25/03/2024

AMIGA ( Florbela Espanca )

 Deixa-me ser a tua amiga, Amor;

A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem! Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!

OS VERSOS QUE TE FIZ ( Florbela Espanca )

 Deixa dizer-te os lindos versos raros

Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como sedas brancas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

LANGUIDEZ ( Florbela Espanca )

 Tardes da minha terra, doce encanto,

Tardes duma pureza d’açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar.

POEMA ( Florbela Espanca )

 Deixa-me ser a tua amiga, Amor,

A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha magoa e dor
O que me importa a mim? O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beijá-me as mãos, Amor, devagarinho
Como se os dois nascessemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho

Beija-mas bem! Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!

O MEU IMPOSSÍVEL ( Florbela Espanca )

 Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,

É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam! Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto…

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!

24/03/2024

COR DE MARAVILHA ( Bruna Lombardi )

 Confesso que mal o conheço mas meu desejo é igual

cacho amarelo de acácia imperial
tenho braços fortes e pernas grossas
exibo o que posso, o que não dê
demais intimidade
mas às vezes perco a cabeça, faço coisas
de que me espanto mais tarde
- é tão fraca minha força de vontade-
Ontem à noite por causa de umas estrelas
e de umas coisas duvidosas
entrei no quarto dele, tirei o vestido
e me abri como uma rosa
ele olhava maravilhado
essa mulher tão generosa.

CIO ( Bruna Lombardi )

 Quero dormir com você ou pelo menos

te dar um beijo na boca
o meu amor não tem pudor, nem acanhamento
não tem paciência, não aguenta mais
a urgência do desejo
e eu te olho, te olho, te olho
como se dissesse.

Penso ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.

ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse

desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.

NESTA AUSÊNCIA ( Gilka Machado )

 Nesta ausência que me excita,

tenho-te, à minha vontade,
numa vontade infinita
Distância, sejas bendita!
Bendita sejas, saudade!

Teu nome lindo. Ao dizê-lo
queimo os lábios, meu amor!
- O teu nome é um setestrelo
na noite da minha dor.

Nunca digas com firmeza
que a mágoa apenas crucia:
a saudade é uma tristeza,
que nos dá tanta alegria!

Passo horas calada e queda,
a rever, a relembrar
as duas asas de seda
do teu langoroso olhar.

Se a mágoa nos não conforta,
por que é que a felicidade
tem mais sabor quando morta,
depois que se faz saudade?

OLHANDO O MAR ( Gilka Machado )

 Sempre que fito o mar

tenho a ilusão de achar-me diante
de um silêncio amplo, ondulante,
de um silêncio profundo,
onde vozes lutassem por gritar,
por lhe fugirem do invisível fundo.

Diante do mar eu fico triste,
nessa mudez de quem assiste
reproduções do próprio dissabor;
diante do mar eu sou um mar,
a outro de apor
e a se indeterminar.

O mar é sempre monotonia,
na calmaria
ou na tempestade.
Fujo de ti, ó mar que estrondas!
porque a tristeza que me invade
tem a continuidade
das tuas ondas

Mas te amo, ó mar, porque minha alma e a tua
são bem iguais: ambas profundamente
sensíveis, e amplas, e espelhantes;
nelas o ambiente
atua
apenas superficialmente

Calma de cismas, de êxtases, de sonhos,
desesperos medonhos,
ânsias de azul, de alturas
- Longos ou rápidos instantes
em que me transfiguro, em que te transfiguras
Nos nossos sentimentos sem represa,
nas nossas almas, quanta afinidade!
- Tu sentindo por toda a natureza!
- Eu sentindo por toda a humanidade!

Nos dias muito azuis, o meu olhar,
atento,
a descer e a se elevar,
supõe o mar um espreguiçamento
do céu e o céu um êxtase do mar.

Há nos ritmos da água
marinha uma poesia, a mais completa,
essa poesia universal da mágoa.

O mar é um cérebro em laboração,
um cérebro de poeta;
nas suas ondas, vêm e vão
pensamentos, de roldão.

O mar,
imperturbavelmente, a rolar, a rolar
O mar... - Concluo sempre que metido
em sua profundeza e em sua vastidão:
- o mar é o corpo, é a objetivação
do espaço, do infinito.

ESBOÇO ( Gilka Machado ) no livro "Sublimação". Typ. Baptista de Souza, 1938

 Teus lábios inquietos

pelo meu corpo
acendiam astros
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos

FECUNDAÇÃO ( Gilka Machado)

 Teus olhos me olham

longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a pesuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

MAS QUE SEI EU ( Ruy Belo )

 Mas que sei eu das folhas no outono

ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

AMOR QUANDO ME AMAS ( Natália Nuno )

 Louca... louca queria ser!

Rio que desliza rumo
ao  mar,
fluir indiferente, sem cessar
Esquecer,
o futuro inverno  cinzento,
esquecer meu desalento.

Meus olhos são rios nascendo,
e  nem sei porque choram!
Talvez porque se estão perdendo
dos teus, que tanto os namoram.

Tão triste porquê, não sei!
O que procuro também  não
Tantas horas já passei
sem saber porque razão.

O tempo me foge e se  perde
A galope sobre meu rosto
Que já foi seara verde
E também luar de  Agosto.

Solta-se a lua sobre as águas
Em meus olhos faz remoinho
A  sombra das minhas mágoas
Se estende p'lo caminho.

E já o mundo  amanhece
Nas fronteiras do meu sonho
Logo o corpo padece
Nem ouve o que  lhe proponho.

Nas minhas mãos nostalgias
Trago no peito  ameaças
Neste amor terna me querias!
Ternura há quando me  abraças.

Ergo-me de fronte ao céu
Nas minhas mãos as  esperanças
Minha alma trago ao léu
Na memória as lembranças.

Corre  depressa meu sangue
no coração a arder,
numa rajada de chamas.
Louca...  louca queria ser
Amor quando me amas!

DESEJO ( Nuno Júdice )

Queria ser essa noite que te envolve; e
cobrir-te com o peso obscuro dos braços
que não se vêem. Um murmúrio
desceria de uma vegetação de palavras,
enrolando-se nos teus cabelos como
secretas folhas de hera num horizonte
de pálpebras. Deixarias que te olhasse
o fundo do olhos, onde brilha
a imagem do amor. E sinto os teus dedos
soltarem-se da sombra, pedindo
o silêncio que antecede a madrugada.

18/03/2024

RETRATO ( Nuno Júdice )

 Amo-te; e o teu corpo dobra-se,

no espelho da memória, à luz

frouxa da lâmpada que nos

esconde. Puxo-te para fora

da moldura: e o teu rosto branco

abre um sorriso de água, e

cais sobre mim, como o

tronco suave da noite, para

que te abrace até de madrugada,

quando o sono te fecha os olhos

e o espelho, vazio, me obriga

a olhar-te no reflexo do poema.



FAGULHA ( Ana Cristina Cesar )

 Abri curiosa

o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

12/03/2024

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO ( Hilda Hilst )

 I

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento. 

II

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

III

Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido.

IV

Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.
Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.
Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.
Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página
Ilustrada de revista
Editorial, jornal
Teia cindida.
Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.

V

Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

VI

Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?

VII

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
– Fazedor de desgosto –
Que eu te esqueça.

IX

Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria de solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatadas
Sobreexistindo apenas
Porque à noite retomo minha verdade:
teu contorno, teu rosto álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.

X

Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinquenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.

FRÉMITO DO MEU CORPO A PROCURAR-TE ( Florbela Espanca ) in A Mensageira das Violetas

 Frémito do meu corpo a procurar-te,

Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

11/03/2024

EU - CARISTIA ( Yara Fers )




 


 

 

 

AVISO ( Roberta Lantyer )

Tenho os peitos em riste
na sua cara.

Não ouse encostar seus dedos
de novo
em meu corpo
eu posso arrancar suas unhas
com os dentes
e castrar cada um
dos seus membros
falidos.

Cuidado,
eu tenho língua afiada
que faz corte fundo.

A minha adaga
eu amolo entre as pernas
e na palavra

PARA GOZAR ATÉ DOER OS MÚSCULOS ( Roberta Lantyer)

há que ter as unhas lisas e os dedos livres
há que passar levemente entre as coxas chegar aos lábios, os grandes
delicadamente,
a que se sentir o sumo
lamber os dedos
sentir o doce amargo
que se verte

há que saber seu gosto, deixar molhar os mamilos afoitos
há que sentir arder a nuca
há que se descer os dedos
comer dois deles inteiros

há que queimar com as águas que escoam
o fogo líquido há que fazer tremer
há que escutar o mar, marejar as pernas
há que derramar inteira
há que pingar
há que


SONETO PERDIDO ( Natalia Klussmann )

Vês! Exibo-me totalmente nua
A pele ardente brilha em plena espera
Deslizo um dedo ou dois — sou pantera –
Uma fera incendiada, toda sua.

Entregue às carícias mais féericas
Na palma da minha mão sua carne crua
Lateja, sôfrega, goteja e flutua
E aninho seu mastro entre as minhas pernas.

“Vai, engole! Sua vadia, piranha!
Meto a piroca e acabo com a sanha
Soco sem dó, arrebento sua greta!”

A mão que amordaça é a mesma bate
Mas essa é a ordem da sociedade
Então, escarra no meu sexo e me beija.

SEGREDO DE MENINA ( Laryssa Carreiro )

sozinha aprendi a
me libertar da loucura
mexer meus quadris e sentir
prazer no movimento que
só o meu corpo tem feito
não há defeito e
o efeito é quase instantâneo

a sensação percorre o sangue
resistir é um crime
diante de tanto afeto
sigo (auto)imune

toco sob o pano do meu
úmido tecido de baixo
na linha do perigo, digo
atenção: não vá embora agora
que tá ficando bom

pode abrir as pernas
e curtir um som