A maçã na mesa: pomo de discórdia.
Abuso da minha inteligência
porque quero conhecê-la com dentes,
escavá-la até a longínqua estrela.
Saliva a saliva
procurar-lhe nomes,
no afunilado umbigo aprofundar a língua.
A presença hierática pede respeito
mas profano-a:
tenho de escolher entre ser
boa ou má,
quebrar a dormência — que não
para bela adormecida fui nascida!
Ouso, caio,
começo de novo o mundo,
exilo da fruta o sabor do amor celeste —
sou (por fim) mortal.
Já agora quero a brilhante, a vermelha, a do poente,
e nem Ládon (o dragão) ma impede,
neste jardim de Efemérides -
se não é do pomo d'ouro que me socorro!
Debaixo da macieira
(ah dourada mediocridade!)
a sombra saboreio da vida ufana.
Não aguardo, com Arthur,
que os cavaleiros me livrem
do jugo estranho, e nem vou
(a pé, com Merlim)
aprender mágica no pomar.
Quero conhecer o mal e suas ramas!
