16/06/2026

VERDES APARÊNCIAS ( Maria Luísa Ribeiro ) in Mergulho Nos Poros. Goiânia, GO: Movimento Editora, 2013.

Eram de barro os cântaros

que acolheram os licores da carne.

Era de algodão cru o tecido do lençol

que acobertava

um falso rei e uma rainha falsa.


Sob as rosas mornas

onde os cacos se devoravam

e a pressa dos suicidas

apregoava encantamento,

os cântaros vertiam

beijos de proveta

sobre a fenda pretendida.


Avolumavam-se outras fomes

e o ritmo da porfia

consagrava-se.


E ao som do tilintar dos dentes

nas bordas da taça de cristal,

voavam estilhaços de vinho

e uma nódoa de veneno

sobre a mesa esparramava-se.


Era um tempo de carnes secas

e verdes aparências.