06/08/2025

RETRATO DE MINHA MÃE COSTURANDO ( Zila Mamede )

 A máquina move

bobinas fios 

a máquina fixa 

flor e atavios 

Corra essa correia 

de couro curtido 

da roda ao pedal 

como um desafio 

Dance a inquieta agulha 

em louco vai-e-vem 

cutelo e fagulha 

de calor, de bem 

A máquina e 

o veio: 

Aranha a tecer 

varizes inchadas 

longo anoitecer  

A máquina e 

o tempo: 

luz de lampião 

pedal madrugada 

cheiro quente: o pão 

A máquina e 

as linhas: 

branco em carretel 

chama de pavio 

na fumaça: o mel 

A máquina e 

o berço: 

filho vai nascer 

perna pedalando 

filha a adormecer 

A máquina: 

morna tessitura 

de lençóis-colchões 

dentes e cangalhas 

presos nos mourões 

A máquina: 

texto-documento 

na execução 

de mortalhas: anjos 

em azul de caixão  

A máquina: 

trapézio de infância 

caos da adolescência 

vestida sem rendas: 

Lúcida indigência 

A máquina: 

lúdico artefato 

de abstrato museu 

(a avó, a bisavó) 

do tempo hoje meu.