A máquina move
bobinas fios
a máquina fixa
flor e atavios
Corra essa correia
de couro curtido
da roda ao pedal
como um desafio
Dance a inquieta agulha
em louco vai-e-vem
cutelo e fagulha
de calor, de bem
A máquina e
o veio:
Aranha a tecer
varizes inchadas
longo anoitecer
A máquina e
o tempo:
luz de lampião
pedal madrugada
cheiro quente: o pão
A máquina e
as linhas:
branco em carretel
chama de pavio
na fumaça: o mel
A máquina e
o berço:
filho vai nascer
perna pedalando
filha a adormecer
A máquina:
morna tessitura
de lençóis-colchões
dentes e cangalhas
presos nos mourões
A máquina:
texto-documento
na execução
de mortalhas: anjos
em azul de caixão
A máquina:
trapézio de infância
caos da adolescência
vestida sem rendas:
Lúcida indigência
A máquina:
lúdico artefato
de abstrato museu
(a avó, a bisavó)
do tempo hoje meu.