09/07/2017

SONETO DA SEDUÇÃO
(Francisco  Settineri)
Teu corpo é um lindo mar, e eu sou a vela,
E tomo-te os cabelos, irrequieto,
Eu ardo em teu calor, e é por completo,
Não curvo a minha fronte na procela!

A flor que tens nas mãos, bem amarela,
É incêndio no meu cerne mais secreto,
Se eu bordo a tarda paz em tom discreto
A luz daquela estrela era mais bela.

Habita em teu olhar, não mais desmentes
O quanto, em teu recato, estás desnuda,
E tornas teus encantos mais presentes.

Mas eu, diante de ti, dispenso ajuda:
Os panos que te cobrem caem contentes
E a noite, em seu mormaço, é mais que muda.


04/07/2017

BAILARINA (Maria  Gadú)
Baila minha vida de repente
Se o mundo mente, sou teu palco
Ajoelha a velha dor
Na bela curva do que não foi.

Tanta coisa que o corpo fala
Faz do desejo, lançar-se ao mar
Beijos tão doces, bailam no tempo
Sou deles presa, refém detento.

Amanheceu e estás do outro lado
No canto contrário, do pranto que sou
Bailarina do desamor.

Perca teu passos
No avesso
No inverso
Da minha dor
No avesso
No inverso
Da minha dor.

O show tá ensaiado
És boa leoa
Devora a toa, só pra dançar
Vou me cegar, sentar na plateia
Se os olhos pararam não vou me culpar.




A IMPERATRIZ E A PRINCESA (Isabella Taviani & Myllena)

Ela trancou seu coração na torre de um castelo empoeirado e só
Julgava nunca mais abri-lo, pra outro cavalheiro imperador
A nuvem que levou seus sonhos era labareda de um dragão
Que agora guarda a torre, vigia o seu sono
E não deixa um novo amor chegar
Para a imperatriz não libertar.

Tão solitária assistia a tudo lá do alto da sua prisão
De algum lugar fluía um aroma que acalmava sua solidão
Naquele império dizia a lenda que a imperatriz enlouqueceu
Quando seu rei se foi, montado num corcel
Nunca mais ela sorriu
Nunca mais ela se abriu.

Quantos homens duelaram por seus dotes,
Por seus encantos e caíram frente ao dragão
Que guardava o seu coração.

Desde pequena a princesa Amarílis
Conhecia a lenda de um dragão
Que assombrava a bela dona com a força dessa maldição
Enquanto cultivava rosas ela olhava a torre lá do céu
E desejava fundo fazer a imperatriz sorrir.

Não desistir do amor e ser feliz
Poder abrir as asas e voar
Arriscar de novo as fichas do viver
Com o perfume dessas flores mataria
O dragão e a dama cantaria essa canção.

Princesa, é teu meu coração
Há tempos não sei o que é amar
Pequena, tão grande a sua luz
E a princesa Amarílis, sem cavalo e sem escudo
Libertou a imperatriz da maldição.

Oh, dama, recebo a sua dor
Nas flores guardei o meu calor
Gigante, minúscula aflição
Nos meus olhos, seu espelho
Nessa carne a ferida cicatrizo e alegro a sua vida.

E pelos campos as cores se multiplicavam como um milagre
Findou-se a era das tristezas e não há nada que as separe
E o dragão, inerte, já não assombrava nem uma criança
Diante da maldade a força da esperança fez do reino um lugar melhor
E a alegria nunca foi maior.

Contam naquela cidade hoje uma nova lenda
O amor da imperatriz pela princesa
Oh, dama, recebo a sua dor
Nas flores guardei o meu calor
Gigante, minúscula aflição.

Trovadores cantam em rimas
Para que o mundo lembre
Que elas foram tão felizes para sempre.

03/07/2017

Por Ana Cristina Cesar, in A Teus Pés, Ática, São Paulo, 2a. ed., 1998

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
O VASO AZUL (Sully Prudhomme)
O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
 Já se quebrou; não toquem não. 
(Tradução:  Guilherme  de  Almeida)

INVERNO ( Antônio Cícero)

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial
Há algo que jamais se esclareceu:
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
Que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu
Reuniu-se a terra um instante por nós dois
Pouco antes do Ocidente se assombrar

NECROLÓGIO DOS DESILUDIDOS DO AMOR (Carlos Drummond de Andrade)


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito. 
Do meu quarto ouço a fuzilaria. 
As amadas torcem-se de gozo. 
Oh quanta matéria para os jornais. 

Desiludidos mas fotografados, 
escreveram cartas explicativas, 
tomaram todas as providências 
para o remorso das amadas. 

Pum pum pum adeus, enjoada. 
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos 
seja no claro céu ou turvo inferno. 

Os médicos estão fazendo a autópsia 
dos desiludidos que se mataram. 
Que grandes corações eles possuíam. 
Vísceras imensas, tripas sentimentais 
e um estômago cheio de poesia.

Agora vamos para o cemitério 
levar os corpos dos desiludidos 
encaixotados competentemente 
(paixões de primeira e de segunda classe). 

Os desiludidos seguem iludidos, 
sem coração, sem tripas, sem amor. 
Única fortuna, os seus dentes de ouro 
não servirão de lastro financeiro 
e cobertos de terra perderão o brilho 
enquanto as amadas dançarão um samba 
bravo, violento, sobre a tumba deles.



BRISA DO MAR ( Chico Buarque de Holanda )


Brisa do mar, confidente do meu coração
Me sinto capaz de uma nova ilusão
Que também passará,
Como ondas na beira de um cais
Juras, promessas, canções
Mas por onde andarás
Pra ser feliz não há uma lei
Não há, porém, sempre é bom
Viver a vida atento ao que diz
No fundo do peito o seu coração
E saber entender
Os segredos que ele ensinar
Mensagens sutis
Como a brisa do mar.

GRITO ( David Mourão - Ferreira )


Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.

São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.

E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de polo a polo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.


E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.



 

QUEM DIRÁ AOS AMANTES

(Armindo Trevisan)

Quem dirá aos amantes 
o caminho 
pelo qual os corpos vão 
ao termo do que souberam? 
E depois foi noção, 
espaço, letra, 
e não quiseram o retorno? 
Quem os aguardará do outro lado 
onde o riso, 
a aveia, são o preâmbulo 
da carícia no seio? 
Quem dirá aos 
amantes que o amor há-de despir 
o acontecido 
e passará pela mão 
como passou o frio 
de flor em flor?

02/07/2017

A  LUZ  QUE  VEM  DAS  PEDRAS
(Pedro  Tamen)
A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra, 
tu a colhes, mulher, a distribuis 
tão generosa e à janela do mundo. 
O sal do mar percorre a tua língua; 
não são de mais em ti as coisas mais. 
Melhor que tudo, o voo dos insectos, 
o ritmo nocturno do girar dos bichos, 
a chave do momento em que começa o canto 
da ave ou da cigarra 
 a mão que tal comanda no mesmo gesto fere 
a corda do que em ti faz acordar 
os olhos densos de cada dia um só. 
Quem está salvando nesta respiração 
boca a boca real com o universo?


CAPTUS EST LIBIDINE (Lúcia Nobre)


aqua
benedicta
unctione
cabelos
olhos
narinas
boca
dorso
mamilos
ventre
umbigo
clitóris
vagina
abençoa
me
orgasmos
in
extremis.

BALADA DOS AMORES DIFÍCEIS (Inês Lourenço)


Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta 
Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados 
ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me 
aos que se buscam sem saber nada 
do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos 
e convexos se combinam cruzando genes e transitórios 
tempos de vida enquanto povoam cidades, salas 
de parto, comércios, indústrias, portais, geriatrias. E dos campos deixados
à exportação do vinho e dos litorais ainda com redes 
e barcos cresce um ruído de formiga banal e curtida 
de pequenos destinos. Esses são os grandes herois 
dos amores difíceis 
que não ficam no poema.

OS ANJOS (Maria Teresa Horta)


Os anjos descobrem
a vulva
no mesmo instante
em que sabem
do pénis:
com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas

São raríssimas as
asas
que não partem dos seios
a florir nos
ombros
Como um manso púbis
com os seus veios
de sombra
E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pénis
do anjo que voava
por cima
de manso procurando
o fundo
da vagina.

NADA DISFARÇA O APURO DO AMOR (Ana Cristina Cesar)


Um carro em ré. Memória de água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.
 

LAÇOS (Carla Marisa Pereira)
Pulso, estranhamente,
na vontade de te oferecer
quem sabe quase nada
quem sabe um pedaço de mim.
Sinto uns dedos frios e ternos
percorrerem incessantemente,
decididamente, minha alma.
No rescaldo da emoção chorada,
do afecto transbordado,
da saudade renascida,
da presença no peito
de alguém tão distante.
Invade-me um sorriso completo
que sai de mim aos soluços,
mesclado de serenidade
e de etéreo encontro
numa esquina da memória
no desejo do dia por chegar.
Invisível a lágrima plena
passeia-se à procura, surpresa,
e desagua em doce nó
que me enche de vida,
de imagens, palavras e perfumes.
Da vontade de beleza te oferecer
naufrago na súbita certeza
de que olhos nos olhos bastaria
para nos sabermos assim
distantes mas entrelaçados.

UM CAMPO BATIDO PELA BRISA ( Fernando Assis Pacheco )


A tua nudez inquieta-me.
Há dias em que a tua nudez 
é como um barco subitamente entrado pela barra. 
Como um temporal. Ou como 
certas palavras ainda não inventadas, 
certas posições na guitarra 
que o tocador não conhecia. 
A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo 
para um lado misterioso e frágil. 
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe 
contorno, peso. Destroi o meu corpo. 
A tua nudez é uma violência 
suave, um campo batido pela brisa 
no mês de janeiro quando sobem as flores 
pelo ventre da terra fecundada. 
Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas 
com o vocabulário da tua nudez. 
Tenho um pensamento despido; 
maturação; altas combustões. 
De mão dada contigo entro por mim dentro 
como em outros tempos na piscina 
os leprosos cheios de esperança. 
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete 
que lanço com mão tremente desastrada 
para rebentar e encher a minha carne 
de transparência. 
Sete dias ao longo da semana, 
trinta dias enquanto dura um mês 
eu ando corajoso e sem disfarce, 
ilumindo, certo, harmonioso. 
E outras vezes sucede que estou: inquieto. 
Frágil. 
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.


 


 

TATIANA (José Pedro Moreira)

Eu não sabia
que a pele era feita de fogo
que as mãos eram feitas de fome
que as pernas eram feitas de trémulas
que no corpo havia penas
e lugares sem nome
Eu não sabia
que o vestido de Tatiana
escondia um espelho perverso
onde os meus olhos
naquela tarde
contemplariam
os sete dias da criação
do universo.