31/10/2025

FREVO DIABO ( Edu Lobo & Chico Buarque )

 É bom, é brabo

É o frevo diabo no corpo
Torto corpo
Pára mais não
Fogo no rabo de qualquer cristão
Solta o frevo diabo
E adeus procissão
Pelo sinal da Santa Cruz pandemônio
No dia da padroeira
Não tem romeira, tem são morenas
Não tem novenas diabo, a gente é feliz
Não tem sermão, tem não, tem orquestra
E cana e briga e fogo e festa
Na matriz
É o barro, é o berro na garganta
Olha a ginga da santa, devagar com o andor
Meu corpo já não sabe o que faz
Santanás diz para parar
Que eu não posso mais
Diz para parar
Faz um pouco mais
Faz o diabo
Hoje é que eu me acabo meu irmão

VENTO BRAVO ( Edu Lobo / Paulo César Pinheiro )

 Era um cerco bravo, era um palmeiral,

Limite do escravo entre o bem e o mal
Era a lei da coroa imperial
Calmaria negra de pantanal
Mas o vento vira e do vendaval
Surge o vento bravo, o vento bravo

Era argola, ferro, chibata e pau
Era a morte, o medo, o rancor e o mal
Era a lei da Coroa Imperial
Calmaria negra de pantanal
Mas o tempo muda e do temporal
Surge o vento bravo, o vento bravo

Como um sangue novo
Como um grito no ar
Correnteza de rio
Que não vai se acalmar
Se acalmar

Vento virador no clarão do mar
Vem sem raça e cor, quem viver verá
Vindo a viração vai se anunciar
Na sua voragem, quem vai ficar
Quando a palma verde se avermelhar
É o vento bravo

Como um sangue novo
Como um grito no ar
Correnteza de rio
Que não vai se acalmar

ÁGUA ( Jatobá / Xangai )

 A grota inteira tá chorando de saudade

Da umidade que fecunda a terra seca
Vital retalho do céu que manda pro solo
Divino orvalho gozo que nos eterniza
Intimidade que pertence à natureza

Com essa imensa porção liquida riqueza
Certeza de brotar do solo os alimentos
Sustento eterno das matas do mar e vento
Centro da vitalidade do universo
Verso e reverso que reveste a natureza

Está presente na terra em toda parte
Na arte farta de tanta imagem poética
Que alimenta a filosófica estética
Clara cristalina límpida e forte
É responsável pela vida ou morte em marte

Se faltar aqui na terra tem tragédia
Catastrófica será se vem de sobra
e a nossa ignorância será mágoa
Mas a nossa inteligência será trégua
Quando sólidos e sós seremos água

28/10/2025

CHORO! ( José Gomes Ferreira )

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro

as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
- no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este sequestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
- onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro.

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
- num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

Por Célia Moura

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27/10/2025

CÓLICAS ( Veriana Ribeiro )

tem algo me comendo por dentro

entranhando-se em minhas vísceras

costurando meu corpo ao avesso

a dor que eu sinto

vem de várias gerações

mulheres

meninas

senhoras

não conheço as mulheres

da minha família

suas histórias se perderam

nos quilômetros e anos que nos separam

mas todas as nossas histórias

são sempre iguais

de bruxas queimadas

e mulheres que correm com os lobos

deixo que seus fantasmas

sussurrem no meu ouvido

as cantigas perdidas pelo tempo

e façam os chás e banhos

que vão curar as minhas feridas

e as dores de todas as outras vidas

que vivem dentro de mim

e me comem por dentro

entranhando nas minhas vísceras

costurando meu corpo ao avesso

Por Anum Costa

ainda que eu revelasse

a ti meus segredos sórdidos

ainda que despisse meu

íntimo

ante tua face 

e a ti

mostrasse minhas fantasias

e se te segredasse meus medos todos

os erros e os enganosos

acertos

que depois se revelaram 

equívocos

e ainda que te confessasse que meu

pensamento não 

acompanha esta cultura

que desmatou meu corpo físico

meu imaginário

e ainda que em teu ouvido soprasse

meu tesão minhas aspirações 

sonhos expectativas

se eu gritasse que 

nunca esqueci

quem me amou um dia sequer

nem quem me feriu

e te contasse como quem narra um conto

que gosto de estar nua na frente de outros sem 

qualquer pretensão sexual

se eu disser que odeio a expressão

ter sido

porque soa sempre impossível

confirmando a insignificância

humana frente à natureza

se eu me definisse

explicasse

dissecasse 

traduzisse 

descrevesse

ainda que eu tentasse ser

só sou em trânsito e

por isso mesmo jamais saberemos

eu e tu

quem sou eu

INTIMIDADE ( Andressa Leonardo )

 seguro a página com força

miro a dedicatória

aprecio a epígrafe

passo pelo prefácio tímido

vou descendo o sumário desalinhado

toco as linhas confluentes

desvendo a primeira parte

íntima

sinto a saliva de cada célula viva

no meio, um

trava-língua

adentro

l e n t a m e n t e

nas miudezas

me envolvo

o coração

queima

a respiração enfraquece

[a gente se molha]

a folha desmancha

– rasga no final.

DISTÂNCIA ( Carmen Verde Arocha ) tradução: Gladys Mendía

 A mulher nasce com o apetite na boca;

lava os tomates,
o coentro e a alma,
com o destino ali
sacudindo-a
em cada esquina,
em cada bocado.

O homem, ao contrário,
leva séculos para preparar seu nascimento
e, no momento em que é expulso do ventre,
envelhece.

TEM UM CORPO NO MEU POEMA ( Junia Lyrio )

 Tem um corpo no meu poema

que não sai da cama

que está mal das pernas e levita

evita as parafernálias da euforia em voga

as virtualidades

essas coisas todas, inertes

sem ossos, sem carne

sem sangue nos olhos

beijos molhados e sonoridades do amor.

Tem um corpo no meu poema

que não sai da cabeceira

que está mal do coração e palpita

habita as palafitas das moradias precárias

as aquosidades

essas coisas todas

úmidas

sem argamassa, sem paredes

sem chão sob os pés

passos longos e medidas do viver.

Tem um corpo no meu poema

que não sai de cena

que todo dia insiste

assiste, acena

e vai.

QUARTO ( Junia Lyrio )

 Sou a pessoa que atravessa um quarto

enquanto poros consomem sons

inaudíveis vozes

silêncios vagantes.

Atravessada no umbigo

a farpa que lembra

o pontiagudo jogo de poder

/latejar sem dor/

/penetrar saindo/

a memória como epígrafe na pele

marcando só

o que foi

sem antes ter sido.

Sou a pessoa que trespassa o quarto crescente

enquanto corpos se eximem, vis

de rasgar gargantas

pregas rugosas.

Transitória no tecido

a umidade lúdica que assombra

a gotejada sede de verter

/vibrar sem cair/

/percorrer rangendo/

o deslize como fios nas cordas

ajuntando aí

o que é

apesar do contido.

EXTASE ( Sophia Jamali Soufi ) tradução: Nina Maria

 

Venha

Aqui
Ao lado desta velha ferida
Que a cada toque teu
Se abre de novo.

Fica comigo
Antes que esta cidade
Devore meus últimos sopros.

Teu corpo,
esse sagrado movimento,
onde cada olhar
rasga minhas fronteiras.

E eu,
nua,
renascendo da pele antiga.

Teus olhos,
dois abismos sem fundo,
duas taças transbordando de loucura,
a cada instante me chamam
para a ruína.

Teus lábios,
o gosto amargo do proibido,
com o perfume de mil beijos não dados.

Cada beijo,
um incêndio
que reduz minha alma a cinzas.

Em teu abraço
todas as fronteiras desmoronam.

E nós,
como duas almas,
nos entrelaçamos
e voamos rumo ao nada.