A noite desce inescrutável
as estrelas são efígies destituídas de rosto
no vento, sopram signos diáfanos,
arredios como serpentes não encantadas
em todo o horizonte, amontoa-se o espólio
da ausência, essa forma que toma
o que foi e o que não será e jaz
na vala entre as coisas circundantes e teu corpo
(na soleira do ser,
a vigência do nada espreita)
entre sombras sem substância,
o pensamento divaga como um bote
cujo laço foi rompido
mas, desde que a vida se recusou imaginada,
o drama se deslocou para trás do palco,
entre mecanismos e metalinguagem
o corcel trôpego do teu espírito
encontra espelhos que conduzem
ao claustro na noite larga
é preciso retornar à planície
dos fatos e dos homens, tendo acima os caminhos aéreos
que as correntes frias e as andorinhas traçam
sim, é preciso sempre retornar das torres
onde a loucura se refugia,
onde toda voz é um eco,
e o vento é um látego que fustiga
escuta o uivo doce das palmeiras,
o orvalho nascendo sobre as pétalas da grama,
sem esperar de deus o canto
os pilares da noite suportam todo o vazio,
deixando-te os ombros para o pouso
de mãos tênues e pássaros
desde que caíste no irremediável,
estás destinado ao nunca mais
abandona-te a este ofício –
respiras, logo dissipas
este sopro breve de vida
mas, sob a asa lépida do instante,
faz – demoradamente – a tua morada