28/10/2023

ORGASMO TOTAL ( Arrigo Barnabé )

 Você me falou assim:

Vem, bebe, sirva-se de mim
E a luz se apagou
Então eu senti na pele
Você, seu corpo em febre
Juro que eu nunca imaginei, amor
Tanta sensualidade
Juro que eu nunca imaginei, amor
Tanta eletricidade
Você estava mesmo fatal
E parecia louca
Como um animal
Dizendo aqueles palavrões, gemendo
Pedindo mais, mais
"Até chegarmos ao orgasmo total
Orgasmo total
Trazido pelo reembolso postal"
Não passe ridículo. você também pode
Ser feliz como eles. basta pedir hoje
Mesmo, pela caixa postal 6969, o seu
Exemplar de "o orgasmo ao alcance
De todos". e um feliz orgasmo.

22/10/2023

AS ROTAÇÕES PERFEITAS ( Ana Luísa Amaral )

 Se me pedisses de repente e aqui:

«fala das luas e dos dias», eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me:
ofício de tanto tempo,
e natural,
ajustado como pequeno girassol,
ao sul: uma paisagem
Nem saberia por onde começar:
se no olhar, se na palavra,
ou se no teu sorriso
que me devastou o equilíbrio do igual
Não sei, meu amor,
como entender este pequeno girassol,
explicar-lhe o movimento certo,
a rotação completa e tão
perfeita,
as folhas muito verdes
de uma tal filigrana delicada
Sobretudo, este seu hino
em direcção a tudo
e já nem sei falá-lo,
porque lhe basta o tempo, e esse
- sem palavras


 

17/10/2023

ESTÁTUA DE RAPARIGA QUE SE PREPARA PARA DANÇAR ( Ruy Belo )

 Há uns vinte e três séculos que esta rapariga

concentra toda a vida que o mármore consente
no acto de dançar e de vencer assim
a condição mortal que intimamente a atinge
o peso que lhe pesa nesses pés com os quais pisa
a terra positiva e ciumenta como mãe
inimiga do voo de quem no acto de voar pode encontrar
maneira de evitar aquela gravidade que o sobrecarrega
Prepara a dança rapariga grega
tu nunca dançarás mas dançarás melhor
que se houvesses dançado alguma vez
No gesto com que apertas o sapato
nesse dobrar da perna até no risco do cabelo
no próprio olhar que pões em ver passar os dias
tu danças toda a dança que se tem dançado
em teatros jardins boîtes em adros de aldeias
ao longo destes séculos separando na aparência
dois seres que na verdade aqui hoje convivem
um breve instante neste corredor nesta passagem
com uma intensidade inacessível a contemporâneos
Prepara-te mulher para dançar
e por nunca dançar hás-de dançar em toda a parte
todas as danças que se têm sucedido
sobre esta terra grave e oscilante entre o dia e a noite
firme no solo inconstante no mar
através deste tempo que separa e une
e tanto mais nos une quanto mais separa
Não sei o que pensavas tu dançar
mas eu vi-te dançar ballet e música yé-yé
vi-te dançar giselle e vi-te até dançar
um único momento ao som de música moderna
há pouco tempo ainda na estalagem de saler
És toda a gente que na dança afinal tem procurado
deter o tempo eternizar o instante
Prepara a dança e põe em prepará-la
todo o cuidado de que és capaz
Só por ti não passaram vinte e tantos séculos
só tu não suportaste o dia-a-dia
não sofreste com guerras não tiveste fome
nem morreste sequer como cada pessoa
que teve nesta terra a vida e que pagou por tê-la
Prepara-te mulher e permanece e petrifica
assim serás feliz por nem teres começado
uma coisa que como uma das nossas muitas coisas
já mesmo ao começar havia terminado


 

15/10/2023

ANTROPOFAGIA ( Carvalho Júnior )

 Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas

Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote ajeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!

NA PENUMBRA ( Raimundo Correia )

 Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,

Lembras-te? apenas reluzia a medo,
Na escuridão crepuscular da alcova
O diamante que ardia-te no dedo.

Nesse ambiente tépido, enervante,
Os meus desejos quentes, irritados,
Circulavam-te a carne palpitante,
Como um bando de lobos esfaimados.

Como que estava sobre nós suspensa
A pomba da volúpia; a treva densa
Do teu olhar tinha tamanho brilho!

E os teus seios que as roupas comprimiam,
Tanto sob elas, túmidos, batiam,
Que estalavam-te o flácido espartilho!

ABC ERÓTICO ( Noel Ferreira )

 Abre-te!

Beija-me!
Cobre-me!

Amar-te é volúpia
Brincar é malicia
Carícia é pingo de mel.

Ai!
Basta!
Cala-te!

Abraço-te, queres?
Belisco-te, gostas?
Colo-me a ti, einh?

Ah!
Biscoito
Crocante!

Às nuvens subi
Bebendo o teu néctar
Crescendo-me em ti!

Ata-me!
Bebe-me!
Come-me!

Agora imparável
Brutalmente bom
Cada vez melhor!

POEMA DA BUCETA CABELUDA ( Bráulio Tavares )

 A buceta da minha amada

tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.

A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.

A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.

A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.


CARTA PLUMA ( Paulo Leminski )

 a uma carta pluma

só se responde
   com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
   não acabasse em espuma
assim algo como se amar
   fosse mais do que a bruma

   uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
   fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
   de quantos se
se faz essa história
   que se chama eu e você

ERÓTICA ( Levi Bucalem Ferrari )

Viajo pelas galáxias
Num col(chão) voador
Sonho com grutas úmidas
Repletas de tesouros

Orvalho sobre musgo sobre pedra
Calma e cheiro de mato

Obeliscos!

Menino
(Re)nasce
De homem
Dentro
De mulher

Tudo é
(M)eu, abrangido
Pelo teu abrangente
Infinito



O ESPÍRITO DO SEXO ( Manuela Amaral )

 Hoje acordei debaixo de mim


        e senti o orgasmo do mundo
        no corpo dos outros.

TEU CORPO DE AGOSTO ( Manuela Amaral )

 Teu corpo é agosto


Tu cheiras a verão
por baixo das veias

Tu cheiras a quente

Tu cheiras à febre
do sangue maduro

      Teu ventre de orgia
      teu cheiro a sodoma
      aroma-mulher

Teu corpo de agosto
tem cheiro a setembro


PELA LUZ DOS OLHOS TEUS ( Vinícius de Moraes )

 Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

POEMINHA DE LOUVOR AO STRIP-TEASE SECULAR (Millôr Fernandes )

 Eu sou do tempo em que a mulher

Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!

ÚLTIMO SONETO ( Mário de Sá-Carneiro )

 Que rosas fugitivas foste ali:

Requeriam-te os tapetes – e vieste.
– Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste –
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi.

Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava.

E fugiste... Que importa ? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste
Onde a minha saudade a Cor se trava?

Natália Correia, in "O Dilúvio e a Pomba"

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

11/10/2023

ELOGIO DA ESPIRITUALIDADE ( a Charlotte Bronte ) ( Alda Lara )


Não digas que os meus seios
são duas rolas brancas,
cansadas de não partir
ou que o meu corpo
é um fruto quente e bom,
que em noites de verão,
apetece morder e ferir...
Não digas que os meus lábios
são promessas de desejos
mal contidos,
ou que os meus cabelos soltos
lembram os afagos ligeiros
dos dias não cumpridos...

que as tuas mãos saibam colher
aquilo que não foi...

tu venhas antes p’ra me dizer,
que a minha sensibilidade
é trémula e franzina,
como a graça
de uma flor-menina...
que a minha inteligência
é funda e nua,
como as noites que não tiveram lua,
que a minha vontade,
é tão forte e tão plena,
que  o teu amor,
a condena!


 

ANUNCIAÇÃO ( Nuno Júdice )

 Esperas que o anjo pouse, e te abrace

com o seu tédio de asas. Entregas-lhe
os teus lábios abertos como a flor
saciada de água. Abres-lhe o teu corpo,

para que ele pouse no copo dos teus
seios, e beba o licor da primavera.
«Quem és tu?» perguntas-lhe, «anjo
ou demónio?» E não te responde;

segura-te a mão; puxa-te para o
canto. Vais atrás dele, sem saber se
há regresso. Pedes-lhe que não olhe

para trás, que se esqueça do mundo.
E ambos se afastam, sem dar resposta,
como tivessem decidido, e o soubessem.

RAPARIGA DESCALÇA ( Eugénio de Andrade )

Chove. Uma rapariga desce a rua.
Os seus pés descalços são formosos.
São formosos e leves: o corpo alto
parte dali, e nunca se desprende.

A chuva em Abril tem o sabor do sol:
cada gota recente canta na folhagem.
O dia é um jogo inocente de luzes,
de crianças ou beijos, de fragatas.

Uma gaivota passa nos meus olhos.
E a rapariga – os seus formosos pés –
canta, corre, voa, é brisa, ao ver
o mar tão próximo e tão branco.


27/09/2023

ALMA NUA ( Alfonsina Storni )

 Eu sou uma alma nua nestes versos,

Alma nua que angustiada e sozinha
Deixa suas pétalas espalhadas.

Alma que pode ser uma papoula,
Que poderia ser um lírio, uma violeta,
Um penhasco, uma selva e uma onda.

Alma que vagueia inquieta como o vento
E ruge quando está sobre os mares,
E durma docemente em uma fenda.

Alma que adora em seus altares,
Deuses que não descem para cegá-la;

Alma que não conhece cercas.

Alma que foi fácil de dominar
Com apenas um coração que se parte
Para regar seu sangue quente.

Alma que quando é primavera
Ele diz ao inverno que demora: volte,
Deixe cair sua neve na campina.

Alma que se dissolve quando neva
Na tristeza, clamando pelas rosas(*)
com que a primavera nos rodeia.

Alma que às vezes solta borboletas
Em campo aberto, sem definir distância,
E ele lhes diz: bebam nas coisas.

Alma que deve morrer de uma fragrância
De um suspiro, de um verso em que se reza,
Sem perder, se possível, a elegância.

Alma que nada sabe e nega tudo
E negando o bem, o bem propicia
Porque é negado à medida que mais chega.

Alma que geralmente existe como uma delícia
Apalpar as almas, desprezar o rastro,
E sinta um carinho em sua mão.

Alma que está sempre insatisfeita com ela,
Como os ventos, ele vagueia, corre e gira;
Alma que sangra e delira incessantemente
Por ser a nave em movimento da estrela.

EM FRENTE AO MAR ( Alfonsina Storni )

 Oh mar, mar enorme, coração feroz

De ritmo irregular, coração ruim,
Eu sou mais suave que aquele pobre bastão
Isso apodrece nas tuas ondas de prisioneiros.

Oh mar, dê-me sua tremenda raiva,
Passei minha vida perdoando,
Porque eu entendi, mar, comecei a me entregar:
“Piedade, misericórdia para quem mais ofende.”

Vulgaridade, vulgaridade me assedia.
Ah, eles me compraram a cidade e o homem.
Faça-me ter sua raiva sem nome:
Já estou cansado dessa missão rosa.

Você vê o vulgar? Essa vulgaridade me entristece,
Me falta ar e fico onde me falta,
Gostaria de não entender, mas não consigo:
É a vulgaridade que me envenena.

Fiquei empobrecido porque a compreensão oprime,
Fiquei mais pobre porque a compreensão sufoca,
Bendita seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como espuma.

Mar, sonhei em ser como você,
Lá nas tardes que minha vida
Sob as horas quentes abriu...
Ah, eu sonhei em ser como você.

Olhe para mim aqui, pequeno e miserável,
Cada dor me vence, cada sonho;
Mar, dê-me, dê-me o compromisso inefável
De se tornar arrogante, inatingível.

Dê-me seu sal, seu iodo, sua ferocidade.
Maresia!... Ah, tempestade! Ah, raiva!
Infeliz que sou, sou um cardo,
E eu morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E minha alma é como o mar, é isso,
Ah, a cidade apodrece e comete erros;
Pequena vida que causa dor,
Que eu me liberte do seu peso!
Deixe meus esforços voarem, minha esperança voar...
Minha vida deve ter sido horrível,
Deve ter sido uma artéria imparável
E é apenas uma cicatriz que sempre dói.