30/11/2025

Por Rupi Kaur / Tradução: Ana Guadalupe

 ontem

quando saí da cama
o sol caiu no chão e rolou pela grama
as flores decapitaram a si mesmas
a única coisa viva que sobrou fui eu
e eu já não sei se isso é vida

AS COISAS QUE CESSAM ( Inês Lourenço)

 Tanto desprezo

pelo que é transitório e finito. Não servirei
senhor que possa morrer. Mas passamos
a vida a amar todas as fragilidades
das coisas que cessam. Há
coisa mais breve do que um sorriso?
Coisa mais curta que a alegria
de um reencontro? Tudo o que amamos
é passageiro e frágil ou
as duas coisas. Mas persegue-nos
a nostalgia do infindável
como uma tara hereditária.

MAMOGRAFIA DE MÁRMORE ( Inês Lourenço )

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NÓS TEMOS AS FLORESTAS ( Hans Borli )

 Nunca fui dono de uma árvore.

Nenhum dos meus
alguma vez teve uma árvore –
embora o percurso da minha familia sopre
desde há séculos sob o cume
da floresta.

Floresta na tempestade,
floresta na acalmia –
floresta, floresta, floresta,
através dos anos.

Os meus
foram sempre uma gente pobre.
Sempre.
Filhos de vidas
e noites duras e geladas.

Os estranhos possuem as árvores,
e a terra,
a terra de pedras amontoadas
que meus pais removeram
à luz do luar.

Estranhos
com faces lisas
e mãos bonitas
e carro sempre aguardando
ao portão.

Nenhum dos meus
alguma vez teve uma árvore.
E ainda assim possuímos as florestas
pelo direito hereditário do nosso sangue.

Homem rico,
com teu carro e livro de cheques
e acções na companhia de madeiras de Borregaard:
podes comprar mil acres de floresta,
e mil acres mais,
mas não podes comprar o pôr-do-sol
ou o sussurro do vento
ou a alegria de regressar a casa
quando a urze floresce ao longo do caminho –

Não, nós temos as florestas,
do modo que uma criança tem sua mãe.

FRAU HOLLE ( Tjiske Jansen )

 Prefiro olhar para a lua

do que para as pessoas.
As pessoas
cansam-me de sobremaneira.
As súplicas, os rogos,
os risos, os desejos,
a ignorância,
a curiosidade em saber,
dizendo: ‘amo-te’,
ou pensando-o,
caminhando calçadas
ou de pés nus e calejados,
correndo de um lado para o outro,
as pessoas vestidas de jóias e de música.
Prefiro olhar para a lua
que é sempre a mesma:
indiferente,
fiel.
A lua não necessita de palavras
para dizer:
aqui estou
e amanhã também estarei.
Talvez uma nuvem a encubra,
talvez não me vejas por estares dentro de casa,
por estares a ouvir as tuas canções patetas
ou por teres os olhos nublados de lágrimas,
lágrimas motivadas por pensares que estás só,
mas não estás só,
porque eu estou aqui
e ontem também estive,
e amanhã também estarei.

                     tradução: Maria Leonor Raven-Gomes

RESTOS QUE RESPIRAM ( Yuleisy Cruz Lezcano )

 São os restos, sombras vivas,

ecos que o tempo não consome,
fragmentos de um corpo ausente,
rastros de um suspiro antigo.

Na secura da forma,
sem dentes, sem alento,
alguém chama um anjo adormecido,
uma mãe que cruza um umbral.

O olhar, esse farol tênue,
pergunta na penumbra,
se desfaz no ar denso,
retorna ao segredo sem nome.

Sobre a madeira adormecida,
o casaco suspenso no esquecimento,
o chapéu, guardião silente,
a caligrafia, um traço de alma.

Nesses restos inanimados,
habita o pulso do eterno,
o fôlego que não se rende,
a sombra que ainda respira.
tradução: Gladys Mendí

CARMELA ( Maya Davy )

 Gosto como as minhas silabas  

brincam em sua boca 

feito labaredas de candela 


Estranha bulería 

de três tempos e seis letras 

sinto até vontade de dançar a mim mesma


— Ainda que Carmen seja um de meus mil nomes: 

o da risada mais gostosa

IDENTIDADE ( Jorge Aragão )

 Elevador é quase um templo

Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai

Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade

PARTES (Tathiane de Lima Silva) in “Alma Preta” (2025)

 Se eu puder

Se me convier

Posso naufragar

Posso levitar

Se tu quiseres

Se tu vieres

Podemos caminhar

Ou navegar

Podemos nos olhar

Ou profundamente nos conectar

Posso ir

Posso submergir

Posso quebrar

Ou construir

Posso somar

Ou subtrair

MERGULHO EM MIM (Tathiane de Lima Silva)

 Mergulho em mim

Transbordo e deixo fluir

Permito o meu melhor emergir

Fica mais gostoso sorrir

Voa passarinho

Céu azul te espera

Água límpida da cachoeira

Água de lavar a alma

Os verdes das árvores balançam

Voa passarinho, voa

Vai em busca de si

A vida pede por ti.

 in “Alma Preta” (2025)

POTÊNCIA (Tathiane de Lima Silva) in “Alma Preta” (2025)

 Tenho tanto em mim

Que transborda em palavras

Mas ainda assim falta


Nem tudo sai

Mas se basta…

DESARRUMADO (Tathiane de Lima Silva) in “Alma Preta” (2025)

 Queria morar no abraço

No espaço

No acaso

No descaso

Queria soltar os nós e fazer laços

Desfazer choros e fazer amassos

Gosto do solto

Do revolto

Do que prende e solta

Que molha e seca

Gosto do vento que desarruma

De tudo que tira do lugar

Porque o lugar de tudo é em todo lugar.

FLUIR (Tathiane de Lima Silva) in “Alma Preta” (2025)

 Suavizo a procura

Suavizo a busca

Suavizo o entender

Suavizo o encontro e os desencontros.

Amenizo as tensões

Os amores e as paixões.

Deixo na sintonia da leveza

Da paz e da beleza.

Me alinho com as cores e o bailar dos beija-flores

29/11/2025

A MENINA DOS MEUS OLHOS ( Bubuska Valença )

 A menina dos meus olhos tem no rosto uma romã

E um sorriso que deságua no meu céu toda manhã
Tem o fogo das serpentes e a pureza do cristal
E a forma que o desejo só acha no carnaval

A menina dos meus olhos tem a cor de azul não sei
A mistura do que vi e o não acreditei
Faz inveza a natureza quando se banha na lua
Alegra minha vaidade quando me diz "eu sou tua"

A menina dos meus olhos que eu namoro todo dia
Me redime dos pecados que a lida propicia
De não se o que pareço mas se fosse não seria
Esse tanto pelo avesso que melhor não poderia

ARREIO DE PRATA ( Rodolfo Aureliano & Tito Lívio )

O meu cavalo dos arreios prateados

E a namorada, muito amada, agarrada na garupa
Me protegendo dos malefícios da vida
E agarrada, muito amada, na garupa do cavalo

Iê, iê arreio de prata, uou
Uou eu todo prateado
Muita boiada, muita cerca colocada
E as meninas proibidas de fazer amor mais cedo
E o meu cavalo e a sua égua malhada
Fazendo amor no terreiro da morada das meninas
Iê, iê arreio de prata, uou
Uou eu todo prateado
E relinchavam, pois gozavam liberdade
E as meninas não podiam nem gozar da vaidade
E as meninas até sonhavam com a cidade
E com os rapazes que por ventura encontrassem

Iê, iê arreio de prata, uou
Uou eu todo prateado
E olhavam tanto para o meu cavalo
Se imaginavam éguas e eu todo prateado
E olhavam tanto tanto para meu cavalo
Se imaginavam éguas e eu todo prateado

Célia Moura, in "No Hálito de Afrodite"

 Os teus dedos principiantes são o meu mar.

Vem ver este horizonte amor,
rasga-me este prenúncio de temporal
este sémen que guardo feroz
nas entranhas das palavras.
Quem dera que soubesses este segredo
que não quero,
mas bebo mais um trago, ao tango que anseio
sofreguidão de ti,
belo, belo, belo...
nossos corpos em cópula!
Vem amado
deixa-me devorar-te tão tranquilo quanto baste,
ser tua outra parte
plena, inteira, raiz de tua haste.

28/11/2025

NAMORADO ( Flávia Teodoro Alves )

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Célia Moura, in "Terra De Lavra"

 Pensar-te é um oceano.

Imaginar-te nenúfar entre os dedos escorrendo do néctar
o silêncio primordial
no êxtase de todas as tulipas
bebendo-te é púrpura loucura.
Dos gestos
a alma que perdura,
palavras e risos
percorrendo avidamente o esgar cruel do tempo
que deixaste em meu corpo inteiro
saudade,
este viver ousadamente sem nada ser ou possuir.
Pensar-te meu amor mais sublime
nas fragas do vento ou num desesperado grito de ave
é sentir teu fôlego entre
minhas pernas
tua língua brincando em meu ventre
meus dedos entrelaçados aos teus
revolvida, encharcada e concebida,
extasiada em teus cabelos,
como crianças besuntadas de mel e marmelada
roendo maçãs
no entardecer da infância
enquanto a fome doía
na alma grande
das gentes.
Pensar-te tudo e nada.
Beber-te chuva.

27/11/2025

CONJUGAR VOCÊ ( Valéria Tarelho )

 eu não te busco

em outros braços
se em sonhos lúcidos
meus e teus encaixes
se embaraçam

possuo um desejo
insensato — e são —
que não mato em endereço
diverso do teu e meu
- tão nosso - "espaçodentro"

[lugar incerto onde corpos
ocupam arquitetam copulam
sob mesmo teto]

não gozo com
este ou aquele
subterfúgio
assim como
dispenso o número
do orgasmo
supérfluo

vou direto
ao — teu — centro
ao — meu — direito
ao — nosso — verso

correto
é todo movimento
que nos vire
- vare [a]varie -
do avesso

correlato
é conjugar você
de cima a baixo
no temp[l]o amor
do verbo sexo
[que eu invento]

te quero
músculo
másculo
mescla dos sumos
que somamos

onde ainda
nem somos
eu te acho

enquanto te aguardo
eu me basto

HARPOESIA ( Tatiana Alves )

 Minha língua viva e sedenta

Saliva

Maldita

E roça em profanas palavras

 

Minhas mãos suadas e errantes

Tateiam

Malditas

E tocam profanas palavras

 

Por entre línguas e mãos

Toma forma a poesia

Sádica

Lúdica

Lúbrica

 

No prazer do trava-língua

No ardor de uma mão-boba

A poesia se toca

Harpoesia

VINGANÇA ( Nanda Prietto )

 Hoje, você me olha como se eu tivesse

águas-vivas nos olhos.

Fiquei uma plataforma petrolífera

Derretida, eis as marcas:

Coração arrancado;

Entre os seios,

Sutura de açougueiro.

Fiquei só de perfume

Posando nua para sua música.

Gastei minha libido

Com sua pelúcia imperita.

Alma de ratazana

Convertida em rosa e princesa.

Nossos seios amamentando-se

Uns nos outros.

Beijos que poderiam

Filtrar todos os cânceres

Partiram com silêncio

Os meus lábios para sempre?

Lambo o seu cuspe que agora rega

As roseiras que entrelaçamos

Tentando extrair a essência.

O céu estava limpo.

Um avião lindo cruzava o azul

Quando você me deu um basta.

A minha dor era muita

E precisava ser compartilhada:

Apontei o dedo e desejei

Que aquele avião caísse

Sobre algum orfanato.