27/10/2025

Por Anum Costa

ainda que eu revelasse

a ti meus segredos sórdidos

ainda que despisse meu

íntimo

ante tua face 

e a ti

mostrasse minhas fantasias

e se te segredasse meus medos todos

os erros e os enganosos

acertos

que depois se revelaram 

equívocos

e ainda que te confessasse que meu

pensamento não 

acompanha esta cultura

que desmatou meu corpo físico

meu imaginário

e ainda que em teu ouvido soprasse

meu tesão minhas aspirações 

sonhos expectativas

se eu gritasse que 

nunca esqueci

quem me amou um dia sequer

nem quem me feriu

e te contasse como quem narra um conto

que gosto de estar nua na frente de outros sem 

qualquer pretensão sexual

se eu disser que odeio a expressão

ter sido

porque soa sempre impossível

confirmando a insignificância

humana frente à natureza

se eu me definisse

explicasse

dissecasse 

traduzisse 

descrevesse

ainda que eu tentasse ser

só sou em trânsito e

por isso mesmo jamais saberemos

eu e tu

quem sou eu