27/06/2024

NUA E TUA ( Nádia Santos )

 Gosto de me sentir livre

Da roupa que me reveste
O meu corpo se senti leve
E um frêmito gostoso me aquece

Me contempla estou nua!
Das vestes e no pensamento
Desejando amor, que me possua
Sem pudor, sem preconceito

Quando me ponho nua
Diante dos olhos teus
Percebo que se completa
A outra parte do meu eu

Nua e toda tua vou me doando
Meu corpo vai no teu corpo encostando
E ao prazer vamos nos entregando

Dois em um
 é comunhão!
Prazer intenso é excitação!
É algo forte é tesão!


MEU ORGASMO É CURA ( Carmen Faustino )

 Quando a explosão

Toma conta
E aquece o estado
Líquido.
Toda dor
Que esse mundo criou
Para me levar
A exaustão de banzo
Evapora.


Meu corpo
Transcende
Como brisa leve
Beleza africana
Consagração
De um espírito livre
Quilombola


De quem goza 
Por rebeldia e pirraça
Pois o meu prazer
Você racista
Não mata

POR UM FIO ( Neide Almeida )

 Nasci de cabeça feita.

No começo, não sabia.
Entre os hábeis dedos maternos
via os meus crespos fios
domados por um laço,
que me prendia também por dentro. 
Cresci sob um mito,
medo de me ver refletida 
no espelho do que sempre fui. 
Mas ainda menina, meu desejo
já se enroscava, virava trança
e me protegia.

Quando me vi desnuda
olhei demoradamente:
os pés plantados no chão
as pernas, troncos fortes
o ventre escuro
pleno de inquietações.
Mãos e braços regidos
por nossos ancestrais
seios fartos
da seiva que alimenta o mundo.
Vi em mim o riso de meu pai
o olhar de minha mãe.
De repente, me encontrei.

Soltos, meus cabelos
diziam de mim
mais do que qualquer palavra,
raízes que me conectam
com uma gente que veio antes de mim
reinventada na menina que pari.

NÓS ( Neide Almeida )

 Despida de antigos conselhos

abro meu corpo
e incorporo 
os santos que pedem abrigo.
Me desfaço de laços
e me cubro apenas
com a delicadeza de panos atados
por precisos nós.

CORPO ( Neide Almeida )

 Meu corpo é um campo de solo revolto

sob pés guiados por tambores.
Meu corpo é um campo aberto,
arena de muitas disputas.

Meu corpo é um campo sagrado
habitado por ritmos
de vida e de morte.

Meu corpo é um campo marcado
pelo movimento das águas
pela força dos ventos.

Meu corpo é um campo de silenciosas batalhas
atravessado por rios sinuosos
alimentado por incontidas raízes.

Meu corpo é um campo ocupado
por séculos de rebeldia
por cantos de liberdade.

ALTA TENSÃO ( Bruna Lombardi )

eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.

23/06/2024

LUZES ( Uyara Torrente )

Acenda a lâmpada às seis horas da tarde

Acenda a luz dos lampiões

Inflame a chama dos salões

Fogos de línguas de dragões

Vagalumes

Numa nuvem de poeira de neon

Tudo claro

Tudo claro à noite

Assim que é bom

A luz

Acesa na janela lá de casa

O fogo

O foco lá no beco e um farol

Essa noite

Essa noite vai ter Sol

Essa noite

Essa noite vai ter Sol



22/06/2024

PACTO ( Lucina )

Pediria a certeza da chuva
sopraria a surpresa dos ventos
sentiria a nobreza da pedra bruta
viajaria na força do pensamento

Choraria a tristeza do mundo
beberia a riqueza da lama
me alçaria com as aves num vôo farto
gritaria com o mar num bramido largo

E meu corpo seria uma chama etérea amando
e o amor energia de luz infinita sendo
e o curso dos rios do sangue
e da seiva ardendo
é o caminho ansiado que estamos buscando


27/04/2024

TERCETOS (Olavo Bilac)

 Noite ainda, quando ela me pedia

Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

"Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho
E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava
Espera um pouco! deixa que amanheça!"

— E ela abria-me os braços. E eu ficava. 

II

E, já manhã, quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

"Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!
Que pensariam, vendo-me, apressado,
Tão cedo assim, saindo a tua porta,

Vendo-me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo.
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!" 

- E ela abria-me os braços. E eu ficava.


QUANDO FOR FAZER AMOR ( Zack Magiezi )


Quando for fazer amor.
Faça nu.
Tire os diplomas.
O Status.
Sucesso profissional.
Suas etiquetas de grife.
Tire a chaves do carro.
Os cartões de crédito.
Tire tudo.
Até só sobrar a deliciosa.
Apimentada humanidade.

20/04/2024

AULA DE DESENHO ( Maria Esther Maciel )

 Estou lá onde me invento e me faço:

De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.


 

AMOR ( Maria Esther Maciel )

 Na véspera de ti

eu era pouca
              e sem
sintaxe
eu era um quase
          uma parte
sem outra
             um hiato
de mim.

No agora de ti
             aconteço
tecida em ponto
                cheio
um texto
com entrelinhas
            e recheio:

um preciso corpo
um bastante sim.

MULHER E PÁSSARO ( Dora Ferreira da Silva )

 Voltamos ao jardim

ao banco lavado pela chuva.
Pedimos o verde ao verde
a flor à flor
sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã.
(Nossa presença
desalinha ar e folhas
num frêmito.)

Mas se nada pedimos
como quem dorme seguindo a linha natural
do corpo
respiramos o puro abandono:
um pássaro alveja o azul (sem par)
ultrapassa o muro do possível
e assim damos um ao outro
a súbita presença
do Céu.

RUA DE COMÉRCIO (Vera Lúcia de Oliveira)

 Sou poeta da cidade magra

da cidade que não
caminha
sou dessa planicidade
sou da violência das vidas
poeta da cidade que afunda casas
e pessoas
sou da puta da cidade que só tem
superfície

amanheço todo dia nua e estreita
como uma rua de comércio

O ORIENTE DA CIDADE (Cida Pedrosa)

 entre pombos e putas construí poemas


a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o Capibaribe

entre putas e pombos construí poemas

O CAMINHO DA FACA ( Cida Pedrosa )

 parte em arco

rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga

cruza a dor, o sonho
escuta

zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes

parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança

desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade

pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta

ATO ( Mariana Botelho )

 um poema me deixou um sismo na carne

me arqueou o corpo
e traçou em minhas costas itinerários de espuma.

com um gosto de cor
na boca
deixei cair pulsante
um
longo beijo
morno

14/04/2024

TARDE NO MAR ( Florbela Espanca )

 A tarde é de oiro rútilo: esbraseia

O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar…

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes…

HORAS RUBRAS ( Florbela Espanca )

 Horas profundas, lentas e caladas

Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Oiço olaias em flor às gargalhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve e branca e mist’riosa…
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

12/04/2024

A PONTE ( Bruno Félix )


não há vencedores
ou perdedores
nesse jogo dos corpos
somos artesãos
com essas ferramentas de carne
construímos juntos
poemas, pontes
poentes.

te penetro a carne
e teus gemidos penetram em mim
nenhuma distância separa o éter
(um abraço de corpos abraça o mundo)
lançamos os pés na terra
no mais profundo
raízes
nossos corpos são água
nossa sede, nossa vida
nossos olhos refletem as cores
matizes

nesse jogo de corpos
ardemos no mesmo fogo
importa saber quem o ateia?
não
à alma não interessa
saber do sangue que corre na veia
do calor da carne, da ereção
à alma interessa o que vibra
a melodia de cada som

com nossos instrumentos de carne
escreveremos canções
a cada toque de pele
encontraremos escalas
regidas por movimentos
sublinhadas por respirações
até que os anjos as ouçam
atravessem essa ponte
e unam-se a nós
no mesmo poema
no mesmo tom
no poente

11/04/2024

POESIA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

Se todo o ser ao vento abandonamos

E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

05/04/2024

ESTAÇÃO ( Mariana Botelho )

tenho um outono no corpo

de onde as
coisas
caem

vejo doçura nas roupas
espalhadas
pelo
chão

ÁGUA ( Mariana Botelho )

 Água.


fui sentir o cheiro de
terra molhada.

ficamos ali
eu e meu corpo,
cantando a plenitude do mato
depois da chuva.

Água.

me amei.

INTIMIDADE ( Mariana Botelho ) in O Silêncio Tange O Sino

 um pequeno itinerário de passos

uma claustrofobia acariciada
gente que todo dia me bate
à porta e entrega-me os
cílios meus que encontraram
na calçada.

o dedinho de uma linda preta
com quem dividir os cílios caídos
com quem dividir o medo
de não sobreviver e de sofrer
a violência das crianças na escola.

aquela voz grave todas as manhãs
todas as manhãs
aquele cheiro só
aquele cheiro de capim chovido
os olhos negros do meu pai
e uma cidade íntima
soluçando dentro de mim.