26/08/2025

CHUPANDO MANGA ( Maria do Carmo Ferreira )

 No pé, tem mais sabor.

No próprio galho, mais.
Barra de atalho:
quintal de Cataguases
(no Largo do Rosário).
A menina trepada
no pé de manga espada
coleciona esqueletos
de caroços de manga
pendidos pelo cabo.
É preciso ter prática.
A manga bem madura
se for tocada, cai,
desperdiça, esborracha
no chão t’apetecível
que fica pra mais tarde.
Agora é contorná-la
como se faz amor –
pondo as mangas de fora:
as que resistem ao tato
as que não cheiram fundo
as que não pintam e bordam.
Esta vai, de mordida
em mordida, sua pele
deixa ver a cor viva
(entre coral, vermelho)
que os dentes vão lanhando.
Dulcíssimo, seu sumo
pelo queixo, pescoço,
ungindo de perfume
como a Arão, as barbas.
Fibra a fibra, o caroço
depois de bem lavado
(só de saliva e língua)
merece ser penteado.
Tudo está nos conformes:
a manga, enorme, pesa
como um copo de suco
no arregalado estômago.
Resta fazer a sesta
no gancho de dois galhos,
cabeça recostada
ao tronco da mangueira
visando um céu sem conta
de pintalgadas prendas.
E sonhar outras mangas
já sendo encaçapadas
(logo mais, pelas tantas)
que vão deixando à mostra
seus raios-X aos pássaros.