07/02/2026

8 ( Manoel de Barros ) in livro "Poesia" (1947), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 A boca está aberta, seca e escura 

De raízes mortas
Encontro restos de orvalho 
No rosto da terra, e os bebo

Ao silêncio do enxofre que penetra 
Deito-me para germinar
Ouço fluir a seiva 
Ouço o caule crescer

Do ventre que gesta sob ramas 
Uma flor de moliços depois 
Irá comendo o contorno dos lábios 
E as mãos sem despedidas.

Corpo em árvore feito 
Serei como talha de pedra 
Na terra, com molduras de fresco 
E hortênsias…

Ervas tolhiças crescerão 
Nos interstícios do ser 
E o que foi música e sede de sarças 

Há de ser pasto de águas