A noite muda de lugar em tuas mãos.
Por vezes busco teu nome em minha pele.
Teu olhar travesso soletra outros sabores.
Uma quentura de ervas, uma possessão
de mitos nos manjares de tua cozinha.
O fogo se aproxima de meu armazém de pólvora.
Com um latejo veloz e uma respiração
cortada com as facas que guardo debaixo
dessa almofada úmida arqueada na palavra.
Como se o tempo fosse mais do que fumaça,
eu me aproximo da cidade sitiada de tuas coxas.
Muito além de tua lenda, eu te quero, muito além
do destino que os deuses confiam a teus pés.
Eu te quero muito além da notícia do jornal,
da mútua condição de humildes mortais.
Mesmo sem tempo para nos amarmos demasiado,
dúvida e certeza expiram em nosso calendário.
E eu te quero muito além do instante náufrago
onde algum dia vimos rendido nosso desejo.