24/05/2020


INSENSATEZ (Margarida Rosas)
Silenciosa e breve
Caminho por entre ondas,
A areia cálida pelos rastros ainda vermelhos
Deste sol ardente.


Loira, linda
Sou devorada por olhos
E tantas noites insanas
Perturbam meus pelos,
Meus nervos...


Derramo meu corpo
E me entrego ao gozo
Porque sei que o amor é breve
É folha ao vento
Que sopra e seca
Minhas roupas, penduradas,
No varal do tempo!

VIII BALADA PRÉ-NUPCIAL ( Hilda Hilst )


Menina, nunca na vida
vi coisa igual a tua boca
nem nunca meus olhos viram
teu corpo e tua carne moça.
Deixa que eu sinta a beleza
de tuas coisas escondidas.
E o cravo desabrochado
se expandia, se expandia.
Deixa meu peito ondular-se
nas tuas pernas de repente
permitidas. E prometo...
prometo mares e mundos
e te imagino subindo
as escadas de uma igreja
nós dois as mãos enlaçadas
nossa culpa redimida.
Deixa menina que eu diga
aquela palavra louca
no teu ouvido... Não ouças!
mas deixa, porque no amor
as palavras se transformam
e têm um outro sentido.
Me abraça e morre comigo.
E as duas coisas se chocaram
na mesma doida investida.
Soluço que não se ouvia
(espaçado e comovido)
e o cravo que se expandia
foi se abrindo, foi se abrindo
em choro, promessa e dor,
florindo o filho do medo
muito mais medo que amor.

21/05/2020

NÓS E O ABRAÇO ( Margarida Rosas )

Tímida e nua
Aguardo o abraço
Trêmula,
E me lanço no espaço
A procura do calor
Que penso encontrar em teu corpo.

Nesse abraço de mãos úmidas
Respiro teus sons
E canto a canção
Do amor eterno,
Enquanto sinto tua boca
Sussurrando em meu seio.

Laço de afetos
E tua mão passeia
Em minha nuca
E se segura nos meus pelos,
E me incendeia.

São sons,
Cheiros que se misturam
Que se enroscam e se procuram
Nos dias de sol,
Nas noites enluaradas e frias,
Nas madrugadas vazias.

Louco desejo
De boca molhada
De mãos, e pernas, e corpos
De suor e calor
De laços e de nós!
Abraços.

 





17/05/2020

BAINHA ABERTA (Astrid Cabral)

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MINHA DOCE PUTA ( Douglas Mondo )


No olhar mais meigo,
nos lábios mais pecadores
pousei minhas venturas
e todas minhas dores.
Aqueles seios puros quisera,
mas já foram bebidos
por todas as bocas da terra.
Pouco me importa.
Sou feliz quando abre a porta
e etérea se escancara
em pernas de formosura e vida torta.
Mesmo o cheiro barato em teu corpo
de perfume de esquina de mil homens,
não tiram o cristalino sorriso da tua infância.
E me lambuzo das tuas fantasia,
deposito meus versos em teu corpo
e te faço musa das minhas poesias.
Minha doce menina puta!

DESEJOS ( Douglas Mondo )

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DA ARTE DE BEM CAVALGAR (Fernando Correia Pina)
Faz de conta que és tronco que a maré rejeita,
deitado e imóvel no liso areal,
com uma pernada altiva que espreita
o purpúreo mistério, a boca corporal.

De joelhos se ponha a mulher eleita,
assente nas canelas, o tronco vertical,
com as pernas abertas, simetria perfeita
sobre a ponta da verga dura como metal.

Que te monte depois como um jockey de classe
sugando dentro dela o ávido arção,
num rápido crescendo, como se procurasse

Vencer distanciada o derby da tesão.
E tu, dócil cavalo que os colhões tens por sela,
partilha o seu triunfo - geme e vem-te com ela.

FEMINA (Soares Feitosa)


Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.

Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.

Não lavei o corpo
pois tinha os rastros
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.

Nem aqueles lençois,
não os lavei,
nem os espelhos
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.

Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:

donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar.
OLHO A OLHO (Henry Corrêa de Araújo)
procuro
onde teu corpo
no escuro

frente a frente
concentro
onde melhor
te adentro

palmo a palmo
penetro
onde animal
te adestro

corpo a corpo
te sugo
onde mulher
o teu suco

pouco a pouco
retorno
à condição
vegetal.

QUERER ( José Eduardo Mendes Camargo )


Quero massagear o teu corpo,
Como se te prestasse um tributo de paixão.
E com minhas mãos, como que num ritual,
Percorrer-te todos os caminhos
E dele extrair a chama da combustão.
E cheirá-la por inteiro,
No ardor de farejar o âmago de tua alma fêmea.
E beijá-la voluptuosamente e com meus lábios
Sorver o suor ensandecido de teus poros
Quero, então, corpos unidos,
Dançar ao som de teus gemidos e sussurros
A dança terna e alucinante do amor.

PRAZER ( José Eduardo Mendes Camargo )


Não sei o que é mais gostoso:
E expectativa e a ansiedade
da ante-véspera do amor,
O colorido e o abandono
do momento cósmico do orgasmo
ou a lassidão e os espasmos de prazer
no repouso de teus braços.

COISA AMAR ( Manuel Alegre )


Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

ANDAVA A LUA NOS CÉUS (António Botto)


Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar.

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento.
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha, até cair.

27/04/2020

ROMANTISMO (Liz Christine)

não desejo sua dor
assistir o seu prazer
me faz descobrir
você é meu amor
preciso te fazer
e quero te ver
bem, alegre, satisfeito
seu prazer me diz respeito
porque minha satisfação
depende
da sua realização
entende?

Meu romantismo
é o mais puro egoísmo.

Quero te ver realizado
Meu amor apaixonado
Não por você, mas por mim
Porque isso me dá prazer, só por isso prazer,
prazer é o meu sentido! O que me guia, inspiração,
poesia, tesão, sexo. Você é minha doce paixão!

MEU BRINQUEDO ( Liz Christine )


Você quer me algemar?
Me desnudar
Me cobrir
Com beijos
Em seu olhar
Faíscam desejos
Quero te amar
Sem medo
Quero ser
Seu brinquedo
Quero te ver
Me desvendando
Me fudendo
Com amor
Estou nua
Te dizendo
Sem pudor
Me possua
Me ame sem medo
E seja meu brinquedo.

SEIOS (Hildo Rangel)


Teus seios pequeninos que em surdina,
pelas noites de amor, põem-se a cantar,
são dois pássaros brancos que o luar
pousou de leve nessa carne fina.

E sempre que o desejo te alucina,
e brilha com fulgor no teu olhar,
parece que seus seios vão voar
dessa carne cheirosa e purpurina.

Eu, para tê-los sempre nesta lida,
quisera, com meus beijos, desvairado,
poder vesti-los, através da vida,

para vê-los febris e excitados,
de bicos rijos, ávidos, rasgando
a seda que os trouxesse encarcerados.

ORGIA (Liz Christine)


Gemidos
Sussurro
Lábios, pele, beijo
Em seus ouvidos
Ainda procuro
Como descrever o que vejo?
O que sinto ao te ver
Em meio a essa orgia
Nunca quis te pertencer
Tão livre, e você nem sabia
Tudo que poderia
Encontrar
Experimentar
Em si mesma, você
Minha nudez
Meu prazer
Você vê
Um engano? Talvez
Eu queira ser
Sua, talvez, eu nem sei
O que eu senti?
Ao te ver me olhando
Você beijando alguém
Uma pessoa gemendo
E eu gozando
Quero o seu beijo, vem
Estou dizendo
Sussurrando
Meus lábios te procurando
E outro corpo me domina
Outra língua me fascina
Vários corpos, sua mão
E eu tento dizer
Eu te amo
Amo sua mão
Mas você nem vai saber
Que era pra você que eu falei
E foi então
Nesse exato momento
Que escutei
Algum pensamento
Alguém pensando em voz alta
"aquela ali, a ruivinha
a ruivinha é a mais tarada"
Eu, tarada?
Nem vou responder
Te amo calada
E nem vou me arrepender
De estar te pervertendo
Você não era assim
Se liberte em mim
Amor, orgia
Talvez algum dia
Você saiba que eu sentia.
BUCETA (Antônio Mariano Lima)
Doce a palavra
buceta
doce o sal
de seu formato
doce se dócil
o seu cheiro
doce tão doce
o falá-la
doce o só
poder vê-la
doce melhor
o tocá-la
doce o mágico
realejo
doce o som
que dele arranca-se
doce a palavra
buceta
doce o sal
de seu formato.

DEPRAVAÇÃO (Liz Christine)


Escrever poesia sobre poesia?
Seu corpo é poesia
Sua voz me domina
Tão macia
Você é matéria-prima
Se converte
em poesia
Sua voz me derrete
Você é doce melodia
Que me aquece
Toque, pele, olhar
Basta respirar
Sua respiração
me excita
Porque arte é tesão
Paixão na escrita
Quero sua penetração.

Invadida
Pela criação
Fudida
Por você, paixão
Eu quero, preciso e me entrego
Te amo e não mais nego
Não nego, omitir
Não é admitir.

Nem ouse perguntar
Escrevo por estar
Sentindo
Que amar
É forte, intenso, lindo
Seu olhar
Me despindo
Vem me seduzindo
Vem e me abraça
E me pega
Com violência, amor
Sou devassa
Minha mão escorrega.

E já estou te abraçando
Seus dedos deslizam
Provocando
Prazer, arrepios, desejos
Que se concretizam
E já estou segurando
A paixão concretizada
Não está mais assustando?
Amor, continue me depravando.

Depravar é alterar
E estou me entregando
Te amar
Não está me machucando.

Você tinha razão.
Amor é prazer e diversão
Com conteúdo
E tesão
Profundo
Amor é tudo.

TULIPA VERMELHA (Letícia Luccheze)

A livraria, perfumaria, supermercado, floricultura.
O cinema.
A loja de roupas, acessórios, cremes.

Ao cair da tarde.

O decote em meio as pernas e nos seios transpirarem.
No olhar um convite ao deleito do prazer.
Flutuava no caminhar,
levando os homens à perdição.

Pessoas vinham e iam.

O maço de flores.

Desejada!
Chamava atenções.

A negra noite cobriu o gramado umedecido;
juntamente com as estrelas que o céu acolhia.

Do alto da janela a fragrância.
Doce, quente, sagaz, ardente.
Libertava os instintos selvagens.

Sussurros de gemidos...
      ...gemidos de sussurros...
           ...sussurros de gemidos...

Flores ao ar foram ao chão.
Suadas, embranquecidas.

GEOGRAFIA ABSTRATA ( Eliana Mora )

Estou com muita saudade
da tua geografia
e olhando esta paisagem
lembrei-me daquele abraço
que aconteceu na garagem
os carros por testemunha
calados a perceber
que alguém chegou por aqui
para vida oferecer.

E o que de há muito queria
sonhando na
minha cama
ganhou honras de verdade
e eu nem realizara
tudo o que tinha vontade.

Acho que agora lembrei
te vi no sonho a meu lado
e então aproveitei
que estavas junto a mim
e deixei de ser prudente
pedi mesmo que fizesses
tudo aquilo que quizesses
que me deixasse
demente
que colocasse algo quente
aqui bem dentro de mim.

Tu ficaste arrepiado
com o teu corpo grudado
nesta pele
de menina
e com o norte e o sul
virando de leste a oeste
iniciamos viagem
sem querer imaginar
quando começa
ou termina.

O desejo do teu corpo
tua pele tua carne
traz teu cheiro teu sabor
e chego a te ver aqui
sussuro grito
e berro
falo alto até cansar
palavras de todo tipo
para me aliviar.

E essa paixão danada
parece estar desenhada
no mapa de
dois amantes.

Mas ela avisa que pode
e precisa ser
de todos
de príncipe e de duquesa
de realeza e povão
com rota sempre perfeita.

Passaporte
de beleza
Viagens
do coração.