
Ave, liberdade!
a vassoura parecia entender.
A liberdade passou por mim feito cão raivoso,
entrou sem pedir licença,
foi direto para cozinha
e bebeu água na cuia que era de Nossa Senhora.
Não pediu desculpa.
Liberdade não tem bons modos,
chega suada,
com a barra da saia molhada de orvalho sujo
e um cigarro aceso escondido no sutiã.
Pisa torto,
mas pisa firme.
Às vezes acho que é pecado gostar dela.
Dá um gosto de abismo no fundo da boca,
porque a gente se acostuma com a cerca,
com o sino das seis da tarde,
com o homem mandando,
com a missa dizendo amém por nós.
A gente se acostuma tanto a obedecer
que até a alma se encolhe pra caber no
vestido de costume.
Mas ela vem:
quando a gente tá mais cansada,
quando o arroz queima,
quando o filho dorme,
quando o corpo cansa de só servir.
A Liberdade, naquele dia, dançou comigo na sala.
Eu descalça, com o cabelo desgrenhado
e um pedaço de pão na mão,
que ela comeu sem vergonha, nem bênção.
Riu com a boca cheia.
Cuspia farelo e destino.
Depois me contou
que fugiu do altar,
que deu uma surra no medo,
que anda pegando carona com
mulher cansada de calar.
E que gosta mesmo é de dormir com a janela aberta,
pra ver se a vida entra de madrugada.
Ela me disse no ouvido:
"Liberdade é isso aqui, ó...
a vontade que você esconde no banho,
o grito que você dobra e guarda na gaveta das calcinhas."
E eu chorei.
Não por tristeza.
Por susto.
De perceber que ela me conhece mais
do que qualquer oração que já rezei calada.
Depois lavamos a louça em silêncio.
Ela me passou o pano
como quem entrega um mapa antigo.
Fiquei ali,
tentando entender que caminho era aquele,
feito de nada além de coragem e cansaço.
Aí fui dormir.
Com ela deitada ao meu lado,
cheirando a suor e milagre.
Roncando baixinho,
como quem não tem mais nada a temer.
E, pela primeira vez,
não pedi perdão.
Nem pra Deus,
nem pra mim,
nem por estar viva,
nem por querer mais.