08/10/2025

TODAS AS ÁGUAS ( Emília Souza )

 eu vim da água

e com água fui recebida

oxum banhou meu corpo

em água doce

iemanjá minha face

em água salgada

carrego em mim

a água que anuncia

o gozo

a dor

o nascimento

a água que abre caminhos

extrapola as margens

ignora as barreiras

a água que não pode ser contida

se represada morre

e morta só rebenta o que mata

a água que corre

sob a pele e sobre a pele

vida e febre manifestadas

a água que sacia

inebria

envenena

o desabar dos céus

o choro do firmamento

a água desejada

promessa dada

maldizida

a água límpida de rio sereno

enxurrada barrenta

em dias de tempestade

a água benta

mãe violenta

arrastando raízes

apodrecendo galhos

que outrora nutriu

água leve

vapor de sol

em pedaço de vidro esquecido

fervura de caldeirão

em fogueira santa

água morna

sobre o corpo cansado

lava incendiando o mar

água em gelo

escorrendo em arrepios

ferida purulenta

empapando as gazes

água de nascente

infiltração em casa de encosta

chuva de verão

goteira em morada velha

água pesada esmagando

o peito nas profundezas

eu sou todas as águas