29/08/2025

NÓS VOLÁTEIS ( Lia Vieira )

 Billie Holliday e aquela solidão arretada,

numa noite de sábado.
O feriadão levara as pessoas.
Para disfarçar o tempo, queimou um comercial
e ligou a tevê sem o som.
Para ocupar suas idéias,
um variação de literatura esotérica.
Nesta digressão filosófica, o teto começou a vibrar.
Atentou para o ruído e
percebeu que a libido no apartamento de cima começara.

Estavam literalmente fodendo na sua cabeça.
Aqueles rangidos e gemidos ritmados
lhe despertavam desejos adormecidos até então.
Seu corpo retesou-se e arqueou-se em ondas, enquanto a
dupla alienígena
contemplava a encenação.

Lá fora, a vida fervilhava, e ela
solitariamente pegava uma carona
nesse trem de fantasias.

TESÃO ( Regina Amaral )

 Teu falo é um facho

Fascinante.
Eu me encrespo
Sempre...
Teu facho é um fato
irreversível!

27/08/2025

E AGORA? ( Flora Figueiredo )

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PREFERÍVEL ( J. G. de Araújo Jorge )

 Por que depois

se lastimar?

É preferível amar
e arrepender-se,

que se arrepender
de não amar.

TEU NOME MAIS SECRETO ( Waly Salomão )

 Só eu sei teu nome mais secreto

Só eu penetro em tua noite escura
Cavo e extraio estrelas nuas
De tuas constelações cruas

Abre-te Sésamo! – brado ladrão de Bagdá

Só meu sangue sabe tua seiva e senha
E irriga as margens cegas
De tuas elétricas ribeiras,
Sendas de tuas grutas ignotas

Não sei, não sei mais nada.
Só sei que canto de sede dos teus lábios
Não sei, não sei mais nada.

26/08/2025

NÓS ( Ana Martins Marques )

 E cá

estamos
eu
pronome
tu
pronome
no lugar de
nós

(Ardendo
procuro teu corpo
mas só encontro palavras:
estas)

A INVENÇÃO DE UM MODO ( Adélia Prado )

 Entre paciência e fama quero as duas,

pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo’.
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

ENDECHA DAS TRÊS IRMÃS ( Adélia Prado )

 As três irmãs conversavam em binário lentíssimo.

A mais nova disse: tenho um abafamento aqui,
e pôs a mão no peito.
A do meio disse: sei fazer umas rosquinhas.
A mais velha disse: faço quarenta anos, já.
A mais nova tem a moda de ir chorar no quintal.
A do meio está grávida.
A mais cruel se enterneceu por plantas.
Nosso pai morreu, diz a primeira,
nossa mãe morreu, diz a segunda,
somos três órfãs, diz a terceira.
Vou recolher a roupa no quintal, fala a primeira.
Será que chove?, fala a segunda.
Já viram minhas sempre-vivas?, falou a terceira,
a de coração duro, e soluçou.
Quando a chuva caiu ninguém ouviu os três choros
dentro da casa fechada.

SUGESTÃO ( Thiago de Mello )

 Antes que venham ventos e te levem

do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.

Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.

Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde possas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.

Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.

Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.

Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.

AVESSO ( Alice Ruiz )

 Pode parecer promessa

mas eu sinto que você é a pessoa
mais parecida comigo
que eu conheço,
só que do lado do avesso.
 
Pode ser que seja engano
bobagem ou ilusão
de ter você na minha,
mas acho que com você eu me esqueço
e em seguida eu aconteço.
 
Por isso deixo aqui meu endereço
se você me procurar
eu apareço,
se você me encontrar
te reconheço.

CHUPANDO MANGA ( Maria do Carmo Ferreira )

 No pé, tem mais sabor.

No próprio galho, mais.
Barra de atalho:
quintal de Cataguases
(no Largo do Rosário).
A menina trepada
no pé de manga espada
coleciona esqueletos
de caroços de manga
pendidos pelo cabo.
É preciso ter prática.
A manga bem madura
se for tocada, cai,
desperdiça, esborracha
no chão t’apetecível
que fica pra mais tarde.
Agora é contorná-la
como se faz amor –
pondo as mangas de fora:
as que resistem ao tato
as que não cheiram fundo
as que não pintam e bordam.
Esta vai, de mordida
em mordida, sua pele
deixa ver a cor viva
(entre coral, vermelho)
que os dentes vão lanhando.
Dulcíssimo, seu sumo
pelo queixo, pescoço,
ungindo de perfume
como a Arão, as barbas.
Fibra a fibra, o caroço
depois de bem lavado
(só de saliva e língua)
merece ser penteado.
Tudo está nos conformes:
a manga, enorme, pesa
como um copo de suco
no arregalado estômago.
Resta fazer a sesta
no gancho de dois galhos,
cabeça recostada
ao tronco da mangueira
visando um céu sem conta
de pintalgadas prendas.
E sonhar outras mangas
já sendo encaçapadas
(logo mais, pelas tantas)
que vão deixando à mostra
seus raios-X aos pássaros.

POSTIGO ( Helena de Figueiredo )

 Nos seixos brancos

a redondez do tempo
habitáculo do amor

refúgio onde me abrigo
mas onde fiz um postigo
de forma propositada:

preciso falar com o vento
seguir a canção dos pássaros
respirar a madrugada.

IMPULSO ( Helena de Figueiredo )

 Nem sempre o que apraz dizer

é inverso ao desejo de o fazer

bom seria que o espinho continuasse na rosa
do sangue soubéssemos apenas a cor
e dos vendavais, a notícia dos jornais.

De todas as sensações qual a melhor, não sei
no copo cheio, o líquido derrama ao simples toque
a sede não existe, dá o mote
e o que era tão conciso soa a efémero
e treme o coração
uma vontade louca de abraçar o impossível
afasta o medo

e deixamos a certeza do rochedo
para seguir nas asas de um falcão.

O PRINCÍPIO ( Helena de Figueiredo )

 A língua passeia pelo céu da boca

o som ajeita-se
no gesto

e falas

a tua voz é um manto de rosas
na saliva trazes ouro
caminhos de encanto

e a noite cai
sem que nos tivéssemos apercebido.

Ensinaram-me, que o principio era o verbo

digo:
o princípio são teus lábios
a mensagem que amo entender.

DOMINGO ( Helena de Figueiredo )

 Semana de desejo adiado

gestos, rotinas, tempo contado
hoje, enfim, vejo-me nua
quero ser tua.

Que se confundam os olhos
os sussurros
a pele
que surja uma só impressão digital
uma mistura ansiosa de vontades
enleadas, como a hera do quintal.

Espreito cedinho p´la janela
pressinto teus passos na calçada
a hora é chegada.

Abro-te a porta, devagar
recuas, pareces duvidar
é domingo meu amor
podes entrar.

DE CARA LAVADA ( Martha Medeiros )

 hoje me desfiz dos meus bens

vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

MULHER ( Martha Medeiros )

 “Quem você pensa que é?”

perguntou pra mim de queixo em pé…
Sou forte,
fraca,
generosa,
egoísta,
angustiada,
perigosa,
infantil,
astuta,
aflita,
serena,
indecorosa,
inconstante,
persistente,
sensata e corajosa,
como é toda mulher,
poderia ter respondido,
mas não lhe dei essa colher.



DÁ-ME TUA MÃO ( Gabriela Mistral )

 Dá-me tua mão, e dançaremos;

dá-me tua mão e me amarás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flora, e nada mais.

O mesmo verso cantaremos,
no mesmo passo bailarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais.

Chamas-te Rosa e eu Esperança;
Porém teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina, e nada mais.

  

A PALHINHA ( Gabriela Mistral )

 Havia uma menina de cera;

mas não era uma menina de cera,
só um feixe de trigo no canteiro.
Mas não era feixe nem pilha,
só uma tesa flor de maravilha.
Tampouco era a tal flor, penso que ela
era um pequeno raio de sol na janela.
Porém sequer um raio, como fui notar,
mas uma palhinha dentro do meu olhar.
Acheguem-se para ver como perdi inteira,
nesta lágrima, minha festa verdadeira.

INÚTIL ( Olga Savary )

 Se fosses estrela

eu seria esse bocado de céu
que te sustém.

Se fosses alga
eu seria essa vagarosa vaga
te embalando vagarosamente.

Se fosses um vago som
ou tom no fim da tarde
eu seria esse não imaginado vento
te desencadeando.

Mas, de que vale pensar nisso
se te busco e não sei quem és
se me esperas e não sabes quem sou.

TRANQUILIDADE NA TARDE ( Olga Savary )

 Ah, derramar-me líquida sobre o mar

– ser onda indefinidamente –
esperar pela primeira estrela
e dela ser apenas
espelho.

QUEDA ( Olga Savary )

 Negro crepúsculo mergulhou em meu avesso

e na goela de minhas tempestades
o pó de meus céus de vidro veio ao chão.
O tempo? Findo; só meu silêncio é o pêndulo
– compasso de minhas contradições.
Desenhei com cuidada distância
no olho fechado do tempo meu esperar de nada
mas mesmo para o quase nenhum esperar de nada
só haverá a esterilidade muda das poças d’água.
Fui castigada com a impossibilidade de meus voos
e da antiga competência de minhas asas, nada.
Mas não há revolta. Fico então resgatada
com meu prazer amargo de existir não existindo
– tudo é remorso.

AO FÓSFORO ( José Paulo Paes )

 Primeiro a cabeça

o corpo depois

se inflamam e acendem

o forno
do pão

a luz
na escuridão

a pira
da paixão

a bomba
da revolução.

Sim, mas vamos à coisa concreta:

você fala de fósforos
ou de poetas?

REVERBERAÇÃO ( Lya Luft )

 O destino trama os dias

e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
– ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)


CANÇÃO DA FALSA ADORMECIDA ( Lya Luft )

 Se te pareço ausente, não creias:

hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar

ÔNUS ( Lya Luft )

 A esperança me chama,

e eu salto a bordo
como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas,
escolho o imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio.

Seja como for, eu vou,
pois quase sempre acredito:
ando de olhos fechados
feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saio ferida
ou quase afogada,
mas não desisto.

A dor eventual é o preço da vida:
passagem, seguro e pedágio.

DINORAH, DINORAH ( Ivan Lins / Vitor Martins )

 Quando a turma reunia

Alguém sempre pedia
Ah! Dinorah, Dinorah
E o malandro descrevia
E logo já se via
Ah! Dinorah, Dinorah

E até que ela chegasse a um motel de classe
Ah! Dinorah, Dinorah
Dava um frio na barriga e
Pé pra muita briga
Ah! Dinorah, Dinorah

E nos espelhos ela se despe
Dança nos olhos uma chacrete
E o pessoal na pior
Repete!

Mas o verdadeiro fato
Está dentro do quarto
Ah! Dinorah, Dinorah
Ele abre o seu armário e
Vê no calendário
Ah! Dinorah, Dinorah

E se abraça em frente a ela
O terno, o corpo dela
Ah! Dinorah, Dinorah
Desenhando na lapela
A boca e o beijo dela
Ah! Dinorah, Dinorah



CANÇÃO DAS MULHERES ( Lya Luft )

 Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais. Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta. Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor. Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais. Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa.
 
Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais. Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo: “Olha que estou tendo muita paciência com você!” Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça. Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: “Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!” Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo: “Pôxa, mais um?” Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire. Que o outro – filho, amigo, amante, marido – não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher.



 

25/08/2025

PRAIA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Os pinheiros gemem quando passa o vento

O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.

IX ( Hilda Hilst )

 Ilharga,

osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas vida que esmorece. E retomas
Luta, ascese, e as mós vão triturando
Tua esmaltada garganta. Mesmo assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas.
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.