10/04/2026

O BELO NAVIO ( Charles Baudelaire ) in As Flores do Mal, Assírio & Alvim; fevereiro de 2025, pp. 215 - 217

 Ó mole encantadora! Eu quero descrever-te

As belezas que adornam tua mocidade;
    Quero pintar essa beleza
Que sabe aliar a infância com a maturidade.

Quando varres o ar com a tua saia larga
Pareces uma nau, bela, a fazer-se ao largo,
    Ondeando, com as velas ao vento,
Seguindo um ritmo doce e preguiçoso e lento.

Sobre o pescoço forte e esses ombros largos,
Meneia-se a cabeça, exibe estranhas graças;
    Com um ar plácido e triunfante
Segues o teu caminho, imponente criança.

Ó mole encantadora! Eu quero descrever-te
As belezas que adornam a tua mocidade;
    Quero pintar essa beleza,
Que sabe aliar a infância com a maturidade.

O teu colo que avança e soergue o tecido,
Esse triunfal colo é como um belo armário
    De portas abauladas, claras,
Que, tal como os escudos, atraem os brilhos;

Escudos provocadores, com bicos cor-de-rosa!
Armário com segredos, cheio de boas coisas,
    De vinhos, perfumes, licores
Fazendo delirar mentes e corações!

Quando carres o ar com a tua saia larga,
Pareces uma nau, bela, a fazer-se ao largo,
    Ondeando, com as velas ao vento,
Seguindo um ritmo doce e preguiçoso e lento.

As tuas pernas, sob anáguas que se agitam,
Atormentam desejos obscuros, irritam-nos,
    Tal como duas feiticeiras
Mexendo um filtro negro em profunda caldeira.

Teus braços, que não temem os precoces hércules,
São das nédias jibóias os sólidos émulos,
    Feitos pra estreitar tenazmente
O teu amante, até o gravares no coração.

Sobre o pescoço forte e esses ombros largos,
Meneia-se a cabeça, exibe estranhas graças;
    Com um ar plácido e triunfante
Segues o teu caminho, imponente criança.