Hoje, no dia dos meus anos,
saio da toca das palavrase vou festejar no telhadopor horas ali ficando, um pomboou um tímido gato,de papo para a tarde virado.Hoje, não mais sou um bicho doídonem trago o gosto antigode um paletóou de um guarda-chuva, pendurados.Transito pelo tempo dos pássaros:quem me conta os anos,quem na memória me guarda?Se a luz incide, sei que o dia perdurae me ilumina por dentro esse fato.Quando escurece, vou dançar conforme a sombra,contar estrelas intermináveisou adormecer no anonimato.Mas não quero agora falar de sombras —a noite, eu sei, a noite já é bem outro trato.