Certas palavras tem ardimentos; outras, não.
POÉTICA LEITURA
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
06/02/2026
CADERNO DE APONTAMENTOS - XIII ( Manoel de Barros ) de Concerto A Céu Aberto Para Solos De Ave, 1991
A palavra jacaré fere a voz.
É como descer arranhado pelas escarpas de um serrote.
É nome com verdasco de lodo no couro.
Além disso é agríope (que tem olho medonho).
Já a palavra garça tem para nós um
sombreamento de silêncios...
E o azul seleciona ela!
05/02/2026
NO FUNDO DOS RELÓGIOS ( Filipa Leal ) in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"; Deriva Editores)
Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.
COR-RESPONDÊNCIA ( Elisa Lucinda ) in "O Semelhante". Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.
Remeta-me
os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem-feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era seu jeito
ou de propósito
mas era bom
sempre bom
e assanhava as tardes
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.
DISTÂNCIA JUSTA ( Cristina Peri Rossi ) tradução: Sandra Santos
No amor, e no boxe,
tudo é questão de distância.
Se te aproximas demasiado excito-me
assusto-me
obscureço digo parvoíces
começo a tremer.
Mas se estás longe
sofro entristeço
esforço-me
NÃO QUISERA QUE CHOVESSE ( Cristina Peri Rossi ) tradução: Sandra Santos
Não quisera que chovesse
eu juro-te
que chovesse nesta cidade
sem ti
e escutar os ruídos da água
a cair
e pensar que ali onde estás a viver
sem mim
chove sobre a mesma cidade
Talvez tenhas o cabelo molhado
o telefone à mão
que não usas
para chamar-me
para dizer-me
esta noite te amo
me inundam as lembranças de ti
desculpa-me
a literatura matou-me
04/02/2026
É O MAR QUE ENSINA A PERDER ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.
é o mar que ensina a perder
ensina outra gravidade
outra respiração
outro sangue
é o mar que ensina a ouvir palavras como
quebrassem umas sobre
as outras —
na busca de uma flor antiga sem país
a esquecer enfim —
é o mar que ensina a ir
e a brilhar como no escuro brilham navios cargueiros
APROXIMA-TE DO AMOR ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.
aproxima-te do amor sem muitas perguntas
aprende-o impensado, intocado aindasem perguntas aproxima-te, como descobrindo notempo um tempo sempalavrascom medo de quese chamado, o amor(esse pássaro)
PORQUE O AMOR TORNA FRÁGIL ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.
porque o amor torna frágil tudo o que toca
e porque eu mesma não evitei quetocasse meu corpomeus ossosminha respiraçãomeu sonopor isso temo por mim —pelo risco de desabar a um
PORQUE UMA DE MIM CHAMA ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.
porque uma de mim chama
mas a outra hesita
porque uma de mim espera a noite
mas a outra guarda a manhã
porque se cruzam na passagem, e uma olha
mas a outra desvia
porque permaneci no meio, e
o amor deita sombra em minha boca -
e numa de mim quero dizê-lo
mas na outra calá-lo
ALIÁS ( Djavan )
Existem coisas que o amor diz
Com aquela coisa a mais
De quem é feliz
Jóias caras produzidas no coração
Tiaras sem fim
Guardo essa luzes pra te servir
É tanta coisa que o amor faz
Vem como um rio
Em sua calma voraz
Timidez, mas sabe voar
Pra fugir da sombra do não-querer
Ademais, quem é que quer sofrer?
Você, o sonho, meus pés, o chão
Mesmo que bravo
O mar vira na canção
Mística rosa, ave rubra
Meu Deus do céu, da boca rubi
Beijo esperado, me leve a ti
É um sacrifício dizer um não
Em seu ofício de obedecer à paixão
Seja como for
Sempre se faz por prazer
Tudo o que o amor diz
ALEGRE MENINA ( Dori Caymmi & Jorge Amado )
O que fizeste, sultão, de minha alegre menina
Palácio real lhe dei, um trono de pedraria
Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis
Ametista para os dedos, vestidos de diamantes
Escravas para serví-la, um lugar no meu dossel
E a chamei de rainha, e a chamei de rainha
O que fizeste, sultão, de minha alegre menina
Só desejava campina, colher as flores do mato
Só desejava um espelho de vidro prá se mirar
Só desejava do sol calor para bem viver
Só desejava o luar de prata prá repousar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
No baile real levei a tu alegre menina
Vestida de realeza, com princesas conversou
Com doutores praticou, dançou a dança faceira
Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira
PRINCE CHARMANT ( Florbela Espanca ) in Livro de Soror Saudade, 1923
No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas
Das noites da minh 'alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente.
Olhos postos num sonho, humildemente.
Mãos cheias de violetas e de rosas.
E nunca O encontrei! Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!
Ah! Toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas.
CEBOLA ( Maria Lúcia Dal Farra )
Gosta dos dias longos
esta milenar senhora!
Memorialista,
enrodilha-se na lembrança das próprias folhas
em permanente esforço de perpetuá-las.
Preferida dos faraós,
deve (por cero) ter inspirado a técnica
em que se eternizaram.
Objeto arqueológico de todas as idades,
esta esfinge
foi dita em sânscrito, persa,
latim, grego. Guarda por exemplo
(em gravidez poliglota)
a nostalgia do antigo lar egípcio,
a travessia do deserto, a ausência da mesa,
a carência de alento –
o fundo pranto hebreu que ainda hoje
(inadvertido e fortuito)
compartilha
com quem lhe devassa a alma.
Percorre com faca teu ventre sagrado
é topar com inscrições inauditas,
passagens secretas,
falsas portas,
inesperadas relíquias.
Que apenas a maldição que eu mereça
recaia sobre mim!
AUTORRETRATO ( Maria Teresa Horta )
Eu sou outra em mim mesma
E sou aquela
Sou esta
Dançando sobre as lágrimas
Sou o gozo
No gosto de ser espelho
E me faz multiplicar em todo o lado
Eu sou múltipla
Veneno em minha veia
Estrangeira
rasgando o seu passado
sou cruel
dúplice e sedenta
mil vezes morri no desamparo
eu sou esta que nego
e a outra onde me afirmo
faço nela e naquela o meu retrato
e se na história desta me confirmo
na vida da outra não me traio
feita de ambas à beira do abismo
sou a mesma mulher nascida em maio.
DE AMOR ( Maria Teresa Horta )
Falar da paixão
Mais do que o sangue
Mais do que o fogo
Trazido ao coração
Mais do que a rosa acesa
Só por dentro
Revolvendo no peito
A ponta de um arpão
Falar da febre sem fé
Do animal feroz
Dos líquens abertos
E dos lírios
Falar desassossego sem razão
Uma raiva que silva no delírio
Contar quanto dói a dor
No peito
Quanto é contraditória
Esta prisão
Que me faz ficar livro no que sinto
E logo envenenada à tua mão
ARMA ( Maria Teresa Horta )
Estou ferida
Mulher amada
De teu lume
E de teu fito
Estou ferida com a tua arma
Carregada
Com o que eu sinto
Estou ferida
Com teu costume
De meu segredo
Teu espanto
Estou ferida
De não te ser
Na raiva de te querer tanto
AS TUAS MÃOS ( Maria Teresa Horta )
As tuas mãos
Compridas e serenas
De pele esticada sobre os dedos
As tuas mãos macias
Como vales
Que prendem ne prendem e desprendem
As tuas mãos
Sedentas
mais profundas de secretas razões
e que se afundam
nas partes mais fundas do meu corpo
que me fazem gemer
e que me iludem
me rasgam
curam e descuram
me vestem de amor e de ventura
INCÊNDIO ( Maria Teresa Horta )
Este fogo em mim
Água revolta
Este incêndio do corpo
Desatado
Este fermento do beijo
Que escorrega
Esta loucura ardendo
Em todo o lado
CAÇA ( Maria Teresa Horta )
Quando te esquivas
Persigo
Vou à caça
Farejo quando te sigo
Corro com os lobos na mata
E na floresta eu arrisco
Quando te escondes
Insisto
Tomo o gosto da montada
Sou caçadora e poeta
Danço com as bruxas e acendo
A fogueira sobre água
Quando perdes a palavra
Trepo os montes que eu invento
Sou sereia destes mares num oceano sem tempo
MIRAGEM ( Djavan )
Com a mão de um desejo
Selvagem
Roubarei a seda
Que o beijo guardou
Só pra dar uma riqueza
Pro meu amor
Vivo por que te vejo
Miragem
Num lampejo de abelha
Fazendo o mel
Vou fazer no céu
Do teu carinho
Uma lã pro cio
MAL SECRETO ( Jards Macalé & Waly Salomão )
Não choro
Meu segredo é que sou
Rapaz esforçado
Fico parado, calado, quieto
Não corro
Não choro
Não converso
Massacro meu medo
Mascaro minha dor
Já sei sofrer
Não preciso de gente
Que me oriente
Se você me pergunta:
Como vai?
POEMA AO DESEJO ( Maria Teresa Horta )
Empurra a tua espada
No meu ventre
Enterra-a devagar até o cimo
Que eu sinta de ti a queimadura
E a tua mordedura nos meus rins
Deixa depois que a tua boca
Desça
E me contorne as pernas de doçura
Ò meu amor a tua língua
Prende
VIOLÊNCIA ( Maria Teresa Horta )
Ó secreta violência
Dos meus sentidos domados
Em mim parto
E em mim esqueço
Senhora do meu
Silêncio
Com tantos quartos fechados
Anoite e desguarneço
Despeço aquilo que
Faço
Ò semelhante e firmeza
Mulher doente de afagos
MULHERES ( Maria Teresa Horta )
Há nas mulheres
O sono de uma ausência
Como uma faça aberta sobre os ombros
À qual a carne adere impaciente
Cicatrizando já durante o sono
E há também
o estar impaciente
calarmos impacientes
todo o corpo
Sorrir não devagar
Claramente
Lugares inventados sobre os olhos
E há ainda em nós
O estar presente
Diariamente calmas e seguras
Mulheres demasiado
Serenamente
Nas casas
Nas camas
E nas ruas
E como se toda esta herança
Não chegasse
Como se ainda quiséssemos aumentá-la
Fechamos os braços de cansaço
Como se da vida
Chegasse o inventá-la
E se do sono
Nos vem o esquecimento
Quantas insónias cansamos nós por dentro
Assinar:
Comentários (Atom)












