28/12/2025

A CÓLERA DIVINA ( Adélia Prado, in O Pelicano, Poesia Reunida, pág. 338, Editora Siciliano, 1991)

Quando fui ferida,

Por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma,
– ainda não sei –
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
– ele, um bicho que não é gente –
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
Uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.