27/10/2025

TEM UM CORPO NO MEU POEMA ( Junia Lyrio )

 Tem um corpo no meu poema

que não sai da cama

que está mal das pernas e levita

evita as parafernálias da euforia em voga

as virtualidades

essas coisas todas, inertes

sem ossos, sem carne

sem sangue nos olhos

beijos molhados e sonoridades do amor.

Tem um corpo no meu poema

que não sai da cabeceira

que está mal do coração e palpita

habita as palafitas das moradias precárias

as aquosidades

essas coisas todas

úmidas

sem argamassa, sem paredes

sem chão sob os pés

passos longos e medidas do viver.

Tem um corpo no meu poema

que não sai de cena

que todo dia insiste

assiste, acena

e vai.