"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
05/07/2026
DEDOS E DEDOS ( Vasco Gato ) in Um Mover De Mão; Assírio & Alvim, 2000
ASTUTO ( Vânia Melo )
O Amor está arrumando um jeito
de morar em mim, no peito,
O amor não para, não avisa nem nada.
antes que se vista a melhor roupa,
o amor já fez tocaia,
o amor está pronto,
o amor me aguarda…
me benze,
se protege
e ataca.
EU TENHO ESCÁPULAS ( Maria Luiza Machado )
são ossos
ou músculos
ou cartilagens
– na verdade
eu não entendo nada
de anatomia –
que me parecem umas asas
nas costas
só descobri que as tinha
há algumas semanas
quando me atrevi
a me vasculhar
frente a um espelho
eu tenho medo de espelhos
os evito desde que
por causa deles achei
umas muitas linhas brancas na barriga
e furos enormes nas coxas
mas gostei de descobrir minhas asas
olho como se movimentam
dependendo do que faço com os braços
imagino agora qual forma
devem estar tento
enquanto escrevo sobre
meu reflexo
por tanto inominável
por tanto tempo nunca chamado
de
meu corpo
ÚTERO ( Bárbara Uila )
De baixo de sete
peles
útero
frente de sete cores
cabeça
guiada
no pulo do galo
cristais no
caminho
na rua estreita
encruzilhada
ponho sua prenda
e vazo
não olho para trás
não pode
sigo no passo
apertado
vento
vulto
raio
FORNADA ( Carollini Assis )
No preparo do pão
ASTRO ( Yasmin Morais )
Minha pele envolve-se na noite;
Adorno-me em arrecifes de estrelas;
Teço a carne imberbe em limos cintilantes;
E pertenço a ti, que nas fibras de meu pertencimento;
Aloja-se astro, em morada.
Meus pés findáveis tateiam a infinitude das Eras;
Regresso ao teu leito como uma Adhara flamejante;
E de todas as amantes,
Reivindico os domínios do teu Céu.
Meu corpo agarra-se à vestígios de tua poeira cósmica;
Tu, que te vais sem hora,
E me deixas rainha-absoluta,
Nos átrios de estrelas nuas;
Cadentes; clementes, de um zelo insone,
E insolente.
Aguardo o regresso, eclosões no Infinito,
De teus lábios, famintos — às bordas de minha galáxia.
ANDRÔMEDA ( Yasmin Morais )
Estive acorrentada às rochas,
Que à minha carne insólita,
Foram talhadas.
Aprisionaram-me a alma em calcários.
Eu, fêmea-abrupta,
Tentei desvencilhar-me ao encalço,
De uma noite profunda.
Desejaram manter-me cativa,
Em minha própria floresta.
Esqueceram-se de que abrigo,
Os portais de Eubeia.
Sou a mítica criança,
Esculpida em mármore negro.
No brandir indômito dos desejos,
Edificarei o meu reino.
Assento-me rainha dourada,
No trono de uma terra queimada.
Sou das fêmeas que alçam voo,
No chifre da África.
ESPASMO ( Carollini Assis )
“Não sou teu amor”
disse-me sério, lascivo.
Quase choro.
Sorri.
