30/09/2025

AMAZONAS DE HOJE ( Alexandra Magalhães Zeiner )

 Hoje criei tempo pra me amar

Encontrar-me, sentir, acariciar
Esta outra parte de mim,
Que vive tão distante
Em mundos paralelos
De sonhos ideais

Perdoei e integre
As mutantes que trago dentro de mim
Deusas de muitas faces:
Salomé, Madalena
A Guerreira e Maria

Desconhecia o poder
A força e o medo
Que a escuridão e a ilusão causavam
Que me cegavam
Que me separavam deste mundo

Ao mergulhar nas profundezas
Das fossas oceânicas
Encontrei seres de luz própria
Indicadores de outras vidas
Outras dimensões
E assim me entreguei

Ao me guiarem para a superfície
Processo novo foi iniciado
Da aceitação e compaixão total
Que integrava, eu, minhas irmãs
As Amazonas, habitantes da Mãe Terra
Filhas do Mundo e da Polaridade

YIN ( Andressa Lameu )

 Como uma fêmea regida pela lua, intuo.

Vejo uma Nova Era de Amazonas e Deusas.
Dos mistérios da fé, o poder do feminino é o único em que
acredito.
Estar vivo é respirar no desconhecido.
Estar vivo e ser mulher é enigma duplo.
É ser a própria Esfinge.

CASA AMARELA ( Andressa Lameu )

 Sinto pelos anos perdidos

Pelos nossos filhos não nascidos
Sinto pelas ruas em que não nos beijamos madrugada
adentro.
Sinto pelo grito entalado
Pelo gozo castrado
Sinto pelas vezes em que nos faltou o tempo.
Sinto pela velhice não compartilhada
Em uma casa amarela com nossos nomes na fachada.
Sinto tanto pelo silêncio das manhãs
E pelo riso bonito que te subia as maçãs.
Sinto pelas pessoas desse mundo
E pelo medo profundo que deitam semanalmente nos divãs.
Sinto pela verdade tardiamente revelada.
Sinto pela alma enlutada.
Sinto pela ferida milenar dos clãs.


Sinto pelo que ainda vai acontecer
depois que o ar poluído desaparecer dessa vida vulgar.
Sinto pelo teu desconforto
Que por muitas vezes absorvo
E que me faz pesar
Sinto pelas longas caminhadas sem o menor intuito
Sinto pela saudade que vou sentir quando isso acabar.
Sinto pelo infortúnio de não ter sido a mais amada
Sinto tanto que já não sinto mais nada.
E por isso
Sinto muito.

RECEPTÁCULO ( Ana Paula Del Padre )

 Despiu-se das peças

Retirou acessórios
Libertou-se das amarras
Abriu as correntes
E, mesmo assim,
Não estava
Nem nunca mais estaria
Inteiramente nua.
Ele era, agora,
A veste que a cobria
Sua segunda pele
Quem seria visto no reflexo do espelho
Toda vez que ela ousasse olhar
Para si mesma

RÉGUA ( Ana Paula Del Padre )

 Não há métrica

Capaz de fazer caber
O imensurável
Este isto que somos
Mas, se for para pesar,
E medir
Enquanto deste jeito pulsar
Vale a pena ficar
E, se me permitir,
Ser todas
E as tantas que sou
Falar sem receio
E amar sem freio
Por que partir?
Esta é minha régua:
O brilho no olhar
E o tamanho do sorrir

REPAROS ( Ana Paula Del Padre )

 Repara…

Na pupila que dilata e te chama
Aponta minha cama
Antes de me amar
Repara…
No cheiro de pomar
De flor de laranjeira
E mel de abelha
Que de mim exala
Enquanto me amas
Repara…
Na umidade dos fios
Cabelos encharcados
E minhas outras águas
Sobre você
Depois que me amas…
Repara…
Na questão que faço
De prolongar sua permanência em mim
Mesmo depois do fim
Repara…
Antes, durante, depois e além
Repara…
Agora, sempre e pra sempre
Repara infinito
Para nunca ter que reparar
Porque amor visceral desconserta
Mas não sobrevive a reparos

SERELEPE ( Ana Paula Del Padre )

 Artista

Arteira
Desmancha dente-de-leão
Cheira flor de laranjeira
Trepadeira
De cabeça pra baixo
E pernas pro ar
Só de brincadeira
É sua maneira
De encapsular
Aquele instante de fogueira
E entregar a quem em si
Abriu clareira

ENTRELINHA ( Ana Paula Del Padre )

 Gosto das palavras

Mas ainda prefiro
O que nem precisa ser dito
O subentendido
O que está contido
Entre uma frase e outra
Do seu sussurro
E seu suspiro
Bem ali
Naquela brecha
Na fresta
Na fenda
No vão
No vai e vem
Aquele ínfimo espaço
No intervalo do hiato
Quem olha assim
Parece pouco
Mas ninguém adivinha
O quanto cabe
Numa entrelinha

MÃE PRETA ( Bruno de Menezes )

No acalanto africano de tuas cantigas,

Nos suspiros gementes das guitarras,
Veio o doce langor
De nossa voz,
A quentura carinhosa de nosso sangue.

És, Mãe Preta, uma velha reminiscência
Das cubatas, das senzalas,
Com ventres fecundos padreando escravos.

Mãe do Brasil? Mãe dos nossos brancos?

És, Mãe Preta, um céu noturno sem lua,
Mas todo chicoteado de estrelas.
Teu leite que desenhou o Cruzeiro,
Escorreu num jayo grosso,
Formando a estrada de São Tiago.

Tu, que nas Gerais desforraste o servilismo,
Tatuando-te com pedras preciosas,
Que deste festas de esmagar!
Tu, que criaste os filhos dos Senhores,
Embalaste os que eram da Marqueza de Santos,
Os bastardos do Primeiro Imperador
E até futuros Inconfidentes!
Quem mais teu leite amamentou, Mãe Preta?
Luiz Gama? Patrocínio? Marcílio Dias?
A tua seiva maravilhosa
Sempre transfundiu o ardor cívico, o talento vivo,
O arrojo Maximo!

Dos teus seios, Mãe Preta, teria brotado o luar?
Foste tu que na Bahia alimentaste o gênio poético
De Castro Alves? No Maranhão a glória de Gonçalves Dias?
Terias ungido a dor de Cruz e Souza?
Foste e ainda és tudo no Brasil, Mãe Preta!

Gostosa, contando a história do Saci,
Ninando murucututu
Para os teus bisnetos de hoje.

Continuas a ser a mesma virgem de Loanda,
Cantando e sapateando no batuque,
Correndo o frasco na macumba,
Quando chega Ogum, no seu cavalo de vento,
Varando pelos quilombos.

Quanto Sinhô e Sinhá-Moça
Chupou teu sangue, Mãe Preta?!

Agora, como ontem, és a festeira do Divino,
A Maria Tereza dos quitutes com pimenta e com dendê.
És, finalmente, a procriadora cor da noite,
Que desde o nascimento do Brasil
Te fizeste "Mãe de leite".

Abençoa-nos, pois, aqueles que não se envergonham de Ti,
Que sugamos com avidez teus seios fartos

-bebendo a vida!
Que nos honramos com o teu amor!

-Tua bênção, Mãe Preta!

 

29/09/2025

A NINFA ( Manuel Bandeira )

 Estranha volta ao lar naquele dia!

Tornava o filho pródigo à paterna
Casa, e não via em nada a antiga e terna
Jubilação da instante cotovia.

Antes, em tudo a igual monotonia,
Tanto mais flébil quanto mais eterna.
A ninfa estava ali. Que alvor de perna!
Mas, em compensação, como era fria!

Ao vê-la assim, calou-se no passado
A voz que nunca ouviu sem que direito
Lhe fosse ao coração. Logo ao seu lado

Buliu na luz do lar, na luz do leito,
Como um brasão de timbre indecifrado,
O ruivo, raro isóscele perfeito.

28/09/2025

SINCERIDADE ( João Bosco )

Quero viver uma vez mais esse amor
Que as margens lambe invade e traz
Castanhas gotas de cristais
Teu rio a beira do meu cais
O amor é cego quando vê
Que é o coração quem sabe escolher
Haja razão prá entender esse simples querer
Olha prá mim um remanso por fim
Espelho d'água a refletir
Até que tudo resolva por si
Novas canções vão surgir
Para viver uma vez mais
Outro amor nascente dessas ancestrais
Castanhas gotas de cristais

Que não morrem jamais. 

BURACO (João Bosco / Francisco Bosco )

 Os rastros no chão

Passou por aqui
A sombra, o vão
Altivo Zumbi
E o grito de não
Pra quem pôde ouvir

Krejé, Maranhão
Xetá, Paraná
Avá, Tocantins
Auré e Aurá
Juma, Kayapó
Irmãos sem lugar
Sentindo o final
Se paramentou
Deitou-se, fetal
A morte esperou
O transcendental
Se desencarnou

Nem sequer um som
Jamais emitiu
Estoico viveu
Estoico partiu
E ao não se mostrar
Mostrou o Brasil
Sem mundo, sem terra, sem povo, sem língua, sem nome, sem nada de si
No oco buraco da História, em um tapiri

CATIMBÓ ( Ascenso Ferreira )

 Mestre Carlos, rei dos mestres,

       aprendeu sem se ensinar

– Ele reina reina no fogo!

– Ele reina na água!

– Ele reina no ar!

Por isto, em minha amada acenderá a paixão que consome!

Umedecerá sempre, em sua lembrança, o meu nome!

Levar-lhe-á os perfumes do incenso que lhe vivo a queimar.

E ela há de me amar

Há de me amar

Há de me amar

– Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar! 

À luz do sete-estrelo nós havemos de casar!

E há de ser bem perto.

Há de ser tão certo

como que este mundo tem de se acabar

Foi a jurema de sua beleza que embriagou os meus sentidos!

Eu vivo tão triste como os ventos perdidos

que passam gritando na noite enorme

Porque quero gozar o viço que no seu lábio estua!

Quero sentir sua carícia branda como um raio da lua!

Quero acordar a volúpia que no seu seio dorme 

E hei de tê-la,

hei de vencê-la,

ainda mesmo contra seu querer

– Porque de Mestre Carlos é grande o poder!

Pelas três-marias Pelos três reis magos Pelo sete-estrelo

Eu firmo esta intenção,

bem no fundo do coração,

e o signo de salomão

ponho como selo

E ela há de me amar

Há de me amar

Há de me amar

– Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar! 

Porque Mestre Carlos, rei dos mestres,

reina no fogo Reina na água Reina no ar

– Ele aprendeu sem se ensinar

OBRIGADO ( Pedro Homem De Mello )

 Por teu sorriso anônimo, discreto,

(O meu país é um reino sossegado)

Pela ausência da carne em teu afeto,
Obrigado!

Pelo perdão que o teu olhar resume,
Por tua formosura sem pecado,
Por teu amor sem ódio e sem ciúme,
Obrigado!

Por no jardim da noite, a horas más,
A tua aparição não ter faltado,
Pelo teu braço de silêncio e paz,
Obrigado!

Por não passar um dia em que eu não diga
- Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga.
Obrigado!

E tu, que hoje és meu íntimo contraste,
Ó mão que beijo por me haver cegado!
Ai! Pelo sonho intato que salvaste,
Obrigado! Obrigado! Obrigado!

REVELAÇÃO ( Pedro Homem De Mello )

 Tinha quarenta e cinco e eu, dezesseis.

Na minha fronte, indômitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.

Contavam dela: - Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco e eu, dezesseis.
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.

Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!

Pela última vez foste mulher.
E eu, pela vez primeira, fui um homem!

POEMA ( Pedro Homem De Mello )

 Noite. Fundura. A treva

E mais doce talvez.
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.

Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.

A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.

Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido.

Pedro Homem De Mello, in POEMAS (1964-1979)

 A chuva, sensualíssima, procura

Embebedar as folhas e as raízes.
Verga meus ombros, prende-me a cintura.
Respira com as árvores felizes.
E feminina, feminina, actua
De modo a encher de gozo a hora em que vivo.
A minha carne entrego-lha. Está nua!
Porque sou másculo é que sou cativo.
Aceito a chuva. Sorvo-a! Não discuto
O som libidinoso do seu pranto.
E, como a interromper sinais de luto,
Sorrio. Fico remoçado. Canto!
E canto o amor, o amor das mães solteiras
- Amor sem medo, amor sem fingimento.
E canto, ainda, todas as bandeiras
Que pedem vida aos músculos do vento!

XIX ( Lília Tavares )

 Água

é a palavra
que acorda em mim o eco
misterioso do feto.
Desperta em mim
a bruma e o silêncio
dos labirintos íngremes
da alma.

Água
é a palavra
que evoca em mim a fonte
inicial do éden
perdido bucólico lustral.

Água
é a palavra
eterna elementar.

Alma
é a palavra.

XVIII ( Lília Tavares )

 Algures dentro de mim

uma nascente.
A merecê-la que cântaro?
Que canto?

Sinuoso
vertente
precário
o trilho das palavras

A dor transborda
A sede permanece.

REFÚGIO ( Lília Tavares )

 Hoje acordei com a dor das árvores;

estou de pé e o meu tronco sustém
o vazio e a solidão dos ramos
côncavos de espera,
impacientes de ternura.
Quero o bracejar dos pássaros,
ser refúgio dos ventos que me procuram,
tornar-me na folhagem que te abriga,
ser o ninho na tua noite, aberto
com a inquietação e a serenidade
dos rumores das aves mais tardias.
Não, desta vez não vou ...

Maria Teresa Horta, in ESTRANHEZAS (D. Quixote, 2018)

Não me exijam
que diga
o que não digo
 
não queiram
que escreva
o meu avesso
 
não ordenem
que eu acene
o que recuso
 
não esperem
que me cale

e obedeça 



DIVERSAS ( Nina Rizzi )

 o êxtase é um

vê-la

(colados os corpos

sou o seu profundo)

não abro mão da maravilha

: (minha) condição feminina

prolongar prazeres

como não a dor

 

senhores (minha senhora), não há nada como

a vida clitoriana

en(sf)trega em tribal

 

ademais, nada sabe a ciência do íntimo

— o meu

: n'ela o prazer é um canto

curva entre ossos

maciez rugosa

é maresia

pontos em gostos gemidos

gritos e gozos


27/09/2025

DIA-A-DIA ( Líria Porto )

 domingo

ia à missa

 

segunda

rezava o terço

 

na quinta

maria das quantas

limpava o quarto

e punha o lixo

na cesta

 

no sábado

vinha um soldado

tirar-lhe as teias

da aranha

 

nu tempo restante