04/09/2025

Célia Moura, in "Terra De Lavra"

 Aguardo-te amada minha

enquanto possuir a bênção de Osíris entre a púbis e o umbigo.
Esta herança pobre de ninguém que eventualmente irá perpetuar toda a dor,
todas as cerejas e o licor,
num local onde nunca me dei.
Perfídia minha,
esta alma infinitamente sozinha.
Doem-me todas as vozes que ouço e os silêncios mais ainda!
Se escrevo é por esta tristeza de ser.
Se existo e escrevo, apelo unicamente à salvação de mim.
Mas tudo o que sinto é este cansaço
maior ainda que todos os fardos, angústias ou paixões longínquas.
Tudo o que possa escrever é maçã assada no forno
ou mais uma taça de espumante refasteladamente bebida por qualquer um!
Tudo tão repetido até à exaustão
e eu irremediavelmente perdida, desmemoriada como um abacate sem caroço
ou água de coco em lata de supermercado.
Se ainda canto é tentativa de libertação dessa louca que tomou posse do meu cérebro revestido a jasmim
enquanto te vejo chegar suave,
e de um só gole me bebes a alma pela raiz.
Eis-me liberta!
Finalmente liberta de toda a miserável matéria e deste corpo.
Olho para baixo e contemplo a alegria da planície prenhe de verde e papoilas.
Uma criança gargalha em seu baloiço,
rebola com um pequeno rafeiro preto,
mancha branca no peito
naquele local mágico
onde tudo não passa de um ciclo demasiado perfeito.
A liberdade é um hino que rodopia nos meus cabelos.
Estremeço só de olhar o mundo.