sendo ipê, a cabeleira não enche
o frio árido arde nas narinas
o tronco engrossa as flores
secam ao pé
de mim
sendo ipê, perdi os pés
aterro tentando aceitar os polos
que fazem meu corpo dis-
-junto buscar simultâneo
sol e solo
haviam me prometido
luz silente e farta
esperava um tapete de pétalas
uma colcha de estrume
dedos descobertos e nenhuma necessidade
nessa parte do ano
pretendia dormir
um dia quero ser um pé de ipê,
disse simples
e bebi de suas cores
adubando as raízes
um dia, disse, quero ser um pé de ipê
e inclinada para estancar
a sangria da seiva, caí com galho
ambiência fria
as perdas da copa
agora assisto à morte
das espécies delicadas
quando escolhi a mutação caducifólia
pensei só no viço e
agora aguardo no focinho a brisa amena
