10/02/2017

SEM MANDAMENTOS(Osvaldo Montenegro)
Hoje que quero a rua cheia de sorrisos francos
De rostos serenos, de palavras soltas
Eu quero a rua toda parecendo louca
com gente gritando e se abraçando ao sol
Hoje que quero ver a bola da criança livre
quero ver os sonhos todos nas janelas
quero ver vocês andando por aí
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse
Eu até desculpo o que você falou
eu quero ver meu coração no seu sorriso
e no olho da tarde a primeira luz
Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto
eu quero um carnaval no engarrafamento
e que dez mil estrelas vão riscando o céu
buscando a sua casa no amanhecer
Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
rasgar a noite escura como um lampião
eu vou fazer seresta na sua calçada
eu vou fazer misérias no seu coração
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
pra escrever a músicas sem pretensão
eu quero que as buzines toquem flauta-doce
e que triunfe a força da imaginação.

METADE (Osvaldo  Montenegro)
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também.

09/02/2017

RETRATO DE MULHER DE FRENTE (Maria Lúcia Dal Farra)


De tanto esperar pelo meu olhar,
enrubesceu. Aguardou-o
anos a fio
mas emana dela ainda
a mesma timidez
igual esperança. Há
(quem sabe)
uma indagação impossível
na boca rubra e natural.

A aura do objeto
mistura-se a seu cabelo
como se a existência
tivesse transcendido o momento
em que por certo nos encontraríamos.

Malgrado estar eu aqui –
tudo nela ainda espera por mim.

FRUTO PROIBIDO (Maria Lúcia Dal Farra)


Com suas nádegas lascivas de mulher
a maçã deita de costas
na cesta sobre a mesa.
Já de batom está pintada,
armadilha edênica no seu poço
– no ponto da voragem,
caverna de pevides.

Drácula, penetro
no seu espírito interdito,
no jardim das delícias.
Cometo (insensato)
a grande virtude capital.

A MENINA E A FRUTA (Adélia Prado)


Um dia, apanhando goiabas com a menina,
ela abaixou o galho e disse para o ar
- inconsciente de que me ensinava -
"goiaba é uma fruta abençoada".
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar a poeira e o Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar da fome da alegria!

PUBERDADE (Maria Lúcia Dal Farra) (A Lúciana da Lena Cunha)


Na cozinha
mamãe espreita o bolo de morango com coco
recém- tirado do forno.
Besunta-o agora com a calda
(que o ata).
Da varanda vejo a massa operosa das nuvens
que se juntam para a chuva.

Furo o bolo com o dedo.
O sumo transborda:
a tarde está molhada de vermelho.
AQUELES OLHOS VERDES 
 (Nilo Menendez  &  Adolfo Utrera ) 
 Versão: João de Barro)
Aqueles olhos verdes
Translúcidos serenos
Parecem dois amenos
Pedaços do luar.

Mas têm a miragem
Profunda do oceano
E trazem todo o engano
Das procelas do mar.

Aqueles olhos verdes
Que inspiram tanta calma
Entraram em minh'alma
Encheram-na de dor.

Aqueles olhos tristes
Pegaram-me tristeza
Deixando-me a crueza
De tão infeliz amor.



IMITAÇÃO DA ÁGUA

      (João Cabral de Melo Neto)

De flanco sobre o lençol,

paisagem já tão marinha,

a uma onda deitada,

na praia, te parecias.


Uma onda que parava,

ou melhor:que se continha;

que contivesse um momento

seu rumor de folhas líquidas.


Uma onda que parava

naquela hora precisa

em que a pálpebra da onda

cai sobre a própria pupila.


Uma onda que parara

ao dobrar-se, interrompida,

que imóvel se interrompesse

no alto de sua crista


e se fizesse montanha

(por horizontal e fixa),

mas que ao se fazer montanha

continuasse água ainda.


Uma onda que guardasse

na praia cama, finita,

a natureza sem fim

do mar de que participa,


e em sua imobilidade,

que precária se adivinha,

o dom de se derramar

que as águas faz femininas


mais o clima de águas fundas,

a intimidade sombria

e certo abraçar completo

que do líquido copias.


MITOLOGIA ( José Saramago )


Ou deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.

Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.

Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.

Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.





INVENTÁRIO(José Saramago)



De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.

ESTUDO DE NU (José Saramago)


Essa linha que nasce nos teus ombros, 
Que se prolonga em braço, depois mão, 
Esses círculos tangentes, geminados, 
Cujo centro em cones se resolve, 
Agudamente erguidos para os lábios 
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam. 
No quebrar onduloso da cintura, 
As calipígias ciclóides sobrepostas 
Ao risco das colunas invertidas: 
Tépidas coxas de linhas envolventes, 
Contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha 
No teu ventre um arco repousado, 
Esse triângulo de treva cintilante, 
Caminho e selo da porta do teu corpo, 
Onde o estudo de nu que vou fazendo 
Se transforma no quadro terminado.

08/02/2017

ABYSSUS (Olavo Bilac)


 Bela e traidora! Beijas e assassinas.
Quem te vê não tem forças que te oponha:
Ama-te, e dorme no teu seio, e sonha,
E, quando acorda, acorda feito em ruínas.
 Seduzes, e convidas, e fascinas,
Como o abismo que, pérfido, a medonha
Fauce apresenta Flórida e risonha,
Tapetada de rosas e boninas.
 O viajor, vendo as flores, fatigado
Foge o sol, e, deixando a estrada poenta,
Avança incauto. Súbito, esbroado,
 Falta-lhe o solo aos pés: recua e corre,
Vacila e grita, luta e se ensanguenta,
E rola, e tomba, e se espedaça, e morre.

AO SOL NASCENTE (John Donne)(Tradução: Helena Barbas)

Incansável velho louco, Sol atrevido,
Porque vens tu assim
Visitar-nos, através de janelas por entre cortinas?
Devem as estações dos amantes obedecer a teus movimentos?
Miserável descarado e pedante, vai repreender
Estudantes atrasados e aprendizes azedos,
Vai dizer aos monteiros que o rei sai a cavalo,
Chama as formigas rústicas para as colheitas.
Ao Amor tudo é igual, não conhece estação, nem clima,
Nem horas, dias, ou meses, que são os farrapos do tempo.

Aos teus raios, tão reverentes e fortes —
O que é que tu pensas? —
Posso eclipsá-los, enevoá-los, com uma piscadela,
Mas iria perde-la de vida por demasiado tempo.
Se os olhos dela não cegaram os teus
Olha, e amanhã bem tarde, diz-me
Se as duas Índias das especiarias e minas
Estão onde as deixaste, ou comigo aqui deitadas.
Pergunta por esses reis a quem viste ontem
E ouvirás: "Todos aqui numa só cama repousam".

Ela é todos os Estados e eu todos os Príncipes,
Nada mais existe.
Os príncipes apenas nos imitam. Comparadas com isto,
Todas as honras são mímica, toda a riqueza alquimia.
E tu, Sol, porque o mundo aqui se condensou,
Tens apenas metade da nossa felicidade.

A tua idade pede moderação, e como tens por dever
Aquecer o mundo, tal se cumpre em nos aquecendo.
Brilha aqui para nós e estarás em todo o lado,
Esta cama é o teu centro, estas paredes a tua esfera.
.
CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO
(Mário  Quintana)
Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos.
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria
atônita.
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!

CANÇÃO DA JANELA ABERTA (Mário Quintana)

Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela.
Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.
E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste, navega.
Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.
Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.
Adeus para sempre, Amigos.
Vou sepultar-me no Céu!
CANÇÃO DE DOMINGO
(Mário Quintana)
Que dança que não se dança?
Que trança não se destrança?
O grito que voou mais alto
Foi um grito de criança.
Que canto que não se canta?
Que reza que não se diz?
Quem ganhou maior esmola
Foi o Mendigo Aprendiz.
O céu estava na rua?
A rua estava no céu?
Mas o olhar mais azul
Foi só ela quem me deu!

XXXV (Mário Quintana)


Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua.
Nada mais quero com nenhum de vós!
Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas Lentas da Expressão!
Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr de sois, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas.
E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto.

XV (Mário Quintana) (Para Érico Veríssimo)


O dia abriu seu para-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.
Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua - a Lua! em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado.
Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo. Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!
E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranquila de um açude.
( Foto: Érico Veríssimo)

BEIJO ETERNO (Olavo Bilac)


 Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo.
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querido!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormida em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presas
-Beija ainda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito o teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!
Suceda a treva a luz!
Vele a noite de crepe a curva do horizonte;
Em véus de opala a madrugada aponte
Nos céus azuis,
E Vênus, como uma flor,
Brilhe, a sorri, do ocaso a porta,
Brilhe a porta do Oriente! A treva e a luz - que importa?
Só nos importa o amor!
 Raive o Sol no Verão
Venha o outono! do inverno os frígidos vapores
Toldem o céu! das aves e das flores
Venha a estação!
Que nos importa o esplendor
Da primavera, e o firmamento
Limpo, e o sol cintilante, e a neve, e a chuva, e o vento?
Beijemo-nos amor!
 Beijemo-nos! Que o mar
Nossos beijos ouvindo, em pasmo a voz levante!
E cante o sol! A ave desperte e cante!
Cante o luar,
Cheio de novo fulgor!
Cante a amplidão! Cante a floresta!
E a natureza toda, em delirante festa
cante, cante este amor!
 Diz tua boca: "Vem!"
"Inda mais!", diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! Morde! Que doce é a dor
Que entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!
 Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo.
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para meu amor!