29/04/2023

O SUMO FRESCO ( Luiza Nilo Nunes )

 Vieram negras as sementes do abandono 

e nos teus ossos iniciaram-se os ofícios. 

 

Tu, discípula da sombra. 

Tu que acendes os teus lábios pelos  

fósforos escuros  

e incendeias a floração da tua língua. 

 

Tu que levas nos cabelos um registo de orfandade 

e sobre a pele um cheiro podre de  

lençóis hospitalares 

como um hálito de flor  

ou um lentíssimo perfume.   

 

Tu, discípula da rosa dos outonos, 

que amanheces e desovas como um saco de embriões 

e vertes litros de mirtilos sobre os pés, 

o sumo fresco dos estábulos da morte 

e que às escuras, como um lírico cordeiro, 

ofereces em autópsia o teu ventre expiatório 

e iluminas com o brilho dos teus dentes 

os sorrisos das caveiras incubadas nos espelhos. 

 

Tu que clamas e ressoas livremente nas cidades  

como um fúnebre tambor 

mas amordaças os espinhos do teu  

sexo de cinzas, 

o teu cálice apagado pela lívida aliança 

e adoeces como um nódulo  

ou uma caixa de silêncio  

pelo homem que exauriu no sono angélico das pombas, 

pelo homem-esqueleto a revestir-se nos pomares, 

pelo homem de pulmões nupciais,  

cheios de algas tenebrosas, 

 

pelo homem enxertado de moscardos e abundâncias, 

o rapaz da deserção e do livor, 

dos favos roxos nas narinas, 

da dulcíssima agonia 

do mel.