31/05/2025

POSSE ( Gonçalo Salvado )

 Eu canto a nudez de te possuir

dentro de uma voz que para te dizer se abrasa

mas calo-me como apagada água

ante o fogo que significas.

O MURO ( Gonçalo Salvado )

Dans le mot amour il y a le mot mur.
Edmond Jabés

Por detrás da noite há um muro
Minhas mãos o tocam. Soa-me na voz um fragor de pedra.
A solidão me impele a um lamento surdo.
Choro tua memória. Teu corpo a mim entregue.
Entre seda e mel. Lume. Comunhão de labaredas.
Meu rosto não mente: partiste.
Meus olhos te buscam para além deste frio estreme,
desta névoa que envolve meus dias ávida
de lágrimas e agonia.
Sobram-me os gestos, as carícias que não demos,
e o vinho entontecido que ficou em meus lábios a arder.
Não, não me encontres em sonhos
na calidez de teu leito.
Ficou fechado o tempo dos lírios acesos,
das açucenas dos vales,
dos campos irradiando verde,
das corças nuas correndo
em direcção à luz impoluta das manhãs.
Está amargo o coração. Está amargo,
ateando a morte em sua frágil roseira dissecada.
Que sabes tu desta fome inconsútil
envergando o traje amarrotado da indiferença?
Do rubro vinho que em minhas veias corre célere
despertando o fogo mais oculto e mais ardente?
Tanto, tanto esforço dispendido
para que foras nuvem branca, colina aberta,
júbilo constante em meu peito resguardada…
Para que em mim brilhasses destruí
os caminhos da minha liberdade,
acolhi no pensamento a delicadeza do orvalho
e o cheiro da terra molhada que rescende
após a chuva de um longo dia de Verão.
Inventei aves canoras para ti,
pinheirais a ondear ao vento,
manhãs de neblina intensa,
rubros vinhedos,
eloendros em flor,
loiros trigais espraiados na lonjura
e á mobilidade de certos rios impus
a permanência do meu desejo puro.
Bebi a água que te cercava os lábios
com a sofreguidão de um adolescente cego,
atravessei os luminosos poentes que em tua nudez
se perfumavam com as cores de uma aurora radiante
e no surdo sussurrar das fontes soube ouvir
o som da chama que supera a labareda
e a voz do fogo que persiste para além
da combustão das coisas.
Para tocar teu corpo
minhas mãos se encheram de giesta e de urze,
de seiva e resina, de trevos e de espigas.
Cantei-te como quem nega a morte:
fragrante da vida que tua pele esplende,
do aroma que tua boca emana,
da tepidez velada que teu ventre inebria.
Quem és, ó doce respiração de meu sangue?
Ambígua forma que não alcanço,
amarga evanescência,
doloroso fluir de incandescente corpo
que minha carne fazes estremecer
em sua deslumbrada intensidade
e meus sentidos inocentemente florir
e minhas pálpebras irisar,
com tuas silenciosas ondas,
tuas frementes espumas,
teus relâmpagos de frescura,
tuas incontáveis claridades?
Tanta paixão de pranto agarrada aos meus ombros.
Sacudir de todas as raízes,
Assalto de todas as vagas!
Roda, hoje, tiste, interminável, a minha alma.
Pensando, enterrando lâmpadas nesta profunda solidão.
Mas quem és tu, quem és?

29/05/2025

SERPENTE ( Renata Flávia )

 e sibilante e lisa

se faz paixão, serpente, e nos habita
(hilda  hilst)

não adianta chamar

no escuro
no silêncio
embaixo das cobertas
não adianta crer na palma
no tarô, no encontro de alma
ninguém socorrerá
o grito
gemido sem gozo
não se verá
essa imensa serpente
temida e tímida
que traz no ventre
ele não escutará o chamado
do corpo, do veneno
esse grito
será só teu
esse amor doente
talvez a pele quente
renuncie
sublimando, grudando
no pior canto da cidade
gotas desse furor sujo
e uma noite
te encontrar
bêbado
mijando no muro
mão ao alto
buscando apoio
nessa gordura
de nós
respirando o fundo
descerá meu abismo
encarando nossa perversão
muito aninhada em meu peito
assistindo
visões prematuras do passado
o cheiro de sol
os sons
olhos virados ao alto
retornando verões
todo o estrago que é me ter do lado
assistirá a tormenta do corpo
acusando ausências
regurgitando fantasias imundas
enquanto o pau de fora
corre o mesmo risco do meu coração
naquelas tardes
destroçado

AGRADECIMENTO ( Zainne Lima da Silva )

 choro quando ovulo

todo mês fecundar
filho de ninguém
décimo quarto dia
enlutada, gozar
em cima de dedos tristes.

ANTES DO POEMA ( Conceição Lima )

 I

Quando o luar caiu
e tingiu de magia os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.
Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
E não eras.
Cheguei para despojar de limites
o teu nome
Não eras.
As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.

Pedra a pedra encho a noite
do teu rosto sem medida
para te construir convoco os dias
pedra a pedra
no tempo que te consome.

As pedras crescem como vagas
no silêncio do teu corpo
Jorram e rolam
como flores violentas
no silêncio do teu corpo
E sangram. Como pássaros exaustos.
A noite e o vento se entrelaçam
no vazio que te espera.

II

Súbito chegaste
quando falsos deuses subornavam
o tempo.
Chegaste para despedir
a insónia e o frio
Chegaste sem aviso
quando a estrada se abria
como um rio
Chegaste para resgatar
sem demora o princípio

Grave o silêncio rodeia o teu corpo
hostil o silêncio agarra teu corpo
Mas já tomaste horas e caminhos
já venceste matos e abismos
já a espessura do obô
resplandece em tua testa.

E não bastam pombas em demência
no teu rosto
Não bastam consciências soluçantes
em teu rasto
não basta o delírio das lágrimas libertas.

Eu cantarei em pranto
teu regresso sem idade
teu retorno do exílio na saudade
cantarei sobre a terra
teu destino de rebelde

Para te saudar no mar e no palmar
na manhã do canto sem represas
cantarei a praia lisa e o pomar.

Direi teu nome e tu serás.


DOIS PULMÕES DE PLÁSTICO E UM OLHO DE VIDRO ( Conceição Rodrigues )

 meu marido me serve café com leite quente que recebo

[com sorriso
de petúnia quando o sol desponta para o sono
pensei em fornicar com um homem de barbas escuras
devo chorar por isso?
é bem certo que eu me entregaria em cima de qualquer obelisco
numa ala de hospital na cama da minha avó
e o homem de barbas escuras escorreria por minha pele
um ácido monogâmico que se liberta nas fronhas
os patinhos seguem graciosos nos lagos coloridos artificiais
joguei-lhes sorrisos mágoas pão e pipoca
sou pálida-pálida na mesa do necrotério
sou negra-negra na mesa do açougue
i´m not your honey baby
meu sangue escorreu por um buraquinho feito de pão de serra
agora é cachoeira esvaindo no tanque inoxidável
a minha existência desmaiou pelos canos
serviu de adubo ao solo que não reproduz
eu tenho dois olhos nas mãos mas estão cegos
você é um ciclope e tem pulmões de plástico


OLD FASHIONED ( Conceição Rodrigues )

 fumando embaixo

do chuveiro a ressaca
com o propósito de apagar
os sóis pois sou invejosa
terei de ficar em casa
enquanto todos são felizes

quando você molhar minha terra seca
nascerão gérberas margaridas crisântemos crisálidas
duas pernas enfiadas
na mesma calça de perna
o haxixe é mesmo do bom
não tive pena de jesus
embora ele não tenha
se inscrito voluntário
apagar as palavras que sobram
pelas brechas das folhas
é coisa mais trabalhosa

tive pena de magdala enrolando a seda
que chorou abraçando o bidê
em nome de raul
o bicho que matou o homem
alugou um ap debaixo da saia
depois foi com os pombinhos
virar símbolo da paz nas paredes como se fosse
qualquer loiro batendo continência
quem é que perdoa deus?

sidney magal disse que haveria flores antes de escapar
depositadas no velório da madrugada
e a amada de cara roxa e olho esbugalhado
jamais esqueceria que homem na vida é um só

há um silêncio monstro nas salas de autópsia
um cristal delicado quebrado pelo barulho
do dedo puxando o anel da coca-cola sapecando a garganta
antes de fazer tsss tsss já era ahhhhhhh
a tinta do piso desgastou tanto
de tanto que dançamos com as
almas arrastando bolas e sapatilhas de ferro
o amor que eu tinha costurou minha barriga de
arame farpado
eu não desconjuro
qualquer amor mandrágora
semente matadeira chá abortivo
sexo com borrachas
não desconjuro carcará desinfeliz chupa-cabra
bruxa bicha bala cólica
tampa de cerveja que foi morar
num pedaço de cimento até o mundo se roer

medusa decapitou o boy
que rezava pela glória da pica
as múmias permanecem cobertas de ouro -intactas


GATOS RAJADOS ( Conceição Rodrigues )

 são trovões desfilando nos muros

-intocáveis-
a lava engoliu a cidade e agora nos resta viver o inferno
as aves sobrevoam os beijos que não foram dados
recebem rajadas de ardor
uma agonia asfixiada estrangula minhas veias como o pôr do sol
fumávamos monóxido de carbono e nuvens coloridas
a lama deglutiu mariana as fábricas o trem os trilhos
o tamanho do seu pau não tem importância querido
o tamanho de qualquer dor não tem importância querido
dor é dor é dor é dor
a crosta terrestre as camadas da terra o dilúvio o solstício
quando mais fundo mais quente
mais fundo- digo
mais fundo- promete
eu arrefeço mas a profundidade não é suficiente
a catedral dos fantasmas badala toda meia-noite
e quanto mais amante mais trabalho e preguiça
o senhor dos espelhos não poupa ninguém
carimbados em nossa testa código de barras validade vincos
implorei ao senhor dos espelhos despir a túnica de são sebastião
o santo tem ombros mansos de cordeiro
carne macerada nas ervas sucosas
mais gostoso que chouriço e molusco
é bonito como a pedra que tranca o sepulcro de cristo
eu tenho muitos lábios negros e língua solta
línguas línguas línguas de secretos idiomas
tenho muitos arcos bestas balestras e alvo
e flechas e flechas e flechas que lambem da pele aos órgãos
o dia a dia é purgatório- será exibido em tela
o mundo acaba e eles gritam gozo


SANTA BRÍGIDA ( Conceição Rodrigues )

 -a 400 anos do fim do mundo

o demônio será deixado solto
no meio da nossa cidade:
santa brígida recobre a bola de cristal
e guarda as cartas de tarô
tudo por conta da imodéstia e da falta de fé
por isso o anjo derrocado reina
e crucifica-se
como quem faz miojo
um santo a todo minuto
no sudão em hiroshima no purgatório
na favela
a roda da tortura
gira-gira gira-gira gira-gira
a roda da tortura gira-gira
enquanto gememos

o meu eu lírico é um jeito cínico de falar sobre meus amantes nos livros( Conceição Rodrigues )

 o que eu queria era dizer o contrário e me resguardar de minhas próprias mentiras

tenho algumas compulsões apesar da febre
é possível que albert camus trepe comigo esta noite sou capaz de beijar-lhe o plasma chupar o tutano do cérebro dos ossos tanto faz
nasci uma estrela decadente desde que fui feita de gases poeira cósmica e marie curie
é reconhecido meu direito às vaias em cartório
o manancial de lourdes os mistérios marianos
a primeira dor de maria foi lhe apresentarem as espadas da dor que lhe acompanharam a vida toda
a derradeira foi o protestante que disse que só jesus tinha importância e que maria não tinha falo e coisa e tal pensei sobre isso enquanto flutuavam os anéis de fumaça do meu cigarro invisível
acredito nas adagas furiosas nos punhais cortantes bem areados como os fundos das panelas que me ofereceram para esfregar
mas é claro que index é coisa ad infinitum por isso tatuei beije-me com os beijos de sua língua porque sua lambida é melhor que vinho
toda borda-abismo gozo de papoula africana
quero dormir uma madrugada inteira nos campos de arroz cambojanos
a moça em frente ao prédio se agarra ao pacote como uma recém-parida
se agarra ao filho


os estampidos da nigéria se ouviram por aqui no recife
e os venezuelanos estendem as mãos em nossos sinais- cheios de filhos- essas lebres de olhos andinos orientais qualquer coisa- já não bastam nossos índios?

em que trabalharão os policiais quando todos os pretos forem extintos?
um senhor muito distinto os chamou de vagabundos
os fardados oferecem cassetetes e sprays de pimenta

é claro que o domingo merece uma praia e um chope estúpido
os resistentes ganharam bala de borracha e cegueira
os estampidos da nigéria se ouviram por aqui no recife
e os venezuelanos estendem as mãos em nossos sinais- cheios de filhos- essas lebres de olhos andinos orientais qualquer coisa- já não bastam nossos índios?

em que trabalharão os policiais quando todos os pretos forem extintos?
um senhor muito distinto os chamou de vagabundos
os fardados oferecem cassetetes e sprays de pimenta
minha centelha já nasceu apagada
virou cinzas com a cinemateca a biblioteca a memória

o angolano é quem faz certo: vende contrabando
indígenas queimaram máquina caríssima dos pecuaristas
maria vive os tormentos da paixão assistindo telenovelas
há gentes nas filas esperando para roer os ossos
a síria se divide entre barricadas e milícias
e meu eu lírico da mais torpe pornografia se esfrega
nas mãos dos presidiários


PALAVRA DE SANTA ( Conceição Rodrigues )

she had the face of an angel, smiling with sin
ac/dc

dou minha palavra

de bêbado
que as santas não usam
calcinha
por debaixo dos mantos
e vestidos

a minha especialidade
é sentir saudade
do que está acontecendo

dou minha palavra
de puta
que para ser perdoado
é preciso primeiro
pecar

as virgens desperdiçadas
fizeram nascer
um pé de mortos
no meio da minha sala

agora todos os dias
varro ossos
conto ruínas

sou tão donzela quanto
uma lápide
um tijolo
sofro de soco
no estômago
e frio na barriga

enquanto repouso no líquido amniótico



25/05/2025

VALSA PARA LEILA ( Aldir Blanc )

 Tu te esfumarás

me neblinarei
sobre os telhados
galáxias azuis.
Sonambularás
te voltearei
gatos lambendo as estrelas
Wendy e Peter Pan
sem o amanhã
nunca, pra nós dois, é sempre cedo.
Marietarás,
eu Buarquirei
em dois cavalos
com asas de luz.
Tu te nublarás,
me eclipsarei
nuvens em nossa cabeça.
Toma, Peter Pan,
só um lexotan
pra que tanto amor não te enlouqueça.
Vagalumarás por sobre o campo,
eu virei do mar, teu pirilampo.
Como um circo aceso, o céu da manhã
saudará o amor que não dormiu.
Tu desabarás
eu despencarei
e o mar azul vai nos cobrir.

TEU CORPO ( Ferreira Gullar )

O teu corpo muda

independente de ti.
Não te pergunta
se deve engordar.

É um ser estranho
que tem teu rosto
ri em teu riso
e goza com teu sexo.
Lhe dás de comer
e ele fica quieto.
Penteias-lhe os cabelos
como se fossem teus.

Num relance, achas
que apenas estás
nesse corpo.
Mas como, se nele
nasceste e sem ele
não és?
Ao que tudo indica
tu és esse corpo
– que a cada dia
mais difere de ti.

E até já tens medo
de olhar no espelho:
lento como nuvem
o rosto que eras
vai virando outro.

E a erupção
que te surge no queixo?
Vai sumir? alastrar-se
feito impingem, câncer?
Poderás detê-la
com Dermobenzol?
ou terás que chamar
o corpo de bombeiros?

Tocas o joelho:
tu és esse osso.
Olhas a mão:
tu és essa mão.
A forma sentada
de bruços na mesa
és tu.
Quem se senta és tu,
quem se move (leva
o cigarro à boca,
traga, bate a cinza)
és tu.
Mas quem morre?
Quem diz ao teu corpo – morre –
quem diz a ele – envelhece –
se não o desejas,
se queres continuar vivo e jovem
por infinitas manhãs?

 


 

ARPEJOS ( Ana Cristina Cesar ) in A Teus Pés (1982).


1
Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho
Examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus
olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem
significado a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa
e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente
projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim
poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.

2
Ontem na recepção virei inadvertidamente à cabeça contra o
Beijo de saudação de Antônia. Senti na nuca o bafo seco do
susto. Não havia como desfazer o engano. Sorrimos o resto da
Noite. Falo o tempo todo em mim. Não deixo Antônia abrir
Sua boca de lagarta beijando para sempre o ar. Na saída nos
beijamos de acordo, dos dois lados. Aguardo crise aguda de remorso.

3
A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto
involuntário. Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à
minha própria imagem sequiosa. Depois me volto, procuro nos
olhos dela signos de decepção. Mas Antônia continuaria
das rodas me desanuvia os tendões duros. Os navios me iluminam.
Pedalo de maneiro insensata

MAGMÁTICAS MEDUSAS ( Ana Apolinário )

 Nas madrugadas frias de julho

os pés nus tateiam a casa em ruínas
a pancada do sangue nas artérias
é quase audível
a loucura é uma pedra espessa
um diamante movediço
rebrilhando
coração eriçado
dentro da escuridão

Um verso de Herberto
vórtice, açoite
no leito ladeado de
abismos
os rostos, espectros
de singular agudeza
a música sobe
estrangula estrelas

Às três da manhã
meu olho esquerdo trepida
em contínuas ondas
de cortisol e adrenalina
as pálpebras cerradas
os pulmões em brasa
o corpo saindo
do centro gravitacional
pernas e quadris tecendo
o terremoto áureo
o desenho dos lábios dela
serpentiforme
língua vândala na vulva
vertendo magma
veias abertas
e os cornos em riste

“Eu prefiro você assim,
Vulcão”


O BARALHO DELIRA NAS MÃOS DA BRUXA ( Anna Apolinário )

 Um lustre afoito contava os passos da escuridão

Pianos soletravam sonetos secretamente, esvaindo estrelas
Uma interminável melodia nutrindo todas as minhas fogueiras
As tuas fábulas reviram o tabuleiro, a noite titubeia
Eu sou a mulher que mordeu as mãos do Impossível

SANTUÁRIO DE ANGÚSTIAS ( Anna Apolinário )

 A luz em teu olhar desperta os enigmáticos chacras da existência

A sutileza de tuas confissões desperta incêndios em meus cílios
Rabiscas minha garganta com as sílabas da Sibila
Mamilos adormecem naufragados em tua boca
Os teus espelhos rodopiam em meus pulmões
Como estancar a sangria de tua sombra a meus pés?
O furor de Cronos furtou nossos destinos
Como ser o abrigo para a loucura de teus crimes?
O perfume entre meus seios abre fissuras na face de Deus

SINFONIA IMAGINÁRIA ( Anna Apolinário )

 Ela põe um beijo fálico

Em minha face, lira líquida
Traz um sino de vertigem
Jubiloso sigilo
Vejo esse ganido na madrugada:
é um demônio verde a levantar meu vestido

Emudeçamos todo desassossego
Com árias dadaístas
Um canto corpóreo, partitura de agonias
O noviciado do gozo, xamanismo
Está escrito no Livro primeiro do uivo que iluminou Buda:
minha vênus profética vulvando em teu falo que confabula

O inventário do tempo
Foi comungar no Cabaré Místico
É teu verso?
Delira-mo
Sem paletó de poeta pixote
Derrama teu inaudito vinho, menino lírico
Azulei para um verde em dó maior
Encontre-me aquém do verbo

Os ciganos esconderam a Loucura
No espartilho da musa
Um piano turbulento anuncia
O êxtase dos anjos, canção apocalíptica
Sob o dossel do silêncio
Vejo-o enfim átomo
Infinito unido ao balé de meu delta
Os olhos do Sonho solfejam o delírio:
uma sinfonia imaginária para o amante metafísico

A PAZ É MULHER ( Sore Snid )

 A Paz é mulher que respira

e essa inalação guarda o ar que nos contém.

Ela
com seu clitóris aberto no amanhecer da alucinação
nos faz andar descalços pelas arestas da morte
flertando com esperança.

Suas mãos são de montanha e gente
Seu fogo reflete a dança dos dias entre as ideias que emergem.

É ventre que se embala em ziguezague
Cordão de prata que nos conecta
Somos enquanto ela existe
Verde é o seu corpo que dança entre o possível
Trânsito é o seu sorriso de água sobre as rochas

A paz é mulher nômade
agitando o néctar entre os sulcos que dividem
para abrir caminhos
descongelar o corpo
dilatar a mente
e enlaçar a pele ao ritmo.