26/05/2017

O QUE O BAIRRO PEIXOTO (Carlos Drummond de Andrade)


O que o Bairro Peixoto
sabe de nós, e esqueceu!
 
Rua Anita Garibaldi
e Rua Siqueira Campos.
(Francisco Braga,
Décio Vilares
nos espiando,
fingem que não?)
 
O calçadão na penumbra
andança que vai e volta 
voltivai
a derivar para o túnel
em busca do hímen?
Volta:
banco de praça. Bambus.
Bambuzal de brisa em ais.
 
O bardo e a garota amavam-se
nas guerras da Dependência.
Seria brinco de amor
ou era somente brinco.
 
5 de Julho (fronteira
do reino escuro)
à face
de casas desprevenidas
jogávamos nos jardins
e nas caixas de correio
volumes indesculpáveis
de alheias dedicatórias
pedacinhos.
 
Se salta o cachorro? Credo.
Saltam quinhentos mastins.
Ganem a traça
de amor sem regulamento.
Prende mata esfola queima.
Viu? É dentro de mim, é dentro
do bardo que estão ganindo.
 
Bobeira de bobo besta.
Passa de nove mil horas,
urge voltar ao sacrário
de virgem.
Só mais um tiquinho. Não.
Sou eu, rei sábio, que ordeno.
Ri. Rimos de mim. Ficamos.
 
Dedos entrelaçados
e desejos geminados
no parque tão pueril.
Praça Edmundo, olá,
Bittencourt de berros brabos.
Se acaso nos visse aos beijos
babados, reincidentes,
protestava no jornal?
  
Menina mais sem juízo
rindo riso sem motivo
no jogo de diminutivos,
sabe o que estamos fazendo?
Amor.
Não é nada disso. Apenas
primícias cálidas. Calo-me.
 
Viajar nos seios. Embaixo.
Por trás.
Se vou mais longe, quem vai
me segurar?
Se fico por aqui mesmo,
quem vem
me resserenar?
 
Passo vinte anos depois
no mesmo Bairro Peixoto.
Ele que a tudo assistia,
nada lembra, no sol posto,
deste episódio canhoto.

 

MORRER (Carlos Alberto Pessoa Rosa)

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.
ELE (Julieta Lima)
Ele
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos.

Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!
SONETO DO LADRÃO AMADO
(Douglas  Mondo)
Arrombo a janela do teu quarto
conheço teus segredos de mulher
sei dos teus gemidos ansioso aguardo
bebo da tua voz que me pede e quer.

Sussurro palavras onduladas de amor
com salivas suadas levadas pra beber
sinto o perfume e a flagrância da flor
me aninho no teu ninho sou teu bem-querer.

Entro volto penetro sou homem maduro
tenho mãos de poeta de dia sou poesia
de noite profano tua alma e te engulo.

Amo só na mão com teu corpo não
tua voz ouço não te vejo e alcanço
estou louco não contigo sou santo.

PASSEIO ( C. Almeida Stella )


Blusa em organza branca 
em transparência delicada
insinuando
mostrando tudo mostrando nada.

Botõezinhos perolados semi-abertos 

delicados 
guardam uma fronteira 
entre a imaginação e a realidade 
de caminhos inexplorados.

Tua mão se perde na transparência 

dessa diáfana blusinha.
Atravessa timidamente os limites 
que os botõezinhos entreabertos deixam ver 
e que o teu desejo adivinha.

Tua mão é macia

ela vai brincando, 
acarinhando
invadindo a minha geografia
explorando vales, montes, planícies,
detendo-se um pouco aqui
um pouco ali, 
desvendando caminhos nunca trilhados
criando atalhos.

Minha pele sente o teu toque, 

a tua sedução
e no calor da tua mão 
ela vibra
pede mais. 

Em seu passeio sensual 

tua mão desperta em mim 
milhares de sensações 
e aquela coisa tão louca
aquele grande desejo
de ter. 

Não somente a tua mão 

assim 
a me percorrer 
mas também a tua boca!

DELEITE (Stela Fonseca)


Doce homem
meu amado
meu amor.
Que êxtase
ver seus olhos
se abrirem em
raios de luz
seu corpo
desmanchar-se
em iluminado prazer
e seu sexo alçar voo
nas vezes em que
minha boca viaja
na sua anatomia.
INVENTO-TE (Julieta Lima)
Invento-te
Invento-me
Sem formas
Nem cor
Nem perfis
Nem tela.

Nós dois.
Esculpidos
No silêncio de uma praia
Que a anarquia do mar
Afaga e flagela!
Invento-te
Barco transparente
Em indecisos traços
Adivinhando
Ais libidinosos
No sexo da água
Em que me torno
Ousada ondulada bela
A estremecer
Quando de manso
Me rasga capitosa
A volúpia acerada

De uma vela.


25/05/2017

MULHER DAS ÁGUAS
(Douglas Mondo)
És mulher das águas,
quando recebes em teu corpo a espuma 
como bruma e beijas sábia ventura.

Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.

No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.

Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.

Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.

És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.


MAÇÃ-DO-AMOR
(Carlos Alberto Pessoa Rosa)
abrir pétalas com
a língua
explorar
seus cheiros e sabores

levar seu néctar
para além desse momento
para colmeias
perdidas no inconsciente
nos momentos em que
nada valer a pena

ou quando você não estiver
mais presente
minha língua
lamberá a lembrança
como lambemos aquela
maçã-do-amor


lembra-se?


OLHOS NUS (Paulo Netho)


Seu corpo nu 
meus olhos vestidos 
seu corpo nu 
meus olhos enlouquecidos 
seu corpo vestido 
meus olhos nus. 

ERÓTICA (Carlos Queirós)


A noite descia
como um cortinado
sobre a erva fria
do campo orvalhado.

e eu (fauno em vertigem)

a rondar em torno
do teu corpo virgem,
sonolento e morno,


pensava no lasso

tombar do desejo;
em breve, o cansaço
do último beijo.

E no modo como

sentir menos fácil
o maduro pomo
do teu corpo grácil:

ou sem lhe tocar

– de tanto o querer! –
ficar a olhar,
até o esquecer,

ou como por entre

reflexos do lago,
roçar-lhe no ventre
luarento afago;


perpassando os meus

nos teus lábios húmidos,
meu peito nos teus
brancos
       seios
              túmidos.

FATALISMO (Manuela Amaral)


Amo o que em ti há de trágico. De mau.
De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.
A tua forma de olhar. O teu riso fingido
e cristalino.

Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.
A tua mão insegura
na mentira dos teus gestos.
Amo o teu corpo de maçã madura.

Amo o silêncio perpendicular do teu contacto
A fúria incontrolável da maré
nas ondas vaginais do teu orgasmo.

E esta tua ausência
Este não-ser quem é.

DELÍRIOS DA TARDE ( Nálu Nogueira )


Traz-me tua boca e deixa que pouse
aqui sobre os meus seios. A tarde vai
pelo meio e desde a aurora o corpo meu
sedento te deseja.

Dá-me tua língua em minha língua para
que eu te excite, movimentos meus no
céu da boca e dentes, lábios quentes sobre
os teus deixam escapar gemidos.

Fecha os olhos, deita enquanto esfrego em
tua pele meus mamilos; tua bunda e coxas
minha boca e dentes. Ouve o meu pedido
urgente em teus ouvidos.

Sente os movimentos ondulantes meus quadris
em tuas ancas, sobe e desce lento e mexe e vira
e olha, sente. Segura meus quadris em tuas mãos
e gira e gira e puxa e tira e puxa novamente.
Olha.

Meu olhar para ti flameja e o ar me falta. Tua
boca nos meus seios, gemo. Tua mão meus pelos,
púbis, grito. Minha voz e teus gemidos, minhas
mãos tentam tocar o infinito enquanto gozo
louca no teu colo, enquanto sinto teus
espasmos dentro.

Findo. 
Minhas mãos na tua pele em lanhos do meu desejo.
Marcas púrpuras do teu beijo em meu pescoço. 
O suor da tua pele no meu corpo.

Canso. E adormeço nua e acolhida em teu abraço.

ETERNAMENTE SUA (Tatiana V. Mattos)

Serei eternamente sua pois,
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes me magoar,
me fazer calar e,
ainda assim serei eternamente sua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
– era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
– era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
– era o meu que querias sentir e, que,
finalmente, quando conheceste
o interior de outro ser
– era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixarei-te livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltar
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas suas,
revelarei-te que estava a sua espera,
assim como sempre estive.
E seremos eternamente nós.

SUMO (Carlos Alberto Pessoa Rosa)

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

FÊMEAS ( Carlos Alberto Pessoa Rosa )

Hora do fugaz,
das cores efêmeras,
das fêmeas saírem
em blasfêmias.

Hora de rasgar
a castidade,
roçar a nudez
proibida,
do cair das
máscaras.





 

APAIXONADA ( Liz Christine )


Como posso me sentir
Ridicularizada
Por estar apaixonada?
Tenho mais é que sorrir
Porque o amor é tão lindo
Mesmo quando não correspondido
E não mais temo
Esse amor que tenho
Porque é maravilhoso
Desejar
E ser amado
E delicioso
No simples beijar
Eletrizado, extasiado
Sorrindo e repetindo
Esse amor, paixão, tem nome.

E se digo palavrões
E se chego a escrever
Algumas baixarias
É pela intensidade das emoções
E se falo em foder
É porque doces poesias
Belos poemas declamados
Não podem traduzir
A intensidade dos apaixonados
Palavras formais
Me fode com violência
Tesão, sadismo
E indecência
Te amo demais
Te amo com paixão
É assim meu romantismo
Meu doce, sincero palavrão
Te amo com tesão
Amo, amo e chamo
Venha me foder
Venha me dizer
Que me ama
De verdade
E que sou sua putana
Com total fidelidade.

Fidelidade
É sempre dizer
A verdade
E você já deve saber
Que é minha única paixão
E está tão além do simples tesão.

Você é tesão complexo
Mais que sexo
É amor único
Te amo, te amo e te chamo 
Venha me foder
Venha me satisfazer
Venha me completar
Só você pode me penetrar
E só você eu posso amar.

SURREALISTA ( Carlos Alberto Pessoa Rosa )


cabelos escorridos
caprichar nos bicos
seios rijos
rechear as coxas
apetrechos

nos pelos negros

encaracolar
desejos
escorrer uma fina
depressão
uma dala erótica
um rego

palavras

lavras e cheiros
de fêmea-faminta
lambuzada de um mel
selvagem
da abelha mais nobre
a queimar a língua
a criar um delírio-macho

caldo provado

tornar chamas caladas
derreter
em cinzas

sermos sulco-sumo

uno
fêmea-macho
sem artimanhas
procriadores de efêmeros
nadas
abraçados no pescoço
surrealista de minha poesia.