04/02/2026

MAÇÃ ( Maria Lúcia Dal Farra ) De Livro de Auras, 1994.

 A maçã na mesa: pomo de discórdia.

Abuso da minha inteligência
porque quero conhecê-la com dentes,
escavá-la até a longínqua estrela.
Saliva a saliva
procurar-lhe nomes,

no afunilado umbigo aprofundar a língua.

 

A presença hierática pede respeito
mas profano-a:
tenho de escolher entre ser
boa ou má,

quebrar a dormência — que não
para bela adormecida fui nascida!

 

Ouso, caio,

começo de novo o mundo,

exilo da fruta o sabor do amor celeste —

sou (por fim) mortal.

Já agora quero a brilhante, a vermelha, a do poente,

e nem Ládon (o dragão) ma impede,

neste jardim de Efemérides -

se não é do pomo d'ouro que me socorro!

 

Debaixo da macieira

(ah dourada mediocridade!)

a sombra saboreio da vida ufana.

Não aguardo, com Arthur,

que os cavaleiros me livrem

do jugo estranho, e nem vou

(a pé, com Merlim)

aprender mágica no pomar.

Quero conhecer o mal e suas ramas!