais,
Como agir, coração logrado?
Serão refrães de bacanais,
Quando mascar não possam mais:
Crises tereis estomacais
Se o coração for degradado:
Quando mascar não possam mais,
Como agir, coração logrado?

O ARMÁRIO ( Arthur Rimbaud ) in Poesia Completa

 Grande armário esculpido: o carvalho sombreado,

Muito antigo, adquiriu esse ar de bom dos idosos;
E, aberto, o armário espraia em sua sombra ao lado,
Como um jorro de vinho, odores capitosos;

Repleto, é uma babel de velhas velharias,
Recendentes lençóis encardidos, fustões
De infante ou feminis, as rendas alvadias
E os xales das avós pintados de dragões;

– Em ti podem-se achar os medalhões as mechas,
Os retratos, a flor ressequida que fechas,
Cujo perfume lembra o dos frutos dormidos.

– Ó armário de outrora, as histórias que exortas
E amarias contar, com teus roucos gemidos,
Quando se abrem de leve as tuas negras portas.

O ADORMECIDO DO VALE ( Arthur Rimbaud ) in Antologia Poética

 É um recanto bem verde onde canta um rio

Loucamente a se enganchar nas ervas seus farrapos
De prata; e onde o sol, a suplantar o frio,
Brilha: pequeno vale a espumar relâmpagos.

Jovem soldado, boca aberta, fronte nua,
A nuca refrescada nos agriões azuis,
Dorme; estendido na relva, sob nuvem crua,
Pálido no leito verde onde chovia luz.

Os pés nos gladíolos, dorme. E sorri como
Sorrisse uma criança enferma em pleno sono:
Natureza, ele tem frio: acolhei-o em teu leito.

Os perfumes não mais lhe agitam o respirar;
Dorme ao sol, a mão sobre o peito a pousar
Calma. E há dois furos rubros no lado direito.

ROMANCE ( Arthur Rimbaud ) in Antologia Poética

 I

Aos dezessete anos não se pode ser sério.
– Um dia, larga-se o chope e a limonada,
E os barulhentos cafés de lustres feéricos!
– E vai-se sob as verdes tílias dessa estrada.

As tílias recendem nas tardes de verão!
O ar é tão doce que a pálpebra se fecha;
Um vento de barulhos, – a cidade à mão, –
Transporta perfumes de vinho e de cerveja.

II

Eis que uma faixa de azul escuro aparece
Toda muito bem enquadrada na ramagem,
Picada por estrela má, que se amortece
Em um doce tremeluzir, branca e selvagem.

Noite de junho! A juventude segue bêbada.
A seiva do champanhe sobe-lhe à cabeça…
Divaga-se; nos lábios um beijo se queda
E palpita qual se fosse pequena besta.

III

O louco coração uns romances Robinsona,
– Quando, na pálida luz que cintila, vai
Uma charmosa menina colada à sombra
Do sombrio colarinho postiço do pai…

E como te percebe assim muito mortiço,
Fazendo trotar as pequeninas botinas,
Ela se volta, alerta, em movimento vivo…
– Em teus lábios então já morrem cavatinas…

IV

Apaixonado. Alugado até agosto.
Doido. – Ela de teus sonetos faz diversão.
Os amigos se vão, já que és puro mau gosto.
– Mas um dia ela se digna a escrever-te então.

Ah! que dia louco… – regressas aos cafés feéricos,
E pedes muito chope ou fresca limonada.
– Aos dezessete anos não se pode ser sério
Quando as verdes tílias recobrem toda a estrada.

PEQUENO POEMA DIDÁTICO ( Mário Quintana ) in Melhores Poemas

 O tempo é indivisível. Dize,

Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconsequente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre.
Todas as horas são horas extremas!

TEMPO QUE NÃO SE MEDE ( Maya Angelou ) no livro “Poesia Completa”. tradução Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 O sol nasce ao meio-dia.

Seios jovens caem até a cintura enquanto
o ventre amadurece sem brilho,
tão tarde.
Os sonhos são acariciados, como se fossem
os cãezinhos estimados
incompreendidos e tão bem
amados.

Muito conhecimento
enruga o cerebelo,
mas pouco esclarece.
Avanços são
feitos em pedacinhos.
Grandes desejos se estendem
em anseios mesquinhos.
Você chegou, sorrindo,
mas tarde demais.

RECUSA ( Maya Angelou ) no livro “Poesia Completa”. tradução Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Amado,

Em que outras vidas ou terras
Eu conheci seus lábios
Suas mãos
Sua gargalhada corajosa
Irreverente.
Aqueles doces excessos que
Eu adoro.
Qual garantia nós temos
De que nos encontraremos de novo,
Em outros mundos, em algum
Tempo futuro indefinido.
Eu resisto à pressa do meu corpo.
Sem a Promessa
De mais um doce encontro
Me recuso a morrer.