ontem
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
30/11/2025
Por Rupi Kaur / Tradução: Ana Guadalupe
AS COISAS QUE CESSAM ( Inês Lourenço)
Tanto desprezo
MAMOGRAFIA DE MÁRMORE ( Inês Lourenço )
NÓS TEMOS AS FLORESTAS ( Hans Borli )
Nunca fui dono de uma árvore.
FRAU HOLLE ( Tjiske Jansen )
Prefiro olhar para a lua
RESTOS QUE RESPIRAM ( Yuleisy Cruz Lezcano )
São os restos, sombras vivas,
CARMELA ( Maya Davy )
Gosto como as minhas silabas
brincam em sua boca
feito labaredas de candela
Estranha bulería
de três tempos e seis letras
sinto até vontade de dançar a mim mesma
— Ainda que Carmen seja um de meus mil nomes:
o da risada mais gostosa
IDENTIDADE ( Jorge Aragão )
Elevador é quase um templo
PARTES (Tathiane de Lima Silva) in “Alma Preta” (2025)
Se eu puder
Se me convier
Posso naufragar
Posso levitar
Se tu quiseres
Se tu vieres
Podemos caminhar
Ou navegar
Podemos nos olhar
Ou profundamente nos conectar
Posso ir
Posso submergir
Posso quebrar
Ou construir
Posso somar
Ou subtrair
MERGULHO EM MIM (Tathiane de Lima Silva)
Mergulho em mim
Transbordo e deixo fluir
Permito o meu melhor emergir
Fica mais gostoso sorrir
Voa passarinho
Céu azul te espera
Água límpida da cachoeira
Água de lavar a alma
Os verdes das árvores balançam
Voa passarinho, voa
Vai em busca de si
A vida pede por ti.
in “Alma Preta” (2025)
DESARRUMADO (Tathiane de Lima Silva) in “Alma Preta” (2025)
Queria morar no abraço
No espaço
No acaso
No descaso
Queria soltar os nós e fazer laços
Desfazer choros e fazer amassos
Gosto do solto
Do revolto
Do que prende e solta
Que molha e seca
Gosto do vento que desarruma
De tudo que tira do lugar
Porque o lugar de tudo é em todo lugar.
FLUIR (Tathiane de Lima Silva) in “Alma Preta” (2025)
Suavizo a procura
Suavizo a busca
Suavizo o entender
Suavizo o encontro e os desencontros.
Amenizo as tensões
Os amores e as paixões.
Deixo na sintonia da leveza
Da paz e da beleza.
29/11/2025
A MENINA DOS MEUS OLHOS ( Bubuska Valença )
A menina dos meus olhos tem no rosto uma romã
ARREIO DE PRATA ( Rodolfo Aureliano & Tito Lívio )
O meu cavalo dos arreios prateados
Célia Moura, in "No Hálito de Afrodite"
Os teus dedos principiantes são o meu mar.
28/11/2025
Célia Moura, in "Terra De Lavra"
Pensar-te é um oceano.
27/11/2025
CONJUGAR VOCÊ ( Valéria Tarelho )
eu não te busco
HARPOESIA ( Tatiana Alves )
Minha língua viva e sedenta
Saliva
Maldita
E roça em profanas palavras
Minhas mãos suadas e errantes
Tateiam
Malditas
E tocam profanas palavras
Por entre línguas e mãos
Toma forma a poesia
Sádica
Lúdica
Lúbrica
No prazer do trava-língua
No ardor de uma mão-boba
A poesia se toca
Harpoesia
VINGANÇA ( Nanda Prietto )
Hoje, você me olha como se eu tivesse
águas-vivas nos olhos.
Fiquei uma plataforma petrolífera
Derretida, eis as marcas:
Coração arrancado;
Entre os seios,
Sutura de açougueiro.
Fiquei só de perfume
Posando nua para sua música.
Gastei minha libido
Com sua pelúcia imperita.
Alma de ratazana
Convertida em rosa e princesa.
Nossos seios amamentando-se
Uns nos outros.
Beijos que poderiam
Filtrar todos os cânceres
Partiram com silêncio
Os meus lábios para sempre?
Lambo o seu cuspe que agora rega
As roseiras que entrelaçamos
Tentando extrair a essência.
O céu estava limpo.
Um avião lindo cruzava o azul
Quando você me deu um basta.
A minha dor era muita
E precisava ser compartilhada:
Apontei o dedo e desejei
Que aquele avião caísse
Sobre algum orfanato.

















