31/12/2025

LXVII ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Vida da minha alma:

Um dia nossas sombras
Serão lagos, águas
Beirando antiqüíssimos telhados.
De argila e luz
Fosforescentes, magos,
Um tempo no depois
Seremos um só corpo adolescente.
Eu estarei em ti
Transfixiada. Em mim
Teu corpo. Duas almas
Nômades, perenes
Texturadas de mútua sedução.

LXIII ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Tens a medida do imenso?

Contas o infinito?
E quantas gotas de sangue
Pretendes
Desta amorosa ferida
De tão dilatada fome.
Tens a medida do sonho?
Tens o número do Tempo?
Como hei de saber do extenso
De um ódio-amor que percorre
Furioso
Passadas dentro do vento?
Sabes ainda meu nome?
Fome. De mim na tua vida.

LII ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Eu era parte da noite e caminhava

Adusta e austera
Sem luz nem aventurança.
Tu eras praia e dia
Um fogo branco
O rosto da montanha sobre a terra.
E juntamos a treva
Ao mar do meio-dia
Cristas aguadas, pontas
Trilhas fosflorescentes
Na vastidão das sombras
Mas um instante apenas.
Por isso é que caminho como antes
Adulta e austera.
Acrescida de véus me mostro aos viajantes:
Vês a mulher, aquela?
Dizem que a cara é de caliça e pedra.
Que a luz das ilusões passou por ela.

LXX ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Poeira, cinzas

Ainda assim
Amorosa de ti
Hei de ser eu inteira.

Vazio o espaço
Que me contornava
Hei de Estar ali.
Como se um rio corresse
Seu corpo de corredor
E só tu o visses.
Corpo de rio? Sou esse.
Fiandeira de versos
Te legarei um tecido
De poemas, um rútilo amarelo
Te aquecendo.

Amorosa de ti
vida é o meu nome. E poeta.
Sem morte no sobrenome.

XXXIX ( Hilda Hilst ) in Cantares São Paulo: Editora Globo, 2002.

 Escreveste meu nome

Sobre a água?
A fogo, na alma
Desenhei o teu

Grafismo iluminado
Imantado e novo

Teu nome e o meu.

Novo
Porque nunca se viu
Nome tão pertencido.
Antigo porque há milênios
Se entrelaçaram justos
No infinito.

E raro
Porque tingido de um mosaico vivo
De danação e amor.

Teu nome
Irmão do meu.

CLARICE LISPECTOR ( Adília Lopes ) Clube da Poetisa Morta Caras Baratas Antologia Relógio d´Água 2004

 Clarice Lispector,

a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
nos textos

METEOROLÓGICA (Adília Lopes) Caras Baratas Antologia Relógio d´Água 2004

 para o José Bernardino

Deus não me deu

um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

É PRECISO PENSAR ( Adília Lopes ) Caras Baratas Antologia Relógio d´Água 2004

"But I didn’t know to cook, and babies depressed me" 

  (Sylvia Plath, The babysitters) 

É preciso pensar

em tudo
dos preservativos
às panelas
e há mesmo quem
nos preservativos
veja já as panelas
pensa-se de mais
e não se pensa
de facto.

BODY ART? ( Adília Lopes) Caras Baratas Antologia Relógio d´Água 2004

 Com os remédios

engordo 30 Kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre
 
Emagreço 21 Kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina
 
No metro
um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar
 
Detesto
o sofrimento

NO MORE TEARS (Adília Lopes) Poesia Reunida II. As Meninas Exemplares Assírio & Alvim 2021

 Quantas vezes me fechei para chorar

na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
 

OUVE VOU DIZER-TE ( Abel Neves ) documenta, 2013

 ouve vou dizer-te

abre com os dedos uma cereja
daquelas de fazer brinco quando a brisa é boa
tira-lhe o caroço
verás como isso é arrancar o coração do tempo
o carmesim do suco
é o choro e o riso
dos que se amam impacientes e belos

NÃO DEITES FORA AS CARTAS DE AMOR (Joan Margarit ) trad.: Miguel Filipe Mochila / Língua Morta 2020

 Elas não te abandonarão.

Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
– essa flecha de sombra –
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos
ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até a poesia.
O ruído frio da cidade nos vidros
acabará por ser a tua única música,
e as cartas de amor que tiveres guardado
serão a tua ultima literatura.

30/12/2025

SENTIDOS DA INSEGURANÇA (Maya Angelou), in "Poesia completa". trad.: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Eu não conseguia distinguir fato de ficção

ou se meu sonho era real,
A única previsão correta
neste mundo inteiro era você.
Eu tinha tocado suas feições centímetro a centímetro
escutei o amor e arquei com o custo.
A conversa fiada me jogou no irreal
e me encontrou sem sentidos.

PARA UMA LUTADORA... (Maya Angelou), in "Poesia completa". trad.:Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Você toma um gole amargo.

Eu bebo as lágrimas que seus olhos se esforçam para segurar,
Uma xícara de borra, de meimendro mergulhado em palha.
Seu peito é quente,
Sua fúria é pesada e fria,
Durante o descanso da tarde, você sonha,
Eu escuto os gemidos, você morre mil mortes.
Quando tiras de cana açoitam o corpo
escuro e fraco, você sente o golpe.
Escuto na sua respiração.

NUM DIA CLARO... (Maya Angelou), in "Poesia completa". trad.: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Num dia claro, semana que vem

Antes que a bomba exploda
Antes que o mundo acabe
Antes que eu morra

Todas as minhas lágrimas serão pó
Pó preto como cinzas
Sagrada como a barriga de Buda
Preto e quente e seco

Então a misericórdia cairá
Cairá sobre pequenos deuses
Cairá sobre crianças
Cairá dos céus

QUANDO PENSO SOBRE MIM...(Maya Angelou), in "Poesia completa".trad.: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Quando penso sobre mim mesma,

Gargalho até quase morrer,
Minha vida tem sido uma grande piada,
Uma dança que anda,
Uma canção que fala,
Gargalho tanto que quase perco o ar,
Quando penso sobre mim mesma.

Sessenta anos no mundo dessa gente,
A criança para quem trabalho me chama de garota,
Eu respondo "Sim, senhora" por causa do emprego.
Muito orgulhosa para me curvar,
Muito pobre para me quebrar,
Gargalho até meu estômago doer,
Quando penso sobre mim mesma.

Meus pais podem me fazer cair na gargalhada,
Rir tanto até quase morrer,
As histórias que eles contam soam como mentiras,
Eles cultivam a fruta,
Mas só comem a casca,
Gargalho até começar a chorar,
Quando penso sobre meus pais.

COMO EU POSSO MENTIR... (Maya Angelou), in "Poesia completa". trad.: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 agora enlace minha voz

com ilusões
de leveza
force dentro de
meus olhos de espelho
o frio disfarce
de tristes e sábias
decisões.

PARA UM MARIDO (Maya Angelou), in "Poesia completa". trad.: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Às vezes, sua voz é um punho

Apertado na sua garganta
Golpeando incessantemente os fantasmas
No quarto,
Sua mão é um barco
talhado
Que desce o Nilo
Para apontar a tumba do Faraó.

Para mim, você é a África
No seu amanhecer mais brilhante.
O verde do Congo e
O tom salobro do cobre,
Um continente para construir
Com a força do Negro.
Eu me sento em casa e vejo isso tudo
Através de você.

NUMA ÉPOCA (Maya Angelou), in "Poesia completa". tradução: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Numa época de namoro escondido

O hoje prepara a ruína o amanhã
A mão esquerda não sabe o que a direita faz
Meu coração se rasga em dois.
.
Numa época de suspiros furtivos
Chegadas alegres e despedidas tristes
Meias verdades e mentiras inteiras
Um trovão ecoa na minha cabeça.
.
Numa época em que os reinos vêm até nós
A alegria é breve como brincadeira de verão
A felicidade concluiu sua corrida
Então, a dor se aproxima para o saque.

PRELÚDIO PARA UMA DESPEDIDA(Maya Angelou), in Poesia Completa. trad.: Lubi Prates. Astral Cultural, 2020

 Ao seu lado, de bruços,

minha pele nua resiste
ao toque.
No entanto, é você
quem se afasta.
O fato velado é:
o terrível medo da perda
não é suficiente para fazer
um amor em fuga
permanecer.

29/12/2025

Por Ana Cristina Cesar, In Inéditos e Dispersos; Ática, São Paulo, 1998

 Tenho uma folha branca

          e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
          e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
          e limpa à minha espera:

EU QUERO BEIJAR A TUA ROSA ( João Tomaz Parreira )

Eu quero beijar a tua rosa
Um sinal ao fundo
das tuas costas
que se desenham sob a roupa
Eu quero que recomecemos
do princípio
quando desço pelo declive
que começa nas espáduas
E absorto do mundo ao redor
firme meus dedos
nesse caule dessa rosa
que mexe com teu corpo
e me chama por Amor
como um sinal.

PROMESSA CUMPRIDA ( Alexandra Malheiro )

 Prometi não falar hoje,

das esquinas do teu corpo,
nem do sangue que me foge
e deixa o meu quase morto.

Prometi nem pensar
na curva-contra-curva
desenhada no teu peito
nem no avanço contrafeito
dos dedos pelo teu ventre
até à encosta onde acosta
o teu desejo fremente.

Prometi não te pensar
como o lobo pensa a presa,
desejei não desejar
teu corpo de sobremesa,
ou sobre a mesa,
ou sobre o chão,
ou nas paredes
da casa

O teu cheiro
em toda a parte
só tu não…

DÚVIDA (Mary Elisabeth Coleridge ) in Poems, 1908 - tradução: Carlos Campos

 Existem duas formas de escuridão. Uma é a Noite,

Quando eu era um animal e temia
Não sabia o quê, e perdi a minha alma, não ousei
Sentir coisa alguma, exceto a fome e a saudade da luz.
Outra é a Cegueira. Absolutos e brilhantes,
Os raios do Sol atingiram-me até tapar o Sol;
A própria Luz foi desfeita pela luz;
O dia encheu-se de terror e medo.
Então chorei, com pena daqueles
Que não vêm um amigo em Deus - nem inimigos em Satanás.

28/12/2025

A PAPOULA VERMELHA ( Louise Glück )

 O mais importante

é não ter
mente. Sentimentos:
ah, esses eu tenho; eles
me governam. Tenho
um senhor no céu
chamado Sol, e abro-me
para Ele, mostrando-Lhe
o fogo do meu próprio coração, fogo
como a Sua presença.
Que glória seria essa
senão um coração? Oh, meus irmãos e irmãs,
vocês já foram como eu, há muito tempo,
antes de serem humanos? Vocês
se permitiram
abrir-se uma vez, para nunca
mais se abrirem? Porque, na verdade,
estou falando agora
como vocês. Falo
porque estou despedaçado.

A FACE DE DEUS É VESPAS ( Adélia Prado, in Terra de Santa Cruz, Poesia Reunida, Ed. Siciliano,1991

 Queremos ser felizes.

Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
‘Graças a Deus, podia ser pior!’
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão  servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.

TEMPO (Adélia Prado, in O Coração Disparado, Poesia Reunida - Editora Siciliano, pág. 155, 1ª edição

 A mim que desde a infância venho vindo

como se o meu destino fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.

O DIA DA IRA (Adélia Prado, in Bagagem, Poesia Reunida, pág. 25, Editora Siciliano, 1991

 As coisas tristíssimas,

o rolomag, o teste de Cooper
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exatos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente de seu vôo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas de seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.

UM HOMEM DOENTE FAZ A ORAÇÃO DA MANHÃ (Adélia Prado, in Bagagem, Poesia Reunida, Ed. Siciliano,1991)

 Pelo sinal da Santa Cruz,

chegue até Vós meu ventre dilatado
e Vos comova, Senhor, meu mal sem cura.
Inauguro o dia, eu que ao meu crédito explico
que passei em claro a treva da noite.
Escutei – e é quando às vezes descanso –
vozes de há mais de trinta anos.
Vi no meio da noite nesgas claríssimas de sol.
Minha mãe falou,
enxotei gatos lambendo
O prato da minha infância.
Livrai-me de lançar contra Vós
a tristeza do meu corpo
e seu apodrecimento cuidadoso.
Mas desabafo dizendo:
que irado amor Vós tendes.
Tem piedade de mim,
tem piedade de mim
pelo sinal da Vossa Cruz
que faço na testa, na boca, no coração.
Da ponta dos pés à cabeça,
de palma à palma da mão.

A CÓLERA DIVINA ( Adélia Prado, in O Pelicano, Poesia Reunida, pág. 338, Editora Siciliano, 1991)

Quando fui ferida,

Por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma,
– ainda não sei –
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
– ele, um bicho que não é gente –
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
Uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.

A CRIATURA ( Adélia Prado ) in O Pelicano, Poesia Reunida, pág. 365, Editora Siciliano, 1991

Quero ver Jonathan,

Aqui ou onde mora
Exilado de mim.
Está meio chuvoso e é domingo,
feito um domingo antigo,
quando Ormírio chegou com Antônia,
sua filha de criação,
e me deu um cacho de uvas.
Da mesma natureza é a saudade que sinto
por aquele domingo e por Jonathan.
Como Antônia era tola eu era feliz,
o eixo da terra girava devagar,
eu cantava
a propósito de tudo,
a música de que mais gostava.
Quando me apaixonei por Jonathan,
escrevia seu nome pela casa,
meu pai dizia: ‘o que é isso?’
é o nome de um príncipe, eu falava,
Pronuncia-se Narratanói e está nas
mil e uma noites…
Meu pai, plebeu
a quem certas palavras subjugavam,
orgulhava-se de mim
que lhe dava poder sobre os signos migrados.
Oh, Jonathan, descubro que te amo
desde o tempo da guerra,
quando os aliados batiam os alemães.
Vovô dizia usaliados
e até mamãe, imagine!
E principalmente eu:
‘usaliados’ vão ganhar a guerra’,
sabendo por divina inspiração:
‘o poder é de quem detém a palavra’.
Poder que ia usar contra você,
que teria minha mãe usado contra mim:
‘você é da classe operária,
ele é muito bonito,
vai te deixar sozinha!’
Não deixou minha mãe, como não me deixa
apesar dos pesares,
esta vocação para a alegria perfeita.
Vê, são passadas décadas
e é a mesma em mim
a prontidão para a chuva,
as goiabas verdes,
para o sol que ateia nos telhados
as labaredas brancas do meio-dia.
É como se estivésseis aqui
com meu pai, meu avô
Ormírio e o cacho de uvas,
como quando entoei impropriamente,
à véspera de um Natal o Tantum Ergo.
Que grande cortesã eu me ensaiava,
porque era uma orgia
aquela felicidade sobre nadas,
era tudo tão pobre.
Eu já amava Jonathan,
porque Jonathan é isto,
fato poético desde sempre gerado,
matéria de sonho, sonho,
hora em que tudo mais desce à desimportância.
Agora que me descido à mística,
escrevo sob seu retrato:
‘Jesus, José, Javé, Jonathan, Jonathan,
a flor mais diminuta é meu juiz.
Me deixem no deserto resgatada,
pedra que dentro é pedra,
sobre pedra pousada’.
Rimo por boniteza,
não é triste o que sinto.
‘A supliciada’ podíeis chamar a tais versos,
no entanto, confirmo, estou feliz,
feliz para o desperdício
do que busquei amealhar
e estava certa,
o que o tempo não rói.
Um mel derrama-se,
uma ave amorosa me alimenta.
Negro céu com relâmpagos
e esta doçura que não tem repouso.
São feitos para mim estes legumes,
mais que as flores são feitos para mim
que os converto no ventre em ouro simbólico.
Nada há mais parecido com o que sou
a não ser outro homem e outro mais
e mais outro homem.
A visão de um recém-nascido me transporta.
Experimento dizer: ‘dentro da terra
sobre os leitos de areia os lençóis d’água’;
é como ferir o peito com uma lança
estremeço de amor pelas torrentes,
como de amor por Jonathan.
Os peixes gostam de mim, os fetos.
Antes que o façam eu abraço os homens,
eu os desarmo,
como a abelha em seu afinco
trabalho para que entendam:
a vida é tão bonita,
basta um beijo
e a delicada engrenagem movimenta-se,
uma necessidade cósmica nos protege.
Os espíritos imundos confessavam o Cristo,
se enfiavam nos porcos confessando,
essa alegria nova me confessa,
a mesma, a antiga,
a de quando ganhei as uvas e chovia
e gostava de Antônia
aquela menina tola.
‘A ira bordeja como um peixe mau’
É só um verso bonito.
Não há como voltar deste país:
o homem à  janela canta
– sem ter costume – a melodiazinha.
Deus põe no céu o arco-íris,
uma palavra selada,
seu hieróglifo.
Não tenho mais tempo algum,
ser feliz me consome.

SABOR DO BEIJO ( Elayne Amorim )

 Eu fico imaginando o sabor do seu beijo

Como quando ainda era criança
E imaginava o meu primeiro.

Será macio, quente, molhado
Bem vagarosamente deslizando sua língua
Por sobre a minha.

Os seus lábios nos meus
Trêmulos de medo, trêmulos de desejo
Eu tento me afastar.

Mas fecho ainda mais os meus olhos
Adentro outro mundo
Sensação de paraíso.

A minha pele se arrepia
O meu corpo se excita
A sua boca na minha.

O fôlego vai cedendo lugar
Ao êxtase de um cansaço interminável
Não me canso de me cansar.

Vou perdendo meus sentidos
Meus músculos estão anestesiados
Apenas sinto a sua língua.

Respiro (fôlego) estou gemendo de prazer
As suas mãos me seguram
Sinto o seu gosto.

Abro os olhos, cadê você?