19/01/2017

GÊNERO ( Adélia Prado )

Desde um tempo antigo até hoje,

quando um homem segura minha mão,

saltam duas lembranças guarnecendo

a secreta alegria do meu sangue:

a bacia da mulher é mais larga que a do homem,

em função da maternidade.

O Osvaldo Bonitão está pulando o muro de dona Gleides.

A primeira, eu tirei de um livro de anatomia,

a segunda, de um cochicho de Maria Vilma.

Oh! por tão pouco incendiava-me?

Eu sou feita de palha,

mulher que os gregos desprezariam?

Eu sou de barro e oca.

Eu sou barroca.