09/02/2026

Por Célia Moura, in "No Hálito de Afrodite"

 É na astúcia dessas mãos feitas de linho

E damasco
Que me entrelaço mulher,
Luxúria de momentos
Mordendo todas as sílabas
Dos teus voluptuosos seios de nácar
Ausento-me como se morresse
Amor
Exaltação de amoras e pele
Bebendo-te…

08/02/2026

LOUCURA DE AMAR ( Natália Nuno )

 Quero decifrar cada momento

guardar-lhe o sabor
de ti, do teu olhar
do enlouquecer de amor
na hora de amar.
Guardar o teu perfume almiscarado
ter-te por inteiro em meus braços
totalmente apaixonada

deixar-me levar pelo sabor
dos teus lábios que me embriaga
e com a nudez da carne desejada

sonhar, e acordar assim,
com o rumor dos teus passos
voltando de novo para mim
e ali,
disfrutar de novo de beijos
e abraços.
A ti me dou
esqueço o mundo
não quero nem saber quem sou.

SONHOS QUE ME NAVEGAM ( Natália Nuno )

Sonho que sou menina

Não quero nunca despertar
Remonto à origem do meu caminhar.
Conquisto o azul celeste
As asas me dão coragem
Visto-me de penas, de alegre plumagem.
Ando perdida num mar de açucenas
Sei apenas...
No sonho sou menina
Perdida na neblina.

Meu sonho!
Me reconforta a esperança
que em ti ponho.
Salpica, saplica-me de alegria!
Não me fales de dissabor
Deixa um sussurro em Poesia
Tira do meu coração a nostalgia
Abre novas janelas ao amor.

Ajuda-me a dizer não
a todos os nãos
Sim á felicidade
Deixa-me agarrar com as mãos
Da vida a cumplicidade.
Porque a vida é um trino ardente
E eu ainda me sinto gente.

PALAVRAS SOLTAS ( Natália Nuno )

 Amar-te é meu segredo

amor é malha que teço
tua ausência me dá medo
e ao temer tanto padeço.

corre o tempo e faz-te meu
tu perdido, nunca chegas!
este amor por ti cresceu
e tu amor tanto te negas.

não querer-te assim,
eu queria,
é tanta a minha agonia
quanto mais te nego
mais te quero,
e no desespero
é grande o meu apego
apregoo aos quatro cantos
que um dia?!
perco o fio à meada
e nem com reza aos santos
farás de mim tua amada

LOUCURA ( Natália Nuno )

 mais um dia

sempre o mesmo
do começo ao fim,
ruidoso corrupio
sinto o desnorteio em mim
no sonho me refugio

deito um olhar derradeiro
ao rio e ao salgueiro
no vazio da madrugada
as aves livres no céu
cativo só o pensamento meu
apaixonadamente canto
ao romper da aurora
quando estou feliz
ou quando o coração chora

fantasio,
danço em campo de margaridas
me arrepio,
das rolas ouço o arrulhar
tornei-me louca
é nas lembranças que procuro
minha vida resgatar

LINHA A LINHA ( Natália Nuno )

 Perscruto as profundezas

do teu olhar
E meu coração muda de lugar
Sem que dê pela mudança,
esquece o tempo, julga-se imortal
Cresce nele a esperança,
É seu destino amar
Assim, é fatal.

Para as tristezas afogar
Vai ocultando a sua dor
Seu murmúrio tem o som do mar
Quem o escuta ouve a voz do amor.

Ouve-lhe os segredos
Sente-o perdido em nevoeiro baço
Escondendo os medos
A vida do avesso
Procura acertar o passo
Ai...como eu o conheço!

Mas deste mal eu padeço
Olhar teus olhos bem fundo
E achar que os não mereço?
Se acaba o chão e o mundo.
Resta-me ainda a lembrança
Neste peito nu é ventura
Quando choro me traz bonança
Passa a dor, torna clara a noite escura.

E neste meu viver singelo
Recordo com natural tristeza
Não quero esquecer o que foi belo
Deixo em palavras de singeleza.
E à vida que eu amo tanto
Tanta vez ela me afronta!
Lhe deixo este meu canto
Na esperança,
que a vida não me interrompa.

ARREBATAMENTO ( Natália Nuno )

 ante o teu corpo junto ao meu vou sonhando

prossigo inteiramente tua, do sempre ao agora
descubro a tua força, enquanto tu me amando
segredo aos teus ouvidos, rogando mais na hora

a loucura, o sonho, esse que vive junto ao meu
é como uma cascata de sede, que nos aprisiona
vejo o mar no teu olhar, fica o meu preso no teu!
esse corpo desencaminha o meu que se abandona

e nessa loucura o sonho me leva com paixão
somos como um vendaval q' palpita aprisionado
a plenitude é um mudo instante, e logo é extinção

procuramos inutilmente o amor ainda em chamas
foi-se em longínquos dias, em silêncio devorado
resta lágrima que nos afoga, e o dizeres qáme amas

SONHO DE SAUDADE ( Natália Nuno )

 pelo meu corpo passeiam

tuas mãos
donas dos meus desejos,
dominam meus anseios
sinto-as, e vou
ora resistindo ora não,
enquanto de amor bate
meu coração, mãos que

nos meus seios viajam

a cada segundo...esqueço
o mundo!

meu corpo é lava acesa
areia em tempestade
sonho de saudade.

FESTIM ( Natália Nuno )

 no mar do teu corpo me perdi

inteira diluí-me na tua corrente

no furor da rebentação

vales distantes percorri

entre o prazer e o sonho

e os aromas da paixão


o sonho me enlaçou como uma hera

em horas de delírio e rendição

e o amor me rodeou com sua dança

em impulsos vorazes de desejos

assim prossigo inteira nesse teu mar

neste sonho que é tão meu e teu

prisioneira dos teus beijos

do nosso amor, nosso festim

certeza de ti e de mim.


na loucura dos instantes

mesmo aqueles que não tive

fui água amanhecida

sedenta

como riacho de verão

nos dias que se apagavam sobre si

numa lânguida lentidão

com saudade de ti.

ESTE NOSSO AMOR ( Natália Nuno )

 Dá-me o que tens

recupera o fôlego

eu sou o rosto da fogueira

o vento do desejo

e às vezes da saudade

cansa-te no meu corpo

que o tempo dos sonhos acabou

não esperes milagre

nem tão pouco eternidade

tudo acaba, já tanto se calou

dá-me o toque dos teus dedos

ouve os meus gemidos

labirintos de segredos

espevita o carvão,

ateia a chama

e eu serei o fogo

que não se vê mas sente,

a areia ardente escaldante

deste nosso amor.

ESTE É O POEMA ( Natália Nuno )

Este é o poema onde tu me despes

como se fosse tua,

onde me sinto nua e crua.

Da tua boca saem palavras loucas

estremecidas de ternura

e loucura,

e tuas mãos sem paragem

seguem p'lo meu corpo viagem.

E o teu querer actua

num ritual de ir à lua

e voltar.

Nada sei de ti.

Que sabes de mim?

Tu és apenas o poema que li,

o amor que não vai acabar

porque te quero tanto assim!


Deixo-me ir na lonjura,

na entrega, na emoção.

Viajo no teu corpo, banhada

numa corrente de mel

onde com ternura

dirijo a tua mão

que arrepia a minha pele.


Nos meus olhos desejos

na tua boca beijos.

De repente o silêncio

como se estivéssemos ausentes

Só nossos corpos ainda quentes.


Assim nos amávamos

enquanto o poema ía nascendo!

TRANSE ( Djavan )

 Abra o seu coração

Que eu quero passar
Andar de trem
Flores beijando o chão
Pedras a sonhar
Tudo em transe de amor
As carícias virão
Soltas pelo ar
Vindas do além
E no meu coração

Ou qualquer lugar
Tudo brilhará também
Ali onde o ar beira a luz
Todo encanto vai navegar
No decorrer de uma paixão
Tempestade nasce no vento
Cresce e se faz mulher

Pra me levar
Na ilusão
Abra o seu coração
Que eu quero passar
Andar de trem
Flexas de solidão
Cantam pra saudar
Noites de luar
Em vão

FLORES SEM NOME ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Estou amando essas flores, sem lhes saber o nome.

Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como apreendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo aroma, certa forma,
como certas pessoas que por mim passaram
– inalcançáveis –
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.

ADOLESCÊNCIA ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Bom teria sido

amar na adolescência
a pele clara da vizinha
com rendas sobre os seios
e perfume de odalisca
na entreaberta cortina.
Bom teria sido, na minha rua,
ter beijado Silvinha, Amélia, Clarice
e a inesquecível boca
de Lourdinha.
Se isto tivesse me sucedido ali
talvez se saciasse meu desejo
e eu não correria mais atrás da fonte
com minha sede tardia.

MÚSICA NAS CINZAS ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart

paro tudo
ponho os pés sobre a mesa, como agora,
olho a lagoa em frente, cruzo os braços
e começo a levitar.
Se eu morresse ouvindo essa música
chegaria do outro lado, tão asinho
que os anjos me tomariam por um dos seus.
Tantas vezes fiz soar no entardecer esses acordes
à beira-mar ou na montanha em minha casa de campo
que as azaleias, a grama, as cerejeiras e ciprestes
ressoam por si mesmos a melodia
quando desperto.
Um dia estarei morto
e peço que joguem minhas cinzas entre as flores.
Os que passarem nesta paisagem
além de aromas,
ouvirão acordes da eternidade.

ILUMINANDO ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Que fulgurante a vida face ao entardecer.

Desfolho seus momentos numa verticalidade absurda.
Os gregos amavam o Sol
e os decadentistas
lunares formas de viver.
Projeto uns nos outros
iluminando o escurecer.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para ela.
Escrevo. Escrevo. Escrevo.
E, algo se grava e se esclarece
no ato de escreviver.

DILEMA ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Sempre que volto de viagem

a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.

OS BOIS ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 De madrugada matam os bois

que comemos ao amanhecer.
No entanto, eles tinham seus projetos:
comer a erva da manhã,
mascar o azul do entardecer
e cercados de aves e borboletas
ir adubando o dia por nascer.

A MARAVILHA DO MUNDO (Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Quem disse

que são sete as maravilhas do mundo?
Quem disse
quais são? onde estão?
E se as maravilhas do mundo
forem oito
ou vinte e sete
ou incontáveis
como as que encontro sempre no seu corpo?

AMOR DE OSTRA ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999.

 Nunca soube como as ostras amam.

Sei que elas têm um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar da cama.

07/02/2026

NOCTURNO A DUAS VOZES ( Eugénio de Andrade ) in 'Poesia e Prosa [1940-1980]

 — Que posso eu fazer

senão beber-te os olhos
enquanto a noite
não cessa de crescer?

— Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te,
bosque, mar, constelação.

— Não tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciará a morte;
a morte
vem sempre doutra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada.

— Não é de medo
que tremem os meus lábios,
tremo por um fruto de lume
e solidão
que é todo o oiro dos teus olhos,
toda a luz
que meus dedos têm
para colher na noite.

— Vê como brilha
a estrela da manhã,
como a terra
é só um cheiro de eucaliptos,
e um rumor de água
vem no vento.

— Tu és a água, a terra, o vento,
a estrela da manhã és tu ainda.

— Cala-te, as palavras doem.
Como dói um barco,
como dói um pássaro
ferido
no limiar do dia.
Amo-te.
Amo-te para que subas comigo
à mais alta torre,
para que tudo em ti
seja verão, dunas e mar.

NAMORO ( Líria Porto) in livro "Garimpo". ilustrações Silvana de Menezes. Belo Horizonte MG: Editora Lê, 2014.

 de encontro ao vento

ando lento pra sentir seus dedos finos
e seu corpo sem matéria

eleva-me do chão alguns centímetros

QUE SE PASSA? ( João Camilo ) in Nunca Mais se Apagam as Imagens, 1996.

 Claro que não, de maneira nenhuma.

Estava sentada ao meu lado, o desejo
agitava-lhe o ventre, ela semicerrava
os olhos. De maneira nenhuma, assim não,
ainda não. Debrucei-me sobre o seu rosto
e beijei-a. Pousei a cabeça no seu peito
e esperei pelas suas mãos. Continuava,
lento, a ir devagar ao encontro do desejo.
Não tinha pressa. Ela apertava-me
contra si silenciosamente, parecia
dormir e repousava o seu corpo como
se a morte ou uma hibernação o tivessem
ocupado. A televisão passava um filme
de John Ford. Ela ergueu-se subitamente,
afastou-me. Que se passa, perguntei-lhe,
surpreendido. Nada, respondeu ela, mas não é
o filme de John Ford que acaba de começar?
Não o quero perder. De acordo, pensei eu.
Levantei-me, fui sentar-me na cadeira do outro
lado da sala. Acendi um cigarro. Lá fora
caíra a noite há muito tempo. Mas quem
tinha vontade de pensar no que se passava
lá fora? Um filme de John Ford, repeti em voz
baixa. Apaguei o cigarro e concentrei-me
na aventura irreal, nas cores magníficas do deserto.

À FLOR DA PELE ( João Camilo ) In revista Inimigo Rumor 13 - 2002- Ed. 7 Letras, Rio de Janeiro. Livros Cotovia, Lisboa

 Acende o cigarro, rapariga. E olha para a

rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.

XLII ( Hilda Hilst ) in De Amavisse, 1989.

 As barcas afundadas. Cintilantes

Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro de tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas
Só através de minha vida vão viver.

I ( Hilda Hilst ) Tempo - Morte, in Da Morte. Odes Mínimas

 Corroendo

As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
              Tempo.

Vívida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
              Tempo.

Águas corroendo
Caras, coração
Todas as cordas do sentimento.
Como te chamas?
              Tempo.

Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
              Tempo.

I ( Hilda Hilst ) in da Morte. Odes Mínimas, São Paulo: Massao Ohno, Roswitha Kempf Editores, 1980

 Te batizar de novo.

Te nomear num trançado de teias
E ao invés de Morte
Te chamar      Insana
                      Fulva
                      Feixe de flautas
                      Calha
                      Candeia
Palma, por que não?
Te recriar nuns arco-íris
Da alma, nuns possíveis
Construir teu nome
E cantar teus nomes perecíveis:
                      Palha
                      Corça
                      Nula
                      Praia
Por que não?

COMO SE TE PERDESSE, ASSIM TE QUERO ( Hilda Hilst ) in Amavisse, 1989.

 Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro

 

Um arco-íris de ar em águas profundas.           

 

Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro       

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.

 

Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.