06/07/2026

GRAMÁTICA DA NOITE ( Laís Araruna de Aquino )

 A noite desce inescrutável

as estrelas são efígies destituídas de rosto

no vento, sopram signos diáfanos,

arredios como serpentes não encantadas

em todo o horizonte, amontoa-se o espólio

da ausência, essa forma que toma

o que foi e o que não será e jaz

na vala entre as coisas circundantes e teu corpo

(na soleira do ser,

a vigência do nada espreita)

entre sombras sem substância,

o pensamento divaga como um bote

cujo laço foi rompido

mas, desde que a vida se recusou imaginada,

o drama se deslocou para trás do palco,

entre mecanismos e metalinguagem

o corcel trôpego do teu espírito

encontra espelhos que conduzem

ao claustro na noite larga

é preciso retornar à planície

dos fatos e dos homens, tendo acima os caminhos aéreos

que as correntes frias e as andorinhas traçam

sim, é preciso sempre retornar das torres

onde a loucura se refugia,

onde toda voz é um eco,

e o vento é um látego que fustiga

escuta o uivo doce das palmeiras,

o orvalho nascendo sobre as pétalas da grama,

sem esperar de deus o canto

os pilares da noite suportam todo o vazio,

deixando-te os ombros para o pouso

de mãos tênues e pássaros

desde que caíste no irremediável,

estás destinado ao nunca mais

abandona-te a este ofício –

respiras, logo dissipas

este sopro breve de vida

mas, sob a asa lépida do instante,

faz – demoradamente – a tua morada