O poeta sofre. Diz-se
que é o quinhão do poeta.
A causa do seu sofrimento é naturalmente a felina.
A felina negra é com efeito hostil contra o poeta.
Hostil e glacial.
A felina está estendida sobre um divã
pára, em frente ao poeta,
lambendo o seu pêlo com voluptuosidade.
O poeta sofre. Ele gostaria de tocar
o pêlo brilhante, doce e atraente da felina.
A lambidela do pêlo prossegue com indecência.
A felina mostra-se de maneira provocante, depois
salta subitamente sobre a coxa do poeta.
O poeta não sabe como prendê-la.
Ele não ousa tocar o pêlo provocante
da felina, tomado pelo medo de uma recusa.
O poeta não faz senão sofrer. Diz-se
que é o quinhão dos poetas.
A felina negra olha para o poeta com um ar malicioso, depois
ela salta da coxa do poeta, e corre
para longe: mesmo para o fim da sala.
Assim vivem eles, os nossos amigos, o poeta e a felina,
numa parte do mundo afastada, num planeta afastado,
num castigo eterno, na tristeza eterna.
Porque o poeta sofre. Diz-se
que é o quinhão dos poetas.
(Tradução para português: Maria João Cantinho)