22/04/2026

ODE À MANHÃ ( Laís Araruna de Aquino )

a manhã levanta do horizonte

tenho vontade de escrever e a cabeça não dói

está nublado e chove um pouco como se

deus molhasse as pontas secas

do coração entrincheirado da véspera

 

ontem quando olhei o céu estrelado

só pude ver o vazio na cavidade do meu peito

mas a manhã veio como uma certeza e uma novidade

 

agora a água cessou, um hino se inicia

os pássaros dão glória e se lançam no azul

 

deus abre e fecha a sua obra

ou são os homens que esquecem a criação?

ao poeta cabe apanhar a luz do ser

e dar-lhe o cristal do nome, onde a imagem fulgura

e deixa-se permanecer como um estremecimento –

compete atentar para a anunciação,

os raios do sol quebrando numa geometria

concreta sobre a folhagem,

e deixar que a nossa alma se encha

de alegria ao crepúsculo, ao refluxo das águas

ou à chegada do sono após a exaustão

às vezes, lembramos nossos corpos imperfeitos

e sentimos exalar a tristeza da finitude

mas damos graças – ou deveríamos dar –

 

por ter acontecido de estarmos aqui

como um lampejo entre os dias e a noite,

entre um afeto e uma cicatriz,

entre Sêneca e Walser,

as flores do campo e o estio,

sendo por tudo tocados nesta alternância

e a tudo tocando

 

aconteceu de estarmos aqui,

neste instante fecundo,

salvo para sempre porque votado ao esquecimento e ao fim –

ao invés de vagarmos anonimamente e sem rumo

como a poeira eterna do universo