Vieram negras as sementes do abandono
e nos teus ossos iniciaram-se os ofícios.
Tu, discípula da sombra.
Tu que acendes os teus lábios pelos
fósforos escuros
e incendeias a floração da tua língua.
Tu que levas nos cabelos um registo de orfandade
e sobre a pele um cheiro podre de
lençóis hospitalares
como um hálito de flor
ou um lentíssimo perfume.
Tu, discípula da rosa dos outonos,
que amanheces e desovas como um saco de embriões
e vertes litros de mirtilos sobre os pés,
o sumo fresco dos estábulos da morte
e que às escuras, como um lírico cordeiro,
ofereces em autópsia o teu ventre expiatório
e iluminas com o brilho dos teus dentes
os sorrisos das caveiras incubadas nos espelhos.
Tu que clamas e ressoas livremente nas cidades
como um fúnebre tambor
mas amordaças os espinhos do teu
sexo de cinzas,
o teu cálice apagado pela lívida aliança
e adoeces como um nódulo
ou uma caixa de silêncio
pelo homem que exauriu no sono angélico das pombas,
pelo homem-esqueleto a revestir-se nos pomares,
pelo homem de pulmões nupciais,
cheios de algas tenebrosas,
pelo homem enxertado de moscardos e abundâncias,
o rapaz da deserção e do livor,
dos favos roxos nas narinas,
da dulcíssima agonia
do mel.
