03/10/2025

SAGRAÇÃO DO ÓCIO ( Fernando Campanella )

 Hoje, no dia dos meus anos,

saio da toca das palavras
e vou festejar no telhado
por horas ali ficando, um pombo
ou um tímido gato,
de papo para a tarde virado.

Hoje, não mais sou um bicho doído
nem trago o gosto antigo
de um paletó
ou de um guarda-chuva, pendurados.

Transito pelo tempo dos pássaros:
quem me conta os anos,
quem na memória me guarda?

Se a luz incide, sei que o dia perdura
e me ilumina por dentro esse fato.
Quando escurece, vou dançar conforme a sombra,
contar estrelas intermináveis
ou adormecer no anonimato.

Mas não quero agora falar de sombras —
a noite, eu sei, a noite já é bem outro trato.