21/07/2025

A FELINA E O SEU PÊLO ( András Petőcz )

 O poeta sofre. Diz-se

que é o quinhão do poeta.

 

A causa do seu sofrimento é naturalmente a felina.

A felina negra é com efeito hostil contra o poeta.

Hostil e glacial.

 

A felina está estendida sobre um divã

pára, em frente ao poeta,

lambendo o seu pêlo com voluptuosidade.

 

O poeta sofre. Ele gostaria de tocar

o pêlo brilhante, doce e atraente da felina.

 

A lambidela do pêlo prossegue com indecência.

A felina mostra-se de maneira provocante, depois

salta subitamente sobre a coxa do poeta.

 

O poeta não sabe como prendê-la.

Ele não ousa tocar o pêlo provocante

da felina, tomado pelo medo de uma recusa.

 

O poeta não faz senão sofrer. Diz-se

que é o quinhão dos poetas.

 

A felina negra olha para o poeta com um ar malicioso, depois

ela salta da coxa do poeta, e corre

para longe: mesmo para o fim da sala.

 

Assim vivem eles, os nossos amigos, o poeta e a felina,

numa parte do mundo afastada, num planeta afastado,

num castigo eterno, na tristeza eterna.

 

Porque o poeta sofre. Diz-se

que é o quinhão dos poetas.

(Tradução para português: Maria João Cantinho)