a manhã levanta do horizonte
tenho vontade de escrever e a cabeça não dói
está nublado e chove um pouco como se
deus molhasse as pontas secas
do coração entrincheirado da véspera
ontem quando olhei o céu estrelado
só pude ver o vazio na cavidade do meu peito
mas a manhã veio como uma certeza e uma novidade
agora a água cessou, um hino se inicia
os pássaros dão glória e se lançam no azul
deus abre e fecha a sua obra
ou são os homens que esquecem a criação?
ao poeta cabe apanhar a luz do ser
e dar-lhe o cristal do nome, onde a imagem fulgura
e deixa-se permanecer como um estremecimento –
compete atentar para a anunciação,
os raios do sol quebrando numa geometria
concreta sobre a folhagem,
e deixar que a nossa alma se encha
de alegria ao crepúsculo, ao refluxo das águas
ou à chegada do sono após a exaustão
às vezes, lembramos nossos corpos imperfeitos
e sentimos exalar a tristeza da finitude
mas damos graças – ou deveríamos dar –
por ter acontecido de estarmos aqui
como um lampejo entre os dias e a noite,
entre um afeto e uma cicatriz,
entre Sêneca e Walser,
as flores do campo e o estio,
sendo por tudo tocados nesta alternância
e a tudo tocando
aconteceu de estarmos aqui,
neste instante fecundo,
salvo para sempre porque votado ao esquecimento e ao fim –
ao invés de vagarmos anonimamente e sem rumo
como a poeira eterna do universo
