07/02/2026

ZONA HERMÉTICA ( Manoel de Barros ) in livro "Poesia" (1947) 'Poesia completa: Manoel de Barros'. SP: Editora Leya, 2010.

 De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos; 

Uma remembrança de mil novecentos e onze; 
Um rosto de moça cuspido no capim de borco; 
Um cheiro de magnólias secas. O poeta 
Procura compor esse inconsútil jorro; 
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo 
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto: 
O homem não se desvendou, nem foi atingido: 
Na zona onde repousa em limos 
Aquele rosto cuspido e aquele 
Seco perfume de magnólias, 
Fez-se um silêncio branco. E aquele 
Que não morou nunca em seus próprios abismos 
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas 
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto 
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.