01/05/2026

MARINHA (Rita Santana)

 Todos os dias,

Afundo as mãos em Oceanos,
Mergulho em enseadas e rios,
Em busca do Silêncio.
Entre juncos, musgos e algas,
Encontro-me com a Solidão.
Embarcações rubras dançam
Valsinhas à beira do cais.
Engano-me com a pacatez das ostras
Deitadas sobre o esquecimento.
Murmúrios sustam a letargia das Horas.
As Deusas prevaricam informações,
Demoram-se sobre os corais que cobrem os barcos.
Busco, acintosamente, entre todos, a Ti!
Busco-te em meio aos operários de Tarsila.
Busco-te no arsenal de Rivera,
Enquanto distribuo armas aos rebeldes,
Enquanto, adrede, apaixono-me.

SOSSEGUE CORAÇÃO ( Paulo Leminski )

 sossegue coração

ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

Por Lília Tavares, in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Não me sobra tempo para anoitecer

agora que a poeira do coração rasgado

se quebra nas esquinas e se demora.

A que sabem as horas em que não estás?

Há muito deixei líquida a minha boca

a morder a noite no teu peito.

Sinto sede sede sede.

Parto para qualquer país onde não exista.

Por Lília Tavares, in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Escreve ainda o teu nome na minha mão.

Se um dia a juventude voltasse,

libertava-me do que não faz falta ao luar,

convocava a tua e a minha pele para a luz.

Sobre as ervas não lamento estar só.

É de flores o corpo semente água

seiva taça uvas mares apelo

seio rebentação ternura inacabada.

Aquieto-me sedenta, ergo-me sôfrega

e espero a água da tua boca, céu

de anis estrelado que me condena

à sede eterna de todos os bálsamos.

CABELOS BRANCOS ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Mãe, nunca te vi de cabelos brancos,

nem a tristeza do rosto que subia aos lábios

quando me incitavas a ler para ti

o cântico dos cânticos, como se fora um conto de fadas.

A tua solidão não conhecia as letras

nem a tua estrela ocultava a pureza das coisas.

Só salomão tinha escrito trovas à sensual sulamita.

Dela cantou os seios como cachos de uvas, os beijos,

a cintura, os cabelos, a pele suavizada por óleos.

Mãe, há muito que o leito era só teu,

ignorada na nudez, não te viram a dor,

a brancura das mãos, o sonho, o vento.

AVE ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Marés e instantes de prata despertam as gaivotas.

No mar espremeram frutos, que têm sabor a noite.

Brancas de tanto conterem o vento nas plumas

encontram nas manhãs a escrita das ondas.

Sem pontos.

É no amor verde da água que o desvario se prolonga.

Sem metáforas.

Sem as correntes da rima cativa, sou ave.

SANTA CATARINA – I ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 É estranha esta terra de árvores altas

que choram através das bagas em setembro.

Caminho pela azinhaga paralela ao mar,

com passos estugados e a mala pesada da escola

e da vida. Sou menina de doze anos, quase treze.

O portão enferrujado da quinta está escancarado.

Parece lunar a casa de portas violentadas em plena luz.

Escuro e de paredes em madeira, o que resta

da biblioteca arrepia-me os sentidos.

Prometo voltar. E corro. Guardo tudo em mim.

É fascinante a água nos lábios das crianças.

À SOMBRA DO SAL – II ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Contigo escutei os gritos das gaivotas no rochedo

maior, naquela que era a rainha das escarpas da praia

verde. Choravas.

Porque gemiam areias na solidão que mordias e os

homens voltavam nos barcos e pescavam a morte

como peixes sombrios.

Sobre o timbre dos ventos falaste em verso nas

janelas da noite em que o arvoredo se curvava sobre

as canções do mar

SUAVES AS MULHERES I ( Lília Tavares ) in A Timidez das Árvores (Col. Mãos de Semear- 1; ModoCromia, 2020; 2ª ed, 2021)

 Suaves as mulheres

de corpo alongado como aves.
Anjos não são,
nem livres nos seus êxtases.

Dormem nuas no interior
dos frutos.

Ardentes, desconhecem que
nas suas veias correm águas
que raramente se demoram nos rios.

São o arquétipo das planícies
trigueiras de maio
onde as abelhas ensaiam voos
na primitividade das manhãs

O AVESSO DOS OLHOS ( Lília Tavares ) A Luís Miguel Nava in memoriam

 A janela da noite abre-se aos sonhos

com desejos de manhã e não de morte.
Um poema traz consigo um colar de vieiras
como nas lendas nocturnas.
O poeta entra no espelho
como quem entra em si.
Estagna, retrocede, chora
e abriga-se dos temores.
Emudece e pousa na moldura
o que lhe sobrou do adolescente rosto.
O caos corre como água
no avesso dos seus olhos.
As aves que lhe saem pelo coração.

Por Lília Tavares ( a Maria Teresa Horta )

 Que tumulto é este, que inquietude salta

dos corações das mulheres que agitam as palavras?
Trespassam desertos onde se descaminham. Insubmissas,
sonhadoras e aladas, golpeiam-se para sentir
a dor inalcançável. Às noites acrescentam horas
na ilusão imprecisa dos líquidos caudais.
Os seus gritos são vigorosos
como o galope de cavalos, tantos.
Amam como se batessem asas de pétalas e pulsassem
em bailados de um feitiço antigo como o tempo.
Cobrem de véus o rosto e ocultam a fragilidade
das flores com que, fantasiadas, se vestem.
Estranham-se quando acordam, dadas ao esquecimento
dos seus voos. Como penélope tecem e desmancham panos
e alongam a incompletude desejada.
Labutam na escrita pedra a pedra
como quem ergue com urgência fortalezas, não muralhas.
Um poema é o fio que ariadne deixou inconcluso
em suas mãos porque de essências sem fim se alimentam.



DIO ZÂMBI ( Rafael Alterio & Celso Viáfora )

 Sinherê, quem vem de lá! axé zâmbi, quem vai daqui!

Benza eu por causa de que vou pra aruanda
Sinherê, quem vem de lá! axé zâmbi, quem vai daqui!
Sinherê, vou conhecer o ylu aiê. vou!

Quando o negro depôs a foice no eito
E foi se alforriar
O café se foi secando ao relento
Ninguém pra cuidar
Quem chegou no lugar
Pra lavourar
Era da cor de sinhá
E sonhava poder laborar, laborar
Enriquecer e voltar

Sono io per te
E tu per me
Siamo noi e dio
Niente più
Tinham força debaixo da pele clara
E os olhos de mar
Sol a pino, um pano posto na cara
Pra não se queimar
Vão pagar pelo pão
Se endividar
No armazém do patrão
Laborar, laborar pra não ver um tostão
Quantos não vão mais voltar...

Sono io per te
E tu per me
Siamo noi e dio
Niente più

Sinherê, quem vem de lá! axé zâmbi, quem vai daqui!
Benza eu por causa de que vou pra aruanda
Sinherê, quem vem de lá! axé zâmbi, quem vai daqui!
Sinherê, vou conhecer o ylu aiê. vou