28/07/2025

O PARTIDO DOS DEMÔNIOS ( Carmen Bruna )

 “Conduz teu carro e teu arado

sobre os ossos dos mortos”.
Provérbios do Inferno, de William Blake.

Meus desejos não querem ser negados

meus velhos prazeres soluçam com o arcanjo primitivo.
Te maldisse, feroz aparecida de pupilas de ônix
e colhi por isto uma exuberante coroa de lírios vermelhos,
apontarei para teu coração de fêmea com minhas flechas de obsidiana,
destroçarei tuas redomas de mirra e incenso
para que tua carne não possa consolar-se nunca mais com a espuma.
Como o vapor do mar ascendem os globos de fogo,
como o orgulho dos videntes com os sentidos famintos,
multiplicam-se as orações do tato nas plumas cálidas das aves,
como a madalena conhecerei as doçuras da pele do anjo da babilônia,
a persistente loucura que se desprende dos ossos esbranquiçados pelo sol
e as delícias do mel nos lábios do oceano.
Aos despeitados todo o amor
aos abandonados toda a vergonha
aos heréticos toda a glória
Sobre a colina tremem as fogueiras
e se ergue o patíbulo onde o rebelde negro de Surinam
pende como um tigre escuro,
seus enormes olhos nictalópicos contemplam enfebrecidos o rosto vazio das caveiras.
Não há vinhas para os filtros da ressurreição,
não há deslumbramento capaz de incendiar o vale da morte:
cai o sangue dos sóis fugazes da meia-noite
nutrindo a raiz da mandrágora com seu licor viscoso,
Simão o mago interpreta meus sonhos herméticos
com os signos do jaguar e da cabala,
recolhe meus pesadelos como atos de amor
aceita minhas preces irritadas,
com mudas reprovações, com infinitos sofrimentos,
com descargas elétricas que são como enxames de pássaros sedentos;
a madona dos destinos, a mulher dos alquimistas
percorrerá a cidade em um corcel de risos noturnos
e de libélulas transparentes como as pétalas do íris.
Eu amarei tua jovem jaula de cabelos de asas de colibri,
teus estremecimentos de chuva nas janelas dos antigos conventos;
amarei o canto das auroras boreais,
o tremor de tua mão com aguilhões
e beberei as flores carnívoras das nepentes no oco das rochas,
percorrerei o submundo de Fonthill, morderei a lua de seus ídolos;
minha língua de cortesã conhecerá o leite dos jasmins no trono.
(tradução: Floriano Martins)