31/07/2025

O ÚLTIMO POEMA ( Heba Abu Nada )

  A noite na cidade é escura,

exceto pelo brilho dos mísseis;
silenciosa, exceto pelo som do bombardeio;
aterradora, exceto pela promessa lenitiva da oração;
tenebrosa, exceto pela luz dos mártires.
Tradução: Huda Fakhreddine / Carlos Machado



NÃO APENAS PASSANTES ( Heba Abu Nada )

Ontem uma estrela disse
à pequena luz em meu coração:
Não somos apenas transeuntes
passando.

Não morra. Sob esse brilho
alguns andarilhos permanecem
caminhando.

Você foi concebida por amor.
Portanto, não leve mais que amor
àqueles que tremem.

Um dia todos os jardins brotaram
de nossos nomes, daquilo que restou
dos corações ansiosos.

E desde que se tornou madura,
esta língua antiga
nos ensinou a curar pessoas
com nossos desejos,

como ser um aroma celestial
para relaxar seus pulmões contraídos:
um suspiro de boas-vindas,
um hausto de oxigênio.

Suavemente passamos sobre as feridas,
como uma gaze suave, um olhar de alívio,
uma aspirina.

Ó pequena luz em mim, não morra,
mesmo que todas as galáxias do mundo
se aproximem.

Ó pequena luz em mim, diga:
Entrem em paz no meu coração.
Todos vocês, entrem!
Tradução: Huda Fakhreddine / Carlos Machado

VULGÍVAGA ( Manuel Bandeira )

 Não posso crer que se conceba

Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos.

Fui de um… Fui de outro… Este era médico
Um, poeta… Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie.
Que inspira… E aos tímidos – o orgulho.

Estes, caçôo e depeno-os:
A canga fez-se para o boi
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!
E todavia se o primeiro
Que encontro, fere a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo… dou dinheiro

Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas quebrada
Do seu colérico arremesso

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico

by Célia Moura

 O sangue das palavras

deve beber-se frio.
Porque me arrastam multidões de sentidos
quando somente ouço e me deleito na chuva
que beijando-me, se escorre em meu corpo?
Não penses que a enseada
onde esgravatas o ébrio azul
desse poema feito de maresia
te será melhor
que as farpas.
O mar crava-se na alma
feito embrião,
jamais parido!
O sangue das palavras deve beber-se obliquamente gelado.
Porque continuo a clamar as chuvas
em pleno Agosto?!
Apeteces-me!
Entre as chuvas, este odor a terra fecundada
e a África onde permaneço
Sabes-me a nada!
Que ao menos me faças gerar a semente desejada
este sangue de palavras e loucura num pedaço de maçã
com canela, hibisco e chá de absinto!

30/07/2025

ELEGIA OBSCENA ( Antônio Carlos Belchior )


Meu bem

Admire o meu carro e goze sozinha

Enquanto fumo um cigarro

Mas cuidado, atenção

Oh! Oh!

Não vá quebrar mais nenhum coração


Podemos até nos deitar

Mas você saberá

Saberá que será

Puro flertar, paraíso perdido

Meros toque de Eros, um sarro, um tesão


Oh! Oh!

Bad bed bed times

Os teus peitos no jeito

E eu pego e me deleito

Na flor do meu umbigo

Oh! Oh!

E ainda ponho a camisa

Que avisa precisa

I can't get no satisfaction


Oh! Oh!

Bad bed bed times!

Onde os puros saberes

Onde a fúria de seres humanos

Contra a ira dos deuses

Que cena obscena pedir, pedir

Por favor nada de amor

I can't get no satisfaction

28/07/2025

QUEIMADURA ( Aleyda Quevedo Rojas )

 O desejo. O que deseja. O desejado. Desejando-te. A beleza efêmera. A tríade do dano, imersão e fragilidade que queima a pele. O deseja-te que escraviza os queloides do meu eu. São os meus estados que você pode ver antes de iniciar qualquer exercício de afundamento. Erros que as pessoas criticam. Cicatrizes de pesado relevo. São estados do cérebro que arrastam à desembocadura do tédio. Tratas de abandonar essa queimadura extensa sobre o corpo que te marcou. Procuras falésias e terraços altos. Pedras lisas. Adagas e punhais. O que se deseja é voraz. A pessoa que deseja perde força e cobiça. O desejo sempre no tempo presente. Foi para Sócrates e para Safo ainda é. Eros Criador.

(tradução: Floriano Martins)

DESEJO (Aleyda Quevedo Rojas) (tradução: Floriano Martins)

 Dizem que Safo saltou do vazio do penhasco de Leucas. Ela mordeu os lábios e uma torrente elétrica acompanhou seu corpo quente e nu. Sem paixões, pedras ou catástrofes de dor, ela mergulhou no mar à procura de si mesma. Longe do fulgor do desejo, longe do lugar da dor amarga e doce, mel indefinível, mel azedo.


RÉQUIEM (Carmen Ollé) (tradução: Floriano Martins)

 É difícil montar o quebra-cabeça

a identidade está em jogo
o cheiro da cripta a música de Mozart

puseste a andar a minha fantasia
eu entraria no sarcófago
beijaria teus lábios
amor é corpo
é olhar

então eu fecharia os olhos
para não ver
em ti e em mim um pássaro raro
sem nome

emissário de uma luz
que se acende agora
apaga depois

Há uma parede
e do outro lado chove
há uma bétula
que balança ao vento
um cheiro que eu não consigo alcançar
se fosse teu

a noite
se em mim o brilho
os olhos

é apenas o scherzo
de um melro imaginário

ou algo fora da caixa

MINA E O CONDE DRÁCULA (Poema de inverno) (Carmen Ollé)

 A noite é longa, a droga amarga

Mikel Erentxun

Doze da noite e já são três copos de vodca.

O africano que serve as bebidas me detém junto ao banheiro
E me beija na boca
Minha vontade maca zero quilômetros,
Eu me deixo ir e não protesto.
Naquela hora qualquer beijo tem o gosto
Do que não se passa no tempo
Eu me imagino sentada no deserto.
Sentada sozinha,
As pessoas no bar bebem sem piedade.
Uma mulher de trinta anos cumprimenta meu vizinho à mesa.

Uma vez eu comecei a chorar em um canto da sala
Quando eu tinha quinze anos, eu tinha perdido Deus
E ele estava perseguindo um sacristão,
Meu platonismo era sincero
Agora eu odeio que as coisas não saiam para mim
Como eu quero.

Ao meu lado, Mina é o prazer, tento de novo e de novo,
Ela sucumbe porque não espera nada da vida
E eu a ensino a ser sutil
A partir de cem horas em seu carro velho.
Amo seus quadris onde eu finalmente deito como
Em uma baía quente ao sol, eu digo a ela,
E eu, que odiava o sol, também os amo.
Agora a volúpia é algo novo para ela,
A cobra passa a noite toda assobiando meu nome
E o veneno do ciúme a deixa mais bonita.
Como ela sabe o que é isso, isso a atrai, para o bem
Ou para o mal, como vodca,
Seus olhos de panturrilha não desfalecem mais
Raiva de zelo e fome como a de uma onça
E ela corre em seu carro velho a cem por hora
Para os espantalhos que atingiram o capô como se tivéssemos
A praga, ela e eu, praga abençoada na qual ela
Meu Senhor, admita
Não pense em Brooke Shields, sussurro em seu ouvido.
Meio-dia no bar
Não em Madonna
Quando ris, pareces com uma adolescente em seu uniforme azul
E uma boina azul e uma blusa branca engomada
Só isso imposta, sabes? Só isso.
(tradução: Floriano Martins)

O PROCESSO E A CONDENAÇÃO ( Carmen Bruna )

 As flores de teus olhos

se abrirão alucinadas em meus seios para sempre perdidos.
As montanhas nevadas serão a inabarcável altura
que só alcançarás para beijar na boca
a febre de teus sonhos

alarido na pedra

Eu te causava repulsão
meu mundo enfermo tornara-se insuportável para ti
e assim me condenaste ao pavor permanente
conheço como ninguém as ensolaradas cabanas
onde se derramará o fogo de tuas quimeras
conheço tua feroz certidão de nascimento,
a da mulher sem cabeça
e posso imaginar-me o dourado templo outonal de teu epitáfio.
Meu coração transborda de amor por ti e de maldade,
não temas. Ninguém te molestará em teu refúgio.
Aquela que hoje diz que te quer não subirá contigo às alturas.
Estarás só.
Só.
Como eu.
(tradução: Floriano Martins)

O PARTIDO DOS DEMÔNIOS ( Carmen Bruna )

 “Conduz teu carro e teu arado

sobre os ossos dos mortos”.
Provérbios do Inferno, de William Blake.

Meus desejos não querem ser negados

meus velhos prazeres soluçam com o arcanjo primitivo.
Te maldisse, feroz aparecida de pupilas de ônix
e colhi por isto uma exuberante coroa de lírios vermelhos,
apontarei para teu coração de fêmea com minhas flechas de obsidiana,
destroçarei tuas redomas de mirra e incenso
para que tua carne não possa consolar-se nunca mais com a espuma.
Como o vapor do mar ascendem os globos de fogo,
como o orgulho dos videntes com os sentidos famintos,
multiplicam-se as orações do tato nas plumas cálidas das aves,
como a madalena conhecerei as doçuras da pele do anjo da babilônia,
a persistente loucura que se desprende dos ossos esbranquiçados pelo sol
e as delícias do mel nos lábios do oceano.
Aos despeitados todo o amor
aos abandonados toda a vergonha
aos heréticos toda a glória
Sobre a colina tremem as fogueiras
e se ergue o patíbulo onde o rebelde negro de Surinam
pende como um tigre escuro,
seus enormes olhos nictalópicos contemplam enfebrecidos o rosto vazio das caveiras.
Não há vinhas para os filtros da ressurreição,
não há deslumbramento capaz de incendiar o vale da morte:
cai o sangue dos sóis fugazes da meia-noite
nutrindo a raiz da mandrágora com seu licor viscoso,
Simão o mago interpreta meus sonhos herméticos
com os signos do jaguar e da cabala,
recolhe meus pesadelos como atos de amor
aceita minhas preces irritadas,
com mudas reprovações, com infinitos sofrimentos,
com descargas elétricas que são como enxames de pássaros sedentos;
a madona dos destinos, a mulher dos alquimistas
percorrerá a cidade em um corcel de risos noturnos
e de libélulas transparentes como as pétalas do íris.
Eu amarei tua jovem jaula de cabelos de asas de colibri,
teus estremecimentos de chuva nas janelas dos antigos conventos;
amarei o canto das auroras boreais,
o tremor de tua mão com aguilhões
e beberei as flores carnívoras das nepentes no oco das rochas,
percorrerei o submundo de Fonthill, morderei a lua de seus ídolos;
minha língua de cortesã conhecerá o leite dos jasmins no trono.
(tradução: Floriano Martins)

( by Joyce Mansour ) ( tradução: Floriano Martins )

 Que meus seios te provoquem

Eu quero a tua raiva.
Quero ver como se espessam teus olhos
Como empalidecem e se consomem as tuas bochechas.
Eu quero os teus tremores.
Quero que irrompas entre minhas coxas
Que meus desejos sejam realizados no solo fértil
De teu corpo despudorado.

NUA ( Joyce Mansour ) ( tradução: Floriano Martins )

 Nua

Flutuo entre despojos com bigodes de aço
Com a ferrugem de sonhos interrompidos
Pelo suave bramido dos mares
Nua
Persigo as ondas de luz
Que correm sobre a areia semeada de crânios brancos
Muda eu planejo sobre o abismo
A densa gelatina do mar
Pesa sobre meu corpo
Monstros legendários com bocas de piano
Se refestelam na sombra dos abismos
Eu durmo nua

EXORCISMO ( Sílvia Barros )

 Este é um exorcismo

De um corpo que habita meu próprio corpo
Como um obsessor
Que me odeia
Cujo peso me achata.
Preciso mandar embora esse corpo-sósia,
Doppelganger do corpo-eu real,
Que por vezes demais aparece no espelho
Me pondo medo,
Pois quando o vejo penso:
Essa sou eu sou eu sou eu.

ESTRIAS ( Sílvia Barros )

 Esgarçada

Minha pele se abriu
Em rios e afluentes de estrias
Primeiro rosadas
Depois esbranquiçadas
Em contraste com a pele marrom
O corpo desenhado de listras
Irregulares
Que sobem e descem
Riscam de fora a fora
Desenrolam-se como plantas trepadeiras
No jardim do meu corpo.

DISCLAIMER ( Sílvia Barros )

 Este é um livro de poemas

Sobre a nudez
Porque a forma da poesia
É a única capaz
De mostrar meu corpo.
Se eu conhecesse
Outras maneiras de fazer arte
Com pincel, argila ou voz
Faria de um jeito
Que não precisasse tirar a roupa.
A poesia despe
Com as palavras
E cria o retrato do meu corpo nu.

VITRAIS ( Rosana Batista Almeida )

 Vôo alto dentro do palácio de vitrais.

Os cantos de brisa me envolvem.
Deslizo sobre o teu rosto de anjo.
Somente assim.
Somente, sim, estrelas vêm me buscar
para viajar.

Estou do tamanho do Ser.
Nada busco nem me afasto:
o absoluto dilata a consciência.
Não existem falsas verdades:
endereço-me ao azul.

Repousando na areia,
o mar vem me abraçar.
Ó mar, leva-me para dançar!

27/07/2025

TERRA DE SONHOS ( Almir Sater - Renato Teixeira )


A garça agora voou, se foi

Que parecia um planador

E num corixo eu lavei meus pés

De camalote navegador


Quando o fundão do mato se amorenou

Então se ouviu o canto do zabelê

E tudo tem a ver com o pôr-do-sol

Que é quando se estende a rede em dois pé-de-pau

E a noite vem pelo Pantanal


Quando o dia desativou

A noite disse agora eu sou

E veio toda com seu andor

De lua nova cheia de amor


Noite, suave noite dos sonhos meus

Noite, mãe sigilosa do pererê

Noite que a todos têm porque não se vê

A mesma noite infinita, noite astral

Amanhecendo pelo Pantanal


Quando o sol brilhou, pousou uma borboleta no meu chapéu

Só uma estrela sobrou no céu

Azul cintilante, um azul sem véu


Dia de tudo ter ou de nada ter

Desde cedinho horas pra se viver

Dia para plantar, dia pra colher

O mesmo dia de sempre, o velho sol

Se esparramando pelo Pantanal



 

26/07/2025

DANÇARINA ESPANHOLA ( Rainer Maria Rilke )

 Como um fósforo a arder antes que cresça

a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.


 

EU DURMO COMIGO ( Angélica Freitas )

 eu durmo comigo / deitada de bruços eu durmo comigo / virada pra direita eu durmo comigo / eu durmo comigo abraçada comigo / não há noite tão longa em que não durma comigo / como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo / eu durmo comigo debaixo da noite estrelada / eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário / eu durmo comigo às vezes de óculos / e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo / e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir do lado.



A TERRÍVEL HISTÓRIA DA CONCUBINA DO LEVITA ( Adriane Garcia ) in A Bandeja de Salomé, Caos & Letras, 2022.

 Você nasce

Pode ser um bom negócio
Te deixar crescer
Você cresce
Seu pai te vende
Você é concubina
E a tudo obedece
Mas sob maus tratos
Você volta
Para a casa do pai
(você não tem ninguém)

Seu senhor te busca
E seu pai se alegra
Com a transação válida
Seu senhor te leva
E no caminho
Na casa em que se hospedam
Invasores querem
O corpo do senhor
Mas ele te oferece:
É carne boa
Eu mesmo a amacio
Todos os dias
(e eles te moem)
Até a morte

Então seu dono
Revoltado
Retalha seu corpo
Em doze partes
E distribui
Às doze tribos
Do verdadeiro deus
Para mostrar a elas
Que é preciso uma guerra
Que ensine
Definitivamente
A respeitar
Uma propriedade.

PASSAGEM PARA O INORGÂNICO ( Ruy Proença )

 uma folha se desgarra da árvore e cai

outra folha cai
e outra

o vento
quando vem
arranca as folhas secas

a velhice
é como uma folha seca
que se desprendeu

na calçada
os transeuntes caminham
sobre um tapete de folhas

ainda há algo de belo nisso
assim como vemos beleza
num fóssil

by Rainer Maria Rilke

 Ao escrever-te, saltou seiva

da máscula flor
que à minha humanidade
parece fértil e enigmática.

Sentirás tu, ao leres-me,
distante terna, a doçura
que no feminil cálice
espontânea corre?

25/07/2025

QUASE ( Mário de Sá-Carneiro )

 Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa
Se ao menos eu permanecesse aquém
Assombro ou paz?  Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão
Mas na minh’alma tudo se derrama
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo  e tudo errou
– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou
Momentos de alma que, desbaratei
Templos aonde nunca pus um altar
Rios que perdi sem os levar ao mar
Ânsias que foram mas que não fixei
Se me vagueio, encontro só indícios
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi
Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa
Se ao menos eu permanecesse aquém

MARABÁ ( Antônio Gonçalves Dias )

Eu vivo sozinha; ninguém me procura!

Acaso feitura
Não sou de Tupá?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
— Tu és, me responde,
— Tu és Marabá!

— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços,
Responde anojado; "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar. —

Se ainda me escuta meus agros delírios:
"És alva de lírios",
Sorrindo responde; "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cáctus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
"Qual duma palmeira,
Então me responde; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
"Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram,
— De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá."

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!