05/10/2025

DENTRO DA NOUTE ( Gilka Machado )A Annibal Cardozo de Castro

 As laranjeiras estão floridas

e, sob o yéo alvo do luar,
de branco assim todas vestidas
parecem virgens a caminho para o altar.

A alma nos fica inteiramente preza
de um mystico languor,
ao perfume que exhalam na deveza
os laranjaes em flor.

Ha um ruido de oração, de longe em longe,
anda o hyssope da Lua aspergindo todo o ar,
e o Vento reza como um velho monge,
para no altar da sombra as arvores casar.

Enquanto a noute fulge toda accesa
para a festa do Amôr,
vão desfolhando as flôres da pureza
os laranjaes em flor...

E, fecundando as viçosas vidas,
as laranjeiras, par a par,
assim se casam nas ermidas,
nas ermidas lyriaes, lactescentes do luar.

Um pollen branco, de etheral leveza,
— porphyrisado amôr,
distribuem por toda a natureza
os laranjaes em flôr.

E, aos laranjaes que andam noivando, vêde:
a alma goza um prazer secreto e salutar,
adormecendo, como numa rêde,
neste perfume que anda a oscillar... a oscillar.

Julgo absorver a essência da Pureza
no vosso meigo odôr,
ó virgens laranjeiras da deveza!
ó laranjaes em flôr!