Vou embalando
meus pássaros feridos,
sussurrando-lhes Vida
enamorando-me de
suas cicatrizes,
contorcendo-me em
suas agonias,
réstias de outrora
onde vou “perdendo o norte”
de mim.
Vou-me procrastinando,
nesta inquietação embriagada
dos dias,
como quem ousa
mordiscar o tempo.
Como se de mim pudessem
nascer as águas, os rios,
a paz,
e os sorrisos límpidos, lindos
imensos, inocentes…
de todas as crianças mortas,
expostas à insanidade da besta
perante a esquizofrenia global
de um mundo,
assassinadas!
Rasgo-me até ao âmago
enquanto bebo o êxtase
ao quebrantamento
das flores
que já não sei, nem contemplo.
Primícias entre os seios,
ventre mutilado de caxemira
na berma do pensamento
enquanto vais tecendo
murmúrios e grinaldas
em meus cabelos revolvidos
de vento norte.
Que direi, meu amor,
que poderei eu dizer?!
Venho da inquietação dos frutos
e na forja de Deus
continuo embalando feridos,
os pássaros
enquanto das mãos
se derrama incessantemente,
o silêncio
como se me doessem até à loucura,
todas as ausências
e esta procrastinação constante de mim
onde me permito morrer um pouco mais
a cada instante
e me embalam felizes,
os pássaros.