
as meninas de outra época
colecionavam e trocavam papéis de carta
os de seda – os mais valiosos – amassavam
não eram espichados como o tergal das saias
Na ponta dos dedos toques sutis:
nervos fibras músculos e enredos
como uma descoberta num mapa
cada desenho uma labareda
a eterna promessa do completo
o papel de carta insinuava
o que não seria estudado na escola:
tesouros de piratas de seus corpos
marés encharcadas de águas-vivas
a ponta da pirâmide, esfinge
o cheiro dos papéis de carta:
orquídeas de Madagáscar
plantas carnívoras
coberta descoberta
lençol não trocado
árvores frutíferas
os envelopes das cartas
ficavam quase abertos
asas de libélulas
retirados em dedos ébrios
com luvas de cetim
de cartolas mágicas
já ouvi falar que as meninas
ardiam seus papéis de carta
em ferros a vapor
sem nenhum rubor
não aprendiam com as mães
mas com as mãos
os papéis importados
forasteiros
abriam-se
como figos na imaginação
um livro pagão
se em blocos
as meninas molhavam
a ponta dos dedos
e desfolhavam
um a um
alguns papéis de carta
se esfregavam dentro
das pastas
assim como as pernas
das meninas ao comprimir
seus travesseiros
tão bem lavados pelas mães
as mãos os dedos
eram cúmplices
assim como
as pernas penas
sem tinta sem álibis
as meninas não falavam
dos seus dedos no recreio
merendeira lacrada:
maçã, bolacha recheada
os meninos preferiam
medir coisas no banheiro
Meninas
de matemática não eram certeiras
de vasos sanguíneos mais festeiras
pequenos montes de eclosão
meninas e seus dedos
os meninos jogavam tapão
as meninas não trocam mais papéis de carta
algumas ainda guardam suas pastas
tocam-nos como tecido de alfaiataria rara
e sentem o cheiro de notas
das primeiras alforrias