15/02/2026

MANCHA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Para reproduzir o donaire sem par

Desse alvo rosto e desse irônico sorriso
Que desconcerta e prende e atrai, fora preciso
A mestria de Helleu, de Boldini ou Besnard.

Luz faiscante malícia ao fundo desse olhar,
E há mais do inferno ali do que do paraíso.
O amor é tão-somente um pretexto de riso
Para esse coração flutuante e singular.

Flor de perfume raro e de esquisito encanto,
Ela zomba dos que (pobres deles!) sem cor
Vão-lhe aos pés ajoelhar ingenuamente. Enquanto

Alguém não lhe magoar a boca de veludo.
E não a fizer ver, por si, que isso de amor
No fundo é amargo e triste e dói mais do que tudo.

VOLTA ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Enfim te vejo. Enfim no teu

Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!

Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!

Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!

CONFISSÃO ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Se não a vejo e o espírito a afigura,

Cresce este meu desejo de hora em hora.
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura.
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora.

E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo.

Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim tão linda e rara.
Que hesito, balbucio e me acobardo.

MARISA ( Manuel Bandeira ) in Mafuá do Malungo, 1948

 Muitas vezes a beira-mar

Sopra um fresco alento de brisa
Que vem do largo a suspirar.
Assim é o teu nome, Marisa,
Que principia igual ao mar
E acaba mais suave que a brisa.

TREM DE FERRO ( Manuel Bandeira ) in Estrela da Manhã, 1936

 Café com pão

Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Ágora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
(drop
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...

MATÉRIA DE POESIA ( Manoel de Barros )Gramática Expositiva do Chão (Poesia Quase Toda) Ed.: Civilização Brasileira; 1990.

Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para  poesia.

O homem que possui um pente e uma árvore serve para a poesia.

Terreno de 10X20, sujo de mato – os que nele gorjeiam: detritos semoventes, latas servem para poesia.

Um Chevrolet gosmento Coleção de besouros abstêmios, o bule de braque sem boca são bons para poesia.

As coisas que não levam a nada tem grande importância, cada coisa ordinária é um elemento de estima, cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia ou na geral.

O que se encontra em um ninho de João Ferreira, caco de vidro, grampos, retratos de formatura servem demais para poesia.

As coisas que não pretendem como por exemplo pedras que cheiram a água, homens que atravessam períodos de árvore se prestam para a poesia.

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma, o que você não pode vender no mercado, como por exemplo o coração verde dos pássaros serve para a poesia.

As coisas que os líquens comem, sapatos, adjetivos, têm muita importância para os pulmões da poesia.

 Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita pisa e mija em cima serve para poesia.

Os loucos de água e estandarte servem demais.

O traste é ótimo, o pobre diabo é colosso.

Tudo que explique o alicate cremoso e o lobo das estrelas serve demais da conta.

Pessoas desimportantes dão para poesia.

Qualquer pessoa ou escada, tudo que explique a lagartixa de esteira e a  laminação de sabiás é muito importante para a poesia.

O que é bom para o lixo é bom para poesia.

 O importante sobre maneira é a palavra repositório.  A palavra repositório eu conheço bem, tem muitas repercussões como um algibe entupido de silêncio sabe a droços.

As coisas jogadas fora têm grande importância- como um homem jogado fora.

Aliás, é também objeto de poesia saber qual o período médio que um homem, jogado fora pode permanecer na terra sem nascer em sua boca as raízes da escória.

As coisas sem importância são bens de poesia.

 Pois é assim que um Chevrolet gosmento chega ao poema e as andorinhas de junho. 



13/02/2026

ALMA NOVA ( Fernando Abreu & Zeca Baleiro )

 Sempre que te vejo assim

Linda, nua
E um pouco nervosa
Minha velha alma
Cria alma nova
Quer voar pela boca
Quer sair por aí.

E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Ainda não é hora
De partir.

Então ficamos
Minha alma e eu
Olhando o corpo teu
Sem entender.

Como é que a alma
Entra nessa história
Afinal o amor
É tão carnal.

Eu bem que tento
Tento entender
Mas a minha alma
Não quer nem saber
Só quer entrar em você
Como tantas vezes
Já me viu fazer.


E eu digo
Calma alma minha
Calminha!
Você tem muito
Que aprender.

11/02/2026

BEBO UMA BICA POR DIA ( Raquel Nobre Guerra )

 Bebo uma bica por dia, às vezes bebo-a fria

depois disto bem que podia morrer, diga-se
com as mãos ao redor de um pescoço amigo
quero dizer, de um livro.

Tenho o carácter objectivo de uma incompetência para a vida.
Sapato gordo, pé franzino, amor quase extinto.
Tanto nome derrotado às minhas mãos vazias.

Haverá certamente uma fórmula adequada
uma domesticidade última de perseverar
em ambas as condições: vivo e morto.
Ser imparcial a meia mão estendida
que frase estúpida para quem insiste
fazer de tudo fronteira com o absoluto.

A verdade é que na verdade não quero nada
como qualquer outra coisa que pudesse querer.
Refaço-me e peço a tal bica que me transfere
a atenção para a vocação de mendiga e altiva
no meu separado insulto ao grande cu do mundo.

Há uma mulher a mais aqui que se eu pudesse subia
e que me devolve o soco do anonimato
não há Buda que nos valha, menina, que fazer?

E eu vou ao café ainda assim para assegurar
que, pelo menos enquanto bebo, persisto
ou talvez seja Deus numa versão melhorada de mim.

NÃO FOI PRECISO MUITO ( Raquel Nobre Guerra )

 Não foi preciso muito para que a cidade

começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.

Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.

Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.

Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.

Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.

É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.

E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:

I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters

Ficas a dever-me uma.

09/02/2026

Por Célia Moura, in "No Hálito de Afrodite"

 É na astúcia dessas mãos feitas de linho

E damasco
Que me entrelaço mulher,
Luxúria de momentos
Mordendo todas as sílabas
Dos teus voluptuosos seios de nácar
Ausento-me como se morresse
Amor
Exaltação de amoras e pele
Bebendo-te…

08/02/2026

LOUCURA DE AMAR ( Natália Nuno )

 Quero decifrar cada momento

guardar-lhe o sabor
de ti, do teu olhar
do enlouquecer de amor
na hora de amar.
Guardar o teu perfume almiscarado
ter-te por inteiro em meus braços
totalmente apaixonada

deixar-me levar pelo sabor
dos teus lábios que me embriaga
e com a nudez da carne desejada

sonhar, e acordar assim,
com o rumor dos teus passos
voltando de novo para mim
e ali,
disfrutar de novo de beijos
e abraços.
A ti me dou
esqueço o mundo
não quero nem saber quem sou.

SONHOS QUE ME NAVEGAM ( Natália Nuno )

Sonho que sou menina

Não quero nunca despertar
Remonto à origem do meu caminhar.
Conquisto o azul celeste
As asas me dão coragem
Visto-me de penas, de alegre plumagem.
Ando perdida num mar de açucenas
Sei apenas...
No sonho sou menina
Perdida na neblina.

Meu sonho!
Me reconforta a esperança
que em ti ponho.
Salpica, saplica-me de alegria!
Não me fales de dissabor
Deixa um sussurro em Poesia
Tira do meu coração a nostalgia
Abre novas janelas ao amor.

Ajuda-me a dizer não
a todos os nãos
Sim á felicidade
Deixa-me agarrar com as mãos
Da vida a cumplicidade.
Porque a vida é um trino ardente
E eu ainda me sinto gente.

PALAVRAS SOLTAS ( Natália Nuno )

 Amar-te é meu segredo

amor é malha que teço
tua ausência me dá medo
e ao temer tanto padeço.

corre o tempo e faz-te meu
tu perdido, nunca chegas!
este amor por ti cresceu
e tu amor tanto te negas.

não querer-te assim,
eu queria,
é tanta a minha agonia
quanto mais te nego
mais te quero,
e no desespero
é grande o meu apego
apregoo aos quatro cantos
que um dia?!
perco o fio à meada
e nem com reza aos santos
farás de mim tua amada

LOUCURA ( Natália Nuno )

 mais um dia

sempre o mesmo
do começo ao fim,
ruidoso corrupio
sinto o desnorteio em mim
no sonho me refugio

deito um olhar derradeiro
ao rio e ao salgueiro
no vazio da madrugada
as aves livres no céu
cativo só o pensamento meu
apaixonadamente canto
ao romper da aurora
quando estou feliz
ou quando o coração chora

fantasio,
danço em campo de margaridas
me arrepio,
das rolas ouço o arrulhar
tornei-me louca
é nas lembranças que procuro
minha vida resgatar

LINHA A LINHA ( Natália Nuno )

 Perscruto as profundezas

do teu olhar
E meu coração muda de lugar
Sem que dê pela mudança,
esquece o tempo, julga-se imortal
Cresce nele a esperança,
É seu destino amar
Assim, é fatal.

Para as tristezas afogar
Vai ocultando a sua dor
Seu murmúrio tem o som do mar
Quem o escuta ouve a voz do amor.

Ouve-lhe os segredos
Sente-o perdido em nevoeiro baço
Escondendo os medos
A vida do avesso
Procura acertar o passo
Ai...como eu o conheço!

Mas deste mal eu padeço
Olhar teus olhos bem fundo
E achar que os não mereço?
Se acaba o chão e o mundo.
Resta-me ainda a lembrança
Neste peito nu é ventura
Quando choro me traz bonança
Passa a dor, torna clara a noite escura.

E neste meu viver singelo
Recordo com natural tristeza
Não quero esquecer o que foi belo
Deixo em palavras de singeleza.
E à vida que eu amo tanto
Tanta vez ela me afronta!
Lhe deixo este meu canto
Na esperança,
que a vida não me interrompa.

ARREBATAMENTO ( Natália Nuno )

 ante o teu corpo junto ao meu vou sonhando

prossigo inteiramente tua, do sempre ao agora
descubro a tua força, enquanto tu me amando
segredo aos teus ouvidos, rogando mais na hora

a loucura, o sonho, esse que vive junto ao meu
é como uma cascata de sede, que nos aprisiona
vejo o mar no teu olhar, fica o meu preso no teu!
esse corpo desencaminha o meu que se abandona

e nessa loucura o sonho me leva com paixão
somos como um vendaval q' palpita aprisionado
a plenitude é um mudo instante, e logo é extinção

procuramos inutilmente o amor ainda em chamas
foi-se em longínquos dias, em silêncio devorado
resta lágrima que nos afoga, e o dizeres qáme amas

SONHO DE SAUDADE ( Natália Nuno )

 pelo meu corpo passeiam

tuas mãos
donas dos meus desejos,
dominam meus anseios
sinto-as, e vou
ora resistindo ora não,
enquanto de amor bate
meu coração, mãos que

nos meus seios viajam

a cada segundo...esqueço
o mundo!

meu corpo é lava acesa
areia em tempestade
sonho de saudade.

FESTIM ( Natália Nuno )

 no mar do teu corpo me perdi

inteira diluí-me na tua corrente

no furor da rebentação

vales distantes percorri

entre o prazer e o sonho

e os aromas da paixão


o sonho me enlaçou como uma hera

em horas de delírio e rendição

e o amor me rodeou com sua dança

em impulsos vorazes de desejos

assim prossigo inteira nesse teu mar

neste sonho que é tão meu e teu

prisioneira dos teus beijos

do nosso amor, nosso festim

certeza de ti e de mim.


na loucura dos instantes

mesmo aqueles que não tive

fui água amanhecida

sedenta

como riacho de verão

nos dias que se apagavam sobre si

numa lânguida lentidão

com saudade de ti.

ESTE NOSSO AMOR ( Natália Nuno )

 Dá-me o que tens

recupera o fôlego

eu sou o rosto da fogueira

o vento do desejo

e às vezes da saudade

cansa-te no meu corpo

que o tempo dos sonhos acabou

não esperes milagre

nem tão pouco eternidade

tudo acaba, já tanto se calou

dá-me o toque dos teus dedos

ouve os meus gemidos

labirintos de segredos

espevita o carvão,

ateia a chama

e eu serei o fogo

que não se vê mas sente,

a areia ardente escaldante

deste nosso amor.

ESTE É O POEMA ( Natália Nuno )

Este é o poema onde tu me despes

como se fosse tua,

onde me sinto nua e crua.

Da tua boca saem palavras loucas

estremecidas de ternura

e loucura,

e tuas mãos sem paragem

seguem p'lo meu corpo viagem.

E o teu querer actua

num ritual de ir à lua

e voltar.

Nada sei de ti.

Que sabes de mim?

Tu és apenas o poema que li,

o amor que não vai acabar

porque te quero tanto assim!


Deixo-me ir na lonjura,

na entrega, na emoção.

Viajo no teu corpo, banhada

numa corrente de mel

onde com ternura

dirijo a tua mão

que arrepia a minha pele.


Nos meus olhos desejos

na tua boca beijos.

De repente o silêncio

como se estivéssemos ausentes

Só nossos corpos ainda quentes.


Assim nos amávamos

enquanto o poema ía nascendo!

TRANSE ( Djavan )

 Abra o seu coração

Que eu quero passar
Andar de trem
Flores beijando o chão
Pedras a sonhar
Tudo em transe de amor
As carícias virão
Soltas pelo ar
Vindas do além
E no meu coração

Ou qualquer lugar
Tudo brilhará também
Ali onde o ar beira a luz
Todo encanto vai navegar
No decorrer de uma paixão
Tempestade nasce no vento
Cresce e se faz mulher

Pra me levar
Na ilusão
Abra o seu coração
Que eu quero passar
Andar de trem
Flexas de solidão
Cantam pra saudar
Noites de luar
Em vão

FLORES SEM NOME ( Affonso Romano de Sant'Anna ) in Textamentos, 1999

 Estou amando essas flores, sem lhes saber o nome.

Isto não é justo, nem suficiente.
Sei-lhes o perfume,
vejo pequenas abelhas que as circundam
e delas se alimentam
sem lhes indagar sequer o nome.
Inominadas,
como apreendê-las no poema?
Delas guardarei no tempo
certa cor, certo aroma, certa forma,
como certas pessoas que por mim passaram
– inalcançáveis –
embora deixassem nos meus olhos
o mesmo inominado aroma.