18/04/2026

NO FUNDO ( Edgardo Xavier )

 Parou em ti o meu olhar de fome

a minha angústia, o insulto
o meu querer morrer quebrantado
para voltar como fúria ao teu ventre.

Tive vontade de tumulto
de álcool forte que assim me escorresse e lavasse
que me sujasse na força dos teus dedos
na inclemência de braços, pernas, unhas ou dentes
raiva nas bocas dormentes, tesão, ira, destruição
e o voo torpe em destinos de mau agouro
a dizer da queda, do fogo, do peso do céu
à beira da memória.

Veio de longe a morte soluçada
O galope das bestas na calçada
O derramar da sede nos socalcos da maré
e o subterrâneo gemer de ânsias
como se nos amassemos nesta noite
e não fossemos só destroços no fundo de um uivo.