ainda que eu revelasse
a ti meus segredos sórdidos
ainda que despisse meu
íntimo
ante tua face
e a ti
mostrasse minhas fantasias
e se te segredasse meus medos todos
os erros e os enganosos
acertos
que depois se revelaram
equívocos
e ainda que te confessasse que meu
pensamento não
acompanha esta cultura
que desmatou meu corpo físico
meu imaginário
e ainda que em teu ouvido soprasse
meu tesão minhas aspirações
sonhos expectativas
se eu gritasse que
nunca esqueci
quem me amou um dia sequer
nem quem me feriu
e te contasse como quem narra um conto
que gosto de estar nua na frente de outros sem
qualquer pretensão sexual
se eu disser que odeio a expressão
ter sido
porque soa sempre impossível
confirmando a insignificância
humana frente à natureza
se eu me definisse
explicasse
dissecasse
traduzisse
descrevesse
ainda que eu tentasse ser
só sou em trânsito e
por isso mesmo jamais saberemos
eu e tu
quem sou eu
