29/04/2026

SÍTIO III ( trecho )( Neide Archanjo ) In Todas as Horas e Antes – Poesia Reunida A Girafa, São Paulo, 2004


Era um sonho negro
comprimindo a testa
arrancando novamente o coração
do seu compasso inerte.
Era um tremor primário
desabrochado em meu ventre
descendo embrenhado
chegando acuado estremecido
espraiado.
Era uma égua negra
(em contornos eqüestres)
erguendo à luz da meia-noite
e sobre o metal dos cascos
o corpo úmido
de relincho e espuma
os olhos certeiros
de furor e graça.
(Crescia a égua
e do enorme cio e do enorme salto
emigravam
crinas lumes maravilhas.)

Era negra.
Que me ensinava essa nova paisagem
África América
sangue e raiz alforriados
senão que deveria colher ali
(sob a terra escura do seu corpo escuro)
a híbrida claridade?

Tinha um modo vadio de andar
cheio de panos
as mãos coalhadas de anéis
o pescoço ajaezado
dois olhos de veludo
dois seios
como duas ilhas conjugadas
duras concentradas
num cerne preto
intumescido rutilante.
Sublevadas.
Mais o fogo cruzado
vindo vivo ateado
do fundo de um vulcão
enfurnado entre dois montes
coxas lava ebulição.
Quando dormia o santo vigiava
a noite do seu corpo
uma noite tão antiga
etíope ou persa?
(pele que a cobria)
uma noite tão sensível
larga alta
(manto que a encobria).
Não era noite
era dia.

E quantas andaduras numa só:
passo galope trote salto balanço
ancas molecas num vaivém safado
de mucama
de égua solta no pasto
só passível de caça e resgate
debaixo do laço forte do amor.

E veio égua
estendendo os braços
onde sorriam braceletes de marfim
pulseiras de prata
(ai de mim!)
enigmas segredos
hieróglifos de ouro
tatuagens de mil anos.

Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.

Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.

(Sentada
nua).