08/02/2017

FONTES  ( Lya Luft )
Como fontes que de noite mansamente
boca a boca trocam seus segredos d’ água,
o amor que fosse o transparente afago
da mútua solidão, teria ainda
a lúcida paixão oculta dessas águas. E nós,
trêmulas bocas de fontes sequiosas
deixamos que brotem, fundam-se, retornem,
os silêncios do amor como num lago.

TEMA (Eunice Arruda)


Deliberadamente
utilizamos
todas as zonas erógenas
submissos
aos animais
que transitam a pele
submissos
a nossa disponibilidade
imerecida
sacudida
por buzinas
chuvas repentinas confundindo
as marcas de um caminho já
percorrido.
Deliberadamente
entre suor e grunido
molhado
o ritual foi cumprido.
Só então nos devolvemos.

CANÍCULA (Adélia Prado)


Ao meio dia, deságua o amor
Os sonhos mais frescos e instigantes ;
estou onde estão as torrentes.
Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas
tomado de bananeiras, só bananeiras,
altas como coqueiros.
Chego e é na beira do mar encrespado de correntezas,
sorvedouros azuis.
Há um perigo sobre faixa exígua
que é de areia e é branca
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.

SE EU PUDESSE TRINCAR A TERRA TODA - XXI (Alberto Caeiro) (Heterônimo de Fernando Pessoa)


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento.

Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural.
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva.

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica.
Assim é e assim seja.

07/02/2017

DECLARAÇÃO
(Nara Rúbia Ribeiro)
Fica assegurado o direito à utopia.
E que as armas e os brasões da pátria respeitem
o nosso poder-dever de delírio.

Saibam que o nosso sonho
ganhou força em seus mil ocasos
e que hoje a sua voz
tem contornos de infinito.

Que o homem seja medido pela grandeza do que ama
e que sua estatura moral se registre
pelo tempo em que persevera
no estender de sua mão.

Que o sexo seja concebido sem pecado
e que todo homem seja nascido
do coração da Humanidade inteira.

Que tenhamos a decência de amar o humano
em sua grandeza ímpar, tenha ele a cor,
a dor ou nacionalidade que tiver.

E que nós, os loucos, os poetas
os sonhadores imprestáveis do mundo,
escrevamos um amanhã
que ainda pode ser hoje.




DIFÍCIL FOTOGRAFAR O SILÊNCIO
(Manoel de Barros)
O fotógrafo
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a "nuvem de calça".
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a "nuvem de calça" e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

DESEJO ( Asta Vonzodas )

Dedos
que caminham vagos
em relevos
agora falsos,
prazeres solitários.
Triste cena
a solidão.

ESTRADA DO SOL (Antonio Carlos Jobim & Dolores Duran)


É de manhã
Vem o sol, mas os pingos da chuva
Que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre que me traz esta canção

Quero que você me dê a mão
Vamos sair por aí
Sem pensar no que foi que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
Vamos sair pra ver o sol.
DA SEDUÇÃO DOS ANJOS

(Bertold Brecht)
Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P'ra que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.
(Tradução: Aires Graça)

FLORÊNCIA (Asta Vonzodas)

É só Florência.
Menina Inocência.
Nem tanto, já que na esquina
na casa amarela conhecida, faz
o seu canto.

Florência que nas tardes singelas,
nos cabelos uma rosa amarela,
através do decote do vestido de alças, vermelho,
deixa entrever os bicos dos seios.


E os olhos cobiçosos,
por debaixo da janela a passar,
gulosos ficam ali a pousar.

Abrindo a porta,
a puta se deita na cama,
se desfaz do vestido e se deixa olhar.


Abrindo as pernas longas e bem feitas,
deixa entrever a mata macia de pelos
por onde a gruta sedenta se oferece para
a sede dos homens saciar.


Desfilando pela tarde
a noite adentrando, um a um
vão os fregueses deixando
na cama, ao lado,
o vintém que pela manhã,
o pão irá comprar.

E abre-se a moça, de seios
fartos e perfeitos, bicos duros
para o teto apontando, oferecendo-se
a todos que queiram ali mamar.

Entre as pernas o calor e o cheiro
da fêmea possuída, da puta perdida
que bem sabe como cavalgar.


E quando a noite vai a meio,
despede-se do último romeiro.
Com um sorriso nos lábios,
após seu banho de cheiro,
posta-se novamente à janela
ficando a lua a espiar.

Já não é Florência.
Agora é Inocência, cantando
baixinho uma suave canção.
Pedindo a lua que ilumine o
caminho, pra que rápido chegue
o moço bonito. Seu príncipe encantado.
Que a leve na garupa do fogoso alazão.


Florência, Inocência
Donzela virgem em seu coração.

MOITA (Líria Porto)


queres mesmo vir — pois chega inteiro
não tragas do teu mundo tantos vínculos
nem me trates por judith ou por marília

há coisas que emputecem as mulheres
causam-lhes queimaduras e feridas
são piores bem piores

                       que águas-vivas.

CAOS (Líria Porto)


nas ruas procuro teu rosto
nos rostos procuro teus traços
nos traços procuro teus gestos
nos gestos procuro teus atos
nos atos procuro teu amor
nos amores procuro por ti
e não te acho.

¿HABLAS ESPAÑOL? (Líria Porto)


num dia de domingo ao som de um belo tango
nasceu uma menina boca de morango

cabelos purpurina olhos de quebranto
chamava-se marina e usava um manto

morava numa esquina telhado de amianto
cresceu muito sozinha casou-se com um santo

foi tão infeliz ninguém sabe o quanto
e de tanto tanto e de espanto e sangue

mandou-o sem pesar
pros quintos do inferno.

DIFAMAÇÃO (Líria Porto)


despiu-se da alma dos véus e da pele
ficou carne-viva exposta aos abutres

comeram-lhe os olhos os rins as amígdalas
arrancaram-lhe as tripas as unhas o fígado

na hora do útero reagiu — aqui não
esta é a pátria dos meus filhos.

PÁLPEBRAS ( Líria Porto )"revista Mallarmargens", poemas, vol. 3, nº 9, 9 de janeiro de 2015.


de manhã abro a janela
e deixo o sol penetrar

no corpo da casa

à noite fecho-a de novo
(estrelas ficam lá fora)
eu durmo dentro
do ovo

na lua cheia
não tenho
regras.

06/02/2017

SEM CONHECIMENTO DE CAUSA ( Líria Porto ) in Poesia Para Mudar O Mundo.


quem diz que poesia não tem regras não é mulher
escrevi poemas com sangue nas coxas. 

INSÔNIA (Líria Porto) in "revista Mallarmargens", poemas, vol. 3, nº 9, 9 de janeiro de 2015.


a boca escancarada da noite
os urros do silêncio
as teclas mudas

não tilintam os cristais
não estilhaçam a vidraça
amantes não sussurram
não há sinos de igreja
o mundo acabou
o relógio dorme
o tempo não passa

onde estão os latidos
os galos os gritos
os olhos do sol?

na cama
o corpo exausto
o vazio da tua ausência
e os mil anos desta noite
que nos engole
que nos vomita.

DEFLORAÇÃO ( Líria Porto ) in "Esculturas musicais 14". Zunái - revista de poesia e debates, 26.7.2013.


a terra molhada
exala um perfume
tão próprio das fêmeas
um cheiro de coito
e dentro em pouco
estará inundada
de verdes de brotos
de intumescências.

05/02/2017

ALFORRIA (Isabel Machado)

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SEIOS ( Isabel Machado )


O branco
todo alvo
realça na pele bronze.

No alvo, círculo rosado
ao centro um olho
pedinte, esbugalhado.

Todo ele na palma da mão
na tua mão encaixado
faminto se enrijece
sedento pede tua língua
afoito geme ao contato
feito coito alucinado.

Os dois são felicidade
nas tuas mãos e cuidados
bichos presos, enjaulados
não querendo liberdade.


 


 

CONDIÇÃO DE MULHER ( Maria do Carmo Lobato )

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ODE ÀS NOITES ÍNTIMAS ( Manuel Rodrigues )


As palavras nada proíbem. Quem proíbe,
pouco entende o brilho húmido dos lábios
que se entreabrem, e do pénis as grossas
túmidas veias e a ansiosa glande;
ou ainda, se percebe, os desentende:
quantas meninas houver desflorado, tanta
a sanha de calar o que todos fazem
em cada volta que a Terra dá e nas que deu
e nos biliões que dará, ocultando sob
os telhados e sob as árvores o lutar
de corpos que leva voando no espaço.
De que ter pudor, se dois humanos ensaiam
longamente na boca e pele que se morde
e nos pêlos afagados que se orvalham
a rigidez e a penetração do membro?
A vida também é as mãos apalparem
indagando os seios, o clitóris rodarem
como aos mamilos, para que as femininas
mãos apertem o membro e o masturbem.
Nada, pois, impede de cantar-se a luxúria,
os pêlos, a tesa pele, o confundir vultos,
o segredo de cada vez descoberto ou
inventado, a língua, as mãos, os dedos
exactos e o mais penetrando tudo que
o corpo abra, e a garganta grite, e os
dentes exijam, e as coxas apertem e
logo se abram, e pernas e calcanhares
prendam, e as unhas cravem, e o ventre
salte no movimento tão antigo das
marés vivas – materna origem –, e a
vulva acompanhe em calculadas contracções
o falo que mergulha e sai, e assim tenha
o saber herdado dos moluscos do mar.
Pudor de escrever o penetrar de corpos
cada dia tão diverso quanto são os dias?
O membro usa o comprimento e a dureza
com a lucidez e o gozo de senti-lo
nos lábios que o recebem no desespero
de resistirem e a sede de o abraçarem
e medirem, suor de sal, distantes ondas,
olhos brancos loucos de lua, quando
do telúrico vulcão ao longe os gemidos
vêm subindo, no ritmo dos quadris
que aceleram e da respiração que arfa,
e as palavras ditas na noite, segredadas,
de quem sábio alteroso se navega
e indica o norte para que nada se perca,
já a lava começa a premente subida
da medula do corpo à ponta do ventre,
e os gemidos crescem e se apressam,
misturados às palavras, ainda guiando
e logo perdidas, obscenas em gritos
e rugidos, que limitam a noite à cama,
explodidas nos saltos do membro que o
esperma ejectam e a carne profunda,
apertando, ávida, sorve e chama na
perdição que não é subir a astros, mas
esvair-se em vida p'ra semear o mundo.

Logo lentos os corpos esfriam e dormem.
Para depois haver a manhã e da vida
o labor salvar-se nas noites que virão.



A UMA VIRGEM (Manuel Rodrigues)


Ah! tu nem sabias que a tua púbis
tinha a exacta medida da concha
de minha mão, nem suspeitavas
quanto de teu seio transbordaria
da outra que por trás te enlaçava. 
Só mal medias o espanto 
de sentires-me o hálito arfar
em teus cabelos e em ti toda
com que te perdeste, já rendida 
na surpresa de saberes-me 
contra a firmeza da tua carne,
no trémulo susto da tua pele
que há tanto tal dia esperava.

Sussurraste ainda a medo
não quero, sou tão nova! Mas tudo
te era já maduro e quente
em tua boca de sede e línguas,
aberta como já essoutros lábios.

Nem choraste como choram
vãs as que perdidas se acham.
Nem uma lágrima te caiu. Era 
apenas o suor puro e o sangue
e teus loucos olhos líquidos
que naquela hora e nos lençois
ofereceras à vida misturados,
não por mim – bem o sabias –,
mas por outro que em tua casa, 
daí a meses, daí a anos, todas 
as noites se deitaria a teu lado, 
cumprindo o destino de ter filhos.

Talvez por isso tenhas dito, 
sem sorriso triste, sequer com gesto de 
fingido amor, mas de olhos seguros, 
certa quanto eu que nem haveria adeus:

Deixa, não foi nada, não tem mal.

AUTO DE FÉ ( Manuela Amaral )


Não me arrependo dos amores que tive
dos corpos de mulher por quem passei
a todos fui fiel
a todos eu amei

Não me arrependo dos dias e das noites
em que o meu corpo heroi ganhou batalhas
A um palmo do umbigo eu fui primeira
a divina
a deusa

a verdadeira mulher – sem rival.

Amei tantas mulheres de que nem sei o nome
eu só me lembro apenas
de abraços
de pernas
de beijos
e orgasmos

E no amor que dei
e no Amor que tive
eu fui toda mulher – fui vertical

Eu fui mulher em espanto
fui mulher em espasmo
fui o canto proibido e solitário

Só tenho um itinerário: Amor-Mulher.