05/07/2026

DEDOS E DEDOS ( Vasco Gato ) in Um Mover De Mão; Assírio & Alvim, 2000

voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.
inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.
acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem
quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

ASTUTO ( Vânia Melo )

 O Amor está arrumando um jeito

de morar em mim, no peito,

em mim, na alma.

O amor não para, não avisa nem nada.


Quando se percebe e antes que se aprume,

antes que se vista a melhor roupa,

o amor já fez tocaia,

o amor está pronto,

       o amor me aguarda…

                  me benze,

                           se protege

                                      e ataca.

EU TENHO ESCÁPULAS ( Maria Luiza Machado )

 são ossos

ou músculos 

ou cartilagens

– na verdade

eu não entendo nada

de anatomia –

que me parecem umas asas 

nas costas

só descobri que as tinha 

há algumas semanas

quando me atrevi

a me vasculhar 

frente a um espelho


eu tenho medo de espelhos

os evito desde que 

por causa deles achei 

umas muitas linhas brancas na barriga 

e furos enormes nas coxas


mas gostei de descobrir minhas asas


olho como se movimentam

dependendo do que faço com os braços


imagino agora qual forma

devem estar tento

enquanto escrevo sobre

meu reflexo

por tanto inominável 

por tanto tempo nunca chamado 

de 

meu corpo

ÚTERO ( Bárbara Uila )

 De baixo de sete

peles

útero

frente de sete cores

cabeça

guiada

no pulo do galo

cristais no

caminho

na rua estreita

encruzilhada

ponho sua prenda

e vazo

não olho para trás

não pode

sigo no passo

apertado

vento

vulto

raio


FORNADA ( Carollini Assis )

 No preparo do pão

demora-se o padeiro
enquanto tuas mãos
apalpam meu corpo inteiro

O aroma invade o quarto
já não sinto teu cheiro
só a língua-fermento
trilhando desejos.

Os lençóis em desalinho
como fôrma não untada
tua imagem cresce em meu peito
ânsia de ser massa modelada

O apito, aviso sonoro
não demora a ecoar
no gemido de teus lábios
sei que vagas ao luar

Eis pronta a fornada
outro aroma no bordel
oh, amor, estou quentinha
cubra-me de canela e mel.

ASTRO ( Yasmin Morais )

 Minha pele envolve-se na noite;

Adorno-me em arrecifes de estrelas;

Teço a carne imberbe em limos cintilantes;

E pertenço a ti, que nas fibras de meu pertencimento;

Aloja-se astro, em morada.

 

Meus pés findáveis tateiam a infinitude das Eras;

Regresso ao teu leito como uma Adhara flamejante;

E de todas as amantes,

Reivindico os domínios do teu Céu.

 

Meu corpo agarra-se à vestígios de tua poeira cósmica;

Tu, que te vais sem hora,

E me deixas rainha-absoluta,

Nos átrios de estrelas nuas;

Cadentes; clementes, de um zelo insone,

E insolente.

 

Aguardo o regresso, eclosões no Infinito,

De teus lábios, famintos — às bordas de minha galáxia.

ANDRÔMEDA ( Yasmin Morais )

 Estive acorrentada às rochas,

Que à minha carne insólita,
Foram talhadas.

 

Aprisionaram-me a alma em calcários.
Eu, fêmea-abrupta,
Tentei desvencilhar-me ao encalço,
De uma noite profunda.

 

Desejaram manter-me cativa,
Em minha própria floresta.
Esqueceram-se de que abrigo,
Os portais de Eubeia.

 

Sou a mítica criança,
Esculpida em mármore negro.
No brandir indômito dos desejos,
Edificarei o meu reino.

 

Assento-me rainha dourada,
No trono de uma terra queimada.

 

Sou das fêmeas que alçam voo,
No chifre da África.

ESPASMO ( Carollini Assis )

 “Não sou teu amor”

disse-me sério, lascivo.

Quase choro.

Talvez valesse o grito
dentro de tua boca
úmida.

Sorri.

Esqueça o amor,
meu bem.

Prenda tua língua à minha,
beba a vertigem da cortesã.