20/01/2017

A BELEZA

De um sonho escultural tenho a beleza rara, 
E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor, 
Faz despertar no poeta um vivo e intenso amor, 
Com a eterna mudez do marmor' de Carrara. 

Sou esfinge subtil no azul a dominar, 
Da brancura do cisne e com a neve fria; 
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia; 
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar. 

O poeta, se me vê nas atitudes fátuas 
Que pareço copiar das mais nobres estátuas, 
Consome noite e dia em estudos ingentes. 

Tenho, p'ra fascinar o meu dócil amante, 
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante 
A própria imperfeição: — os meus olhos ardentes! 
*Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 
Tradução de Delfim Guimarães