15/02/2026

CONFISSÃO ( Manuel Bandeira ) in A Cinza das Horas; 1917

 Se não a vejo e o espírito a afigura,

Cresce este meu desejo de hora em hora.
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura.
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora.

E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo.

Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim tão linda e rara.
Que hesito, balbucio e me acobardo.