eu vim da água
e com água fui recebida
oxum banhou meu corpo
em água doce
iemanjá minha face
em água salgada
carrego em mim
a água que anuncia
o gozo
a dor
o nascimento
a água que abre caminhos
extrapola as margens
ignora as barreiras
a água que não pode ser contida
se represada morre
e morta só rebenta o que mata
a água que corre
sob a pele e sobre a pele
vida e febre manifestadas
a água que sacia
inebria
envenena
o desabar dos céus
o choro do firmamento
a água desejada
promessa dada
maldizida
a água límpida de rio sereno
enxurrada barrenta
em dias de tempestade
a água benta
mãe violenta
arrastando raízes
apodrecendo galhos
que outrora nutriu
água leve
vapor de sol
em pedaço de vidro esquecido
fervura de caldeirão
em fogueira santa
água morna
sobre o corpo cansado
lava incendiando o mar
água em gelo
escorrendo em arrepios
ferida purulenta
empapando as gazes
água de nascente
infiltração em casa de encosta
chuva de verão
goteira em morada velha
água pesada esmagando
o peito nas profundezas
eu sou todas as águas
